Conversando sobre Escola Inclusiva
Autora:
Marina S. Rodrigues Almeida
Foi
somente no fim do século XIX quando, diante das radicais mudanças
sociais rumo a modernidade instaura-se a escolaridade obrigatória.
De fato, o desenvolvimento humano passou a ser avaliado a partir de
parâmetros inéditos e novos comportamentos começaram
a ser exigidos.
A Educação Inclusiva não surgiu ao acaso,
ela é um produto histórico de uma época e de realidades
educacionais contemporâneas, uma época que exige que nós
abandonemos muitos dos nossos estereótipos e preconceitos, na
identificação do verdadeiro objeto que está sendo
delineado.
A Psicanálise, quando de seu surgimento, tentava resgatar o
sujeito histérico da exclusão social, na medida em
que possibilitava que os sintomas fossem escutados e entendidos para
além de seu encobrimento pelo mal estar físico.
No paradigma da Inclusão proponho o mesmo modelo, escutar pais,
educadores e alunos, de maneira que o sentido seja entendido além
de seu encobrimento pelo mal estar da deficiência permanente ou
temporária e suas vicissitudes envolvidas.
Um paradigma é um modelo mental, uma forma de ver o mundo, um
modelo de referência, filtrando outras percepções,
conteúdos determinados, etc. Ele estabelece, em suma, um modelo
de pensamento e/ou de crenças através do qual o mundo
pode ser interpretado.
Para WINNICOTT o modelo de prevenção inicia-se pelo conceito
de preocupação materna primária, o autor
descreve como sendo as primeiras atitudes que a mãe inicia ao
planejar a inclusão do projeto bebê/filho e posteriormente
todos as demais providencias durante a gravidez. As condutas prévias
de cuidados, proteção, fantasias destrutivas e amorosas
começam a partir deste percurso. Neste momento as fantasias podem
ser elaboradas positivamente, favorecendo a criação de
um espaço interno imaginário (na mente materna primeiramente)
para depois aparecer um espaço externo real, aonde este ser humano
será incluso e aceito. Portanto, antes que exista o bebê
concreto ele já está vivo na mente da mãe, vai
ocupando e conquistando um lugar de identidade. Neste espaço
imaginário, a mãe pode odiar seu bebê antes mesmo
que ele a odeie, porque ao permitir a entrada do novo, do desconhecido
do diferente e talvez "deficiênte" (quando há
presença de sentimentos persecutórios constantes), fere
nosso narcisismo (nossa imagem de espelho perfeita e ideal). Ao mesmo
tempo que alimenta as fantasias do igual e perfeito, aparece a ambivalência
dos afetos: é a vez da luta entre amor e ódio, bem e mal,
perfeito e imperfeito, aceitar e rejeitar, etc...
Este pressuposto teórico nos ajuda a compreender esta dinâmica
relacional humana entre a maternagem imaginária e maternagem
ambiente que pode acolher ou excluir: a força dos afetos destrutivos,
aparecem através dos conflitos, que são projeções
de fantasias destrutivas e perigosos, a defesa é o afastamento,
a rigidez, o impedimento, e o distanciamento do outro, que pode ser
o bebê ou o portador de necessidades especiais. Consideramos que
poderão estar neste inter-jogo emocional outras demandas ( individuais,
culturais, etc...) não pretendemos aqui ponderar de forma reducionista,
apenas olhamos esta situação por um vértice.
Se as instituições sociais, escolares, familiares, etc..
quiserem se constituir como espaços que acolham as diferenças
a meta não deve ser necessariamente enquadrar, mas sim ajudar
o "diferente" a encontrar um lugar social, escolar, etc...
produtivo da maneira que lhe for possível, ou ainda, auxiliá-lo
a encontrar respostas por diversas vias, através de outras formas
de conhecer. O que chamamos de preocupação materna
primária , numa metáfora para a escola, para os professores
e para os funcionários seria o preparo para receberem o aluno
incluso. Lembremos que o desafio psicanalítico foi, desde o início,
propiciar a escuta das diferenças e contribuir para que
o sujeito possa encontrar seu bem estar dentro delas.
Trabalhar com o portador de necessidades educacionais especiais exige
a disponibilidade (interna e externa - maternagem imaginária
e maternagem ambiente suficiente) da equipe administrativa escolar,
disponibilidade do educador, dos pais e do aluno.
Acredito que talvez seja possível estabelecer um lugar, um
espaço intermediário entre a escola comum e a escola especial
ou classe especial, com todas suas implicações institucionais,
pedagógicas e sociais.
O referencial Inclusivo está sendo entendido por mim como um
lugar que deverá ser construído gradativamente antes de
se construir um cidadão. A Escola Inclusiva deve tentar auxiliar,
na medida do possível, a constituir um sujeito cidadão,
para uma SOCIEDADE PARA TODOS.
Incluir é criar, criação no sentido das intersecções
de afetos, áreas, valores, conceitos, saberes e pessoas.
Precisamos rever nossa necessidade de desejar o outro conforme nossa
imagem, mas respeitá-lo numa perspectiva não-narcísica,
ou seja, aquela que respeita o outro, o não-eu, o diferente de
mim, aquela que não quer catequizar ninguém, que defende
a liberdade de idéias e crenças.(FREUD, 1914)
Precisamos nos atentar para o fato do portador de necessidades especiais
estar incluso não o transforma em "normal" no sentido
de que suas peculiaridades estejam superadas, pelo contrário
ele continua com suas limitações que deverão ser
respeitadas e atendidas. Neste momento entra a capacidade afetiva e
pedagógica do educador de perceber estas sutilezas.
FREUD (1913) já dizia que a Pedagogia, a Política e a
Psicanálise eram profissões do impossível, porque
precisamos nos deparar com as limitações com o "desejo
do outro", justamente quando isto não acontece as formas
de massificação e autoritarismos são instauradas,
para impor o saber pela força, então encontramos uma ilusão
de saberes!
Para que tudo isto se modifique, não basta apenas nós
trabalharmos com os conteúdos cognitivos/informativos no processo
de formação dos educadores para o paradigma da Inclusão,
pois se eles não tiverem o desejo do saber instaurado, por mais
conteúdos que possamos lhes dar, permanecerão na mesma
posição. Acreditamos que devemos sempre estar atentos
com o fato da impossibilidade, porque para aprender é necessário
que a experiência seja resignificada, posteriormente a tomada
de consciência, que será sempre incompleta e parcial. (LAJONQUIÈRE,
1999)
O que torna uma aprendizagem livre é a possibilidade da presença
da confusão, do inesperado, porque derruba a teoria, abre para
a reflexão e leva a modificação da práxis,
este é o maior medo dos professores, e cujo lugar se encaixa
o paradigma da inclusão com a entrada do portador de necessidades
educacionais especiais. (SEN 1999)
A Psicologia Social vem nos ajudar a compreender a identidade dos
seres humanos como sendo atribuições de predicados
e adjetivos atribuídos pelo grupo social. No caso do portador
de necessidades educacionais especiais, ele carrega um estigma social,
bem como tantos outros grupos marginalizados pela sociedade. Entretanto,
é importante lembrar que o indivíduo não é
apenas algo que lhe atribuem, mas também o que faz e como faz.
Compreendemos a identidade do portador de necessidades educacionais
especiais, no paradigma da Inclusão tendo a possibilidade de
pensar, de ser e de fazer, resignificando sua identidade através
do convívio na diversidade. (HALL, 1997)
O portador de necessidades educacionais especiais não deve então
ser visto isoladamente, mas como um ser em relação e portanto
nas relações sociais que o aluno deverá estar envolvido,
sua identidade poderá ser resignificada e concretizada de maneira
positiva.
Para uma Inclusão bem sucedida tanto depende do desejo
do professor, dos pais assim como do desejo do aluno querer fazer ou
não esta mudança.
O poder das políticas públicas poderá contribuir
para criar espaços, assegurar direitos e deveres, promover projetos
mais eficientes, mas não dá garantia nenhuma sobre uma
verdadeira inclusão entre pessoas se de fato não nos envolvermos.
Envolver dá trabalho, leva a responsabilidade e compromisso,
é caminhar a passos curtos.
"Aonde não exista afeto de fato não há
relação humana possível e portanto não haverá
Inclusão".
Marina
S. Rodrigues Almeida
PSICÓLOGA, PEDAGOGA E PSICOPEDAGOGA
CRP 06/41029-6
marina@iron.com.br