Educação e Informática: Alunos com Necessidades Educacionais Especiais em Processo de Ensino e Aprendizagem

Autores: Delton Aparecido Felipe, Paula Edicléia França Bacaro e Anair Altoé

Resumo

A idéia deste projeto de ensino originou-se a partir da experiência de regência de classe na disciplina de Prática de Ensino do Curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Maringá. Tem como objetivo usar o computador com alunos da Educação Especial, das séries iniciais do Ensino Fundamental para o desenvolvimento da leitura e da escrita. Para tanto, foram utilizados o software Escritor e páginas da Internet, no laboratório de informática de uma escola estadual de Maringá, para a implementação de ações pedagógicas. O computador foi utilizado pelos alunos como ferramenta educacional de apoio. Quando eles resolveram as atividades pedagógicas, sentiam-se mais seguros e propícios à aprendizagem. O ambiente informatizado fez com que os alunos melhorassem na leitura e na escrita e encontrassem caminhos alternativos de aprendizagem na sala de aula e, conseqüentemente, na vida social

Introdução

A tecnologia da informação e da comunicação vem sendo utilizada de maneira significativa no processo de ensino e de aprendizagem. O fenômeno da globalização põe a necessidade de que a informação seja transmitida de maneira rápida e atualizada. Assim, o uso do computador apresenta-se como ferramenta imprescindível para a inserção e participação efetiva no processo global.

Faz-se necessário, então, que a escola seja um ambiente de recursos tecnológicos para que os alunos possam compartilhar destes recursos beneficiando o próprio desenvolvimento cognitivo, social e cultural. Por meio da informática as informações são transmitidas rapidamente podendo elevar o desenvolvimento intelectual dos alunos, devendo contar, para isto, com profissionais especializados para realizar esse atendimento.

Sob esta perspectiva podemos destacar a contribuição de Corburn et al (1988, p. 3), o qual salienta a importância da utilização do computador na educação.

Os educadores poderiam desenvolver formas mais eficazes de utilização dos computadores para atingir permanentemente as finalidades da educação; e também objetivos tais como a melhoria da alfabetização e as habilidades computacionais, melhoria de ensino de conceitos, incentivo ao questionamento do aluno instrução individualizada, adequação dos estilos de ensino e aprendizagem e interação de alunos com dificuldade de aprendizagem.

Para tanto, este projeto visa desenvolver, fundamentalmente, atividades de educação para o aprimoramento da leitura e da escrita com alunos com necessidades educacionais especiais. É indispensável ressaltar que, se aos alunos considerados normais esta tecnologia, na maioria das escolas, é um mero sonho, imaginem como é vista pelos alunos com necessidades educacionais especiais. Entendemos, porém, que eles têm direito a recursos tecnológicos como qualquer outro aluno e que, apesar das diferenças quanto às formas e tempo de aprendizagem, buscam e se desenvolvem como qualquer outro.

É importante que a escola e a sociedade, as quais enfrentam dificuldades em lidar com o que é diferente e com tudo aquilo que se afasta dos padrões estabelecidos como normais, olhem para estes alunos como pessoas que necessitam e querem ser produtivas, valorizadas pela sua capacidade individual e respeitadas em suas limitações.

O que, infelizmente, vemos é que estas pessoas permanecem, na maioria das vezes, à margem da sociedade e da educação. Neste sentido, constitui-se foco deste artigo apresentar o projeto de ensino, que está sendo desenvolvido em um laboratório de informática de uma escola estadual de Maringá, envolvendo seis alunos com necessidades educacionais especiais. Como apresentam dificuldades de socializar-se, neste projeto, organizou-se um ambiente de aprendizagem apoiado pelo computador, propiciando a realização de atividades pedagógicas que atendessem suas necessidades sociais e educativas, visando o desenvolvimento de habilidades intelectuais de cada um dos alunos e, sobretudo, respeitando suas limitações e tempo de aprendizagem. Procuramos valorizar o aluno individualmente em seu processo de aprendizagem, pois cada um possui seu tempo de construção do conhecimento.

Ações da política da informática no Brasil

No Brasil, as primeiras ações da política “informática educativa” datam de 1979 quando a Secretaria Especial de Informática (SEI) efetuou uma proposta para os setores de: educação, agrícola, saúde e industrial, com o objetivo de viabilizar recursos computacionais para as atividades desses setores.

Em 1980, criou-se uma comissão com o objetivo de gerar normas e diretrizes para a área de informática na educação. Nos anos de 1981 e 1982, ocorreu, respectivamente, o I e II Seminário Nacional de Informática na Educação em que foram levantadas várias questões relacionadas à informática aplicada a educação. Um dos aspectos tratado foi à definição de como deveriam ser encaminhadas as atividades de informática educativa. Em 1983, foram criado a Comissão Especial de Informática Educativa (CE/IE), cuja missão foi desenvolver discussões e implementar ações para levar os computadores às escolas públicas brasileiras, e o Projeto Educação com Computadores (EDUCOM), a primeira ação oficial e concreta de ensinar, por meio do computador os alunos das escolas públicas. Nos anos de 1984 a 1987, foram criados o Comitê Assessor de Informática para a Educação do então 1º e 2º graus, hoje denominados ensino fundamental e médio, (CAE/SEPS), o Programa de Ação Imediata em Informática na Educação e, em 1995, o Programa Nacional de Informática na Educação (PROINFO), que visava à formação de núcleos de tecnologias educacionais em todos os estados da federação.
O Projeto EDUCOM foi organizado em cinco centros pilotos que, apesar de terem a mesma estrutura, seguiram caminhos diferentes em seus objetivos finais. Dentre estes centros podemos destacar: UFRJ, UFMG, UFPE, UFRC, UNICAMP. Esta última foi considerada a universidade pioneira na pesquisa sobre o uso do computador no processo de ensino-aprendizagem.

O mais ambicioso e atuante projeto de informática aplicada à educação no Brasil foi desenvolvido pelo PROINFO, cujos principais objetivos são:

Melhorar a qualidade do processo de ensino e de aprendizagem.
Possibilitar a criação de uma nova ecologia cognitiva mediante a incorporação adequada das novas tecnologias de informação pelas escolas.
Propiciar uma educação voltada para o desenvolvimento científico e tecnológico.
Educar para uma cidadania global numa sociedade tecnologicamente desenvolvida.

A importância do poder público e do trabalho docente

Quando falamos em inclusão, logo nos lembramos das leis vigentes no país, que se refere aos direitos adquiridos da pessoa com necessidades especiais, mas nos deparamos com um impasse, esquecemos destes direitos, estamos vedados ou simplesmente não somos conhecedores dos problemas reais que essas vivenciam a cada dia, quando seus direitos são violados. Nesta problemática qual poderia ser a ação da escola?

A escola poderia garantir que essas leis fossem cumpridas e, também conscientizar, por meio dos alunos, que a visão da sociedade deve ser transformada com referência ao atendimento das pessoas com necessidades especiais. “Por falta de informação ou omissão de pais, de educadores e do poder público, milhares de crianças ainda vivem escondidas em casa ou isoladas em instituições especializadas – situação que priva as crianças com ou sem deficiência de conviver com a diversidade” (CAVALCANTE, 2005, p.40).

Entretanto é importante ressaltar que, além da mudança de mentalidade sobre esta questão, temos outros pontos a serem observados de modo a favorecer o convívio e a permanência de alunos com necessidades educacionais especiais em escolas de ensino regular. Destacamos dentre muitos considerados essenciais: equipamentos especializados para que alunos com determinadas deficiências possam ter condições de se desenvolverem, uma estrutura física apropriada que ajude a locomoção dos deficientes físicos e visuais, a capacitação de professores de modo a romper com mitos, preconceitos e torná-los capazes para atuar de forma competente e compromissada, um projeto político pedagógico que favoreça e promova a inclusão.

Em se tratando de equipamento, o uso do computador pode ser um instrumento significativo para o processo de ensino e de aprendizagem e ajudar na socialização. Para tanto é imprescindível que o poder público venha, de fato, cumprir com o seu papel garantir todo o material necessário a ser utilizado pela escola em busca da inclusão dos alunos com necessidades educacionais especiais, e também no desenvolvimento do processo de ensino e de aprendizagem dos mesmos.

Na atual cultura, predominam valores sociais em que as pessoas com necessidades especiais são excluídas e marginalizadas. E a escola, reflexo desta cultura, passa a ser produtora desta exclusão, não porque quer, mas porque, de fato, não sabe conduzir as diferenças.Assim, o aluno que apresenta diferenças assume a condição de ser mais um fora da escola. Mas por que se preocupar quando tantos estão fora da escola?

Como educadores devemos trabalhar no sentido de reverter esta situação. E isto não apenas para cumprir a lei, mas para democratizar de fato, a educação para todos e torná-la melhor. Esses alunos merecem respeito e dignidade, devem ser atendidos em suas necessidades como qualquer aluno normal, e com ferramentas pedagógicas que favoreçam seu processo de crescimento psíquico e social. Neste sentido, o computador pode ser utilizado como ferramenta educacional de apoio para o aluno, ao efetuar suas tarefas pedagógicas, sentindo-se mais seguro e interessado na sua aprendizagem e em seu meio social.

A construção do seu conhecimento bem como sua auto-estima seriam trabalhadas pelo professor no sentido de preparar este aluno para a integração na sociedade, possibilitando seu ingresso no mercado de trabalho. O que esses alunos “especiais” desejam, sonham e esperam é serem valorizados e atuantes em suas atividades futuras. O interesse que possuem em aprender e contribuir com sua aprendizagem pôde ser observado nas atividades realizadas durante a execução deste projeto.

Os alunos quando motivados a aprender em ritmos de cooperação retribuem este ato com os amigos e todos se envolvem em um processo de aprendizagem. Entretanto, como já foi destacado para haver aprendizagem em um ambiente informatizado, é importante que a formação do professor, seja no ensino superior ou na formação continuada, possibilite aos mesmos condições para o exercício pleno de suas funções.

Estudos revelam que os alunos que apresentam deficiência mental leve ou moderada recuperam algumas de suas perdas estruturais, o que significa que a deficiência não deve ser prognosticada somente pelo seu nível psicométrico, é preciso avaliar estímulos e oportunidades de tratamento.

Muitas das condições clínicas sobre o baixo desempenho cognitivo podem ser confundidas e tratadas inadequadamente como deficiência mental, tais como: déficit de atenção com hiperatividade, dificuldades específicas de aprendizagem (atraso na linguagem, dificuldade de memória, dificuldade de atenção, concentração, discalculia). Os testes psicométricos medem apenas o quociente intelectual e não a capacidade adaptativa destas pessoas, ou seja, o desenvolvimento que as pessoas com necessidades especiais alcançam quando estimulados. Sabemos que as condições clínicas podem não ser de fato permanentes. Um bom trabalho pedagógico e condições adequadas de trabalho podem reverter esta situação.

Para tanto, ao professor deve ser oferecida a capacitação adequada que os cursos de formação de professores sejam revistos, que as escolas usem de recursos tecnológicos não apenas para os alunos especiais, mas também para os alunos de ensino regular. Vivemos em uma sociedade tecnológica, portanto, se educação e a sociedade são parceiras históricas, onde estão os laboratórios de informática nas escolas com o objetivo de promover ensino e aprendizagem?

Assim, é inquestionável que se reveja as concepções de educação e sociedade, como também a formação de professores, pois as mudanças tecnológicas são rápidas e a educação permanece na escuridão, sem utilizar totalmente a tecnologia no seu processo de trabalho. Aos alunos com necessidades educacionais especiais, estes equipamentos permanecem inatingíveis, pois são poucos os alunos que têm acesso a essa tecnologia. Além de que estes podem ser considerados ou vistos como aqueles alunos que “não aprendem” ou a eles “não é necessário ou disponível esta tecnologia”.

Contrapondo-nos a esta afirmação, se estes alunos utilizarem recursos tecnológicos, acreditamos que podem, sim, alcançar melhor desenvolvimento cognitivo, social e cultural. Uma descrição de como seria o ambiente em que alunos com necessidades educacionais especiais devem estar inseridos é aquele que possibilita “uma maior interação com as pessoas e com o meio em que vivem, partindo não de suas limitações e dificuldades, mas da ênfase no potencial de desenvolvimento de cada um, confiando e apostando nas suas capacidades, aspirações, crescimento pessoal e integração na comunidade” (FILHO, GALVÂO, 2001, p. 24-25).

Se os alunos com necessidades educacionais especiais podem recuperar algumas de suas perdas cognitivas quando integrado a um ambiente que lhe proporciona desenvolvimento, porque não usar uma ferramenta educacional que possa ajudá-lo a alcançar o desenvolvimento mental, educacional, emocional e social?

Sendo assim, o computador pode ser um dos aparatos enriquecedores para a obtenção deste desenvolvimento, pois motiva os alunos com necessidades educacionais especiais em seu processo de ensino, de aprendizagem e de socialização.

Também devemos ressaltar que o computador é um mecanismo interativo, dotado de informações. Com o computador, o aluno é capaz de acessar várias informações e, ao mesmo tempo, analisá-las e questioná-las, em um processo de construção do conhecimento. Valente (1991, p.17) destaca que, “[...] a função do aparato educacional não deve ser a de ensinar, mas a de promover o aprendizado”.

A comunicação com a máquina dá a alguns alunos uma maior segurança, podendo sobressair nas atividades propostas, serem audaciosos, mostrar-se diante da máquina despidos de insegurança. A interação com a máquina pode ajudar a alcançar o desenvolvimento intelectual que às vezes não conseguem atingir de maneira natural, ou seja, em sala de aula. Para Santarosa (2001, p. 7) o ambiente computacional de aprendizagem deve ser um espaço aberto à construção do conhecimento não apenas cognitivo, mas também sócio-afetivo.

Informática na educação em um processo de aprendizagem e inclusão

No mundo informatizado interligado por máquinas de informação, nada mais normal e necessário do que adequar a escola a este processo tecnológico.

Sabemos que o computador, quando utilizado pelo professor como ferramenta que estimule cognitivamente a criança ou o jovem, pode trazer benefícios como, por exemplo, o acesso mais rápido às informações atualizadas: à medida que os professores e os alunos utilizam-se dessa tecnologia, abrem-se novas perspectivas de desenvolvimento, interação, comunicação e crescimento interpessoal/intrapessoal (MACHINI; SILVA, 2002, p. 47).

A informática educativa tem contribuído na aprendizagem escolar e a função do professor tem sido motivar o interesse e a construção do conhecimento. Portanto, o professor com sua formação e interesse pode ser a peça primordial deste processo. “O aluno deve ser desafiado, para que deseje saber, e uma forma de criar este interesse é dar a ele a possibilidade de descobrir” (BOCK, et al, 1995, p.107).

A todo o momento estamos expostos a atos e efeitos que nos levam à aprendizagem não somente da leitura e da escrita, mas promovem a agilidade, o comando, a tentativa e o erro ou o ato de experimentar. O desenvolvimento de tais capacidades pode contribuir no processo de aprendizagem e também de interação social. O aluno, diante das atividades que realiza no computador explora bem mais seu intelecto, do que nas atividades propostas em sala de aula. Cabe ao professor motivá-lo e promover meios para que ele se interesse e busque resolver seus impasses, suas dúvidas e progrida. Este processo fará com que o aluno pense, elabore e aja, havendo, portanto, desenvolvimento cognitivo.

Neste sentido, o aluno deve ser, a cada dia, trabalhado, motivado e a informática educativa pode contribuir como uma ferramenta pedagógica fundamental no processo do desenvolvimento do ser pensante, mais ainda quando este ser é um aluno com necessidades educacionais especiais.

Outro elemento importante, que não se deve esquecer sobre a informática na educação, é que há um processo de inclusão destes alunos. Hoje, com o avanço tecnológico e a conscientização de que devemos nos adaptar ao aluno com necessidades educacionais especiais e não fazer com que o aluno se adapte a nós, o computador pode ser um objeto de igualdade, pois o mesmo não exclui como a sociedade desinformada faz.

A falta de desenvolvimento destes alunos pode estar especialmente ligada à exclusão social e não tanto à questão biológica como já vimos. O organismo, quando se depara com um órgão deficitário, logo procura um meio de compensar essas funções, sendo essa compensação criadora do desenvolvimento.

A escola, ao estar voltada para as necessidades de interação social que esses alunos precisam para alcançar o desenvolvimento, preocupa-se com as suas peculiaridades especiais, com o intuito de alcançar o objetivo comum que é a educação. Entretanto sabemos que se trata de alunos que possuem dificuldades de aprendizagem, mas que querem aprender, e, de fato, se usarmos recursos pedagógicos que os envolvam, certamente alcançaremos os objetivos da educação. Decorre daí a importância de não julgar o aluno com necessidades educacionais especiais apenas pelos aspectos de sua deficiência e sim pelas áreas íntegras que possui.

Santarosa (2001, p. 8) destaca que o cooperativismo e a colaboração propiciados pela informática abrem possibilidades de desenvolvimento cognitivo por meio da comunicação, da linguagem e de dimensões sócio-afetivas. Neste sentido, os alunos com necessidades educacionais especiais realizam a interação mais facilmente com outras pessoas promovendo a inclusão. A informática pode ser para o professor um recurso pedagógico importante para o aprendizado do aluno no processo de desenvolvimento social.

Desenvolver os recursos necessários por meio da informática educativa, trará uma maior acessibilidade e neutralizará as barreiras que estes alunos encontram, permitindo a eles ambientes ricos de aprendizagem, maior interação com a máquina e com outras pessoas e estará possivelmente combatendo os preconceitos dos quais são vítimas. Quando são possibilitadas a interação e a aprendizagem, explicitando suas idéias, estarão, também, investindo em outra função, ou seja, seu relacionamento melhor com os outros. Quanto mais este relacionamento cresce mais se descobrem diferenças e, por conseguinte, que as diferenças existem entre todos os seres vivos.Assim, o aluno com necessidades educacionais especiais terá a possibilidade de lidar com as diversidades encontradas de uma maneira mais clara e objetiva.

Internet e Computador portal de desenvolvimento social e de aprendizagem

A Internet, na atualidade, é o meio mais rápido de informação e se constitui em um veículo igualitário para todos os alunos. O processo de navegação on-line resgata neles um afloramento de suas potencialidades e promove um ambiente de aprendizagem. No computador o aluno registra por meio do software Escritor sua produção textual, derivada de sua pesquisa e de ações on-line.

Por meio da Internet e do software Escritor foi desenvolvido o projeto de ensino com seis alunos com necessidades educacionais especiais de uma escola estadual de Maringá. Estes alunos estão buscam ou trocam informações por meio do correio eletrônico e ao mesmo tempo procuram informações sobre qualquer que seja o seu interesse pessoal, via Internet. Essas ações desenvolvidas, conjuntamente, possibilitam o aperfeiçoamento da leitura e também da escrita destes alunos.

Este projeto teve início durante a prática de ensino devido ao interesse despertado pelos alunos depois de algumas visitas feitas ao laboratório de informática da escola. Ressalta-se que a maioria dos alunos desta turma nunca tinha tido contato com o computador. Ao ser indagada sobre a não freqüência desses alunos ao laboratório de informática, a professora destacou a carência de profissionais habilitados para atendê-los. Assim, decidimos possibilitar o acesso dos alunos ao laboratório, com a finalidade de planejar e implementar ações pedagógicas para que se conscientizassem de que, acompanhados pelo professor, seriam capazes de realizações, mesmo com suas limitações e diversidades. Esse foi um desafio que aceitamos enfrentar enquanto participantes de um curso de formação de professores.
Por acreditar que o computador não produz exclusão e que, por meio dele, estes alunos poderiam ser beneficiados é que implementamos as atividades deste projeto. As atividades levadas a efeito por meio do computador, foram: acesso à Internet como meio de pesquisa e para a troca de informações, com a finalidade de promover a interação com outros indivíduos, utilização do software Escritor, no qual registraram pequenas anotações, em um diário de aula.

Partimos do princípio de que a necessidade de comunicação seria o motivo gerador da leitura e da produção textual para que os alunos aumentassem, progressivamente, seu interesse e sua participação nas atividades. Neste sentido, Santarosa (2001, p. 8) destaca que “os seres humanos ampliam tanto mais rápido e poderosamente seu campo de interação quanto mais interconectados estiverem entre si, salientando que os recursos da Internet abrem mais a nossa mente".

O mesmo acontece com a Internet, quando trocam e-mail, sentem-se mais livres para falar de si mesmos ou de fatos que ocorreram. A produção de um e-mail faz com que os alunos enfrentem os desafios de escrever, além do mais, cresce neles a motivação de realizar suas tarefas de leitura e escrita. Estávamos conscientes de que as ações pedagógicas no laboratório de informática proporcionariam mais desenvolvimento cognitivo que, por sua vez, elevariam o conhecimento dos alunos envolvidos no processo de ensino e de aprendizagem.
As conversas on-line possibilitaram um envolvimento coletivo, pois nas trocas de informações, visualizou-se um trabalho de cooperação, em que, um ajudou o outro. Conseqüentemente, cresceu entre eles um sentimento sócio-afetivo que contribuiu de forma positiva para o processo de aprendizagem dos mesmos. “A interação social e a colaboração entre os colegas foram essenciais para o desenvolvimento e a aprendizagem dos alunos” (WADSWORTH, 1997, p.173).

O ambiente de aprendizagem colaborativa fez com que os alunos com necessidades educacionais especiais pudessem descobrir que possuíam algumas limitações, como a falta de destreza na escrita e de uma leitura mais fluente, mas foram instigados a vencer as mesmas, encontrando caminhos alternativos, como a ajuda de um colega nas tarefas, a facilidade em encontrar as letras e números no teclado, a motivação visual por meio de cores e efeitos, e outros.

As conversas on-line já não acontecem somente entre pessoas tidas como “normais”, mas também estão presentes em uma parcela significativa de pessoas que apresentam necessidades educacionais especiais.

Este grupo viveu o que todos os alunos ditos normais querem, comunicar-se com o mundo exterior, promovendo um intercambio de informações. Neste sentido, Valente (1991, p. 64) apresenta sua contribuição ao defender que “antes mesmo de sentir necessidade de desenvolver-se intelectualmente, o indivíduo deficiente tem a grande necessidade de se comunicar com o mundo tanto de imitir quando de receber informações do mundo exterior. E o computador tem desempenhado um importante papel nesta área”.

Se as pessoas que apresentam necessidades educacionais especiais são excluídas por serem indivíduos improdutivos, por meio da educação essa exclusão pode ter fim. Isto porque os alunos com necessidades educacionais especiais podem ter suas limitações, mas se forem acompanhados e atendidos em suas necessidades, de alguma maneira poderão tornar-se pessoas produtivas que merecem respeito e dignidade. Estes alunos necessitam e têm direitos a recursos especiais garantidos por lei, isso possibilitará que eles possam desenvolver suas potencialidades, tanto nas atividades de formação profissional, como na comunicação, no lazer e na educação.

Resultados alcançados:

Desde o início do projeto tínhamos expectativas positivas quanto a aprendizagem dos alunos. Durante o processo, a cada encontro com os alunos esta se tornava maior, pois a cada atividade realizada atingíamos um novo estágio de desenvolvimento. Os encontros no laboratório de informática eram esperados com ansiedade pelos alunos, este fato fazia com que eles aproveitassem mais os encontros. Com a liberdade que tiveram e o trabalho realizado para elevar sua auto-estima e confiança, fizeram com que estes alunos superassem as dificuldades iniciais.

No início estes alunos apresentavam: dificuldades na leitura e escrita, com isto registravam pequenas produções com muitos erros gramaticais, alguns dos alunos devido a má-grafia se recusavam a escrever. Entre eles percebia-se um vocabulário limitado e dificuldade na comunicabilidade.

O objetivo de desenvolver a leitura e a escrita dos alunos foi alcançado com êxito, não apenas atingiram um nível maior de leitura, como também os que não sabiam ler se sentiram encorajados e apoiados pelo computador. Puderam experenciar ações pedagógicas para aprender a ler e escrever. Isto fez com que os alunos aumentassem as suas produções textuais e corrigissem a gramática. Eles se preocupavam com a ortografia, não queriam enviar e-mails que os destinatários não pudessem compreender. A vergonha da má-grafia que fazia parte do seu cotidiano escolar foi superada nas atividades com o computador. Livres da cobrança de uma “letra bonita” sentiam-se livres para produzir um texto e, por isso escrever. O que no início eram pequenas frases, gradativamente passaram a ser maiores, como escreviam mais, o medo de escrever passou a ser menor.

Ajudavam-se mutuamente, portanto a interação e a socialização estiveram presentes nos encontros, mesmo com suas limitações procuravam atender os colegas. Os alunos sempre se mostraram satisfeitos porque também percebiam o próprio desenvolvimento. Os e-mails que, no início do projeto, eram trocados entre eles, passou a tomar dimensões mais amplas. Então participaram de chat de pesquisa, enviaram e-mail para autoridades escolares (diretor, orientador), programas de televisão entre outros.

No ambiente de aprendizagem, percebeu-se o respeito, a disciplina, o querer aprender. Os sonhos que fazem parte de suas vidas são, de fato, iguais a de qualquer aluno. No computador e na Internet nos mostraram que podiam realizar as atividades como os alunos considerados “normais”.

Outro dado importante foi a receptividade da direção e dos professores da escola. As escolas estão, gradativamente, montando ambientes informatizados, mas deparam-se com a dificuldade dos professores em desenvolver projetos com o uso da tecnologia. Desta maneira a direção, a orientação e os professores solicitaram que o projeto atendesse a outros alunos e que fosse ampliado para mais um ano.

Portanto, por meio do projeto vivenciamos ações pedagógicas com pessoas que apresentam necessidades educacionais especiais que permitiram a aprendizagem do ato de ler e escrever, comunicar-se, participar como cidadãos incluídos digital e socialmente. É importante considerar que durante um tempo determinado esses alunos especiais foram tratados como um grupo fechado e marginalizado. Porém hoje as discussões e reflexões neste sentido, procuram reverter às concepções de que a pessoa com necessidades especiais não conseguem aprender ou interagir socialmente.


REFERÊNCIAS:

BOCK, A. M. et al. Psicologias: Uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Editora Saraiva, 1995.
CAVALCANTE, M. A escola que é de todas as crianças. Nova Escola. São Paulo: Editora Abril. n. 82, p.40-45, 2005.
CORBUM, P. et al. Informática na educação. Rio de Janeiro: Livros técnicos e científicos editora ltda, 1988.
FILHO, GALVÂO, T. Educação especial e novas tecnologias: construindo sua autonomia. Integração. Brasília: secretaria da educação especial. ano13, n.23, p.24-27, 2001.
MACHINI, F.C, SILVA, M. B. S. A contribuição da informática e das experiências de aprendizagem mediada no processo de ensino-aprendizagem. In: Encontro de Informática Educativa da UEM, II, 2002, Maringá. Anais...Maringá
SANTAROSA, L. M. C. Integração. Brasília: secretaria da educação Especial. ano13, n. 23, p. 6-13, 2001.
VALENTE, J. Liberando a mente: computadores na educação especial. Campinas: Gráfica central da UNICAMP, 1991.
WADSWORTH, B. J. Inteligência e afetividade da criança na teoria de Piaget. Fundamentos do construtivismo. São Paulo: Pioneira, 1997.

Delton Aparecido Felipe: Mestrando em Educação pela Universidade Estadual de Maringá/Paraná
Paula Edicléia França Bacaro: Mestranda em Educação pela Universidade Estadual de Maringá/Paraná. bacaropaula@gmail.com
Anair Altoé: Doutora em Educação/PUC-SP; Docente do Programa de Pós- Graduação da Universidade Estadual de Maringá/Paraná. ddelton@gmail.com