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Sentidos
Construídos Sobre a Independência de Jovens com Síndrome
de Down por um Grupo de Pais e Profissionais
Autora:
Evani Andreatta Amaral Camargo
INTRODUÇÃO
Nosso estudo de doutorado surgiu de inquietações ocorridas
durante nossa atuação profissional junto a pessoas com deficiência
mental, especialmente as que diziam respeito ao relacionamento entre pais
e profissionais da área de saúde e de educação.
Durante a construção do trabalho, nosso interesse se direcionou
para a identificação e análise de concepções
que pais e profissionais faziam da deficiência mental e do sujeito
deficiente, bem como para as possíveis reelaborações
a respeito dessas concepções que pudessem ocorrer em discussões
em grupo.
É nossa premissa que a deficiência mental não é
determinada apenas por fatores biológicos, mas é constituída
no grupo do qual o indivíduo que a possui faz parte, já
que é este grupo que dá significado àquilo que é
considerado como deficiência. Dessa forma, o sujeito deficiente
tem a sua identidade determinada pelas concepções presentes
no grupo social ao qual pertence. Do mesmo modo, as pessoas que com ele
convivem, como pais e profissionais da área, significam a deficiência
e as possibilidades dos sujeitos por ela acometidos em função
do grupo social no qual estão inseridas.
Pautando-nos na crença de que a subjetividade se constitui nas
interações sociais, ou seja, nas relações
intersubjetivas e que o sujeito deficiente mental tem com os pais e profissionais
um relacionamento bastante intenso, a hipótese levantada foi a
de que a concepção desses pais e profissionais sobre a deficiência
é fundamental na constituição da subjetividade desses
indivíduos. Por outro lado, as atitudes, reivindicações
e desejos dos sujeitos com algum déficit também influenciam,
se não constituem, as concepções dos sujeitos com
quem eles se relacionam. Desta forma, neste estudo, que é parte
de nosso texto de doutorado, buscamos investigar a construção
de sentidos quanto à independência de adolescentes com síndrome
de Down, elaborada por pais e profissionais em reuniões em grupo
numa escola especial.
Segundo Bakhtin (1997), as pessoas vão se constituindo como sujeitos
nas sucessivas interações, nos diversos espaços discursivos
e, pode-se presumir que a subjetividade se forma pelos "olhos
dos outros". É só ocupando o lugar do outro, o
lugar "de fora" que o homem consegue ver a si mesmo e
iniciar sua constituição enquanto sujeito. Nesta perspectiva,
há sempre um "inacabamento" constituinte, que
é dado pelo lugar que o(s) outro(s) ocupa(m) nas sucessivas interações.
Esse "inacabamento" do sujeito está diretamente
relacionado ao conceito que Bakhtin desenvolve a respeito do excedente
de visão, que seria o que os outros vêem dele e que ele não
vê, como se fosse uma "paisagem de fundo". Assim,
o sujeito, incompleto, só existe nas relações com
as pessoas, as quais definem os limites. Como as relações
são sucessivas e infinitas, não se tem nunca um sujeito
absoluto. Ele é sempre resultado de um passado e uma expectativa
do que pode vir a ser no futuro.
Vyon (1992) também discute a questão da intersubjetividade
e se refere a ela como "... universos de conhecimentos ou imagens
a que os protagonistas reagem, sejam imagens deles mesmos, de seus parceiros
ou da situação. A comunicação se desenrola
dessa forma sobre um fundo imaginário que as ciências sociais
se esforçam em entender através do conceito de representação."
(Vyon, 1992:47). Assim, o indivíduo não reage à situação
objetiva em si, mas à representação que faz dela
e que decorre de conhecimentos precedentes, ou seja, pressupostos culturais.
A representação está relacionada à imagem
que o sujeito faz de si, dos outros, da situação e, por
último, das regras e normas de comportamento do grupo social ao
qual pertence.
Os conceitos sobre subjetividade, intersubjetividade, representação
e indeterminação do sujeito, indicam que as pessoas, e aí
se incluem pais e profissionais, vão se constituindo e se reconstituindo
nas interações que ocorrem ao longo da história de
cada um. Tanto os pais quanto os profissionais vão (re)fazendo
seus percursos a partir dos muitos contatos que estabelecem ao longo da
vida, e as interações que vão se estabelecendo entre
eles certamente também interferem na constituição
da subjetividade de cada um. No decorrer dessas interações
é possível que novas ressignificações sobre
o sujeito deficiente possam surgir. Nesta perspectiva, as concepções
dos pais a respeito da deficiência e do próprio filho podem
ser modificadas a partir dos diálogos com os diversos profissionais
e outras pessoas ao longo de suas sucessivas experiências, e na
relação com o próprio filho. Também a constituição
do sujeito deficiente se estabelece nas interações que ele
tem com os outros e que, numa esfera privada e fundamental, dá-se
com os próprios pais. Desse modo, podemos presumir o quão
importante são as significações que esses pais apresentam
em relação ao filho deficiente, e o quão fundamental
são as concepções da deficiência que os pais
vão elaborando a partir dos contatos com outras pessoas e com os
profissionais ao longo do processo de crescimento do filho.
Vygotsky (1984 e 1987), de modo semelhante a Bakhtin e Vyon, também
atribui à linguagem e à interação social um
papel fundamental na constituição do sujeito. De acordo
com o autor, é imprescindível direcionarmos nosso olhar
para o desenvolvimento enquanto processo que se estabelece nas relações
sociais. Todas as funções especificamente humanas são
constituídas através da vida social, envolvendo portanto
a linguagem e a dimensão histórico-cultural.
Dentro dessa perspectiva, a linguagem tem uma importância crucial
no desenvolvimento humano, sendo seu aparecimento um "marco"
no desenvolvimento da criança (Vygotsky , 1987). A linguagem, como
um sistema semiótico privilegiado, conjuntamente com outros sistemas
de signos (as diferentes formas de numeração, os dispositivos
mnemotécnicos, o simbolismo algébrico, a escrita, entre
outros), tem origem na vida social e, modificando globalmente a evolução
e a estrutura das funções psíquicas, transforma-se
em instrumento psicológico. O homem passa a ver o mundo e a percebê-lo
de acordo com a cultura em que está inserido. Esse recorte do mundo
é elaborado para ele pelas outras pessoas do seu grupo social através
da linguagem, nas diferentes, sucessivas e infinitas interações
sociais que vão constituindo o sujeito ao longo de sua história.
Com respeito à questão da deficiência, Vygotsky (1989)
discorre sobre a importância do recorte do mundo feito para a criança
e para o jovem "deficiente" por seus pais e pela sociedade
como um todo. São as significações e ressignificações
feitas pelos seus pares sociais que os constituem enquanto sujeito. Assim,
um indivíduo com limitações e com um potencial biológico
diferente dos demais pode ter os rumos de seu desenvolvimento alterados
em função do modo como o seu meio social o encara e em função
das expectativas existentes em relação a ele. Nossa sociedade
tem restrições em relação ao que é
diferente, àquilo a que não está habituada. Portanto,
a constituição da pessoa com deficiência pode ser
prejudicada pela quebra da expectativa de seu grupo social, pelo estranhamento
em relação à inteligência desse indivíduo,
pelos preconceitos e estigmas presentes na sociedade frente às
diferenças. Assim, o "olhar" da sociedade irá
influenciar o desempenho da pessoa deficiente. Se o "olhar"
voltado para ela for de incapacidade, provavelmente ela se tornará
incapaz.
Desta forma, para efetivar o estudo, construímos os dados a partir
das interlocuções ocorridas durante um trabalho de discussão
em grupo que realizávamos com pais de crianças e adolescentes
com síndrome de Down, em conjunto com outros profissionais da área
de educação especial. Focalizamos as relações
entre profissionais e pais, com o propósito de identificar de que
modo, nessas relações, a concepção sobre a
deficiência mental, sobre os sujeitos deficientes, suas possibilidades
e potencialidades estavam sendo elaboradas. Além disso, pretendíamos
identificar como os profissionais interferiam nos modos como os pais elaboravam
a problemática da deficiência no seu cotidiano e, em que
medida, a discussão em grupo possibilitaria mudanças nas
concepções citadas.
Assim, os objetivos do estudo foram: identificar como os sentidos a respeito
da deficiência mental e do sujeito deficiente iam sendo construídos,
verificar como os profissionais interferiam na construção
de sentidos dos pais e vice-versa. Além disso, buscamos identificar
como as reivindicações dos próprios sujeitos com
síndrome de Down em relação a independência
podiam interferir nas concepções dos pais e dos profissionais.
MÉTODO
Para o presente trabalho, baseando-nos nos pressupostos teóricos
adotados, analisamos um fragmento construído a partir da fala de
profissionais e pais de crianças e adolescentes com síndrome
de Down, em situação de interlocução. Essas
falas foram gravadas em áudio a partir de um trabalho de discussão
em grupo com famílias de alunos de uma instituição
especial para indivíduos com síndrome de Down. Nesta instituição,
as reuniões eram realizadas com pais que tinham os filhos num mesmo
grau de escolaridade. O fragmento analisado neste trabalho foi retirado
de uma das reuniões de um grupo de pais, cujos filhos tinham entre
10 e 14 anos.
De um total de 14 reuniões realizadas com o grupo no ano de 1995,
selecionamos 7 para organizarmos os dados. Tal seleção foi
feita em função dos assuntos nos quais concepções
a respeito da deficiência mental apareciam mais claramente. Além
disso, também levamos em conta o número de participantes
por reuniões (demos preferência àquelas em que estiveram
presentes um maior número de pais), bem como buscamos fazer uma
seleção de modo a obter reuniões distribuídas
em vários momentos do ano de 1995.
Como já foi apontado, todas as reuniões foram audio-gravadas
e posteriormente transcritas literalmente. Os turnos de fala (enunciados)
foram demarcados a cada mudança de interlocutor e numerados. Esta
demarcação foi feita conforme Bakhtin (1997), para quem
a unidade são os enunciados, com as fronteiras determinadas pela
alternância dos falantes e que garantem a possibilidade de réplica,
com as devidas argumentações e contra-argumentações.
Está também especificado em nossa transcrição
se a fala é referente aos pais ou às profissionais e o nome
de cada interlocutor está em negrito. (Gostaríamos de esclarecer
que os nomes são fictícios, com o intuito de preservar a
identidade dos sujeitos que participaram das reuniões.) Após
a seleção das reuniões, as mesmas foram divididas
conforme as temáticas desenvolvidas pelos participantes. Estamos
denominando temáticas o conteúdo relativo a um determinado
assunto nos sucessivos enunciados.
Após a releitura das interlocuções, elegemos trechos
dessas temáticas, nos quais era possível identificar concepções
a respeito da deficiência mental, do sujeito deficiente, bem como
suas possibilidades e potencialidades. Denominamos esses trechos de fragmentos.
Para o presente trabalho selecionamos um fragmento, no qual a independência
estava sendo discutida, por termos o intuito de identificar quais concepções
poderiam estar subjacentes a ela, bem como estava ocorrendo a construção
dos sentidos relativos a esta questão.
Fragmento:
A discussão está ocorrendo em torno da questão da
independência, mais especificamente, sobre a possibilidade do filho
sair à rua sozinho:
...
16. Elena: .... E também agora, lá em cima, ali na
estrada; não tem uma barraquinha que vende suco? Ele pega a bolsinha
dele e vai lá comprar sorvete sozinho. (risos)
17. Cleonice: Ah! Então ele deve ter comentado alguma coisa
porque o Gustavo falou: - Mãe, você dá dinheiro
para eu ir na padaria comprar pão? (risos)
18. Marina (prof.): E aí, Cleonice?
19. Cleonice: Eu passei, eu passei reto da padaria; - Ai, esqueci,
Gustavo! Eu sei que eu estou errada, gente, mas eu não consigo!
(fala tensa)
20. Marina (prof.): O quê você não consegue?
21. Cleonice: Deixar ele atravessar a rua...
22. Marina (prof.): Ah! Atravessar a rua... E você já
experimentou, você fica do lado, olhando, ele vai sozinho, você
vai...?
23. Cleonice: Não, ele vai, compra sorvete, compra refrigerante,
mas eu tenho que estar do lado; hoje eu tenho que deixar, hoje eu vou
falar pra ele: - Vai lá comprar pão...
24: Léa (prof.): Depois da reunião ela vai, a gente
precisa encorajar ela...
25. Marina (prof.): Vai indo aos poucos, fica na porta da padaria,
ele vai sozinho e compra, aí você vai...
26. Cleonice: Deixei, deixei sozinho atravessar a rua, mas os ônibus
descem que nem uns loucos a rua...
27. Marina (prof.): Ah! Então é perigoso mesmo...
28. Cleonice: ...não deixo mesmo (enfático), mas
quando ele falou, fiquei engolindo em seco. Eu só... - Óh!
Pra Juliana ( dirigindo-se a outra filha, sem SD); falei: - Ju, presta
atenção; o Gustavo quer ir na padaria comprar pão.
Ela falou: - Ai, mãe! (denota receio). E o pior é
que sou eu e ela que fica, né, as duas, as duas pra ficar lá
no pé do coitadinho. Mas hoje eu tenho que deixar...
29. Ana Maria: - A professora falou que era para deixar comprar
pão sozinha! Falei: - A professora falou, mas... Porque
eu deixei; ela foi no supermercado comigo fazer compra e eu deixei a maquininha
de somar com ela e ela somou tudo direitinho; 13 com 13, 0, ponto 85;
e, eu depois eu somava, né, comecei a somar junto, né, senão
minha conta ia lá em cima. Mas ela ia; no começo somou tudo
certinho, sabe, ficou na fila lá do açougue; aí ela
ficou atrás de um moleque; o moleque estava ali; parecia que estava
na fila; eu falei: - É atrás desse menino aqui. E
o homem atrás viu, né, que eu falava pra ela ficar na fila.
A hora que eu olho, o menino não saiu do lugar; a fila andou e
ela atrás do menino, né, o menino só estava olhando
as frutas, lá, sabe. Aí, depois eu voltei lá. Falei:
- Alessandra, três passou na sua frente, filha, esse menino não
estava na fila, sabe. Ela falava: - Vai, vai, pode ir, não
precisa ficar perto de mim. Vai, vai pra lá que eu estou
aqui! Eu falei: - Como, você está aqui, têm
três que passou na sua frente! - Ninguém mais vai passar
na minha frente. Ela falava, sabe. Ficou na fila certinho, me ajudou.
Eu fiquei boba, né, porque... é triste, né, mas atrapalha,
né; e ela ajudou, assim, a carregar as coisas, a lidar com alguma
coisa, sabe, eu fiquei abismada de ver, até eu fiquei surpresa...
(incerteza na voz)
DISCUSSÕES
No decorrer da análise do fragmento, pudemos constatar que as mães
e as profissionais apresentaram concepções a respeito da
deficiência mental que refletem os estereótipos e os preconceitos
enraizados em nossa cultura. Certamente tais concepções
foram constituídas no grupo social do qual os pais e profissionais
fazem parte, tendo em vista que, como apontado por autores como Bakhtin
(1995), Ducrot (1984) e Geraldi (1997), nossa subjetividade decorre das
interações que vamos estabelecendo com nossos pares, não
havendo, portanto, uma unicidade absoluta do sujeito e sim uma reconstituição
constante a partir das interações verbais. Dessa forma,
tanto esses pais como essas profissionais foram construindo seus conceitos
a respeito do sujeito deficiente mental ao longo de suas experiências
e histórias de vida pela representação que se tem
desses indivíduos neste momento histórico.
Como podemos observar, na construção dos sentidos deste
fragmento, fica revelada a ambivalência da mãe Cleonice entre
permitir que o filho "faça compras ou não",
"atravesse a rua independentemente ou não". Tal
ambivalência demonstra a dificuldade da mãe com respeito
à independência do filho. Entre o perigo real para atravessar
uma rua movimentada (pontuado por uma das profissionais e por isso abarcado
nas argumentações posteriores da mãe), e a possibilidade
de fazer compras há uma grande diferença. A segunda situação
não acarreta nenhum "perigo" para o adolescente.
Entretanto, este posicionamento não é comum a todos os interlocutores
do grupo, já que há mães que relatam possibilitar
a participação ativa do filho em algumas situações.
É possível que a história de vida dessa mãe
na relação com o filho deficiente possa tê-la levado
ao receio atual, talvez a mãe tenha sofrido algumas frustrações
frente a determinadas atitudes do filho ou tenha introjetado estereótipos
sociais à respeito da incapacidade do deficiente e isso está
dificultando que ela permita que ele vivencie situações
que o levariam à independência. As concepções
dessa mãe a respeito da deficiência mental, e conseqüentemente
das possibilidades do filho em relação a uma vida mais independente,
foram construídas nas interações sociais ao longo
de sua vida: antes do nascimento desse filho, no momento em que lhe foi
revelada sua síndrome, no decorrer do desenvolvimento, tanto nas
conquistas quanto nas frustrações, bem como a partir dos
olhares preconceituosos do grupo social. Tudo isso, elaborado por essa
mãe pela linguagem, fez com que ela construísse essa imagem
do filho deficiente, que acreditamos que possa ser reelaborada e reconstruída
pelas sucessivas interações, inclusive as das reuniões
que estão sendo analisadas.
Neste fragmento, Cleonice está revelando uma concepção
de descrença em relação às possibilidades
do filho e dos indivíduos deficientes de modo geral. Como percebemos
em sua fala, há a dificuldade e, ao mesmo tempo, o "desejo"
em relação à independência do garoto. Ao mesmo
tempo em que essa mãe parece concordar com a profissional quanto
à necessidade dessa independência, apresenta uma argumentação
extremamente racional para explicar a proteção que dá
a ele. (Marina (prof.): "Ah! Atravessar a rua... E você
já experimentou, você fica do lado, olhando, ele vai sozinho,
você vai...?" Cleonice: "Não, ele vai, compra
sorvete, compra refrigerante, mas eu tenho que estar do lado"; ou
Marina (prof.): "Vai indo aos poucos, fica na porta da padaria,
ele vai sozinho e compra, aí você vai..." Cleonice:
"Deixei, deixei sozinho atravessar a rua, mas os ônibus descem
que nem uns loucos a rua..."). Vemos, então, como o sentido
em relação a independência do deficiente vai sendo
construído durante a interlocução. Neste caso, o
que predomina na fala da mãe é uma visão do quanto
ele é incapaz de realizar pequenas coisas ("... mas eu
tenho que estar do lado..."), embora a profissional tente sugerir
algumas ações para a mãe que talvez pudessem intervir
para a independência desse adolescente.
Inferimos assim que, muitas vezes, quanto à independência,
os pais mostram-se ambivalentes. Ao mesmo tempo em que desejam que o filho
possa agir de uma forma autônoma, impedem-no de realizar ações
possíveis para um adolescente e que encaminhariam para tal autonomia.
Os pais, muitas vezes, parecem tentar impedir os filhos de ficarem expostos
a situações sociais que requeiram maior independência,
acreditando que apresentam dificuldades em se relacionar nesse campo,
ou como se eles fossem incapazes de sofrer frustrações.
Por terem dúvidas quanto à capacidade dos filhos para a
realização de trabalhos ou de ações cotidianas
de forma independente e ao mesmo tempo terem o desejo dessa realização,
esses pais acabam por ter esses sentimentos ambivalentes. Como já
apontamos, as representações dos sujeitos em relação
aos demais está fundamentada nas do grupo social e na intersubjetividade
(Vyon, 1992 e Bakhtin , 1995). Desta forma, os pais estão concebendo
as capacidades de seus filhos de acordo com as representações
do grupo social do qual fazem parte. Esse grupo, muitas vezes, necessita
verificar a competência dos deficientes mentais nas relações
de trabalho ou nas ações do dia-a-dia e os pais tendem também
a comprovar a eficiência e capacidade do próprio filho. De
acordo com Goffman (1988), que discute o papel dos estigmatizados nos
diferentes grupos sociais e suas relações, e de Guhur (1994),
que reflete sobre o lugar do trabalhador na sociedade capitalista e do
deficiente em função das relações de produção,
podemos concluir que as ações do sujeito deficiente mental
tornam-se reduzidas e muito "vigiadas" na comprovação
da eficiência, tanto pelo grupo social como pelos pais.
É importante que os pais consigam falar dos sentimentos experenciados
diante do que o filho não realiza ou da percepção
que têm de imaturidade do deficiente mental, bem como de suas poucas
possibilidades de ações independentes ou mesmo de trabalho,
pois a partir dessa elaboração é que poderão
transformar as próprias atitudes, expectativas e sentimentos em
relação aos filhos. Decorrente disso talvez possam possibilitar
situações de maior independência para os jovens, já
que como apontado por Bakhtin (1995) e Vyon (1992), é só
a partir de ressignificações construídas na intersubjetividade
que temos a possibilidade de reorganizar/rever nossos sentimentos. Acreditamos,
desse modo, que não adianta os profissionais fazerem prescrições
de como os pais devem agir em relação aos filhos, mas sim
possibilitar que esses pais possam tomar consciência dos seus sentimentos
e crenças, e grupos de discussão podem ser um espaço
propício para isso.
Essa preocupação com a comprovação da eficiência
é decorrente da visão neoliberal sobre o homem. Nesta perspectiva,
tanto as capacidades como incapacidades humanas são explicadas
pelas próprias condições individuais e têm
como causas condições orgânicas. Assim, as diferenças
sociais que o sistema capitalista provoca enquanto estrutura econômica
e política são justificadas em função de uma
suposta potencialidade individual e não pela organização
social. Kassar (1999), ao discorrer a respeito da constituição
da subjetividade do deficiente mental reitera que ainda hoje há
posicionamentos científicos de cunho "naturalista/positivo/evolutivo"
(Kassar, 1999: 13) que explicam as dificuldades desses sujeitos por suas
características individuais, inclusive embasando-se nos achados
da neurogenética, que corrobora com a idéia das inadaptações
sociais não como uma falha nas organizações políticas,
mas como uma "fragilidade genética".
Também Duarte (2000) indica que nessas interpretações
cada indivíduo é capaz somente por esforços e qualidades
próprias de construir seu caminho de aprendizado e independência.
Nessas tendências, inferimos nós, retiram do estado e da
sociedade a responsabilidade sobre cada indivíduo, e conseqüentemente
sobre o indivíduo com deficiência mental. Mais uma vez, fica
sob responsabilidade deste último seus sucessos ou fracassos diante
das realizações de autonomia e de trabalho.
Nesta perspectiva, o lugar que o deficiente mental ocupa é o de
"incapaz", necessitando, a todo momento, comprovar a
sua eficiência para que possa ser aceito. Isto decorre das poucas
chances que lhe são dadas para que possa se tornar um sujeito produtivo
e independente. Os pais e, até mesmo os profissionais, compactuam,
sem se darem conta, desta concepção cultural, já
que também eles não possibilitam atitudes independentes
dos filhos ( ou alunos/pacientes).
Esse modo de perceber a pessoa com deficiência mental acaba, também,
por dificultar a internalização por parte dessa pessoa das
regras existentes no grupo social a respeito das manifestações
de independência já possíveis para as próprias
potencialidades. Já que esses indivíduos são vistos
pelos pais e pelo grupo social como crianças, é desta forma
que são tratados, e nesta perspectiva, suas manifestações
de autonomia não são levadas a sério, como também
não são as das crianças em nosso contexto cultural
e histórico.
Mannoni (1995), argumenta que, muitas vezes, diante do filho deficiente,
os pais impendem seu crescimento porque, a partir da independência
deles, deparam-se com suas próprias faltas e dificuldades. Assim,
ao não permitir que o filho tenha experiências de autonomia,
ao não acreditar em suas possibilidades, impossibilitando que se
torne adulto, os pais estariam se preservando até de um vazio diante
da independência que o filho possa alcançar. A questão
é como o indivíduo deficiente vai construir sua imagem de
independência, de capacidade, se as experiências que podem
levar a isso não lhe forem possibilitadas.
Vale apontar, todavia, que o desejo do filho ("- Mãe, você
dá dinheiro pra eu ir na padaria comprar pão?"),
que provoca na mãe a angústia entre permitir/ negar; as
argumentações/ questionamentos /sugestões das profissionais
(...E você já experimentou, você fica do lado, olhando,
ele vai sozinho...); o relato de outras mães a respeito do
que já permitem (...Porque eu deixei, ela foi no supermercado
comigo fazer compras...Ficou na fila certinho, me ajudou), parecem
levar Cleonice a rever e a questionar suas próprias concepções
a respeito da possibilidade de independência do filho ("hoje,
eu tenho que deixar...").
As argumentações da profissional Marina: "O que
você não consegue?" e "... E você
já experimentou, você fica do lado, olhando, ele vai sozinho,
você vai...." desencadeiam, na mãe, angústia
e ambigüidade, que são explicitadas em sua fala: "Eu
tenho que deixar". Entretanto, as argumentações
da profissional parecem não terem sido suficientes para que houvesse,
de fato, uma mudança em sua concepção sobre a capacidade
de independência do filho, como fica revelada na fala: "não
deixo mesmo...". Todavia, alguma desestabilização
parece ter sido provocada em seus sentimentos quando o filho reivindica
algum grau de autonomia ("...mas quando ele falou fiquei engolindo
em seco...").
Assim, a reivindicação do filho ("...mãe,
você dá dinheiro pra eu ir na padaria comprar pão?"),
que desestabilizou os sentimentos dessa mãe nos faz pensar como
o próprio adolescente, com suas experiências, com sua história
pessoal vai interferindo nas concepções dos pais. No caso,
o filho de Cleonice desencadeia em sua mãe conflitos que podem
vir a ter desdobramentos de outra ordem, isto é, desdobramentos
que permitam uma maior independência.
Os pais, de modo geral, vão, aos poucos, possibilitando a independência
do filho; dessa forma, os indivíduos vão se constituindo
como sujeitos autônomos e concomitantemente vão construindo
a auto-imagem nessa direção. Nesse processo, os pais também
passam a vê-los dessa forma. Há, certamente, diferenças
individuais, entretanto, é evidente que as concepções
sobre o quanto permitir de vida independente são construídas
socialmente, permeadas pela cultura que estabelece o que se pode possibilitar
ou não: o que pode um adolescente do sexo masculino ou feminino
fazer; o que pode aquele que trabalha, o que estuda, o primogênito,
o mais novo, o deficiente.
Um aspecto a ser destacado diz respeito àquilo que os pais percebem
como possibilidade do filho, ficando evidente que para permitir a independência,
é necessário crer naquilo que aquela criança ou adolescente
é capaz. É também evidente que os indivíduos
só se tornam capazes se a eles for, de algum modo, permitido que
tenham experiências e isso só ocorre se os outros do seu
grupo social acreditarem em suas capacidades.
Outro ponto a ser observado diz respeito à construção
da concepção sobre a deficiência da outra filha de
Cleonice, irmã do adolescente com síndrome de Down. Embora
mais nova que ele (a garota tem 7 anos), fica revelado, pelo relato da
mãe ("- Ai, mãe". Ela falou. E o pior é
que sou eu e ela que fica, né, as duas, as duas pra ficar lá
no pé do coitadinho..." ) o quanto a garota já
teme, como a mãe, que o irmão saia sozinho e o quanto se
sente responsável por ele. Esta menina está elaborando o
sentido da deficiência e a imagem sobre as possibilidades do irmão
através de sua história familiar, isto é, pelo que
observa no dia-a-dia e, principalmente, pelo modo como a mãe e
o pai significam as ações, sentimentos e realizações
do filho com síndrome de Down. Não podemos deixar de levar
em conta, também, o grupo sociocultural dessa família, isto
é, as outras relações intersubjetivas e as outras
interações verbais que a menina vai vivenciando em companhia
do irmão, as perguntas que lhe são feitas, os convites muitas
vezes evitados, os olhares.... Se analisarmos a fala da mãe "...
as duas pra ficar lá no pé do coitadinho..." é
significativo como fica negada ao filho deficiente mental a chance de
autonomia, ele é cerceado pelos pais e, no caso, também
pela irmã.
Com respeito a isso, pudemos inferir que os irmãos dos deficientes
vão constituindo as concepções sobre a deficiência
em geral e sobre o irmão deficiente em função, principalmente,
das concepções reveladas pelos pais, tendo em vista que
eles são o grupo social primário dessas pessoas. Além
disso, é relevante apontar que os irmãos também estabelecem
suas crenças a partir das outras relações sociais:
na escola, nas festas, em outros lugares que freqüentam, pelas perguntas
que lhe são feitas, ou evitadas, pelos olhares discriminatórios
ou brincadeiras estabelecidas. Assim, os irmãos vão constituindo
e reafirmando ou ressignificando suas concepções nas relações
com os próprios irmãos deficientes mentais e pela história
que vai se estabelecendo nas outras interações. Goffman
(1988) discute o quanto os familiares de indivíduos discriminados
(estigmatizados) sentem-se constrangidos em diversas situações
e por isso têm atitudes ambivalentes e artificiais com os próprios
familiares e com o grupo social, tentando manter "aparências"
nos relacionamentos, vigiando as ações dos irmãos,
filhos, etc. Parece-nos, pelo relato dessa mãe que isto pode estar
ocorrendo com a irmã desse adolescente; assim, os irmãos
dos deficientes mentais, acabam por ter sentimentos e atitudes pré-determinadas
com os irmãos, o que influencia as relações entre
eles, bem como a constituição da subjetividade de ambos.
Como identificado em nossa análise, os pais têm com esses
jovens relações extremamente ambivalentes; isto é,
embora desejem que eles sejam independentes, freqüentemente os protegem
e os poupam, por exemplo, em situações em que vigiam as
suas ações, como nas relações sociais ou nas
de trabalho. Os outros indivíduos do grupo social também
podem manter essa atitude com o deficiente. Assim, se o grupo social mais
amplo e o grupo familiar mantiverem ações ambivalentes ou
vigiarem os deficientes mentais em demasia parece-nos difícil que
eles consigam se constituir enquanto sujeitos independentes e que possam
criar o auto-conceito de autonomia. Se, pautando-nos em Vygotsky (1989),
que coloca nas relações com o grupo social as possibilidades
das pessoas deficientes, vemos a importância da construção
dos sentidos que vão ocorrendo, incluindo o uso das palavras e
os conflitos suscitados, pois acreditamos que, através da linguagem
e sua reflexão, o sentido sobre a deficiência vai sendo elaborado
e reelaborado. Pois, se esses pais e o grupo social não acreditarem
nas possibilidades da eficiência do adulto deficiente, esses indivíduos
também acabarão por constituir uma auto-imagem de incompetência.
Outra mãe, Ana Maria, diferentemente de Cleonice, procura possibilitar
que a filha realize algumas ações independentemente, como
fica revelado em seu relato: "ficou na fila certinho, me ajudou.
Eu até fiquei boba, né, porque... é triste, né,
mas atrapalha, né, e ela me ajudou assim a carregar as coisas,
a lidar com alguma coisa, sabe, eu fiquei abismada de ver, até
fiquei surpresa". Entretanto, nessa fala também podemos
notar a concepção que ela tem em relação à
capacidade/ incapacidade da filha. Ao dizer de sua surpresa frente à
ajuda da adolescente, isto fica evidente. O trecho "...é
triste, né, mas atrapalha..." nos faz supor que em experiências
anteriores a filha atrapalhou... ou que a imagem que ela tinha (construída
socialmente) era a de que a filha atrapalhava ou poderia atrapalhar. O
sentimento de tristeza expresso pela mãe talvez possa ser decorrente
da imagem construída socialmente de que a partir de uma certa idade
os filhos, não mais crianças, não atrapalhariam,
ao contrário auxiliariam os pais em algumas tarefas. Observamos,
no relato dessa mãe, o quanto a linguagem, em sua característica
polissêmica, revela sentidos (e com eles sentimentos e concepções)
que o próprio sujeito que fala desconhece que tem.
Novamente podemos destacar que o fato relatado por Ana Maria parece ter
decorrido de um pedido da própria filha com síndrome de
Down, e também da possibilidade que os pais da garota proporcionaram-lhe
em seu crescimento. É de se supor que durante o desenvolvimento
dos adolescentes, de modo geral, a autonomia vai se constituindo, de um
lado, pela reivindicação dos próprios adolescentes
(muitas vezes vista como "rebeldia") e de outro, pelas
oportunidades que os pais dão ao filho para que isto aconteça.
Acreditamos ser o entrecruzamento desses dois fatores, permeado pelas
regras, pela representação e pelo imaginário do grupo
social ao qual a família pertence, que possibilita o crescimento
e independência do filho. O jovem, em contato com outros adolescentes
e diferentes adultos passa a reivindicar dos pais uma maior autonomia.
Podemos observar isto quando a filha de Ana Maria reivindicou dela que
a deixasse permanecer na fila, fazer as contas, etc (turno 29). Pelo relato
da mãe, levantamos a hipótese que essa reivindicação
decorreu de discussões com a professora na escola ( "-
A professora falou que era pra deixar comprar pão sozinha.").
A fala da professora provocou na adolescente o desejo e a percepção
de que poderia realizar algumas ações de forma mais independente.
Um fato desencadeando o outro: a fala da professora provoca um desejo
na adolescente, a filha reivindica, a mãe possibilita, etc, etc.
Daí decorre o crescimento enquanto pessoa.
Em síntese, observamos nesse fragmento que a primeira mãe
(Cleonice) mostra-se bastante ambivalente entre permitir ou não
algumas ações independentes do filho, e apesar da solicitação
do mesmo acaba por impedi-lo de realizar atividades bastante corriqueiras
e simples (entrar sozinho na padaria). Ela revela, desta forma, não
acreditar na capacidade do filho "deficiente". A outra
mãe, Ana Maria, já permite algumas atitudes a partir da
reivindicação da filha, o que nos faz supor que sua credibilidade
possa ser um pouco maior. Entretanto, também revela em sua fala
uma insatisfação em função das representações
sociais do indivíduo com deficiência, ao dizer que é
triste constatar, mas "os deficientes", muitas vezes,
atrapalham ( "Ficou na fila certinho, me ajudou. Eu fiquei boba;
né, porque... é triste, né, mas atrapalha, né...").
O uso repetido do vocábulo "né" indica
que, de algum modo, parece ser difícil e causar sofrimento para
a mãe admitir isso.
A profissional Marina, nos turnos 20, 22 e 25 questiona os sentimentos
de Cleonice e dá sugestões sobre como agir, além
de fazer comentários a respeito de perigos reais. Sua fala parece
revelar uma crença maior na capacidade dos indivíduos com
síndrome de Down, já que suas argumentações
são semelhantes as que seriam dadas para quaisquer pais.
As concepções das profissionais em relação
às possibilidades da criança e do jovem deficiente parecem
ser mais positivas que as dos pais. Podemos constatar isso, durante os
fragmento, pelas sugestões de ações dadas à
mãe.
Se faz necessário, todavia, considerar que, embora as profissionais
estejam argumentando por maiores possibilidades de realizações
do sujeito deficiente mental de uma forma mais positiva que as mães,
este fato pode ser decorrente do lugar que ocupam nas reuniões,
no qual se defende esse discurso, tendo em vista que suas argumentações
pautam-se em estudos que fazem a respeito da deficiência, bem como
no relacionamento que estabelecem com os deficientes mentais, que é
a de profissional/ paciente/aluno, enquanto as mães pautam-se nas
experiências decorrentes da relação pai/filho, que
é muito mais imbricada de sentimentos, desejos e expectativas,
muitas vezes frustrados.
Finalizando, outro aspecto a ser destacado refere-se à importância
e necessidade de trabalhos com famílias a fim de que possam ter
a oportunidade de encarar os próprios sentimentos e concepções
e, dessa forma, transformá-los, visando um desenvolvimento mais
sadio para o filho e um maior equilíbrio nas relações
familiares. Como apontado por Antino (1998), embora a relação
entre pais e profissionais possam vir influenciadas por relações
de poder nas instituições especiais, se essas relações
forem ressignificadas, desdobramentos positivos nesse relacionamento podem
ser estabelecidos. Nesta perspectiva, o trabalho em grupo nos parece uma
situação favorável, na medida em que possibilita
dar novos significados às concepções estabelecidas,
bem como refletir sobre posicionamentos, sentimentos, e preconceitos.
São nas interações sociais (Bakhtin, 1995,1997) que
os indivíduos constituem-se e modificam significados e concepções.
Desta forma, a construção coletiva de sentidos sobre a deficiência
poderia ser reelaborada em reuniões em que estão presentes
pais e profissionais, já que o saber decorre da ação
interativa entre sujeitos históricos (Vygotsky, 1984, 1989). Portanto,
essas mães, bem como essas profissionais estão construindo
um saber a partir de reflexões que fazem sobre as próprias
ações. Assim, o que pode ser fundamental é que espaços
discursivos de intersubjetividade sejam proporcionados tanto para pais
quanto para profissionais para que reelaborações quanto
às crenças da deficiência possam surgir.
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Especializada. São Paulo: Memnon Edições Científicas
Ltda.
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Paulo: Martins Fontes Editora Ltda.
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Tomo 5. Playa, Ciudad de La Habana: Editorial Pueblo y Educacion.
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