Autismo e Esquizofrenia

Autor: Uta Frith

Extraído do livro "Autism - Explaining the Enigma"

Autismo e Esquizofrenia Na linguagem popular, um comportamento transtornado é sempre chamado de esquizofrênico, no sentido de 'louco'. Contudo, a esquizofrenia pode ser definida através de critérios diagnósticos bastante precisos, e há muitas formas diferentes de loucura. É fato que a esquizofrenia, definindo de uma forma simplificada, raramente aparece antes da adolescência. Kraepelin, o descobridor da esquizofrenia, relatou que apenas cerca de 6% de sua amostra de mais de 1.000 casos teve alguma manifestação antes do 15 anos de idade. A manifestação do Autismo, por outro lado, em quase todos os casos ocorre antes dos três anos.

O momento da manifestação de um transtorno é de crucial importância. Um distúrbio que afeta o curso do desenvolvimento normal do nascimento ou mesmo antes, e o mesmo distúrbio que sucede num organismo maduro são dois tipos diferentes de problemas. Nascer cego ou surdo, por exemplo, leva a um estado da mente totalmente diferente de tornar-se cego ou surdo mais tarde. De forma semelhante, uma psicoses de manifestações precoces é diferente de uma de manifestação tardia.

É um fato notável que a 'psicose' infantil cuja época da manifestação pode ser definida com segurança depois do terceiro ano de vida e antes do quinto é quase inexistente. É como se houvesse um período sagrado em que pode-se dizer que a criança está 'protegida' eclosão da psicose. A idade de manifestação não define-se dentro de um período contínuo, mas sim claramente dividido, não obstante a ocorrência de incursões ocasionais de ambos os lados da linha limítrofe. Em doenças geneticamente transmitidas tal divisão tão bem definida em termos de manifestação é um comportamento comum. Isto pode estar relacionado a dois tipos diferentes de pressão evolutiva: a primeira para eliminar desvios genéticos o mais cedo possível, de forma a permitir a chance de um novo e bem sucedido começo; a segunda para protelar qualquer desvio para um ponto o mais tarde possível, já que morte por causas comuns pode preceder qualquer manifestação adversa. Se as psicoses tivessem origem genética, então este comportamento seria facilmente compreensível.

O que dizer das crianças que tornam-se psicóticas depois dos cinco anos mas antes da puberdade? Seus sintomas levam a um quadro de autismo ou de esquizofrenia? A resposta está logo a seguir: estas crianças raras quase sempre apresentam um quadro de adultos esquizofrênicos quanto a seus sintomas e podem ser facilmente diferenciadas das crianças autistas. Isto foi determinado num estudo importante de população feito por Kolvin e seus colegas na Grã-Bretanha, publicado em 1971(1). Um estudo feito por Green e outros em Nova Iorque em 1984 essencialmente confirmou as descobertas anteriores(2). Kolvin e seus colegas relataram que a criança mais nova de sua amostra de 24 diagnosticada como esquizofrênica tinha 6,7 anos de idade. Em 80% da amostra, a manifestação de esquizofrenia era depois de oito anos e meio. Até mesmo na faixa dos seis anos de idade, o desenvolvimento lingüístico e cognitivo é substancialmente completo. Os pré-requisitos básicos para a aptidão adulta estão presentes, embora a performance melhore com a experiência. Não surpreendentemente, então, esquizofrenia infantil, mesmo na faixa etária de seis anos, pode ser agrupada com a esquizofrenia adulta.

Não há motivos para confundi-la com Autismo infantil.

Tanto no estudo de Kolvin quando no de Green, crianças com manifestações precoces, ou seja antes dos três anos de idade, são comparadas com aquelas de manifestação tardia. Algumas diferenças importantes foram encontradas que foram além dos sintomas comportamentais. O estudo de Nova Iorque mostrou que 52% das crianças autistas tiveram pontuação numa faixa severamente subnormal, isto é, QI abaixo de 50. Em contraste, nenhuma das crianças esquizofrênicas pontuou abaixo do QI 65. No estudo britânico, também, as crianças esquizofrênicas mostraram tendência a ser muito mais capazes do que as autistas. Assim, ambos os estudos confirmam que Autismo, como um transtorno precoce do desenvolvimento, resulta em maior déficit intelectual. Além disso, nestes estudos o baixo QI foi associado com evidências diretas de disfunção do cérebro. O grupo de autistas também foi significantemente mais afetado por eventos obstétricos adversos.

Apesar do fato de que esquizofrenia e Autismo são entidades de diagnóstico facilmente diferenciáveis, na idade adulta algumas pessoas autistas se parecem, em seu comportamento superficial, com um certo tipo de paciente esquizofrênico. Tais pacientes apresentam sinais negativos, isto é, pouca ou nenhuma fala ou expressões faciais e pouco ou nenhum interesse em contato social ou comunicação. Também exibem estereotipias de movimentos simples. Contudo, semelhança comportamental não é uma prova que possa depender de semelhança em disfunções internas, e menos ainda em causas internas das disfunções.

Pacientes com sintomas esquizofrênicos positivos de forma alguma se assemelham a indivíduos autistas, mesmo em seu comportamento superficial. Os sintomas positivos mais característicos da esquizofrenia dizem respeito a ouvir vozes e acreditar que há mensagens pessoais significativas no ambiente. As vozes e crenças são experiências subjetivas que o paciente é capaz de comunicar às outras pessoas. Pessoas autistas articuladas que relataram suas experiências dão relatos bem diferentes daqueles dos pacientes esquizofrênicos. Além disso, fases de crises esquizofrênicas agudas freqüentemente são alternadas com longos períodos em que a normalidade é novamente estabelecida. Esse comportamento não é encontrado no Autismo. É possível, contudo, que esquizofrenia e Autismo possam ocorrer sobrepostos um ao outro. Há alguns relatos de tais combinações raras(3).

Dado que o termo autista for primeiro mencionado por Ernst Bleuler para designar processos de pensamento em esquizofrenia, e dado que tanto Autismo quando esquizofrenia resultam em algum tipo de dano social, não é surpreendente que o rótulo 'esquizofrênico' no passado foi sempre usado para se referir a pessoas autistas. Até certo ponto, confusões entre as duas síndromes tornaram-se auto-realizantes. Antes do reconhecimento do Autismo infantil, alguns pacientes que hoje seriam classificados como autistas eram descritos como esquizofrênicos em observância a seus sintomas únicos. Mais tarde, as antigas histórias de casos poderão ser citadas como uma 'prova' de que alguns adultos esquizofrênicos não podem ser distingüidos de indivíduos que hoje reconhecemos como autistas.

Referências:

(1) I. Kolvin et al. (1971), 'Studies in the childhood psycoses I to VI', British Journal of Psychiatry, 118, pp. 381-419.
(2) W. H. Green, M Campbell, A. S. Hardesty, D. M. Grega, M. Padron Gayol, J. Shell and L. Erlenmeyer-Kimling (1984), 'A comparison of schizophrenic and autistic children', Journal of the American Academy of Child Psychiatry, 23, pp. 399-409.
(3) L. Petty, E. M. Ornitz, J. D. Michelman and E. G. Zimmerman (1984), 'Autistic children who become schizophrenic', Archives of General Psychiatry, 41, pp. 129-35. Autismo e Esquizofrenia Uta Frith extraído do livro "Autism - Explaining the Enigma" este artigo: www.ama.org.br/aut-esquiz.htm mais artigos: www.ama.org.br/autismo-artigos.htm