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As
Aventuras de Pinóquio: Autora: Michelle Brugnera Cruz Resumo Introdução A
história de Pinóquio inicia com Gepeto sonhando em ter uma
marionete e não um filho. Uma criança com a qual possa fazer
o que bem entende, manipular e se divertir. Esse aspecto do conto retrata
a relação que podemos estabelecer entre a dicotomia dos
objetivos da escola e da família. Pensando
a infância e a família: a formação do sintoma
na aprendizagem Para pensar a família como um dos agentes formadores do sintoma na aprendizagem, elaborou-se um desdobramento teórico sobre a infância e a família, pois se acredita que é nas interfaces dos âmbitos social e cultural que estão algumas chaves para se encontrar respostas para a patologização da infância na contemporaneidade. Para Roudinesco (2003), há três grandes períodos da evolução da família: primeiramente a família tradicional que visa assegurar a transmissão de um patrimônio, está pautada em uma ordem de mundo imutável e inteiramente submetida a uma autoridade patriarcal, ligada à religião e ao Estado. A família moderna rompe com o paradigma do divino e do Estado, fundamenta-se no amor romântico, sanciona a reciprocidade dos sentimentos e do prazer por meio do casamento, há uma divisão desigual de trabalho e poder entre os esposos. Na família contemporânea, a mulher conquistou novos espaços e o poder não é mais tão desigual. O poder familiar diminui colocando a família não mais como o centro da vida dos sujeitos. A revolução feminista e o patriarcado marcaram as formas de se relacionar. Atualmente, vemos a busca de novas formas de relacionamentos entre pessoas com o mesmo patamar de poder, homem e mulher. O avanço da democracia implica patamares equilibrados de poder e a solidez dos relacionamentos modernos estava pautada na desigualdade de poder. Aí está a dificuldade dos relacionamentos, a dificuldade da democracia e a dita crise da masculinidade. A família atual, em que a mãe pode controlar sua maternidade, restituindo seu poder, tomando novo papel na sociedade, enfraquecendo cada vez mais o poder masculino, tem gerado configurações familiares sintomáticas, que se refletem nos filhos e tem que ser manejado e trabalhado nas escolas por professores, pedagogos, assim como na clínica por especialistas. Da mesma que a família se modificou ao longo da história, a infância também se configurou distintamente, através dos diferentes significados e concepções que lhe foram atribuídos. Ariés (1978) faz um histórico antropológico das concepções da infância. No Neolítico e na Paidéia helenística da antiguidade clássica, pressupunham uma classe de idades da vida, uma diferença e uma passagem entre o mundo das crianças e dos adultos, uma passagem que era realizada por meio da iniciação ou da educação. A civilização medieval não concebe essa diferença e, portanto, não possui essa noção de passagem. Na Idade Média, no início dos tempos modernos, e por muito tempo ainda nas classes populares, as crianças misturavam-se com os adultos. Assim que eram consideradas capazes de dispensar a ajuda das mães ou das amas, pouco depois de um desmame tardio, aproximadamente aos sete anos de idade. Nesse momento histórico, não havia lugar para o setor privado. O movimento da vida coletiva arrastava numa mesma condição as idades e a vida social, sem deixar a ninguém o tempo da solidão e da intimidade. No modo de produção feudal, o trabalho tinha um caráter coletivo. O trabalho e o lazer se desenvolviam no mesmo espaço. A mudança do caráter formativo medieval está relacionada à mudança do feudalismo para o capitalismo. Nos tempos modernos, a família, a escola afastam a criança da sociedade dos adultos, há o advento das famílias, das casas divididas em cômodos, o início da vida privada. A escolaridade tornou-se fundamental para as crianças e jovens, pode-se dizer que daí provém o nascimento do aluno. Na modernidade, segundo Ariés (1978), o sentimento de infância se divide em dois conceitos: a paparicação e a exasperação. A paparicação está relacionada ao novo sentimento das famílias quanto às crianças. A criança é vista como um ser inocente e puro. A exasperação é um sentimento da concepção eclesiástica em que a criança é um ser imperfeito e incompleto, que necessita ser educado. Nessa concepção há um sadismo pedagógico com a utilização do castigo físico através da palmatória e do chicote, por exemplo. O Renascimento e a Pedagogia Humanística também influenciaram para a criação de uma forma mais humana e culta de educar e instruir a criança. No entanto, o corpo foi alvo de disciplinamento durante muito tempo e em todas as classes sociais, pois as crianças eram vistas como seres incapazes de aprender sem o uso de castigos. Com a Revolução Industrial, era necessária uma educação que atendesse às necessidades da moderna produção das fábricas.A escola e seus processos foram organizados de modo a transformar as salas de aula em lugares apropriados para naturalizar as relações sociais capitalistas, utilizando o modelo fabril. A escola tornou-se o espaço para constituir normas regulamentos que visassem o domínio e a submissão dos impulsos naturais de crianças e jovens e sua orientação para o trabalho. O objetivo é manter as crianças sob o olhar vigilante do professor o tempo suficiente para refrear o seu caráter e dar forma ao seu comportamento. Dessa
forma, a infância e a classe social nasceram no mesmo tempo, no
final do século XVII, e no mesmo meio: a burguesia. Dessa forma, há uma dicotomia entre escola e famílias e conceitos diferenciados quanto ao tratamento das crianças. Segundo Bauman (2004) esta é uma época em que um filho é acima de tudo um objeto de consumo emocional (p. 59). Isto fez com que os pais transformem-se em consumidores importantes desde a concepção à vida escolar dos filhos no afã de proporcionar-lhes bem-estar. O filho é visto como satisfação e por isso buscam-se determinadas obrigações e precauções tendo em vista que o futuro gênio merece o melhor. O adulto que teme perder o afeto da criança será condescendente com seus desejos e não terá autoridade na hora de corrigi-los. O amor pelos filhos já não é visto como uma ordem disciplinadora, mas de satisfações que o investimento feito deve outorgar. Essa dicotomia entre os objetivos da família contemporânea e da escola quanto à educação da infância é geradora de conflitos e angústias. Assim como ao conceito de infância está relacionado com o surgimento da escola, como um espaço para a criança, não é por acaso que o espaço escolar seja o local em que o sofrimento infantil seja sinalizado. O problema na aprendizagem é um sofrimento da infância contemporânea, uma patologia produzida pela sociedade e pela cultura. Segundo
Bossa (2002, p. 59): Culturalmente,
os conceitos de aluno e infância se confundem, uma vez que a tarefa
primordial das crianças é aprender. A não aprendizagem,
ou a falha nessa tarefa, gera conseqüências severas sob a criança,
principalmente, o sentimento de rejeição. Problematizando
o desenvolvimento do julgamento moral nas crianças Piaget (1994) realizou um estudo sobre a gênese do julgamento moral na criança. Segundo Piaget (ibidem), as normas, valores e padrões morais não são simplesmente transferidos para a consciência da criança, não é através do reforço social e da imitação que levará a criança è conformidade normativa, já que a assimilação implica uma reorganização estrutural do exterior. Assim como o desenvolvimento cognitivo, o desenvolvimento moral possui bases na ação do pensamento da criança sobre as questões morais. Para
Corso e Corso (2006) Dessa forma, cada criança irá construir o julgamento moral a partir de suas experiências e através do desenvolvimento cognitivo, não tendo um caminho único e ideal. Nos estudos de Piaget (1994), através dos jogos com regras, como o jogo de bolita, identificaram-se duas moralidades: a Heterônoma a Autônoma. A moral heterônoma representa um tipo de código moral autoritário, que não possui caráter racional, imposto pelo adulto, diz respeito às tradições e ao sagrado. As restrições impostas pelos adultos, as restrições morais e o realismo moral caracterizam a moral heterônoma. O julgamento do que é correto diz respeito à obediência às regras e leis dos adultos. A criança é marcada pelo comportamento egocêntrico, pela visão unilateral dos acontecimentos, podendo percebê-los somente a partir do seu ponto de vista. Quaisquer mudanças nas regras são consideradas erradas. Na moral heterônoma, o errado deve ser punido na mesma proporção do erro. A moral autônoma representa a igualdade, a democracia que se desenvolve no próprio convívio das crianças. É marcada pela cooperação, pela responsabilidade subjetiva. O respeito unilateral é substituído, gradualmente, pela idéia de mutualidade, proporcionada pela cooperação no relacionamento entre as crianças e os amigos e colegas. A reciprocidade é fundamental para a autonomia que, segundo Corrêa (2000) surge apenas quando o respeito mútuo é bastante forte para fazer com que o indivíduo sinta o desejo de tratar os outros como gostaria que estes o tratassem.(p. 54) Para a moral autônoma, o julgamento do que é certo resulta da consideração da situação em que a ação está ocorrendo, dessa forma, as normas passam a ser vistas como construções das pessoas, como sendo flexíveis. Poder se colocar no lugar do outro, descentrar-se possibilita a percepção e a coordenação de diferentes pontos de vista. Para que ocorra um desenvolvimento da moral heterônoma para a autônoma (o que não ocorre naturalmente), é necessário uma série de fatores, dentre eles o desenvolvimento cognitivo, através do Realismo Moral e a responsabilidade subjetiva; assim como fatores ambientais ligados aos relacionamentos entre as crianças. Os relacionamentos entre as crianças podem ser de dois tipos: relações com regras impostas pelos adultos, caracterizada pela unilateralidade autoritária do adulto e aquelas relações marcadas pela cooperação e igualdade de condições. As pesquisas de Piaget quanto a moralidade outros aspectos do desenvolvimento infantil foram marcadas pelo seu método clínico, ouvindo as crianças, entrevistando-as. Vinh-Bang (1990, apud. CORRÊA, 2000) procurou fazer uma adaptação do método clínico para a sala de aula, com o intuito de fazer do professor um pesquisador constante, assim como uma forma de intervenção desequilibradora no contextos pedagógicos, em que se proporcione vivências de tomada de consciência das crianças, sempre lembrando que o desenvolvimento moral e cognitivo devem andar juntos para que ocorra uma aprendizagem efetiva. Para
o referido autor, o método clínico na sala de aula deve
ter forma de diálogo e não de crítica: O método clínico também implica respeitar e encorajar o papel ativo das crianças na sala de aula, propor questionamentos e situações problemas que mobilizam a operatividade. É muito importante que cada novo conceito ou conteúdo seja de fato estruturado e pensado, não apenas acrescido. É importante também que os erros, intelectuais e morais, sejam tratados com profundidade, e vistos como um processo de construção que representa uma oportunidade de solução de um determinado problema. O professor precisa saber criar um espaço transicional (WINNICOTT, 1975) em sua relações com os alunos, enchendo sua sala de aula de afetos, carinhos e limites, sendo suficientemente bom. Considerações
Finais As redes de significados definem a forma como a família dá significado para o aspecto intelectual. Muitas dificuldades de aprendizagem se encontram nessas redes de significações em que um conhecimento é proibido. A Psicopedagogia tenta compreender a relação do sujeito com o conhecimento e o significado de aprender para o indivíduo e para a família, que se constrói ao longo do desenvolvimento. A Psicopedagogia buscará interpretar o sintoma na aprendizagem além de tratá-lo. O sintoma é visto como positivo pelo seu sinal de alerta, que anuncia um conflito que o sujeito não pode expressar conscientemente. Através das aventuras de Pinóquio, vemos que é nas interfaces das relações familiares que se estabelecem as primeiras experiências com a aprendizagem e moralidade, e que antes de ir para a escola, antes de aprender, a criança precisa ser. Para Winnicott (1975) a habilidade de fazer é baseada na capacidade de ser. Aprender é atitude, é ousar, é mostrar e comunicar. Antes de fazer, precisamos ter espaço para ser. Antes de ter sucesso na escola, a criança precisa modificar a sua postura diante da vida, tal qual Pinóquio, que mudou o modo de perceber e interagir com os desafios, buscando um espaço em que há lugar para o corpo e o aprender, lugar para a autoria e vivência simbólica, rompendo com a imagem destrutiva que inscreve sua subjetividade. REFERÊNCIAS ARIÈS,
Philippe. História Social da Criança e da Família.
2 ed. Rio de Janeiro: LTC, 2006. Michelle Brugnera Cruz - Professora da Educação Infantil; Orientadora Educacional; Pedagoga, estudante de Psicopedagogia
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