Hora do Recreio: Nem Tudo é Brincadeira !

Autora: Patrícia Trigo

Sumário Esse artigo trata da importância do olhar crítico do educador sobre seus alunos na hora do recreio. Muitos fatos observados numa brincadeira podem ser trabalhados para o benefício de todos em sala de aula.

Muitas escolas particulares estão fazendo um rodízio entre seus professores para que um deles fique de plantão observando as crianças na hora do recreio. A estratégia serve para prevenir brigas, deboches e discussões durante as brincadeiras. Se a escola for grande, com o rodízio, fica menos estressante para todos. Não discordo que os professores têm que ter um momento para relaxar, mas, se não há outra saída, vamos tirar proveito.

Prevenir as implicâncias, a agressividade e, no futuro, a violência faz parte do presente. Saber como um aluno se comporta na hora do recreio pode ajudar na sala de aula.

Ser criança implica em correr, gritar e também testar os colegas, o que pode resultar em comportamentos inadequados. Cabe ao educador de plantão, muitas vezes não muito satisfeito, estar atento a todos os detalhes.

Alunos que ficam vagando sós podem precisar de um pequeno empurrão daquele professor para fazer amizades, sentirem-se seguros e, conseqüentemente, aprenderem mais.

Criar estratégias simplificadas para que o aluno assimile o conteúdo, torna o professor mais hábil para inovar e expandir sua didática, revertendo situações vivenciadas na hora do recreio para dentro de sala de aula, enriquecendo o aprendizado. Exemplos são preciosos para envolver a criança durante a explicação de um conteúdo ou a introdução de uma unidade, sem contar que eles podem ser grandes motivadores para aqueles alunos com dificuldades.

Muitos fatos observados dentro da classe podem refletir atitudes dos alunos durante as brincadeiras e vice e versa. Dentre eles, podemos citar, como o aluno tolera a liderança dos colegas, compartilha brinquedos, espera a vez ou toma a iniciativa.

Com cuidado e sensibilidade, o educador de plantão pode trabalhar uma intervenção apropriada durante o recreio ou em sala de aula, seja através de dinâmicas, exercícios ou de reflexões.

Como o número de filhos diminuiu nos últimos anos por família e os vídeos games vêm se tornando as babás preferidas, torna-se cada vez mais difícil para as crianças trabalharem juntas. As atividades recreativas feitas em grupos maximizam a potencialidade de aprendizagem de cada um, uma vez que os alunos terão que trocar experiências e compartilhar conteúdos. Com isso, aumentam sua auto-confiança e também sua auto estima.

A escola deve se preparar com projetos ou campanhas para promover temas como a importância da amizade com debates e atividades. E não existe melhor lugar para tirar conclusões e coletar as informações do que a hora do recreio, onde os alunos são apenas crianças.

Sob esse olhar psicopedagógico, o professor poderá ser mais criterioso escolhendo equipes, mesclando os alunos de acordo com a necessidade de cada um, escolhendo criteriosamente os exemplos durante as explicações, mostrando uma atividade de vídeo baseado numa brincadeira que observou ou ainda formar monitores-alunos responsáveis pela integração de alunos nas brincadeiras.

De acordo com Stainback (1999):

Educar eficientemente alunos com diferentes níveis de desempenho requer que os educadores usem várias abordagens de ensino para satisfazer às necessidades de seus alunos. Os professores freqüentemente necessitam fazer uma reavaliação das práticas de ensino com as quais se sentem mais à vontade, para determinar se estas são as melhores maneiras possíveis de promover a aprendizagem ativa de resultados educacionais desejados por todos os alunos da turma. (STAINBACK, 1999, p. 81).

A escola deve inclusive mandar aos pais um comunicado formal pedindo o incentivo destes nos trabalhos, nas atividades em grupos e no que diz respeito a levar as crianças aos jogos de campeonatos inter classe ou outras competições realizadas na própria instituição. Até porque o colégio pode ajudar a criar e manter amizades, mas a importância de se fazer amigos deve ser reforçada em casa. Palestras com a participação de pessoas da comunidade podem servir de incentivo e modelo.

Os professores, principalmente da rede particular de ensino, reclamam da falta de tempo para fazer alguma atividade extra com seus alunos, seja a apresentação de um vídeo, a letra de uma música ou a realização de uma dinâmica.

Mas as atividades extras relaxam os alunos e, com exercícios mais flexíveis, estes conseguem depois manter a atenção focada nas explicações, retendo mais informação. Então, matematicamente falando, o tempo considerado perdido durante as atividades não curriculares é recuperado com a atenção dobrada dos alunos durante a introdução de conteúdos. No final das contas todos ganham.

Com atividades variadas, os alunos vão ter a oportunidade de se expressar melhor, trabalhar outras inteligências e ganhar mais auto confiança. Lembrando Howard Gardner, que definiu diferentes tipos de inteligências em sua Teoria das Inteligências Múltiplas, pode-se dizer que a hora do recreio é um ótimo laboratório para conhecer os alunos. Mesmo porque a inclusão não se refere unicamente a alunos com deficiência.

Bibliografia consultada

ALVES, Fátima. Inclusão: novos olhares, vários caminhos e um grande desafio. Rio de Janeiro: WAK, 2003.

BRIGGS, Dorothy Corkille. A auto estima do seu filho. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

COLL, César. et al. Desenvolvimento psicológico e educação – transtornos de desenvolvimento e necessidades educativas especiais – volume 3. Porto Alegre: Artmed, 2004.

FONSECA, Vitor da. Educação Especial - programa de Estimulação Precoce: uma introdução às idéias de Feuerstein. Porto Alegre: Artmed, 1995.

GARDNER, Howard. Inteligências Múltiplas – a teoria na prática. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

STAINBACK, William. Inclusão: um guia para educadores. Porto Alegre: Artmed, 1999.

Patricia Trigo - Jornalista, licenciada em Inglês, psicopedagoga, especialista em Educação Inclusiva, certificada em PEI (Programa de Enriquecimento Estrutural de Feuerstein) e em ABA (Applied Behavioural Analysis) em Toronto-CA.