Inventar a Inclusão

Autora: Marisa Faermann Eizirik

Excluir faz parte dos códigos de existência. Historicamente, os processos de exclusão acompanham as vidas sociais, institucionais, pessoais e até mesmo íntimas. Muitas e diferenciadas são as formas de exclusão, sejam como apartheid social, racial, religioso, de gênero, de estado mental, civil ou econômico, para citar algumas.

A sociedade e as instituições desenvolvem mecanismos de separação, rotulação, localização - de pessoas, grupos, idéias. Estes mecanismos são poderosos produtores de verdades e de ações, que regulam a vida das pessoas. Ao fazer isso, porém, produzem uma complexidade enorme de outros tantos movimentos, atravessado que é o campo social por forças de várias ordens, naturezas e intensidades.

Hoje vivemos uma revolução: a da inclusão. Inclusão como contra-face da exclusão. Revolução porque está produzindo um turbilhão de movimentos que invadem todas as áreas, entram pelos mecanismos legais e forçam a entrada – nas empresas, nas escolas, nos lugares públicos, nas diferentes formas de cultura, lazer e diversão, na sexualidade.

Como vamos lidar com esse desafio? Como a escola está enfrentando a realidade de incluir em seu cotidiano, em seus processos de ensino regular, o aluno “especial”, portador de deficiência?

Essa necessidade vem não apenas como forte sugestão da nova LDB, mas incentivada pelo movimento que atravessa a própria sociedade que, sacudida do torpor e da acomodação frente aos lugares separados, às possibilidades limitadas, aos impedimentos, exige uma educação inclusiva. Não podemos mais pensar e agir como antes e não sabemos como fazer agora, e daqui em diante. As antigas explicações e pressupostos que sustentaram muitas de nossas ações não servem para enfrentar esse desafio.

Há inúmeras experiências acontecendo, em instituições educacionais públicas e privadas. Escolas particulares recebem crianças com sérias dificuldades de aprendizagem, portadoras de disfunções que as colocariam de antemão fora do ensino regular, e buscam formas de inseri-las. Escolas públicas acolhem meninos e meninas de rua; aprendem com eles sua cultura, linguagem e hábitos; conhecem de perto a crueldade do abandono e do abuso; criam estratégias de ensino de língua portuguesa, matemática, ciências, oficinas. Fazem assembléias para decisões da vida coletiva.

Essas experiências dizem um pouco do que está sendo feito, mas ainda insuficientes são os conhecimentos, apesar de grandes as aprendizagens, com fracassos, dificuldades, conflitos e com toda a dor que esse processo traz. Ninguém tem respostas sobre como fazer. Não há fórmulas. É preciso inventar a inclusão.

Marisa Faermann Eizirik - Psicóloga, Doutora em Educação, Professora do Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional/UFRGS. Coordenadora do Empiria- Assessoria, Pesquisa e Ciclos de Estudos em Educação.