Alfabetizar:
O Dilema Nosso de Cada Dia
Autora:
Marina S. Rodrigues Almeida
Refletir
sobre essa questão, a alfabetização, veio pelo
fato de estar trabalhando numa instituição pública,
NUMAPS- Núcleo Municipal de Atendimento Psicopedagógico,
organizado e coordenado por mim desde 1997, que atende crianças
de 6 a 12 anos com dificuldades de aprendizagem, da Rede Municipal de
Ensino na cidade de São Vicente . Neste local intervimos nas
áreas psicopedagógica e fonoaudiológica.
Nos últimos anos observamos que a faixa etária entre 10
a 12 anos tem chegado ao nosso serviço apresentando sérios
problemas com alfabetização encontram-se num período
alfabético-silábico, e essa demanda vem crescendo significativamente
, levando-nos a pensar sobre quais os fatores que poderiam estar interferindo
neste processo e como poderíamos intervir do ponto de vista educacional.
Sabemos que para aprender a ler e a escrever precisamos pensar sobre
a escrita, pensar sobre o que a escrita representa, como a mesma representa
graficamente a linguagem, que por sua vez está diretamente ligada
aos pensamentos afetivos e que foram processados singularmente.
Portanto estamos propondo a idéia de que há uma cadeia
de significantes e significados, co-ligados por relações
afetivas, sócio-culturais, interacionais, construídas
ao longo do desenvolvimento humano. Sem dúvida não descartamos
as possibilidades orgânicas e demais variáveis que possam
interagir no processo da alfabetização/alfabetizador,
porém nos deteremos neste recorte, já que as demais variáveis
não fazem parte do escopo deste artigo.
Hoje temos uma variedade de teorias, técnicas e modelos para
a alfabetização e por outro lado encontramos ainda uma
demanda de alunos que não se "encaixam" em nenhum destes
modelos conhecidos.
Chegamos ao ponto, o "conhecido", muitas vezes a procura de
algo familiar transforma a prática educativa em regra , levando
a imposição, a rigidez conduzindo a falta de resultados
no processo de alfabetização.
Nestes momentos o educador se depara com sentimentos de impotência,
desânimo, irritação, etc. Por outro lado no aluno,
iniciam-se ou acentuam-se os comportamentos de apatia, agressividade,
desinteresse, baixa freqüência às aulas, etc. Sem
que se percebam educador/aluno estão presos na normatização
do Sistema Educacional.
Encontramos então um impasse nessa relação professor/aluno,
ambos paralisados e oprimidos pelo desejo do conhecimento perdido?!
O que fazer?
Vamos refletir um pouco do ponto de vista cultural, a pós-modernidade,
sendo pensada como intensificadora desse processo.
A característica da sociedade pós- moderna é a
fragmentação social, o individualismo, o consumo mercantil-tecnológico,
a classe média, a flexibilidade das idéias e dos costumes,
a liberação sexual, a educação permissiva,
o desejo pelos bens de serviço no lugar do poder, o mundo das
especialidades e ou especialistas, etc...
O indivíduo vive um tempo fugaz, hendonista e narcisista, mexendo
com suas perspectivas e referências diante do conjunto social.
A história, a democracia, a família, a religião
e a ética tendem a esfriar, os indivíduos estão
se concentrando em si mesmos, hiperprivatizando suas vidas, o que conta
é o aqui-agora.
Esse panorama reflete a nossa realidade atual, e revela a realidade
de quem são nossos alunos, esses muitas vezes impregnados por
uma cultura paralisante.
Segundo BAUDRILLARD*(1993), a sociedade vive com o advento da pós-modernidade,
um imenso processo de destruição de significados, igual
a anterior destruição das aparências provocada pela
modernidade.
O que parecia estar seguro e representar algo de certeza, perde as certezas.
No pós-moderno, as informações se tornaram produto
de manobra, os fatos são transmitidos através de uma comunicação
racional, banal, perdendo o sentido e o conteúdo emocional.
Tudo isso fazendo parte dos noticiários (imprensa falada/escrita),
das novelas, dos desenhos, dos filmes veiculados pelos meios de comunicação
de massa, como exemplo predominante à televisão. Equipamento
eletrônico presente na grande maioria das casas dos brasileiros
e muitas vezes sendo a única fonte de relação/informação
com o mundo.
A pós-modernidade tem como característica colocar a prova
os avanços da ciência, questionando constantemente, gerando
paradigmas e pluralidade de pensamento, porém revestida como
mercadoria de consumo e poder.
Sendo assim, a educação faz parte desta dinâmica
também, para falarmos em Alfabetização é
imprescindível falar do Alfabetizador.
Precisamos considerar a "produção do saber escolar",
em que condições desenvolvem a formação
profissional e a humanização do conhecimento no mundo
contemporâneo, tarefa essa nada fácil para o Sistema Educacional!
Portanto propomos o modelo do EDUCOMUNICADOR, segundo a autora
JACQUINOT**(1998). "Não é um professor especializado
encarregado do curso de educação para os meios. É
um professor do século XXI, que integra os diferentes meios nas
suas práticas pedagógicas."
Essa nova identidade profissional tem a dupla função teórica,
unir as ciências da educação com as ciências
da comunicação. Tentaremos neste papel unir os vários
aspectos da aprendizagem , buscando nos meios de comunicação
de massa, como por exemplo à televisão sendo a coadjuvante
desse processo facilitador.
Sendo assim, necessitamos nos destituir dos pré-conceitos sobre
a TV, mas considerá-la como a aliada mais próxima da comunicação,
linguagem e modelos identificatórios que nossos alunos possuem
em seu cotidiano, aliás muitas vezes fazendo o papel de companhia
na ausência dos pais.
Sabemos por meio de pesquisas já realizadas que o público
de alunos que assistem à televisão, independente de sua
faixa etária, têm uma identidade formada sob diferentes
aspectos, história pessoal , camadas sociais diferentes, mas
destacamos particularmente o saber: que é fragmentado, pautado
na imagem, no imediatismo e destituído de significados.
O educomunicador, portanto tem esta função, fazer
as inter-relações destas culturas.
Muitas escolas da nossa Rede Municipal, possuem equipamentos eletrônicos,
como TV e vídeo-cassete, porém o que notamos é
o uso ineficiente e/ou raramente utilizam-se deles como recursos pedagógicos
em sua sala de aula, também muito pouco é aproveitado
das comunicações orais que os alunos trazem sobre o que
assistiram na "telinha".
Os alunos chegam à escola dominando a linguagem oral (variante
empregada por seu grupo social), influenciada pelo padrão familiar,
televisão e membros da sociedade que estão culturalmente
inseridos. Essa linguagem tem uma função para a vida infantil
:sua adaptabilidade à realidade, facilitar os relacionamentos,
expressar seus sonhos, desejos, opiniões, bem como seu ingresso
à vida ajudando na conquista de sua autônoma.
Portanto temos um fato a considerar: as crianças já chegam
a escola com relativa desenvoltura, cabe ao professor dar continuidade
a essa linguagem sem interrompê-la de forma brusca, impondo as
normas do padrão culto (variante normatizado pela cultura).
A intervenção mediadora do professor pressupõe
transformar os conjuntos de fragmentos e informações trazidos
pelo aluno (cultura, emoções, linguagem, etc...) transformando-os
em um conjunto integrado, e é sem dúvida uma das tarefas
mais difíceis da escola atualmente.
Notamos sem dúvida, que as escolas e educadores que apresentarem
menor resistência para admitirem que a apropriação
do conhecimento e dos valores mudaram sobre a influência pós-moderna,
terão maior chance de modificarem o quadro atual de alunos com
inibição na alfabetização e conseqüentemente
conseguirão sucesso na alfabetização.
Segundo JACQUINOT (1998), historiadores e filósofos mostraram
muito bem que a escrita e depois a impressão não mataram
o saber, contudo modificaram a referencia do saber, isto é, as
condições de sua transmissão, através da
aprendizagem que era mecânica, por repetição, memorização,
correspondente da linguagem oral. Ao aparecer a imprensa, valorizou-se
o sentido da visão em detrimento dos outros sentidos, donde o
interesse foi delegado a imagem simbólica.
Os educadores ao iniciarem um trabalho de alfabetização
com seus alunos devem aproveitar o máximo da linguagem oral,
através das quadrinhas, parlendas, músicas, canções
ou fragmentos de assuntos televisivos, que em geral eles sabem "de
cor" ou memorizam com facilidade, porque a transmissão é
mecânica e se aproxima da linguagem utilizada.
Num segundo momento, a utilização da imagem televisiva,
programas, filmes, fotos, embalagens, marcas ou logotipos, permitem
que o aluno imagine o que poderia estar escrito ou poderá criar
um texto com seu próprio conteúdo interpretativo.
Estudos em diferentes línguas têm mostrado que, de uma
correspondência inicial pouco diferenciada, o alfabetizando progride
em direção a um procedimento de análise, e passa
a corresponder recortes do falado a recortes do escrito. É um
processo paulatino, mas os alunos irão percebendo as diferenças
de modalidades culta e oral e irão generalizando no seu cotidiano.
Destacamos que essa postura educativa se fundamenta na utilização
da diversidade das realidades sociais e culturais, implicando na mudança
do papel do professor como detentor do saber, cujo papel será
então o de mediador. Também o uso dos recursos televisivos
ou da imprensa, deverão se pautar numa atividade crítica,
por exemplo: "aprender a responsabilidade do contexto da escrita",
"aprender a distinguir um fato de uma opinião de massa",
etc.
Segundo a autora, o educomunicador reconhece que não há
mais monopólio da transmissão de conhecimento, e que não
é só o professor que tem direito da palavra. Os professores
que introduziram os meios na escola, a imprensa, a televisão,
puderam perceber que isso provoca uma mudança nos objetivos e
métodos de ensino.
Enfim, os educadores precisam admitir que as novas gerações
possuem outras formas de aprendizagem.
Uma escola transformadora é uma escola consciente de seu papel
político, cultural, ético, na luta contra as desigualdades
sociais e econômicas, sua função deverá ser
de instrumentalizar seus professores para que possam promover condições
mediáticas, com o objetivo da formação dos cidadãos
do século XXI.
Obs.:
*Baudrillard, Jean. Televisão Revolução, in Parente,
André. Imagem Máquina. R..J. Editora 34, 1993
**Geneviève Jacquinot, Professora da Universidade de Paris
I Congresso Internacional de Comunicação e Educação.-
1998
Tema proferido: O que é um educomunicador ?
SUGESTÕES
BIBLIOGRÁFICAS:
O
Que é Pós-Moderno?
Jurandir Freire Costa
Ed. Brasiliense
Rede
Imaginária: Televisão e Democracia
Adauto Novaes
Ed. Companhia das Letras
Sociedade
da Informação ou da Comunidade?
Ismar de Oliveira
Ed. Cidade Nova
A
Criança e a TV
Raquel Soifer
Ed. Artes Médicas
Alfabetização
de Jovens e Adultos e Televisão
Maria Clara Pierrô
Revista Comunicação e Educação /Abril de
1995
Ed. Segmento
Marina
S. Rodrigues Almeida
Psicóloga, Pedagoga e Psicopedagoga
CRP 06/41029-6
marina@iron.com.br