Como as Crianças Adquirem as Consoantes Oclusivas


Autora: Veruska M. Sousa e colaboradores

O presente artigo trata da importância de se conhecer alguns aspectos lingüísticos necessários para ajudar crianças vítimas de um tipo de dislexia, exclusivamente, relacionada com a troca de consoantes oclusivas do português brasileiro.

Tem, também, a intenção de servir de apoio inicial para um maior aprofundamento no âmbito da Fonética, a fim de despertar pais e professores para a importância de seu preparo e acompanhamento à criança no processo de aquisição da linguagem, ou seja, no que confere a fala, a leitura e a escrita.

Pretende-se através deste, instigar, informar e orientar professores à buscarem meios de ajudar crianças com problemas na fala e, conseqüentemente, na escrita. Porém, essa problemática dar-se-á, especificamente, no que confere à troca de consoantes oclusivas e os aspectos que podem caracterizar esta falha na linguagem. Desse modo, não confere a este, analisar o problema numa visão detalhistas e aprofundada, mas, de maneira generalizada, focando apenas o que interessa à Lingüística, ou, mais especificamente, à Fonética. A abordagem tomará como base argumentativa casos de professores e pais, com crianças que tenham este déficit fonológico, que servirão de exemplos para as definições e classificações das consoantes oclusivas do Português, e também como meio de sensibilizar os interessados para a importância de conhecimentos lingüísticos na resolução de problemas concernentes a fala, a escrita e a leitura.

CONSOANTES OCLUSIVAS: CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO

As consoantes são chamadas oclusivas quanto à maneira ou modo de articulação das mesmas. No caso delas, "os articuladores produzem uma obstrução completa da passagem da corrente de ar através da boca. O véu palatino está levantado e o ar que vem dos pulmões encaminha-se para a cavidade oral. Oclusivas são portanto consoantes orais." (SILVA, p. 33). São também chamadas plosivas, por mérito, exatamente, desta obstrução que, por sua vez, causa uma explosão quando o ar é solto. Quanto aos pontos de articulação, elas se dividirão em bilabiais (/p/ e /b/), dentais ou alveolares (/t/ e /d/), e velares (/k/ e /g/), desvozeadas e vozeadas, respectivamente(quanto à sonorização). Podendo ainda, haver uma palatalização ou labialização provocada pelos articuladores chamados secundários, quando encontrados juntos a uma vogais.

As consoantes /p/, /b/, /k/ e /g/ são uniformes na língua portuguesa, pois não apresentam variação sonora ou articulatória em nenhum dos diversos idioletos do português falado no Brasil. Desse modo, o /p/ de ['pe] que se fala no Sul é o mesmo de ['po], falado no Nordeste ou no Sudeste; o /b/ de ['bota] falado no Maranhão é o mesmo de ['bico], falado no Acre. E assim acontece, tanto com o /k/ e o /g/, que indiferentemente do idioleto da região em que se falam, os sons são os mesmos.

Por outro lado, as consoantes /t/ e /d/ irão diferir, quanto ao ponto de articulação, em alguns idioletos. Em geral, fala-se o /t/ de ['tato] e o /d/ de ['dado], da mesma maneira (dentro das suas próprias particularidades articulatórias) em todas as regiões do Brasil e em seus respectivos idioletos. Todavia, quando estas consoantes encontram-se diante da vogal i, elas sofrem o que é chamado de palatalização, que é quando a língua como articulador ativo, ao invés de ir de encontro aos dentes superiores incisivos ou aos alvéolos, "direciona-se para uma posição anterior (mais para frente da cavidade bucal) do que normalmente ocorre quando se articula um determinado segmento consonantal" (SILVA, p. 35). Então, este segmentos passam a ser "produzidos com uma articulação secundária"(SILVA: 2002, p.34) e a ser classificados, quanto ao modo de articulação, como consoantes africadas (/tS/ e /dS/).

A TROCA DE CONSOANTES OCLUSIVAS NA FALA E NA ESCRITA

Na alfabetização, em uma escola particular, a professora da menina T. R., começa a perceber falhas na escrita, a partir de ditados, e na fala da criança. A menina troca as oclusivas dentais homorgânicas t e d, falando "tata" ou "tada" em vez de "data", e também as bilabiais p e b como em "bola", a qual ela falava "pola". A professora, então, recomenda a ida a um fonoaudiólogo, e assim procede a mãe da criança. Porém, passados um mês e meio, a fonoaudióloga dá alta à criança, que ainda mostra déficits fonológicos. Já com 7 anos de idade e na 2ª série, T.R continua tendo a dislexia, porém, amenizada pelos estímulos da mãe da menina como ditados e correções. Por parte das professoras que a ensinaram até a série atual, não houve os estímulos necessários para ajudar no problema, por conta de não saber avaliar e lidar com o caso devidamente, sendo evidente a falta de embasamento teórico para tratá-lo dentro das possibilidades do fator lingüístico.

Casos como esse não são tão fáceis de serem encontrados na realidade das escolas, há não ser quando levamos em consideração erros comuns que acontecem na fala da criança durante o início do processo de aquisição da linguagem. No entanto, segundo fonoaudiólogos, quando esta fase de troca de consoantes persiste após os cinco anos de idade, é necessário ter um pouco mais de percepção para identificar as causas e buscar as possíveis soluções para o problema.

Cabe aos pais e professores observarem a criança e, se diagnosticada a troca de letras tanto na fala quanto na escrita, a mesma terá que passar por atividades específicas orientadas pelo professor e, principalmente, ser encaminhada ao fonoaudiólogo. O acompanhamento destes dois profissionais em conjunto, poderá ter excelentes resultados. Mas, como o professor poderá ajudar nesse processo de correção da fala e da escrita, se a sua formação é Pedagogia, ou outra área de conhecimento, onde não acontece um estudo mais aprofundado da Fonética? Bem, o primeiro passo será a sua capacitação. Quando o professor se encontra totalmente despreparado, numa situação dessas, ele poderá acabar refletindo este despreparo na criança em forma de repreensão, até mesmo forçando-a a corrigir-se com estímulos inadequados, o que poderá causar a ela constrangimento e apreensão, quando, porventura, tiver que falar, ler ou escrever novamente. A posição mais acertada do professor, é se utilizar de todos as tecnologias possíveis para obter conhecimentos de Lingüística, ou, mais especificamente, no âmbito da Fonética. Como já foi dito, é a ciência que estuda a língua em suas peculiaridades. Ela poderá ajudar o docente a descobrir o que está causando esta confusão na linguagem da criança. O professor e pesquisador da área, Vicente Martins, da Universidade Estadual Vale do Acaraú, em um de seus artigos que circulam pela Internet, aborda esta problemática citando um caso de uma professora que tinha um aluno com, segundo ela, um "déficit fonológico", e ele atribui como causa a questão da sonorização, já que, de acordo com ele "os fonemas sonoros exigem mais da criança durante a produção da consoantes, especialmente as oclusivas e fricativas". Os argumentos utilizados no artigo citado têm pressupostos na Fonética, o que reafirma a importância de que todo educador que trabalha com a alfabetização de criança, deveria ter um bom embasamento teórico nesta área.

O estudo completo do primeiro caso citado, nos remeteria a um maior aprofundamento tanto no campo da Fonética quanto da Fonoaudiologia. No entanto, focalizar-se-á apenas algumas particularidades do caso no que se refere à substituição das consoantes oclusivas surdas (ou desvozeadas) pelas sonoras (ou vozeadas). O problema da sonorização pode sim, ser um fato gerador desse problema, como já dissertou sobre, o professor Vicente. Essa distinção sonora é ocasionada por conta da glote estar, em alguns momentos, em repouso e, em outros, em atividade de vibração. Quando o ar é solto pelo pulmão encontrará como obstáculo, logo na abertura da laringe, a glote e suas cordas vocais. Quando estas últimas estão tensas, ocorre um leve fechamento da glote e uma vibração na passagem do ar, que é, então, chamada se sonora. Se as cordas vocais estiverem relaxadas, o ar passará tranqüilamente, dando-se ao segmento a classificação de surdo.Essa consciência fonêmica, do que é surdo e do que é sonoro, só irá acontecer se a criança for estimulada, e também será "a última consciência fonológica que ela desenvolverá na aquisição da linguagem", segundo a fonoaudióloga Lilian Cristine Ribeiro Nascimento, mestre e doutoranda em educação pela Unicamp.

Então, voltando-se novamente para as consoantes oclusivas, a troca dos segmentos /t/ por /d/ e /p/ por /b/, pode ocorrer devido à falta de associação da criança do som com a letra. A similaridade sonora entre ambas, pode ser facilmente notada quando pronunciadas em voz compassada. Por exemplo, se ditas em voz alta e lentamente, as palavras pomba e bomba, é quase imperceptível a diferença de sons entre /p/ e /b/, nas quais, a primeira é surda e a segunda, sonora. Isso com certeza pode causar uma confusão durante o aprendizado. Em outro exemplo semelhante, podem ser ditas as palavras dedo e teto, onde também ocorrerá uma similaridade fonética entre os segmentos /t/ e /d/, onde o primeiro é surdo, e o outro, sonoro. Então, como tratar ou como estimular a criança de maneira correta para que perceba e entenda essa diferenciação quanto à sonoridade das consoantes? No artigo do professor Vicente Martins, ele dá a seguinte sugestão:

"Pedir que a criança coloque a mãozinha na garganta para sentir as vibrações ou não das cordas vogais durante a produção das consoantes sonoras (vibram) e surdas (não vibram) pode ser exercício extremamente mnemônico, eficiente e suficiente para a criança compreender as distinções entre os fonemas surdos e sonoros, e, doutra sorte, levá-la à consciência fonêmica, utilizando, para isso, e ludicamente, o próprio corpo, manto do ser e templo do espírito" (MARTINS: 2007)

Para um professor que tenha certos conhecimentos teóricos sobre Fonética, essa atividade será bastante significativa e seus resultados poderão trazer para o mesmo, uma visão mais ampla de alfabetização, e ele também terá uma posição mais profissional quando diante de outro caso parecido. Já que esta troca de letras, principalmente das oclusivas, são de certa forma comuns, sendo que, elas não ocorreram somente nos aspectos aqui tratados. Mas também poderão aparecer em outra roupagem. Por exemplo, há crianças que trocam a consoante oclusiva bilabial sonora /b/ por uma consoante também oclusiva dental e surda /d/. Só que nesta situação temos, não só uma similaridade quanto aos pontos de articulação, pois são muito próximos, mas, principalmente, a semelhança na escrita das consoantes. Muitas vezes, acontece em um ditado, o fato de a professora dizer a palavra e pra melhor ser compreendida, especificar: "/d/ de dado, ou então, /b/ de bola. É até mais uma maneira de intensificar a distinção entre as duas consoantes. Já as autoras do artigo Português: Como vencer o desafio da Alfabetização, Luzia Fonseca, Graça Branco e Elody Nunes, sugerem uma outra atividade de valor significativo na aprendizagem: que "a cada produção de texto, (o professor) informe ao aluno quantas palavras ele acertou, mas (que) evite focalizar as críticas sobre as trocas".

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A problemática abordada vem instigar o professor a refletir sobre as limitações pedagógicas que os próprios professores impõem a si mesmos, deixando às vezes de lado o fio da meada, o ponto de partida para o ensino da língua, que básicas as noções teóricas básicas de Fonética. Não é tão comum, mas acontece com muitos educadores que, ao se depararem com esse problema da troca de consoantes oclusivas, tendem a procurar se dispersar do problema de alguma forma, se os mesmos não são capacitados para lidar com a situação. Isto pode fazer com que ela se agrave ou perdure por muito tempo, o que, com certeza, trará problemas futuros à criança. Sendo assim, reitera-se que é necessária a busca de conhecimentos sobre a área aqui tratada. As consoantes oclusivas são comumente encontradas dentro destes problemas. As informações aqui expostas poderão ajudar tratá-los e servir de base para um estudo mais audacioso das mesmas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SILVA, Thais Cristófaro. Fonética e fonologia do português: roteiro de estudo e guia de exercícios. São Paulo: Contexto, 2002.

MARINHO, Luzia, BRANCO, Graça e MORAIS, Elody Nunes. Português: Como vencer o desafio da Alfabetização. Revista Presente. Disponível em Internet: <http;//www.projetopresente.com.br/revista/ver_presenteportuguês.pdf>. Acessado em: 04 de Março de 2007.
MARTINS, Vicente. Como ajudar crianças que trocam gê por chê. Disponível em: <http://www.fonoesaude.org/consfonologica.htm>. Acessado em: 02 de Fevereiro de 2007.
NASCIMENTO, Liliane Cristine Ribeiro. Consciência Fonológica. Disponível em: http://www.neteducacao.tv.br/site/reportagem/n_artigo.asp?id=253>. Acessado em: 18 de janeiro de 2007.

Veruska M. Sousa , José Maria V. Maranhão, Mayumi P. Lopes e Rita Helena A. P. Fontenele fazem parte do Grupo de Estudos Lingüísticos e Sociais(GELSO), coordenado pelo professor Vicente Martins, da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Ceará. E-mail: vicente.martins@uol.com.br