Dificuldades Escolares


Autoras: Karinny Shintani, Leonardo Armond, Vassily Rolim


DIFICULDADES ESCOLARES

Quando a criança chega à escola, traz consigo marcas dos primeiros anos de vida, sob todos os aspectos: biológicos, psicológicos e sociais. E muitas vezes, distúrbios em qualquer um destes aspectos acarretam transtornos que, amiúde, só são percebidos quando a criança chega à escola. Assim, deve-se fazer conjuntamente a abordagem de todos estes aspectos ao se examinar uma criança que apresente problemas de aprendizagem.
 

TRANSTORNOS PSÍQUICOS

A – DESENVOLVIMENTO NORMAL

O conhecimento das formas de conduta típicas de cada idade é imprescindível para poder identificar a natureza dos transtornos. Destacamos a seguir alguns pontos críticos no desenvolvimento da criança:

1º ano: Desmame, aquisição de autonomia, relacionamento primário com a mãe como base do futuro relacionamento social.

2º ano: Andar, aprender a falar, jogar com os próprios excrementos. 2º semestre: Frases formadas por várias palavras. Final- controle dos esfíncteres.

3º ano: Fase de excitação infantil, período de crise, cheio de desejos e temores, onde com facilidade aparecem transtornos neuróticos. A chamada idade da resistência- durante meses continua a inclinação para as cenas de furor e cólera. Fase das perguntas e fantasias mágicas. Masturbação.

5º ao 6º ano: Tranqüilização geral, conduta mais compreensível, período de latência sexual.

Escolar: A princípio, dificuldade de adaptação às exigências de rendimento escolar. Todavia, fixação positiva ingênua dos pais e mestres.

Pré-puberdade: Começa a oposição às autoridades. Idade de leituras, fantasias. Os sexos se distanciam (os meninos se afastam com orgulho das meninas). Ao iniciar-se o desenvolvimento sexual, há com freqüência , masturbação.

Puberdade: Em geral, a maturidade corporal precede a psicosexual. A insegurança interna pode produzir crises.

Ante um transtorno de conduta da criança, é preciso sempre indagar a existência de causas ambientais (como norma, pode-se dizer que a necessidade de psicoterapia da criança é a de seus pais). Não se pode dar uma fórmula geral para a educação correta, um bom exemplo, o acordo entre os pais, amor sem mimo, seriam premissas adequadas de uma correta educação. Mais fácil é dizer o que ela não deve ser despótica, dogmática, em excesso exigente, angustiante, egoísta, irregular, etc.

B- TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO

Um transtorno global do desenvolvimento resulta na distorção do tempo, velocidade e seqüência de muitas funções psicológicas básicas necessárias para o desenvolvimento social. Nos casos mais graves temos a subnormalidade mental, onde encontramos o retardo e a deficiência mental. A diferença é que o primeiro é secundário a causas patológicas subjacentes identificáveis. Nos exemplos de retardo mental encontramos as síndromes (do X frágil, de Noonan, do miado de gato, fenilcetonúria, etc.) e as complicações da gravidez (sífilis, rubéola, abuso de substâncias). E como deficiência mental temos a oligofrenia, o transtorno autista, esquizofrenia com início na infância. Em ambos os casos encontramos funcionamento intelectual geral significativamente abaixo da média (Q.I. igual ou inferior a 70) e prejuízo significativo no funcionamento adaptativo. O tratamento visa a erradicação das perturbações conhecidas associadas a lesão do SNC e auxiliar no desenvolvimento das funções atrasadas ou inexistentes.

Como transtorno grave temos também o diagnóstico de psicose na infância que deve ser suspeitada quando a criança se comporta de maneira chamativa e totalmente distinta do que se esperaria para sua idade e meio ambiente. Tratamento: Psicoterapia associada à administração de tranqüilizantes ou estimulantes, segundo o caso.

Na criança com sentidos íntegros e inteligência normal uma das principais causas de distúrbio do aprendizado é a disfunção cerebral mínima, que é observada constitucionalmente no menino de desenvolvimento tardio ou é conseqüência de inibição por ações nocivas do ambiente (abandono, mimo excessivo, neurose). Tratamento: Estas crianças imaturas receberão estimulação adequada durante 1 ano, seja em escolas especiais ou adequação do ambiente. Nos casos de perturbação neurótica, tratar-se-á a causa.

Os ataques de furor e ansiedade são reações normais nos primeiros anos de vida, mas a partir da idade escolar só se apresentam em situações especiais e casos patológicos.

As depressões reativas no lactente e na criança pequena, quase sempre se devem a um transtorno na relação com a mãe, mais tarde se referem também a outros membros da família. Sintomas de depressão podem ser: aspecto envelhecido e triste do rosto, apatia, irritabilidade, anorexia, regressões.

São freqüentes os transtornos somáticos de origem psíquica (reações de conversão), os quais expressam a tendência do tipo histérico e demonstram o desejo de obter ajuda e atenção dos adultos. De maneira geral, o sintoma vem facilitado por uma enfermidade somática sofrida anteriormente – uma tosse ferina dá lugar a um acesso de tosse, falta de mastigação que representa um medo da deglutição, vômitos (no menino pequeno, na hora de comer, dirigidos contra a mãe, e na idade escolar, pela manhã, devido ao medo da escola), etc.

A neurose de rebeldia se dirige contra os educadores, que cortam a autonomia da criança. A rebeldia ativa se manifesta na forma de agressividade e de fazer exatamente o contrário do que é ordenado. A passiva, na forma de hermetismo e evasão. A criança passiva e apática muitas vezes é considerada boazinha, e assim, pode passar despercebida. Condutas anti-sociais (mentiras, furtos) podem ser devidas à neurose de rebeldia.

O abandono é conseqüência de uma falta de assistência psíquica, amorosa ou educacional. O abandono externo (vestimentas) deve distinguir-se do interno (ético-moral). Pode haver o abandono precoce que origina os sintomas de depressão reativa e o abandono tardio, onde predominam o embrutecimento e instabilidade. O mimo e tolerância excessivos constituem também uma forma de abandono.

A enurese noturna é mais freqüente em meninos e condições de miséria e representa a persistência da imaturidade da primeira infância ou uma regressão quando ocorre após um fase de continência. São causas deste transtorno a angústia, a teimosia, e a excitação sexual (dormir no quarto dos pais ou irmãos do outro sexo). Seu tratamento visa combater a angústia, excitações sexuais e favorecer o amadurecimento e auto-afirmação. A encoprese resume os mesmos aspectos da enurese noturna.

Neurose de angústia – Dada a grande tendência da criança em experimentar angústia, são freqüentes, em caso de transtornos, as crises de angústia, especialmente em situações que ameaçam com o fracasso. Nas fobias, a angústia se apresenta unicamente frente a determinados objetos e situações.

Terrores noturnos – Também como conseqüência da angústia e do desejo de ter a mãe ao seu lado durante a noite, é proporcionado por sonhos e pesadelos reais que estão relacionados com a fase de desenvolvimento cognitivo e afetivo que a criança atravessa. Não se deve recriminar ou ignorar sua existência. O tratamento é a supressão das causas de angústia e o comportamento tranqüilo e realista dos adultos.
 

C – TRANSTORNOS ESPECÍFICOS DO DESENVOLVIMENTO DA APRENDIZAGEM

Incluem os transtornos do desenvolvimento da aritmética, transtorno do desenvolvimento da escrita expressiva, da leitura, da linguagem (expressiva e receptiva), da articulação e o transtorno do desenvolvimento da coordenação.

Estes transtornos caracterizam-se pela respectiva habilidade específica (aritmética, escrita), que medida por um teste padronizado administrado individualmente, está acentuadamente abaixo do nível esperado, dadas a escolaridade e capacidade intelectual do indivíduo (Q.I.). Além disso, tais distúrbios interferem significativamente nas atividades cotidianas que exigem aquela habilidade.

A definição desses transtornos conforme o DSM-IV é: "um funcionamento acadêmico substancialmente abaixo do esperado, tendo em vista a idade cronológica, medidas de inteligência e educação apropriada a idade."

Uma definição de grande consenso foi apresentada pelo National Joint Committee on Learning Disabilities nos EUA em 1988: "Dificuldade de aprendizagem é um termo geral que se refere a um grupo heterogêneo de transtornos manifestados por dificuldades significativas na aquisição e uso da escuta, fala, leitura, escrita, raciocínio ou habilidades matemáticas. Estes transtornos são intrínsecos ao indivíduo, supondo-se que são devido à disfunção do sistema nervoso central, e podem ocorrer ao longo do ciclo vital. Podem existir junto com as dificuldades de aprendizagem, problemas nas condutas de auto-regulação, percepção social e interação social, mas não constituem por si próprias, uma dificuldade de aprendizado. Ainda que as dificuldades de aprendizado possam ocorrer concomitantemente com outras condições incapacitantes como, por exemplo, transtornos emocionais graves ou com influências extrínsecas (tais como as diferenças culturais, instrução inapropiada ou insuficiente), não são o resultado dessas condições ou influências".

Os transtornos específicos da aprendizagem acometem cerca de 6% da população de crianças na fase escolar, dado significativo que justifica uma preocupação com esses transtornos, visando uma intervenção apropriada.

O diagnóstico dos transtornos de aprendizagem é um desafio para o clínico, implica no diagnóstico dos quadros freqüentemente associados a este e está relacionado a processos sociais e estratégias de ensino.

A maioria destes transtornos manifesta-se em torno dos sete anos de idade (segunda série), podendo ser mais precoce ou mais tardio, conforme seja mais ou menos grave. Os casos não resolvidos podem complicar-se com dificuldades acadêmicas contínuas, depressão e frustração, podendo levar a absenteísmo escolar ou transtornos de conduta. Os transtornos do desenvolvimento da articulação e da linguagem manifestam-se por volta dos três anos de idade quando as crianças normais passam a articular corretamente as palavras, e o da coordenação é evidente já na primeira infância, quando a criança afetada começa a tentar tarefas que exigem coordenação motora.

A etiologia dos transtornos específicos do desenvolvimento é multifatorial e desconhecida e o tratamento de escolha é um enfoque terapêutico pedagógico, que se aplicado oportunamente, apresenta prognóstico favorável e recuperação completa. Casos mais leves recuperam-se, inclusive, espontaneamente.
 

D - FATORES SOCIAIS:

Os fatores sociais desfavoráveis também estão implicados na gênese de dificuldades escolares, sendo a família e o ambiente escolar os principais componentes destes fatores.

    1. Na escola

  • Motivação e capacitação do professor, do supervisor e orientador educacional;
  • A interação professor-aluno é essencial, não pode haver discriminação quanto a cor, de condições financeiras baixas;
  • Organização da escola: é fundamental que a escola conheça o seu aluno, porque a heterogeneidade sócio-econômica de nossa população é muito grande, o que provoca diferenças no perfil da criança. Esta estruturação pode tornar o processo escolar mais racional e eficiente na medida em que a metodologia , o conteúdo, o número de alunos per sola, a alocação do professor leve em consideração as características do aluno.
  • O grau de exigência da escola: preocupada com a competitividade, não cria espaço para as crianças, que embora estejam dentro de faixa de normalidade, não conseguem adaptar-se ao ritmo da escola.
  • Participação da família e do educando nas decisões da escola;
  • Capacidade de trabalho em grupo da equipe de educação;
  • Remuneração do educador.
  • Para evitar a formação de salas tão heterogêneas tem-se defendido o conhecimento da criança, anterior à sua entrada na escola. A elaboração prévia de um perfil diagnóstico do aluno poderia permitir a formação de salas mais homogêneas e a adequação metodológica seria iniciada mais precocemente.
    2. Na família
  • Retardo mental leve está associado a ambiente de pobreza e baixo nível educacional dos pais;
  • Nível de exigência muito alto da família, supervalorizando o rendimento escolar e desconhecendo o que a criança pode oferecer;
  • Confusão de métodos: conflito entre o que os pais pensam e a metodologia educacional;
  • A negação da dificuldade escolar em famílias de maior nível intelectual;
  • Pais obsessivamente preocupados com o filho e que, ao menor sinal de dificuldade, deixam-se envolver por uma grande ansiedade;
  • Participação de criança no sistema de produção para melhorar o rendimento da família, como na zona rural em época de colheita, ou na cidade como pedinte, vendedor ambulante e lavador de carro.


ABORDAGEM

Frente a uma criança encaminhada com queixa relacionada à escola, o pediatra deve abordar na anamnese e o exame clínico, além dos aspectos pediátricos, aspectos psiquiátricos e neurológicos simplificados. O exame físico deve incluir testes de triagem para a acuidade visual e auditiva e a avaliação do desenvolvimento . colhidos os dados, o pediatra formulará suas hipóteses diagnósticas, o que o orientará pata a necessidade ou não do encaminhamento ao neuropediatra, pedagogo, psicólogo, psicopedadgogo, psiquiatra infantil, etc., pata completar o diagnóstico e o planejamento terapêutico.

A equipe de saúde que diagnosticar crianças com atraso geral do desenvolvimento precisa comunicar à escola os resultados encontrados para que a equipe da educação possa aplicar os instrumentos psicopedagógicos adequados que possibilitem o desenvolvimento das crianças no contexto escolar.

Um dos grandes desafios na questão da abordagem é o desenvolvimento da capacidade de trabalho conjunto da saúde e da educação. Este distanciamento provavelmente tem contribuído também pata manter as altas taxas de repetência e evasão escolar, uma vez que principalmente as crianças carentes têm recebido um tratamento massificado e indiferenciado. Com certeza, uma equipe multidisciplinar se encarregaria de fazer a diferenciação dos problemas e como conseqüência abriria uma perspectiva para ocorrer o desenvolvimento da criança no contexto escolar.
 

ASPECTOS PREVENTIVOS

A população socioeconômico desfavorecida é a mais atingida pela repetência e evasão escolar. Assim, como a desnutrição, que ainda é alta neste grupo, o atraso geral do desenvolvimento é freqüente. Ambos são conseqüências da pobreza e da miséria. Portanto, seria omissão escrever sobre prevenção sem se referir à política social. Tem sido comum a observação de crianças desnutridas e com atraso de desenvolvimento, provenientes de famílias de migrantes analfabetos e sim qualificação física e mental, freqüentando uma escola sem recursos materiais, com professores mal remunerados e constituída de habitações precárias, sim saneamento e com nenhum ou poucos equipamentos de apoio social. As dificuldades destas crianças podem, até mesmo, ter sido agravadas na escola, mas, na verdade, os seus problemas começaram bem antes da chegada a esta e são contatados nas múltiplas enfermidades, hospitalizações e outras situações de estresse, cujo impacto tem sido múltiplo sobre a saúde sestas crianças.

As equipes de saúde e de educação, apoiadas por uma política mais racional, poderiam atuar preventivamente nos seguintes pontos:

  • Detecção precoce do atraso do crescimento e do desenvolvimento nos Centros de Saúde;
  • Elaboração de trabalho conjunto saúde-educação-comunidade, objetivando uma população-alvo de lactentes e pré-escolares, em creches e pré-escolas;
  • Detecção precoce de crianças que estão com dificuldades escolares e pronta intervenção;
  • Independente da classe socioeconômica, outras dificuldades podem ser diagnosticadas bem antes da entrada na escola, como os transtornos hipercinéticos, os transtornos específicos de habilidades escolares. A intervenção precoce nestes casos pode impedir ou minimizar os seus efeitos indesejáveis.


BIBLIOGRAFIA
 

BEHRRMAN, R.E.; KLEGGMEN, R.M.; NELSOM W.E.; & VAUGHAN III V.C. 1997 - Nelson Tratado de Pediatria. 15 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan,.

FERRAZ, P.G. 1999 – Transtornos específicos do desenvolvimento da aprendizagem: uma revisão teórica. Infanto – Ver. Neuropsiq. Da Inf. E Adol. 7(2):84-90.

KAPLAN, H.; SADOCK, B.J. & GREBB, J.A. 1997 – Compêndio de Psiquiatria. 7ª ed., (cap. 36), Artes Médicas.

LEÃO, E.; VIANA, M.B.; CORRÊA, E.J. & MOTA, J.A.C. 1998 – Pediatria Ambulatorial. 3ª ed., (cap. 12), Cooperativa Editora e de Cultura Médica.

MANUAL DIAGNÓSTICO E ESTATÍSTICO DE TRANSTORNOS MENTAIS IV. 1994 – Americam Psychiatric Association, Artes Médicas.