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ALUNOS
COM NECESSIDADES EDUCACIONAIS ESPECIAIS EM CLASSES COMUNS: AVALIAÇÃO
DO RENDIMENTO ACADÊMICO
Vera
Lúcia Messias Fialho Capellini (PPG-EES/ UFSCAR)
Enicéia Gonçalves Mendes (PPG-EES/ UFSCAR)
Apoio: CNPq.
Introdução
Ao
longo dos anos ações vêm sendo desencadeadas com base
na filosofia da inclusão, mas foi na década de 80, que se
evidenciou o surgimento do novo paradigma, visando superar a idéia
do fracasso da integração centrada apenas no indivíduo
deficiente (Jönsson, 1994; Mader, 1997 e Santos 1997). O termo "integração"
vai sendo abandonado por pressupor a reinserção do indivíduo
na estrutura normal da escola e na vida comunitária, sendo que
a inclusão desde o início, visa não deixar ninguém
excluído do ensino regular (Stainback e Stainback,1997).
A inclusão é um processo mundial em crescimento e no Brasil,
é amparado por documentos legais tais como LDB nº 9.394 (Brasil,1996),
Diretrizes Nacionais para a Educação Básica (Brasil,
2001), que estabelecem vários níveis diferenciados de ação,
no que se refere à sua natureza: política, administrativa
e técnica, e que "deve ser paulatinamente conquistada"
(Carvalho 1997).
A
inclusão escolar segundo Aranha (2001) refere-se ao processo de
inserção de alunos com necessidades educacionais especiais
em classes comuns. Isto significa acolher, dentre a diversidade que constitui
esse universo, mais um segmento populacional, que é o representado
pelos alunos com deficiência.
Hoje
a Educação Especial ocupa espaço na literatura, na
mídia, nos congressos, principalmente a partir da Conferência
de Educação para Todos (1990), e posteriormente com a Declaração
de Salamanca, que desencadeou o debate versando sobre o movimento mundial
da inclusão para todos. Na literatura já há conhecimento
produzido suficiente para avançar além do discurso ideológico,
produzindo conhecimento para uma educação inclusiva de qualidade
(Sailor, Gee e Karasoff, 1993; Glat, 1998 e Godoy 1999). Entretanto, no
Brasil ainda estamos longe da Proposta de "Educação
para todos com qualidade", e assim muitas recomendações,
resoluções e deliberações só ficaram
enfeitando o papel e ainda temos no mundo todo, principalmente nos países
em desenvolvimento, altos índices de exclusão social.
Estudos
têm mostrado que crianças com necessidades educacionais especiais
em situações de ensino regular têm melhor desempenho
social e acadêmico, quando comparadas às que só recebem
Educação Especial, destacando a importância da fusão
Educação Especial com a Educação Regular (Stainback
& Stainback, 1992; Strully & Strully, 1996), pois o sucesso deste
processo tende a relacionar-se com as condições oferecidas
e grau de comprometimento da deficiência (Freeman e Alkin 2000).
Resultados dos estudos alegam que as populações com deficiências
mais severas são os maiores entraves para a inclusão escolar(Macmillan,
Gresham e Forness, 1996; Fox e Ysseldyke, 1997). Autores como Sailor,
Gee e Karasoff (1993) e Thompson, Wickham, Wegner e Ault (1996) enfatizam
que a inclusão pode ser realizada mediante o apoio da família,
iniciando precocemente e colocando os suportes possíveis centrados
na sala de aula comum. Pois "vários modelos de arranjos entre
o professor da sala comum e o professor especialista estão mostrando
resultados expressivos" (Sailor, Gee e Karasolff (1993, p. 10).
Ainda são insuficientes os estudos sobre inclusão, todavia
dentre os publicados, predominam os descritivos e os estudos de casos,
com ênfase maior para a caracterização de serviços
e percepções de profissionais do que para o desenvolvimento
de programas ou estudos experimentais (Miller, Fullmer e Walls,1996 e
Nunes, Glat, Ferreira e Mendes 1998 e 2001). Portanto, pesquisas sobre
avaliação e implementação de estratégias
de ensino são necessárias. É por meio da pesquisa
que se poderá validar empiricamente procedimentos que possam favorecer
os alunos com necessidades educacionais especiais. O aprimoramento das
políticas públicas depende de acompanhamento e avaliação
sistemática, caso contrário atuaríamos no terreno
de suposições que sujeitam as políticas à
fragilidade e descontinuidade.
Beaupré (1997) aponta a importância de se enfatizar a evolução
pedagógica dos alunos integrados. Neste sentido, torna-se um objetivo
imprescindível no processo de inclusão escolar favorecer
a aprendizagem acadêmica.
O objetivo específico deste estudo consistiu em avaliar o rendimento
escolar de 89 alunos com necessidades educacionais especiais, com deficiência
auditiva, física, mental, múltipla e visual, inseridos no
ensino regular, considerando o desempenho escolar desses alunos em classes
comuns do ensino fundamental, do ciclo I (1ª a 4ª série)
da rede pública estadual, jurisdicionadas à Diretoria de
Ensino de Bauru. Esperava-se apresentar a avaliação de um
processo de inclusão de um sistema público estadual do interior
de São Paulo, através de uma amostra representativa de alunos
com necessidades educacionais especiais em classes comuns, em termos de
evolução do rendimentos acadêmico, através
de várias medidas, o que permitirá a utilização
de informações sistematizadas para embasar futuras intervenções,
pesquisas e diretrizes para a política de inclusão educacional.
Método
O estudo foi o desenvolvido em escolas da Diretoria de Ensino da cidade
de Bauru - SP, situada a 324 km da capital (SP), que atendia em 1999 um
total de 69.816 alunos. Neste universo constatou-se um contingente de
179 alunos com necessidades educacionais especiais, distribuídos
em 40 diferentes unidades escolares, dos quais 68 tinham diagnóstico
de deficiência mental (36%), 64 de deficiência auditiva (34%),
16 de deficiência visual (8,5%), 23 de eficiência física
(13%), e 8 de deficiência múltipla ( 4%).
Foram selecionados 42 com deficiência mental (leve a moderada),
26 com deficiência auditiva, 09 com deficiência física,
6 com deficiência múltipla e 6 com deficiência visual,
distribuídos em 20 escolas. Variando a proporção
por categoria, em relação ao universo total de 34% para
a categoria de deficiência física, até 75% para os
casos de alunos com deficiência múltipla.
Sendo a avaliação do desempenho um enorme desafio nos meios
educacionais, optou-se, nesse estudo por realizar uma avaliação
multidimensional baseada tanto em instrumentos padronizados aplicados
pelo investigador, quanto em medidas não padronizadas produzidas
pela professora durante o ano letivo. A intenção do estudo
multidimensional foi de promover uma avaliação do número
máximo possível de habilidades, dentro do período
de tempo delimitado e das condições destinadas à
pesquisa, a fim de melhor aferir possíveis efeitos da inserção
do aluno na classe comum, em termos de rendimento escolar.
Foram coletadas e analisadas medidas de rendimento através da aplicação
dos seguintes instrumentos: a) Instrumento de Avaliação
do Repertório Básico para Alfabetização -
IAR (instrumento de avaliação das habilidades desenvolvidas
na Educação Infantil), o pré-teste foi aplicado no
início do ano letivo (1999) e o pós-teste no primeiro semestre
de 2000; b) Teste de Desempenho Escolar - TDE (itens de leitura, escrita
e matemática, relacionadas ao conteúdo do ciclo I do Ensino
Fundamental), aplicado no primeiro semestre de 2000; c) Roteiro de Observação
do Aluno (ROA), um questionário sobre desempenho escolar preenchido
pelo professor; e d) Boletim Acadêmico (BA), com conceitos atribuídos
pelas professoras no final do 1º semestre do ano letivo 2.000.
Na aplicação dos instrumentos padronizados foram feitas
adaptações a fim de atender as necessidades dos alunos.
Resultados
Das 20 escolas pesquisadas, somente em seis haviam alunos de apenas uma
única categoria de deficiência, as demais recebiam de duas
ou mais áreas.
A idade média dos alunos foi de 10 anos e meio, sendo que entre
as categorias, a idade média variou de 9 a 11 anos e meio. Dos
89 alunos participantes, 50 eram do sexo masculino e 39 do sexo feminino.
Exceto no caso da deficiência múltipla, todas as demais categorias
apresentaram uma proporção maior de alunos do sexo masculino.
Constatou-se que cerca de 84% dos alunos tinham um nível socioeconômico
baixo, cerca de 15% nível médio e apenas 1% nível
alto.
Dos 89 alunos apenas 27 (30%) não iniciaram a escolarização
na Educação Infantil, os demais freqüentaram escolas
desse nível de ensino de um a três anos. O ingresso para
maioria dos alunos no Ensino Fundamental se deu na classe comum (75%)
ou na classe especial (12%). Apenas 13% dos alunos tiveram ingresso nesta
modalidade de ensino, na escola especial, sendo que a maioria dos que
começaram em escolas especiais, também não haviam
freqüentado escolas de Educação Infantil, demostrando
uma tendência de que a escolaridade anterior na Educação
Infantil parece ter favorecido a posterior inserção na Educação
Fundamental via classe comum.
Entretanto, vários alunos após freqüentarem a classe
comum do Ensino Fundamental tiveram um histórico de encaminhamento
para outras modalidades do ensino especial. Do total dos 89 alunos, cerca
de mais de um terço (33,7%) saíram da classe comum para
a classe especial ou para a escola especial. Portanto, dos 66 alunos que
ingressaram na classe comum, 29 (44%) foram posteriormente encaminhados
para classe especial e apenas um para a escola especial. Desta maneira,
pode-se dizer que a inclusão atual se configurava como uma reinserção
na classe comum.
Os alunos estavam inseridos nas três primeiras séries do
ensino fundamental, havendo uma proporção maior de alunos
inseridos na segunda série. Constatou-se na amostra que 47 (53%)
freqüentavam apenas a classe comum, sendo que os demais recebiam
serviços suplementares, ou em salas de recursos, ou de outros tipos
de serviços e em escola especial.
Em relação às medidas obtidas segundo o IAR, embora
a maioria dos participantes, já apresentavam domínio dos
conteúdos da Educação Infantil no pré-teste,
os quais foram ampliados no pós teste em 25%, considerando a amostra
total entre o desempenho dos alunos da primeira para a segunda aplicação,
conforme mostra a Figura 1.
Figura
1 - Evolução do desempenho dos alunos no instrumento IAR
(pontuação média)
O escore total alcançado pelos alunos no Teste TDE, quando comparado
com o resultado esperado para a idade, apresentou atraso para todos os
grupos, contudo optamos por fazer uma análise e discussões
dos resultados baseados em comparações com os escores esperados
para a série que cursavam, nos quais cerca de 86% dos alunos tiveram
resultados inferiores ao esperado. Apenas 8% dos alunos apresentaram desempenho
dentro do esperado para a média e 6% apresentam desempenho superior
à média. As dificuldade foram maiores em relação
às habilidades de leitura e escrita, em comparação
com o desempenho em aritmética. A Figura 2 apresenta o número
de alunos segundo a classificação final do desempenho escolar
no TDE.
Figura
2 - Número de alunos segundo a classificação do desempenho
escolar no TDE global
No Relatório de Observação do Aluno - ROA, computou-se
o número de vezes que o professor atribuiu à criança
respostas negativas, positivas e às vezes em relação
as questões apresentadas no protocolo, referentes ao desempenho
em Língua Portuguesa e Matemática. Considerando a amostra,
os dados apontaram mais respostas "negativas" em Língua
Portuguesa (51%), 34% para as respostas "positivas" e 15% para
as respostas "às vezes". Na Matemática o resultado
apresentou-se de maneira contrária, 50% de respostas "positivas",
31% de respostas "negativas" e 19% de respostas "às
vezes".
Completando os dados obtidos através do ROA, foram analisadas as
descrições espontâneas dos professores sobre os alunos,
contidas nos itens "Aspectos Positivos" e "Outras Observações".
Foi computado para todos os alunos o número de referências
positivas e negativas de cada uma das categorias de informações,
fornecidas pelas professoras. Das 89 fichas preenchidas, 13 professoras
não fizeram manifestações sobre seus alunos nesse
item, que deixado em branco. Em seguida foi calculada a proporção
da citação de cada um dos aspectos, em relação
ao total geral de citações para os 76 alunos para os quais
as respectivas professoras fizeram algum tipo de referência. O quadro
I apresenta a proporção de aspectos positivos e negativos
para as categorias de informações fornecidas pelas professoras.
As referências às características positivas de personalidade,
de habilidades sociais e a disciplina aparecem como aspectos mais freqüentes
na descrição dos alunos com deficiências, pelos seus
professores. Referências positivas sobre a evolução
dos alunos também predominam em relação às
negativas.
Nos aspectos acadêmicos e familiares há predominância
dos aspectos negativos, mas no geral, eles foram menos citados do que
os demais.
No Boletim Acadêmico as medidas representam que: quando o aluno
atingiu acima de 50% dos objetivos propostos recebe conceito satisfatório
(A = Ótimo, B = Bom e C = Regular) e quando o aluno não
atinge 50% recebe conceito insatisfatório (D = Fraco e E = muito
ruim). Percebeu-se muita similaridade na proporção dos conceitos
atribuídos pelos professores aos alunos em relação
à Matemática nos dois anos. De maneira geral, os dados apontaram
maior incidência de "D" (insatisfatório) e "C"
(satisfatório ou médio) em 1999, para a matéria de
"Língua Portuguesa". No ano 2000, houve uma proporção
maior de conceitos "C" para as duas matérias.
Quadro I - Freqüência de respostas das professoras referente
ao relatório de observação dos alunos considerando
pontos positivos e outras observações da amostra total.
|
Categorias
|
Classificação
das respostas
|
%
|
Respostas
mais freqüentes sobre os alunos
|
|
Características
de personalidade
|
Positivas
|
63,0
|
Carinhoso,
meigo, caprichoso, amável, criativo, afetivo, esperto, atento,
esforçado, organizado, participativo. |
|
|
Negativas
|
19,1
|
Temperamental,
desinteressado, desatento, muito emotivo, muito chorão, extremamente
tímido, disperso, desligado, vive no mundo da lua. |
|
Disciplina
|
Positivas
|
38,5
|
Obediente,
educado, tem bom comportamento. |
|
|
Negativas
|
16,8
|
Desobediente,
não tem limites, agressivo, respondão, indisciplinado,
bate nos menores. |
|
Habilidades
Acadêmicas
|
Positivas
|
23,4
|
Gosta
de desenhar, procurar resolver sempre, é estudioso, |
|
|
Negativas
|
26,8
|
Não
está nem aí com nada, escreve em espelho, tem muita
dificuldade na leitura e escrita, não resolve problemas. |
|
Habilidades
sociais
|
Positivas
|
57,9
|
É
muito amigo, se relaciona bem, fez amizades |
|
|
Negativas
|
14,4
|
Se
isola, brinca sozinho, briga muito, fica num canto, não se
mistura, não gosta de ninguém |
|
Família
|
Positivas
|
6,8
|
Melhorou
pois recebe o apoio da família, o pai é bastante interessado, |
|
|
Negativas
|
15,8
|
Família
desestruturada, família não acredita, família
não toma conhecimento, pais brigam, pais deixam faltar muito,
família tem problemas financeiros, |
|
Evolução
na escola
|
Positivas
|
0,5
|
Comparando
com os anos de classe especial melhorou muito, a inclusão é
possível, seu desempenho hoje é melhor que antes, está
se desenvolvendo como os demais, pais ausentes, com suas limitações
está progredindo dia-a-dia. |
|
|
Negativas
|
99,3
|
Se
fosse com uma especialista ele estaria melhor, não temos estrutura
para a inclusão, número de alunos é muito grande,
Se soubesse faria melhor, não fui formada para, não
me perguntaram se eu queria, não alcançou os objetivos,
Já fiz de tudo ele não aprende, não faz nada
de Língua Portuguesa, Já está muito velho, encaminharia
para a SORRI. |
|
Não
se posicionaram 13 professoras(14,6% )
|
Concluindo, percebe-se que os resultados das correlações
entre variáveis independentes (série, idade, sexo, nível
socioeconômico, tempo de escolarização na Educação
Infantil, no Ensino Especial e o acesso à suplementação)
e as medidas de rendimento obtidas através do IAR, TDE, ROA e BA,
variaram entre os diferentes grupos. Os maiores índices de correlações
significativas ocorreram nos grupos de portadores de deficiências
auditivas e físicas, com 14 correlações significativas;
e as menores ocorrências de correlações significativas
ocorreram nas categorias de deficiência visual e múltipla.
O baixo índice de correlações significativas nas
categorias de deficiências múltipla e visual pode ser explicado
pela diversidade das características intra-grupos e também
pelo número reduzido de participantes.
A análise das correlações significativas entre as
variáveis dependentes do estudo, visou a comparação
entre as medidas obtidas no IAR, sendo considerada apenas a segunda avaliação,
no TDE (nos subtestes de escrita, leitura, aritmética e geral),
no BA e ROA (ambos em Língua Portuguesa e Matemática), nas
diferentes categorias.
Observa-se primeiramente que o número de correlações
significativas entre as diferentes medidas, utilizando-se diferentes instrumentos,
variou bastante entre os diferentes grupos.
Comparando-se os instrumentos percebe-se que os resultados do IAR foram
os que menos parecem correlacionados significativamente com as medidas
dos demais instrumentos. Correlações significativas em relação
ao desempenho no IAR apareceram exclusivamente para o grupo da deficiência
mental, com escore em aritmética do TDE, conceitos de Matemática
do BA e em Língua Portuguesa do ROA.
Conclusões
Os resultados do estudo evidenciam que a escolarização em
classe comum para os alunos com deficiências, da forma como vem
sendo feita, pode ser uma condição necessária e benéfica
na perspectiva do rendimento escolar, mas não é uma medida
suficiente para garantir a inclusão escolar e social futura. Entretanto,
a solução alternativa não passa necessariamente pela
exclusão da classe comum e o encaminhamento para serviços
segregados ou de apoio extra-classe, mas sim, em como garantir uma melhora
mais efetiva no rendimento escolar dos alunos na classe comum.
Devemos ser cautelosos para não admitirmos uma idéia falsa
de escola democrática. Ela será cada vez mais democrática,
à medida que a todos acolher, educar e ensinar, respeitando as
diferenças individuais e, principalmente, estimulando o desenvolvimento
da capacidade do aluno em aprender a aprender, independentemente do lugar
que o aluno esteja matriculado.
O desempenho acadêmico, não é a única variável
que deve ser considerada ao se avaliar um sistema inclusivo, porém
não pode ser ignorada, pois ela oferece indicativos importantes
para redirecionar o processo.
Estudos relatam que alunos com necessidades educacionais se beneficiariam
muito mais da escola inclusiva, no caso do Brasil, se houvessem programas
de formação dos professores e implementação
das adaptações de pequeno, médio e grande porte necessárias.
Assim, o sistema político brasileiro ainda precisa tornar sua prática
consistente com seu discurso legal.
Desta forma, percebemos segundo os resultados do presente estudo, que
a política atual de inclusão ainda se constitui numa prática
incipiente, constituindo-se em uma política de reinserção,
pois a maioria dos alunos inseridos em classe comum tem acesso a Educação
Infantil do ensino regular, depois já no Ensino Fundamental são
encaminhados para a classe especial e posteriormente reinseridos no ensino
comum. São, na verdade, práticas que eram comuns dentro
do paradigma da integração, que conforme a literatura apresentada
também não conseguiu efetivar seus princípios, mas
que agora aparecem renomeadas no discurso de "inclusão".
A classe especial como recurso basicamente único de escolarização
para os alunos com necessidades educacionais especiais existente na escola
pública regular, parece não ser a solução.
A sala de recursos como modalidade de suplementação para
se evitar a exclusão da classe comum, também não
parece favorecer necessariamente o acesso ao conhecimento, ou no mínimo,
não é um serviço que beneficie indiscriminadamente
todo tipo de alunado da Educação Especial.
Considerando os resultados em termos do desempenho acadêmico, seria
primeiramente importante que todos os alunos com necessidades educacionais
especiais tivessem acesso a uma boa escola regular de Educação
Infantil, a fim de favorecer a inserção futura bem sucedida
no Ensino Fundamental.
Um fato que chamou a atenção neste estudo, ainda que a grande
maioria dos alunos tenha tido acesso à Educação Infantil,
foi o ingresso tardio na escola considerando que seria indicado para esses
alunos com necessidades educacionais especiais antecipar o início
da escolarização via programas de Educação
Precoce ou Essencial. Talvez a participação nesse tipo de
programa poderia favorecer o rendimento escolar nos níveis subsequentes.
Tais programas de Intervenção Precoce ou Essencial poderiam
ser desenvolvidos em escolas ou creches regulares.
Após a Educação Infantil, seria importante que os
alunos avançassem para o Ensino Fundamental, em função
da idade e sem sofrer retenção sob a alegação
de suas limitações. Pelos resultados do presente estudo,
percebe-se que os conteúdos de Educação Infantil
podem ser dominados pelos alunos com necessidades educacionais especiais,
mas isso não garante um bom desempenho no Ensino Fundamental. Portanto,
não há por que reter para garantir melhor preparo ou prontidão.
Por outro lado, o tempo de permanência no Ensino Fundamental, o
avanço da idade e de série parecem fatores que favorecem
a aquisição de novos conhecimentos para esses alunos. Portanto,
não parece haver também motivos para que eles sofram retenção
nesse nível de ensino.
Enfim, a ênfase para colocação poderia ser sempre
a primeira opção pela classe comum na série compatível
com a idade. Entretanto tal situação não impede que
os alunos matriculados em classe comum tenham acesso a outros tipos de
serviços, pois muitas vezes, dependendo de cada peculiaridade das
deficiências, a suplementação parece contribuir para
um melhor rendimento.
Mendes (2001) aponta que a mera inserção na classe comum
não garante a permanência e sucesso dos alunos. É
importante considerarmos que riscos existem, que cada situação
deve ser analisada sempre considerando todas as variáveis. Acreditamos
que não se trata de eliminar sistemas de ensino, mas sim flexibilizar
mais o uso das diferentes modalidades, de forma a garantir melhor o acesso
ao conhecimento.
A proposta de educação inclusiva deve ser analisada com
base no contexto político, econômico, social e educacional
brasileiro, sem se esquecer de que, num mundo globalizado, muitas vezes
ocorre a tendência ao decalque, à importação
de conceitos e práticas que, antes de possibilitarem um avanço,
uma alternativa, acabam por tornar mais uma experiência frustrante.
Mendes (2001) destaca que:
"Concluindo, poderíamos considerar que no conjunto tais
evidências tem continuamente apontado para a ineficácia e
incoerência do conjunto de princípios e propostas do poder
público para a educação formal de indivíduos
que apresentam necessidades educativas especiais, dado que a grande maioria
dos alunos com necessidades educacionais especiais estão ainda
em nosso país fora de qualquer tipo de escola. Alguns poucos estão
inseridos em classes ou escolas especiais, ou se encontram ao acaso nas
classes comuns das escolas públicas. Tal quadro indica muito mais
uma exclusão escolar generalizada dos indivíduos com necessidades
educacionais especiais na realidade brasileira, a despeito da recorrência
no país da retórica da integração escolar
e mais recentemente da educação inclusiva"(p.12).
Os estudos analisados também mostraram a importância do apoio
mas, parece pelos dados apresentados nesta pesquisa, que nem sempre a
suplementação da forma que está estruturada tem produzido
resultados positivos em relação ao rendimento acadêmico.
As pressões da sociedade por uma educação efetivamente
democrática são essenciais na implementação
de políticas e práticas de ensino que se traduzam na inclusão,
na participação e na construção da cidadania.
Frente a esse novo paradigma educativo, a escola deve ser definida como
uma instituição social que tem por obrigação
atender todas as crianças sem exceção, sendo aberta,
pluralista, democrática e de qualidade. Esta certamente não
é a escola que temos hoje.
Precisamos ter consciência de que processos exclusionários
tão inerentes à vida em sociedade, ocorrem com freqüência
em diferentes cenários e com diferentes populações,
quer seja com o negro, o pobre, o aluno com necessidades educacionais
especiais, etc. Reconhecer tal exclusão, seja ela de qualquer natureza
ou forma, talvez seja o primeiro passo rumo à inclusão.
Há que se decidir por um modelo para a nossa realidade, pois hoje
nota-se divergência até mesmo entre os proponentes da inclusão.
Uma corrente defende a inclusão incondicional no ensino regular
com idade apropriada, sem qualquer tipo de suplementação.
Outra linha defende a colocação em tempo parcial no ensino
regular, com todos os apoios dos serviços especiais sempre que
necessários. Existe também uma corrente que argumenta que
a inclusão deveria beneficiar somente àqueles alunos que
apresentam necessidades menos significativas, que requerem arranjos de
pequeno porte.
Neste sentido, a maioria dos professores com uma formação
deficitária, sentem-se despreparados para tal empreitada, muitos
não tem domínio de como o aluno se desenvolve, de como se
dá o processo de ensino aprendizagem, de práticas que contemplem
a diversidade e o respeito às diferenças.
Ainda assim, vislumbramos possibilidades de melhorar este quadro. As escolas
devem manter abertas suas portas a todas as pessoas, com um projeto pedagógico
que respeite as diferenças, que tenha a idéia da unidade
na diversidade. Não pode haver democracia e segregação,
pois uma é a antítese a outra.
A prática da avaliação da aprendizagem no cotidiano
escolar, deve apontar para a busca do melhor para cada educando, por isso
é deve ser diagnóstica, e não voltada para a seleção
de uns poucos, como ainda se apresenta em diversos sistema escolares.
Neste sentido uma avaliação inclusiva é aquela que
é um instrumento para o ensino adaptativo, isto é, uma avaliação
que facilita e promove a diversificação e a flexibilização
das formas de ajuda educativa que os distintos alunos recebem ao longo
de seu processo de aprendizagem (Coll e Onrubia, 1999).
Desta forma, parece ser um consenso internacional que a avaliação
que se quer praticar é: a) um requisito básico para a melhoria
da qualidade de ensino, à medida que serve de feedback, tanto para
professores quanto para alunos; b) para os professores é uma oportunidade
para refletir sobre o ensino auto avaliando-se; c) poder dar novos rumos
ao curso e d) reorientando a aprendizagem.
Assim entendida, uma avaliação inclusiva é caracterizada
por agir essencialmente, como instrumento regulador dos processos de ensino
e de aprendizagem, ampliando e superando claramente os níveis de
rendimento alcançados pelos alunos, somente como notas. Quanto
ao ensino, uma avaliação inclusiva tem o objetivo de facilitar
para o professor, a adoção de decisões fundamentadas
de adaptação do ensino, tanto no seu planejamento, quanto
no seu desenvolvimento (modificando-se e ajustando-se de acordo com o
andamento da avaliação inicial em função do
que os alunos vão fazendo e aprendendo). Em relação
à aprendizagem, uma avaliação inclusiva tem como
objetivo que os alunos sejam capazes de responder com autonomia e responsabilidade
sobre os seus processos de aprendizagem.
Uma avaliação inclusiva é caracterizada também
pelo fato de que as decisões de ordem social (habilitação,
aprovação, titulação), que são tomadas
a partir dos resultados da avaliação, mantenham a maior
coerência possível com a função predominantemente
pedagógica que deve cumprir. Isso pressupõe que essas decisões
sejam tomadas a partir de um processo de coleta de informações
e de critérios de avaliação coerentes com os princípios
de um ensino adaptativo.
Concordamos com Carvalho (2000), quando afirma que mudanças são
necessárias para se garantir êxito em propostas inclusivas.
Há necessidade de mapear a situação real da população
com necessidades educacionais especiais, para poder traçar metas
a curto, médio e longo prazo.
Uma outra providência muito enfatizada nos estudos é a necessidade
da melhoria da qualidade da formação dos profissionais da
educação (inicial e continuada), juntamente com uma revisão
do papel político - social da escola, juntamente com a provisão
e previsão de recursos, parcerias com os pais e comunidade.
No âmbito interno da escola consideramos que algumas ações
favoreceriam o sucesso da aprendizagem de todos os alunos. As ações
que apresentam sucessos em sistemas inclusivos mostram que é imprescindível
alterações em suas práticas passando desde diminuição
do número de alunos por classe, aprendizado cooperativo, elaboração
de projeto pedagógico, plano individual de ensino, melhoria da
formação profissional, valorização do magistério,
apoios centrados na classe comum e não via suplementação,
com uma pedagogia centrada na criança baseada em suas habilidades
e não em suas deficiências, e que incorpore conceitos como
interdisciplinaridade, individualização, colaboração
e conscientização/sensibilização.
Stainback e Stainback (1999) enfatizam as seguintes ações
para se criar uma comunidade de aprendizes: contrato social, estabelecimento
de um clima de aprendizagem positiva; transmitir/comunicar que a sala
de aula é um ambiente seguro e pacífico; propiciar ambiente
voltado para objetivos acadêmicos, utilizando várias estratégias
de ensino; tomar decisões quanto a alocação e gerenciamento
do tempo e ritmo da atividade.
O currículo deve servir apenas como roteiro para os professores
e tal roteiro deve ser flexível e modificado de acordo com as aprendizagens
individuais. As avaliações são direcionadoras para
a tomada de decisões educacionais e planejamento de ensino. Há
necessidade de avaliação inicial (interesses, motivações,
potencialidades, necessidades acadêmicas, habilidades, etc.). O
ensinar é determinado pelas potencialidades e carências individuais
(Stainback e Stainback, 1999).
O montante de dados produzido neste estudo, possibilitou inúmeras
análises, contudo avaliar a inclusão delimitando ao rendimento
acadêmico, constituiu-se em uma das limitações de
nosso estudo. Deste modo não foi possível analisar os ganhos
na socialização, a opinião dos beneficiários
e família. Portanto, ele serviu apenas para identificar alguns
indicadores, que consideramos importantes de serem considerados numa avaliação
da política de inclusão.
Para dar maior abrangência ao estudo optou-se por adotar medidas
multidimensionais, portanto reconhecemos a limitação da
técnica (rendimento versus os instrumentos que normalmente recebem
críticas).
Por fim colocar a ênfase do estudo na necessidade de avaliar o rendimento,
não significa que ele seja o único aspecto a ser analisado,
mas pelo rigor cientifico fez-se necessário fazer tal delimitação.
Este estudo, entretanto, não se limita a um diagnóstico
do sistema estadual de ensino da região de Bauru, mas tem a intenção
de abrir portas para outras inúmeras questões sobre o processo
de inclusão. Como conclusão geral, podemos apontar que foram
fornecidas evidências suficientes que apontam para um baixo rendimento
escolar da grande maioria dos alunos com necessidades educacionais especiais
inseridos em classes comuns, o processo de ensino-aprendizagem não
está sendo eficaz, prejudicando apropriação do conhecimento
acumulado em nossa cultura para uma inserção social futura.
Em resumo, estamos comprometendo a conquista da cidadania para essa parcela
da população.
É fato que as medidas oficiais de rendimento escolar como o SARESP/SP.
instauradas sistematicamente em nosso país nas redes públicas
de ensino na última década, tem mostrado que o rendimento
escolar abaixo do esperado para a série não é uma
prerrogativa da população com necessidades educacionais
especiais, mas abrange toda a população escolar, incluindo
a rede privada.
Entretanto, como nosso compromisso profissional tem se voltado para esta
população específica, temos que ressaltar o fato
de que o fracasso escolar pode afetar com mais intensidade a população
com necessidades educacionais especiais, menos em função
de suas limitações mas muito mais pelas limitações
impostas pelo nosso sistema educacional. Essa possibilidade pode ser agravada
se a idéia de que a inserção desse alunado na classe
comum do ensino regular visa apenas à "socialização"
for assumida e que o desempenho escolar pode ser desprezado.
Um dado interessante para nossa reflexão, foi a evidência
de que a maioria dos alunos que estão agora em classe comum, e
que engrossam as estatísticas oficiais da "educação
inclusiva" são, na verdade, alunos que tiveram seu ingresso
na escola em classes comuns da Educação Infantil e posteriormente
no Ensino Fundamental, mas que não permaneceram nela, e foram excluídos
dela e encaminhados para o Ensino Especial, especialmente em classes especiais.
Assim, se há para a maioria dos alunos um histórico de inclusão
na classe comum, o que nos garante que a reinserção atual
não vá resultar nesse mesmo caminho de exclusão?
O que efetivamente mudou na classe comum que permita garantir uma inserção
bem sucedida?
A suplementação, da forma como está sendo oferecida,
parece não atender às necessidades educacionais especiais
desse alunado. Precisamos avaliar outras formas de atender às necessidades
dos alunos, pautadas no princípio de um sistema inclusivo, que
poderia beneficiar qualquer aluno independentemente de ter alguma deficiência.
A ausência de apoios ou a presença do apoio fora da sala
de aula não parecem efetivos. Também pouco favorece o aluno
sua retenção, mais do que o necessário, em serviços
de Educação Infantil e no Ensino Especial, sob a alegação
de que ele terá melhor rendimento futuro.
Temos que pensar em como inovar neste cenário. Qual seria o efeito
por exemplo de se oferecer os apoios centrados na sala de aula, sobre
o rendimento dos alunos? Esta nos parece uma alternativa interessante
a ser avaliada no futuro que seria a de investigar, primeiramente como
os apoio da Educação Especial pode ser efetivado dentro
da sala de aula comum, e em segundo lugar como isso influenciaria o rendimento
dos alunos com necessidades educacionais especiais.
O importante é que o resultado do estudo possibilite uma reflexão
da realidade atual visando futuras transformações. As palavras
de Vasquez (1977) ilustram tal situação:
" a teoria em si não transforma o mundo. Pode contribuir
para sua transformação, mas para isto tem que sair de si
mesma. Entre a teoria e a atividade prática transformadora se insere
um trabalho de educação das consciências, de organização
de meios materiais e planos concretos de ação: tudo isso
como passagem indispensável para desenvolver ações
reais e efetivas. Nesse sentido, uma teoria é prática na
medida em que materializa, através de uma série de mediações,
o que antes só existia idealmente, como conhecimento da realidade
ou antecipação ideal de sua transformação"
(p.206-207).
Para se aproximar de ideários inclusivos há que se ter políticas
educacionais que impliquem em tomadas de decisões, em todos os
níveis (político, governamental, social, comunitário,
individual) que reflitam em um sistema menos excludente.
Finalizando, as políticas públicas deveriam adotar um conceito
de educação inclusiva que garantisse o acesso ao conhecimento,
ao desempenho escolar através de um melhor rendimento, e não
apenas a socialização.
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trabalho apresentado no GT:15 Educação Especial
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