A Aquisição da Palavra e a Função
Reguladora da Linguagem - Aportes Psicopedagógicos
Autora:
Eloci Gloria de Mello
RESUMO
A
fala expressa o pensamento, as emoções, as necessidades
da criança e é também o meio de regulação
dos processos psíquicos superiores. O processo de construção
da linguagem é longo e vai do nascimento até a adolescência.
Inicialmente a criança domina mal o código lingüístico,
mas muito progresso ocorre entre 2 e 4 anos de idade. A aquisição
da linguagem verbal, que implica o uso de palavras, tem início
entre 12 e 24 meses de idade, sendo que os 18 meses corresponde à
idade média de tal aquisição. O desenvolvimento
dessas habilidades pode ser acompanhado ao longo do crescimento do bebê,
servindo também de indicativo da formação de uma
boa ou má competência comunicativa. Este estudo tem por
finalidade examinar o desenvolvimento da linguagem e sua função
reguladora sobre as ações da criança com o objetivo
de esclarecer pontos relevantes no sentido de evitar equívocos
diagnósticos de problemas nesta área.
INTRODUÇÃO
A linguagem é atividade essencial do conhecimento do mundo do
ponto de vista da aquisição. É o espaço
em que a criança se constitui como sujeito e em que os objetos
do mundo físico, os papéis das palavras e as categorias
lingüísticas não existem inicialmente, mas se instauram
através da experiência ao longo do desenvolvimento infantil.
O desconhecimento do desenvolvimento normal da criança na aquisição
da linguagem e dos mecanismos de regulação da sua ação
em decorrência do uso da palavra pelo adulto, leva o profissional
a cometer equívocos no tratamento e/ou no encaminhamento da criança,
perdendo um tempo considerável e, muitas vezes, crucial para
o adequado atendimento. Por outro lado, o desconhecimento pode acarretar
a rotulação do sujeito e a consideração
um estágio normal como transtorno1 quando, de fato, não
se soube avaliar as diferenças individuais no desenvolvimento
normal da criança.
Assim, é necessário compreender o modo como as crianças
adquirem e desenvolvem a linguagem, como ocorre essa operacionalização
até que a palavra expresse seu pensamento e como se dá
a regulação dos processos psíquicos do sujeito
através da palavra. É imprescindível conhecer esses
aspectos do desenvolvimento infantil e as transformações
que vão se operando gradativamente no sujeito tanto para fazer
encaminhamentos quanto para diagnosticar e tratar adequadamente os problemas
apresentados nesse campo.
Primeiramente se tratará, em termos gerais, do significado, do
desenvolvimento e do sentido da palavra; depois, mais especificamente,
do desenvolvimento da palavra/linguagem em relação ao
desenvolvimento infantil, do surgimento do conceito e da função
reguladora da palavra/linguagem das ações da criança,
assim como das implicações psicopedagógicas.
O
SIGNIFICADO DA PALAVRA
A palavra é a unidade fundamental da língua.
Luria (1) ensina que o elemento fundamental da linguagem é a
palavra, a qual designa coisas, individualiza as características
desses objetos e os reúne em determinadas categorias, designa
também ações e relações entre as
coisas, ou seja, "a palavra codifica nossa experiência"
(p. 27).
A palavra tem uma estrutura complexa com dois componentes básicos:
representação material e significado; cada palavra constitui
um objeto, gerando no sujeito uma imagem deste objeto.
A representação material - função básica
da palavra - é a função representativa da palavra,
considerada a mais importante por ser constituinte da linguagem que
permite ao homem evocar as imagens de objetos correspondentes até
quando estão ausentes.
O significado - análise dos objetos - função mais
complexa que permite distinguir as propriedades dos objetos e relacioná-los
segundo a categoria; esta função é meio de abstração
e generalização do objeto, ou seja, através da
análise dos significados das partes componentes de uma palavra
que nomeia um objeto se pode conhecer as várias significações
que a construíram - o autor analisou a palavra russa que identifica
tinteiro, a qual inicialmente parecia muito simples e se revelou complexa,
indicando que este objeto está relacionado com tinta, serve para
realizar alguma coisa e é um recipiente, ou seja, a análise
da morfologia da palavra revela a complexidade de sua função.
Essa análise pode ser utilizada para descobrir a função
de um objeto desconhecido quando se conhece a palavra que serve para
designá-lo ou, no caso dessa palavra inexistir, para se criar
uma palavra adequada para nomeá-lo e que carregue todo o significado
da sua função.
Vygotsky (2) atribui à própria gênese da palavra
a característica de imagem, ensinando que a palavra primitiva
não é um símbolo direto de um conceito, mas sim
uma imagem, uma figura, um esboço mental de um conceito, um breve
retrato dele ? na verdade, uma pequena obra de arte. Ao nomear um objeto
por meio de tal conceito pictórico, o homem relaciona-o a um
grupo que contém certo número de outros objetos
(p. 65).
Luria e Yudovich (3) dizem que a palavra, na sua função
básica, indica o objeto correspondente no mundo externo e abstrai
e isola o sinal necessário, generaliza os sinais percebidos e
os relaciona com determinadas categorias.
Esses autores citam um exemplo para mostrar que a palavra relacionada
à percepção direta do objeto isola seus traços
fundamentais: ao nomear o objeto percebido de "copo" e acrescentar
o seu papel fundamental "serve para beber", isolam-se suas
propriedades essenciais e se inibe as menos essenciais como o peso e
a forma exterior; ao assinalar com a palavra "como" (para
que serve) qualquer copo, independente da forma, toda a percepção
desse objeto é permanente e generalizada.
Lenin (1) observou que o objeto (nomeado) de conhecimento não
são as coisas em si, mas principalmente a relação
entre elas; o mesmo objeto pode ser o objeto de estudo da física,
da economia, da estética, etc., concluindo que as coisas não
são captadas somente pela forma imediata, mas também pelos
reflexos de suas relações, ou seja, o homem transcende
aos limites sensoriais da experiência imediata e forma conceitos
abstratos que permitem penetrar mais profundamente na essência
delas.
Desenvolvimento
do significado da palavra
A referência objetal da palavra não está terminada
na criança aos três primeiros anos de vida, tendo a palavra
alcançado seu desenvolvimento pleno de tal forma que daí
em diante haveria apenas um enriquecimento do vocabulário como
se pensava anteriormente, pois, segundo Luria (1), o significado da
palavra não conclui seu desenvolvimento neste período.
Depois que o desenvolvimento da palavra alcança seu significado
objetal exato e estável, desenvolve-se em direção
ao seu referencial de função generalizadora, chegando
ao seu significado.
Esta hierarquia estrutural, com categorias subordinadas entre si, constitui-se
no "sistema de conceitos abstratos, diferenciando-se dos enlaces
situacionais imediatos, característico da palavra nos estágios
iniciais do desenvolvimento" (1) (p. 53), mostrando que o significado
muda ao mesmo tempo em que os processos psíquicos se realizam.
A correlação da palavra com os significados abstratos
generalizadores (função generalizadora) não é
sempre a mesma, segundo Luria (4), pois cada grupo de palavras tem diferenças
essenciais como os substantivos em que os elementos figurados concretos
são muito fortes (pinheiro, cão) ou são afastados
pelo significado abstrato generalizador (árvore, animal); nos
adjetivos e nos verbos (surgidos depois dos substantivos) os componentes
materiais ficam em segundo plano e a discriminação da
qualidade ou da ação, abstraídas do objeto remanescente,
compõe o significado básico dessas palavras.
Para Vygotsky (2) a palavra, tomada como um estímulo e mediada
pelo signo, tem como reação o resgate de conceitos, imagens
e sentimentos pelo sujeito, relacionados ao contexto da produção
do estímulo:
[...]
o sentido de uma palavra é a soma de todos os eventos psicológicos
que a palavra desperta em nossa consciência. É um todo
complexo, fluido e dinâmico, que tem várias zonas de estabilidade
desigual. O significado é apenas uma das zonas do sentido, a
mais estável e precisa. Uma palavra adquire o seu sentido no
contexto em que surge; em contextos diferentes, altera o seu sentido.
O significado permanece estável ao longo de todas as alterações
do sentido. O significado dicionarizado de uma palavra nada mais é
do que uma pedra no edifício do sentido, não passa de
uma potencialidade que se realiza de formas diversas na fala (p. 125).
Esse
pensamento pode ser complementado com a afirmação que
a palavra não alcança sua significação
completa exceto numa sentença, isto é, numa relação
sintática (5) (p. 15), ou seja, a operação
de significação não pode ser deduzida exclusivamente
da palavra e do seu conceito, mas sim do contexto na qual está
inserida, do seu significado.
O
SENTIDO DA PALAVRA
O sentido da palavra deriva do "processo de escolha do significado
adequado entre todo um sistema de alternativas que surgem" (3)
(p. 22), ou seja, o sistema de relações destacado entre
muitos significados possíveis; o sentido da palavra, assim, depende
da tarefa concreta que o sujeito tem diante de si e da situação
concreta em que ele vai empregar a palavra; o significado pode, então,
ser diverso em várias situações, mesmo que exteriormente
permaneça o mesmo.
Além da estrutura morfológica, a entonação
na pronúncia da palavra também permite que se mude o seu
sentido, escolhendo um específico entre tantos outros.
Assim, o emprego real da palavra é a escolha do sentido adequado
ao que se quer expressar entre os possíveis significados e só
com um sistema de escolha funcionando com precisão, com o realce
do sentido adequado e a inibição das outras alternativas,
se pode desenvolver com êxito a comunicação.
O
SURGIMENTO DO CONCEITO
Compreender não é o mesmo que perceber: é aperceber,
isto é, entender o verdadeiro significado conceitual do percebido.
Para Vygotsky (2) a aquisição da linguagem pela criança
modifica suas funções mentais superiores: ela dá
uma forma definida ao pensamento, possibilita o aparecimento da imaginação,
o uso da memória e o planejamento da ação. Neste
sentido, a linguagem sistematiza a experiência direta dos sujeitos
e, por isso, adquire uma função central no desenvolvimento
cognitivo, reorganizando os processos que nele estão em andamento.
Todas as funções psíquicas superiores são
processos mediados, e os signos constituem o meio básico para
dominá-las e dirigi-las. O signo mediador é incorporado
à sua estrutura como parte indispensável, na verdade a
parte central do processo como um todo. Na formação de
conceitos, esse signo é a palavra, que em princípio tem
papel de meio na formação de um conceito e, posteriormente,
torna-se o seu símbolo (p. 70).
As concepções de Vygotsky sobre o processo de formação
de conceitos remetem às relações entre pensamento
e linguagem, à questão cultural no processo de construção
de significados pelos indivíduos, ao processo de internalização
e ao papel da escola na transmissão de conhecimento, que é
de natureza diferente daqueles aprendidos na vida cotidiana. Propõe
uma visão de formação das funções
psíquicas superiores como internalização mediada
pela cultura.
Luria (4) estudou profundamente as experiências de Vygotsky nessa
área onde desenvolveu um grande trabalho, reconhecido pelos estudiosos
sobre a formação de conceitos. Os conceitos espontâneos
ou do cotidiano, também chamados de senso comum, são aqueles
que não passaram pelo crivo da ciência. Os conceitos científicos
são formais, organizados, sistematizados, testados pelos meios
científicos, que em geral são transmitidos pela escola
e que aos poucos vão sendo incorporados ao senso comum.
Os conceitos científicos, conforme Luria (4), adquiridos no processo
de aprendizagem da criança, são formulados verbalmente
(pela mediação do professor) e só mais tarde ela
tem condições de juntar a eles um conteúdo válido.
A criança adquire consciência dos seus conceitos espontâneos
relativamente tarde: a capacidade de defini-los por meio de palavras,
de operar com eles à vontade, aparece muito tempo depois de adquirir
os conceitos. Ela possui o conceito, isto é, conhece o objeto
ao qual o conceito se refere, mas não está consciente
do seu próprio ato de pensamento. O autor enfatiza que na formação
dos conceitos comuns (espontâneos ou do cotidiano - se formam
a partir da atividade prática e da experiência figurada
direta) predominam as relações circunstanciais concretas
e nos conceitos científicos (formam-se com a participação
das operações lógico-verbais), as relações
lógicas abstratas.
Segundo Oliveira (6), Vygotsky propôs o percurso genético
do desenvolvimento do pensamento conceitual em três estágios.
No primeiro estágio, a criança forma conjuntos sincréticos,
agrupando objetos com base em nexos vagos, subjetivos e baseados em
fatores perceptuais como a proximidade espacial, por exemplo. Esses
nexos são instáveis e não relacionados aos atributos
relevantes dos objetos. O segundo estágio é chamado por
Vygotsky de pensamento por complexos: "em um complexo, as ligações
entre seus componentes são concretas e factuais, e não
abstratas e lógicas" (p. 33) .
No terceiro estágio, onde ocorre a formação dos
conceitos propriamente ditos, a criança agrupa objetos com base
num único atributo, sendo capaz de abstrair características
isoladas da totalidade da experiência concreta.
Com base nas experiências realizadas por Vygotsky, Luria (4) observa
que em diferentes etapas o significado da palavra encobre diferentes
formas de generalização e diferentes processos psicológicos
e, assim, evolui. Enfatiza também o autor a importância
diagnóstica da formação dos conceitos, estabelecendo
"o nível que a criança pode atingir, estando numa
fase inferior do desenvolvimento intelectual, e as peculiaridades do
processo de formação dos conceitos que caracterizam determinados
estados patológicos da atividade cerebral" (p. 47).
O
DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA X DESENVOLVIMENTO DA PALAVRA
De acordo com Vygotsky, todas as atividades cognitivas básicas
do indivíduo ocorrem de acordo com sua história social
e acabam se constituindo no produto do desenvolvimento histórico-social
de sua comunidade (3). Neste processo de desenvolvimento cognitivo,
a linguagem tem papel crucial na determinação de como
o sujeito vai aprender a pensar, uma vez que formas avançadas
de pensamento são transmitidas à criança através
de palavras (8).
A palavra, segundo Luria e Yudovich (3), influi sobre a criança,
enriquecendo e aprofundando sua percepção direta e conformando
sua consciência.
Inicialmente a criança não tem consciência da composição
verbal da palavra que vai surgindo no decorrer de um período;
nas primeiras etapas do desenvolvimento a criança confunde a
palavra com o objeto. Os experimentos que evidenciaram o caminho percorrido
pela criança nessa tomada de consciência da estrutura verbal
da linguagem foram propostos por Vigotsky em 1856 e depois por Karpona
em 1967 e que merecem estudo posterior pela complexidade e riqueza das
suas conclusões.
As etapas normais de aquisição da linguagem estão
especificadas no Quadro 1 e a variabilidade dessa aquisição,
ou seja, as variações dentro do que é considerado
normal, está esquematizada no Quadro 2.


Como
se pode observar nos quadros anteriores, no início do desenvolvimento
da criança a consciência tem caráter afetivo. Segundo
Luria (1) esse caráter reflete o mundo afetivamente; a seguir
a consciência passa ao concreto imediato, assim como as palavras
que se refletem em seu mundo; no estágio seguinte a consciência
passa a ser lógica, verbal e abstrata mesmo que os estágios
anteriores permaneçam encobertos.
O
significado da palavra muda substancialmente quanto ao seu significado
no decorrer do desenvolvimento da criança: inicialmente o papel
fundamental da palavra é desempenhado pelo afeto, pelo agradável
ou desagradável; mais tarde, pela imagem imediata, a memória,
reproduzindo uma situação determinada; para o adulto,
são os enlaces lógicos presentes nas palavras que configuram
o papel principal.
A partir do momento que a criança descobre que tudo tem um nome,
cada novo objeto que surge representa um problema que ela resolve atribuindo-lhe
um nome. Quando lhe falta a palavra para nomear este novo objeto, a
criança recorre ao adulto. Esses significados básicos
de palavras assim adquiridos funcionarão como embriões
para a formação de novos e mais complexos conceitos.
FUNÇÃO
REGULADORA DA LINGUAGEM
Levando-se em consideração essas assertivas, caso que
nos interessa diretamente no fazer psicopedagógico, examinamos
as considerações de autores como Vygotsky e Luria, em
relação à subordinação da criança
ao adulto: quando a criança adquire uma palavra que designa um
objeto em particular e serve como sinal de uma ação concreta,
ela se subordina a esta palavra, assim como à instrução
verbal do adulto. A palavra, portanto, regula a conduta da criança,
organizando sua atividade num nível mais alto e qualitativamente
novo. "Esta subordinação das reações
da criança à palavra de um adulto é o começo
de uma longa cadeia de formação de aspectos complexos
da sua atividade consciente e voluntária" (3) (p. 13).
Luria (1) enfatiza que "além da função cognoscitiva
da palavra e sua função como instrumento de comunicação,
há sua função pragmática ou reguladora;
a palavra não é somente um instrumento de reflexo da realidade,
é o meio de regulação da conduta" (p. 95-96).
Vygotsky (2) ensina que é indispensável examinar como
os processos voluntários se formam no curso do desenvolvimento
da atividade concreta do sujeito e na sua comunicação
com o adulto, cuja organização está baseada no
desenvolvimento lingüístico da criança.
Segundo Luria (1), a primeira etapa da função reguladora
da linguagem da criança - função base do comportamento
voluntário - é a capacidade de subordinação
à instrução verbal do adulto e, a partir dessa
"subordinação primitiva" (p. 96), forma-se o
ato voluntário.
Quando a mãe nomeia um objeto e junta a ele um gesto indicador,
está reorganizando a atenção da criança
e separando o objeto mencionado dos demais, assim a criança começa
a se subordinar à ação da linguagem do adulto.
Para fortalecer o papel regulador da linguagem nessa etapa (até
2-3 anos), é preciso assinalar o objeto nomeado com gestos ou
indicações, reforçando-os pela ação,
permitindo que a criança fixe melhor e possa cumprir a tarefa
corretamente.
Os experimentos de Luria (1) mostraram que a subordinação
da ação do sujeito à instrução verbal
do adulto, não é algo simples e desenvolve-se progressivamente.
Desse modo, observa-se que a linguagem tem uma grande importância
na organização da conduta da criança e no seu desenvolvimento;
primeiro a sua influência é feita de fora para dentro e
depois passa a se organizar de dentro para fora. No início, o
controle da conduta é feito pelos pais, através da linguagem;
mais tarde, pela própria criança: a conduta da criança,
inicialmente controlada pelos adultos sob a forma de incitações
e ordens verbais, progressivamente passa a ser controlada por ela própria,
através da linguagem interiorizada.
CONCLUSÃO
A linguagem verbal é a forma mais característica da comunicação
humana e se aceitarmos que o objetivo do estudo da psicopedagogia é
a autoria do pensamento, precisamos compreender que o pensamento humano
se formula e se expressa através da linguagem, a qual deve ser
bem conhecida em todos os seus aspectos.
Há uma relação muito estreita entre o pensamento
e a linguagem, uma interdependência relativa entre eles, de tal
forma que muitos pensamentos e muitos conceitos seriam irrealizáveis
sem o auxílio da linguagem que, quando exteriorizada, é
a simbolização do pensamento; quando interiorizada é
o elemento básico de sua organização.
Sabe-se também que o desenvolvimento infantil é uma questão
de saúde física e mental. A aquisição da
linguagem, assim como o desenvolvimento de capacidades comunicativas
em geral, deve merecer a máxima atenção uma vez
que são indicadores preciosos de um processo evolutivo que pode
estar ocorrendo bem ou não.
É pré-requisito básico, portanto, conhecer a construção
da expressão: a estrutura da palavra que permite formar os conceitos
e os sistemas que levam à conclusão lógica do pensamento
e regulam as ações para que se possa entender as manifestações
clínicas.
O estudo da apropriação da linguagem por parte do sujeito
é amplo e oferece inúmeras possibilidades ao pesquisador
da área de psicopedagogia. Esta breve discussão sobre
o tema visa suscitar o debate multidisciplinar e interdisciplinar entre
aqueles que se dedicam a essa área de estudo tão promissora.
Ainda há muito por fazer, porém, pois o ser humano em
sua complexidade é ainda um mistério.
1-Os
transtornos da linguagem são bastante comuns na infância
e, segundo Pedroso e Rotta (7), das crianças com problemas de
linguagem, menores de 5 anos, 60% terão algum grau de retardo
mental ou distúrbio de aprendizado aos 9 anos - a dislexia é
o mais comum, e a maioria teve ou tem comprometimento na linguagem oral;
outro aspecto relevante para os autores é que essas crianças
correm alto risco de alterações de conduta e comportamento
como a déficit de atenção/hiperatividade (TDAH),
por exemplo.
2-As ligações factuais subjacentes aos complexos são
descobertas por meio da experiência direta e uma vez que um complexo
não é formado no plano do pensamento abstrato, as ligações
que o criam, assim como as que ele ajuda a criar, carecem de unidade
lógica: podem ser de muitos tipos diferentes. Enquanto um conceito
agrupa os objetos de acordo com um atributo, as ligações
que unem os elementos de um complexo ao todo, e entre si, podem ser
tão diversas quanto os contatos e as relações que
de fato existem entre os elementos (6).
REFERÊNCIAS
LURIA AR. Curso de psicologia geral. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1979, vol. IV.
LURIA AR; YODOVICH FI. Linguagem e desenvolvimento intelectual na criança.
Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.
LURIA AR. Pensamento e linguagem - as últimas conferências
de Luria. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986.
LURIA AR. Cognitive Development: Its Cultural and Social Foundations.
Cambridge, MA: Harvard University Press, 1976.
MURRAY TR. Comparing Theories of Child Development. Third Edition. Belmont,
California: Wadsworth Publishing Company, 1993.
VYGOTSKY LS. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes,
1993.
KRISTEVA J. Language - the unknown: an initiation into linguistics.
New York: Columbia University Press, 1989.
PEDROSO FS; ROTTA, NT. Transtornos da linguagem. In: ROTTA NT; OHLWEILER
L; RIESGO RS. Transtornos da aprendizagem - abordagem neurobiológica
e multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2006.
OLIVEIRA MK. Vygotsky e o processo de formação de conceitos.
In: LA TAILLE Y. Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas
em discussão. São Paulo: Summus, 1992.
Eloci
Gloria de Mello - Pedagoga, aluna do curso de Pós-graduação
da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.