Fundamentos em Processamento Auditivo

Autora: Luciana Ferreira Marcília

As Desordens do Processamento Auditivo (DPA) vêm sendo correlacionadas entre outros, aos transtornos de aprendizagem, às alterações na aquisição, desenvolvimento e abrangência da linguagem, e ao Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade e Impulsividade (TDAHI), seja como base, seja como comorbidade de outra alteração.

O Sistema Auditivo é formado pelo órgão sensorial da audição, pelas vias auditivas do sistema nervoso e por estruturas cerebrais que recebem, analisam e interpretam as informações sonoras.

Processamento Auditivo é a série de mecanismos e processos realizados pelas vias cognitivas responsáveis pelos comportamentos de localização e lateralização sonora; discriminação auditiva; reconhecimento de padrões auditivos; aspectos temporais da audição, como resolução, mascaramento, integração e ordenação temporal; e desempenho auditivo na presença de sinais acústicos degradados ou competitivos (ASHA, 1996).

Para Pereira, Navas e Santos (2002), Processamento Auditivo é a série de processos que se sucedem no tempo e permitem que um indivíduo realize análises acústicas e metacognitivas do som.

Segundo Marcilio (no prelo), a desordem desse processamento se refere à possível falha na transdução (informações sensoriais convertidas em impulso elétrico); lentificação ou falha na condução dos potenciais; falha na transmissão sináptica; lesão das vias auditivas do sistema nervoso central e/ou áreas corticais responsáveis pelo processamento da informação auditiva.

Luria (1974) referiu que o giro de Heschl é responsável pela recepção auditiva primária e está localizado na região temporal superior. O córtex auditivo (área 22 de Broadman) que está localizado na região temporal superior é a região associada à discriminação fonêmica auditiva. Isto sugere a importância desta porção do cérebro em entender o que está sendo falado. Por outro lado, o hipocampo é importante para o processo de memória. A região temporal anterior contém parte da comissura anterior que carrega informações acústicas ou, ainda, inibe impulsos de um lobo temporal para o outro. Portanto, uma lesão ou desordem nas vias auditivas centrais e/ou lobo temporal pode interferir nos processos de aprendizado envolvidos na organização do sistema fonológico e na linguagem de um indivíduo. As habilidades de localização sonora, memória seqüencial verbal, memória seqüencial não verbal, fechamento e figura-fundo são processos importantes que acontecem nos primeiros sete anos de vida e que contribuem para o reconhecimento de sons da fala e, conseqüentemente, para a aquisição e a aprendizagem de um sistema de linguagem. Eles ocorrem com a ativação das estruturas das vias auditivas do sistema nervoso central, principalmente em nível de tronco cerebral (complexo olivar superior) e córtex auditivo, segundo Pickless (1985).

De acordo com Keith e Pensak (1991), as DPA consistem numa inabilidade de atentar, discriminar, reconhecer, recordar ou compreender informações auditivas. Tal inabilidade é verificada apesar da ausência de comprometimento de habilidade intelectual e de audição periférica. Estes padrões são fundamentais para a compreensão do código oral, via canal auditivo, que é pré-requisito para o aprendizado da fala, da leitura e da escrita.

O Quadro 1 sumaria a classificação das DPA de acordo com o processo gnósico auditivo alterado. Além disso, também são classificadas em graus (leve, moderado e severo).

Quadro 1. Classificação das DPA de acordo com o processo gnósico auditivo alterado.

Processo gnósico
Habilidade auditiva de
Decodificação integrar eventos sonoros
Codificação integrar informações sensoriais auditivas com não-auditivas
Organização ordenação temporal de sons; memória para sons em seqüência

A etiologia das DPA inclui otites de repetição na primeira infância; febres altas e contínuas; distúrbios específicos do desenvolvimento da função auditiva; pequenas lesões nas vias de condução; privação sensorial durante a primeira infância (Alvarez, Caetano e Nastas, 1997); alterações neurológicas; problemas congênitos; déficits cognitivos; psicose, autismo e distúrbios emocionais; distúrbios da comunicação humana que comprometem sistema fonológico, voz, fluência, leitura e escrita; transtornos de aprendizagem e TDAHI (Chermak e Musiek, 1997).

As queixas de educadores e pais em relação a seus alunos e filhos, referem-se às manifestações comportamentais de suas crianças, tais como:

- reações exacerbadas para sons intensos;
- choro para ruídos nem sempre intensos;
- aumento do tempo de latência das respostas;
- dificuldade de localização sonora;
- falha na triagem auditiva comportamental;
- déficit de compreensão;
- alterações na emissão de /r, l, s, z/;
- dificuldades com regras;
- dificuldades em organizar pensamentos; agitado/ muito quieto;
- desatento;
- alteração de memória; dificuldades de lateralidade;
- baixo desempenho escolar;
- disgrafia;
- inversão de letras na escrita;
- desajustes sociais - tendência ao isolamento.

É necessário que a criança faça uma avaliação fonoaudiológica completa, tanto de linguagem quanto audiológica, incluindo testes especiais para avaliar a função auditiva central além de avaliação comportamental multidisciplinar e, se necessário, se submeter a exames eletrofisiológicos e de neuroimagem. Estes procedimentos devem estar casados para estabelecer o diagnóstico e para que o fonoaudiólogo possa delinear propostas eficazes de tratamento específico ao déficit.

A intervenção deve ser direta e interdisciplinar, propor modificações no ambiente em que o escolar está inserido, promover a conscientização de suas dificuldades, fornecer estratégias compensatórias e orientar escola e familiares.

Referências Bibliográficas:

Alvarez, A. M. M. A.. Caetano, A. L., & Nastas, S. S. (1997). Processamento Auditivo Central. O que é isto? Fono Atual, 1(1), 17-18.

American Speech-Language-Hearing Association (1996). Central auditory processing current status of research and implications for clinical practice, American Journal of Audiology, 5(2), 41-54.

Chermak, G. D., & Musiek, F. E. (1997). Enhancing the Acoustic Signal and the Listening Environment. Em G. D. Chermak (Ed.), Central Auditory Processing Disorders: New Perspectives. (p. 237-61). San Diego, CA: Singular Publishing Group Incorporation.

Keith, R. W., & Pensak, M. L. (1991). Central auditory function. Otolaryngologic Clinics of North America, 24, 371-379.

Luria, A. R. (1974). El cerebro en accíon. (p.127-140). Barcelona: Fontanella. Marcilio, L. F. (no prelo) Relações entre Processamento Auditivo, Consciência Fonológica, Vocabulário, Leitura e Escrita.

Pereira, L. D., Navas, A. L. G. P., & Santos, M. T. M. (2002). Processamento auditivo: uma abordagem de associação entre a audição e a linguagem. Em M. T. M. Santos, & A. L. G. P. Navas (Ed.), Distúrbios de Leitura e Escrita: teoria e prática. São Paulo, SP: Ed. Manole.

Pickless, I. O. (1985). Physiology of the cerebral auditory system. Em M. L. Pinheiro & F. E. Musiek. Assesssment of central auditory disfunction.


Bibliografia Recomendada:

Capovilla, F. C. (2002). Neuropsicologia e Aprendizagem: Uma abordagem multidisciplinar. São Paulo, SP: SBNp, Scortecci.

Capovilla, F. C., & Capovilla, A. G. S. (2001). Compreendendo a natureza dos problemas de aquisição de leitura e escrita: Mapeando o envolvimento de distúrbios cognitivos de discriminação fonológica, velocidade de processamento e memória fonológica. Cadernos de Psicopedagogia, 1(1), 14-37.

Capovilla, A. G. S., & Capovilla, F.C. (2000). Problemas de leitura e escrita: como identificar, prevenir e remediar numa abordagem fônica. São Paulo, SP: Memnon-Fapesp.

Capovilla, F. C., & Capovilla, A. G. S. (no prelo). Avaliação de cognição e linguagem da criança.

Pereira, L. D., & Schochat, E. (1997). Processamento auditivo central: manual de avaliação. São Paulo, SP: Ed. Lovise.