Reflexões
Sobre o Diagnóstico Psicológico da
Deficiência Mental Utilizado em Educação Especial
Autora: Alexandra Ayach Anache
1. Introdução
Este
trabalho visa refletir sobre o processo de diagnóstico da deficiência
mental e sua implicação para o processo educativo do aluno
(a). Esta etapa se constitui o primeiro passo para o início ou
não de um trabalho especial. Dependendo do encaminhamento, seus
resultados poderão nortear o planejamento de medidas auxiliares
e complementares de um tratamento e de um trabalho educativo.
O Diagnóstico requer estudo sistematizado do sujeito, com uso
ou não de instrumentos específicos, além disso,
consiste numa série de inferências que precisam ser cuidadosamente
formuladas. Tais inferências estão condicionadas à
forma pela qual o profissional organiza e estrutura esse processo.
O processo de diagnóstico da deficiência mental no âmbito
da Educação Especial tem dois objetivos básicos:
identificar e planejar o ensino de pessoas com esta condição.
Para fins de identificação, as informações
servem para subsidiar a classificação e o encaminhamento,
porém os procedimentos adotados de caráter científico
e normativo não têm sido suficientes para tal intento,
assim como difícil e complexo é o conceito de deficiência
mental.
Atualmente, pode-se contar com a nova edição do Manual
Diagnóstico e Estatístico dos Distúrbios Mentais
(Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) - DSM-IV (1995,
p. 39), que traz a seguinte versão sobre retardo mental:
"(...) funcionamento intelectual significativamente inferior à
média (Critério A), acompanhado de limitações
significativas no funcionamento adaptativo em pelo menos duas das seguintes
áreas de habilidades: comunicação, autocuidados,
vida doméstica, habilidades acadêmicas, trabalho, lazer,
saúde e segurança (Critério B). O início
deve ocorrer antes dos 18 anos (Critério C). O Retardo Mental
possui etiologias diferentes e pode ser visto como uma via final comum
de vários processos patológicos que afetam o funcionamento
do sistema nervoso central".
Embora ao nível do discurso alguns estudiosos chamem atenção
para que os valores de QI sirvam apenas como referência, na prática,
isso nem sempre ocorre, pois a maioria das avaliações
dão ênfase aos resultados obtidos nos testes de inteligência,
os quais precisam ser criteriosamente redimensionados, uma vez que ainda
estão baseados em concepções inatistas e na imutabilidade
do QI.
Atualmente, esboça-se a tendência em classificar a deficiência
mental de acordo com o suporte de que a pessoa necessitará. Essa
classificação exige conhecimento das características
do sujeito e das demandas de seu ambiente. Schalock (1999, p.7) apresentou
a definição de quatro tipos de suportes, a saber:
"a) Intermitente: são suportes de natureza episódica,
de curto prazo ou transitório. Eles podem ser de baixa ou de
alta intensidade.
b) Limitado: são suportes consistentes ao longo do tempo, que
podem ser limitados, mas não são intermitentes, podem
requerer uma pequena equipe e custo menor que os níveis intensivos
c) Extensivo ou amplo: são suportes regulares (por exemplo, diários)
e apenas restritos a alguns ambientes, mas não são de
tempo limitado.
d) Pervasivo ou permanente: caracterizam-se por serem constantes, de
alta intensidade, fornecidos em vários ambientes, duradouros,
envolvem uma equipe grande de pessoas, e mais intervenções
do que suportes extensivos ou por tempo limitado".
Esta classificação procura diminuir o peso do rótulo
e conseqüente estigmatização e, além disso,
aponta para a possibilidade de aumentar a crença nas possibilidades
de aprendizagem das pessoas com deficiência mental, na medida
em que os apoios serão baseados nas necessidades individuais
de cada sujeito. No entanto, não se pode esquecer que este conceito
surgiu no final do século XX, baseado na concepção
sócio-ecológica. Nesta perspectiva, a deficiência
mental é considerada uma condição desarmônica
entre o indivíduo e o meio ambiente. As características
do próprio sujeito e os componentes ambientais que o circundam
poderão estar impondo limitações sobre o seu funcionamento
presente.
Para fins educacionais, o diagnóstico deveria auxiliar o professor
em seu planejamento, porém isso não tem acontecido a contento,
uma vez que existem controvérsias sobre os procedimentos a serem
adotados, dada a existência de modelos divergentes fundamentados
em concepções diferenciadas a respeito dos problemas educacionais
relacionados à deficiência mental.
Sendo assim, entendemos que seria profícuo fazermos um estudo
de caráter bibliográfico, visando conhecer a literatura
disponível sobre a temática em questão. Para isso,
recorremos a livros, teses, dissertações e outros textos
que pudessem contribuir para a compreensão do assunto em pauta
à luz do referencial sócio-histórico, pois, Vygotsky
(1989, p. 5) apresenta uma outra forma de pensar a deficiência,
não pela via dos defeitos, mas pela possibilidade de se encontrar
"processos edificadores e equilibradores no desenvolvimento e na
conduta da criança", implicando na necessidade de se construir
outras formas de abordar o sujeito no processo de diagnóstico.
2. O diagnóstico psicológico da deficiência mental
Nunes e Ferreira (1993) constaram que os modelos mais utilizados no
diagnóstico da deficiência mental são: o médico,
o psicopedagógico e o social. Esses diferentes enfoques implicam
em formas, concepções e práticas diferenciadas
sobre o diagnóstico.
O modelo médico busca investigar a etiologia da deficiência
mental relacionando causa física com comportamentos do sujeito.
Amplamente utilizado por vários profissionais que pretenderam
estudar as causas da deficiência mental, examinando a sintomatologia,
visando prescrever intervenções que "curem"
o problema. Nesse modelo, o médico ocupa o papel central, sendo
que aos demais profissionais cabe apenas emitir um parecer confirmando
o diagnóstico.
À medida em que foi sendo introduzido o conceito "científico"
de deficiência mental, cujos fatores etiológicos não
se baseavam apenas nos critérios orgânicos, mas em multiplicidade
de fatores, os diagnósticos começaram a ser realizados
através da psicometria.
Vários autores, entre eles Vygotsky (1989) E Leontiev (1991),
reconheciam e apontavam algumas dificuldades do procedimento psicométrico
no processo de diagnóstico da deficiência mental: os resultados
de um teste pouco informam sobre o aluno e não têm função
para o professor; penalizam as crianças pertencentes a grupos
minoritários, porque desconsideram os aspectos culturais desses
grupos. Segundo estes autores, o processo de diagnóstico da deficiência
mental tem se pautado mais nos valores sociais do que nos científicos,
resultando em encaminhamentos inadequados.
No modelo psicopedagógico, segundo Nunes e Ferreira (1994), o
diagnóstico pode ser direcionado para detectar o quociente de
inteligência, nível de maturidade psicomotora, estágio
do desenvolvimento cognitivo, nível do pensamento conceitual,
repertório comportamental, ou ainda, investigar as funções
psicológicas superiores; memória, inteligência,
atenção, discriminação auditiva e visual
etc., ou ainda descrever os comportamentos observáveis, de acordo
com os aportes teóricos adotados.
A psicopedagogia tem ocupado um espaço significativo tanto no
processo de diagnóstico, como também na intervenção
educativa. Na abordagem de Pain (1971) e Fernández (1990), o
processo de diagnóstico psicopedagógico é um exame
clínico, realizado a partir de uma queixa sobre algum problema
que esteja afetando a aprendizagem do aluno. O profissional precisa
identificar os indicadores que expressam o sintoma, enquadrando-o em
determinada categoria psicológica. São considerados indicadores:
inverter, omitir, substituir letras e sílabas na leitura e na
escrita.
Souza (1995), trabalhando dentro de um enfoque psicanalítico,
defende a idéia que para o diagnóstico dos problemas de
aprendizagem é necessário que sejam investigados os fatores
orgânicos, maturativos - evolutivos, emocionais e sócio-culturais.
Bassedas, et. al. (1996) entendem que o diagnóstico psicológico
consiste num processo de análise da situação do
aluno com dificuldades dentro do contexto da escola e da sala de aula,
com o objetivo de orientar e instrumentalizar os professores para modificar
os conflitos que estão sendo manifestos. Nessa proposta, tanto
o psicólogo quanto o professor trabalham juntos, sendo co-responsáveis
pelo processo de conhecimento e avaliação das dificuldades
dos alunos.
Segundo Tzuriel (1992), estudioso dos trabalhos de Feuerstein, a avaliação
tem como objetivo principal explorar o potencial do sujeito através
de um processo de envolvimento ativo e interação com o
"outro" mais experiente. Em situações escolares,
a mediação ocorre com a interferência de um adulto,
no caso o professor que prepara situações de aprendizagem,
e paulatinamente vai oferecendo pistas para o aluno no desenvolvimento
das atividades em que ele for encontrando dificuldades. Assim, essa
criança terá condições de avançar
nas tarefas acadêmicas. Esse processo fora denominado de aprendizagem
mediada.
A abordagem de Feuerstein também é estudada por Fonseca
(1995), que apresenta como primeira estratégia de seu modelo
de intervenção terapêutica e psicopedagógica
a identificação e diagnóstico com a finalidade
de apreender as características do potencial de aprendizagem
da criança. Esse processo permite refletir sobre o inventário
das aquisições e capacidades adaptativas, flexibilidade
e a plasticidade das competências das crianças.
O princípio da "modificabilidade" é fundamental
nessa proposta, uma vez que o papel do avaliador (no caso o psicólogo)
é praticamente o mesmo do professor: proporcionar um ambiente
interativo para que o processo ensino-aprendizagem aconteça.
Nesta situação o examinador estará atento às
estratégias e recursos cognitivos emergentes do aluno, podendo
ao mesmo tempo levá-lo ao desenvolvimento de suas potencialidades.
No terceiro modelo, cujo enfoque é social, questiona-se e condena-se
o diagnóstico para fins classificatórios, devido aos efeitos
deletérios no processo de legitimação da conduta
desviante. Nesse modelo o diagnóstico se justifica apenas quando
para fins educacionais, podendo assim contribuir com o planejamento
e implementação de programas eficazes.
Lunt (1994) apresenta dois tipos de avaliação: a estática
e a dinâmica. A primeira refere-se ao diagnóstico concluído
com base nos escores obtidos nas médias ponderadas dos testes
psicométricos, com ênfase no produto e não no processo
das respostas emitidas pelo sujeito; a outra diz respeito às
formulações teóricas de Vygotsky que, segundo a
citada autora, é uma proposta alternativa ao intento, tentando
superar a primeira. Pode-se enquadrar tal proposta dentro do terceiro
modelo proposto por Nunes e Ferreira (1993).
Seguindo a sugestão de Lunt (1994), discorrerei sobre a proposta
de Vygotsky, uma vez que suas idéias têm aparecido como
um caminho para tentar superar as dificuldades sobre o processo de diagnóstico
psicológico da deficiência mental leve.
Em busca de métodos psicológicos que pudesse facilitar
a compreensão do sujeito, Vygotsky partiu de estudos realizados
pelas três grandes posições teóricas que
fundamentam o fazer psicológico: 1- teorias que possuem uma visão
maturacionista, onde o desenvolvimento é pré-requisito
para a aprendizagem; 2- o Behaviorismo que postula que, a aprendizagem
é desenvolvimento, e a 3- posição defendida pelos
gestaltistas, onde o desenvolvimento depende tanto da maturação
como do aprendizado.
Essas concepções teóricas têm norteado a
prática do psicólogo. O diagnóstico numa visão
behaviorista centra-se na deficiência do aluno, cuja proposta
educacional visa exclusivamente a mudança de comportamento. Do
mesmo modo, observa-se a posição maturacionista, cujo
diagnóstico procura averiguar o nível de maturidade do
aluno para propor-lhe um programa de escolarização adequado.
Contudo, na prática do diagnóstico, as diferentes posturas
convivem entre si, porém em âmbito mais geral os profissionais
utilizam-se basicamente da psicometria (estrutura de diagnóstico)
para fins classificatórios (objetivo), sob um olhar medicalizado,
buscando uma causa de natureza endógena para justificar, ou apenas
constatar, a deficiência do aluno.
Esta situação evidencia-se quando o psicólogo vai
para a escola realizar o diagnóstico psicológico através
da aplicação de uma bateria de testes em alunos que estão
apresentando dificuldades no processo ensino-aprendizagem com o objetivo
de classificá-lo como deficiente ou não, de acordo com
os resultados obtidos nessas provas. Essa postura é semelhante
à do médico que olha o "doente" e, em alguns
minutos, emite um diagnóstico e um remédio. No caso específico
deste trabalho, pode-se observar que muitos psicólogos fazem
diagnóstico e enviam o alunos para o ensino especial sem que
tenham tido convívio com o ambiente acadêmico.
As pesquisas de alguns estudiosos entre eles, Vygotsky (1984, 1989),
Luria (1991), Leontiev (1991) têm demonstrado que as ciências
que estudam o homem, seccionam-no, dificultando o avanço rumo
à construção de formas de diagnóstico psicológico
de sujeitos, principalmente daqueles que apresentam atraso no seu desenvolvimento.
Vygotsky (1989) partia do princípio de que todas as funções
do desenvolvimento da criança surgem duas vezes, primeiro no
plano social (interpsicológico), e, posteriormente, no individual
(intrapsicológico). As funções psicológicas
superiores originam-se nas relações reais entre as pessoas.
Ele não fala em etapas de desenvolvimento como as outras teorias,
mas de momentos de funcionamento que impulsionam o sujeito a avançar
paulatinamente a níveis mais elevados de desenvolvimento, os
quais são construídos graças a interação
do sujeito com a coletividade. Nesse referencial, o conhecimento é
antes de tudo social, e ao ser internalizado pelo sujeito passa para
o plano individual.
Leontiev (1991) aponta três princípios básicos sobre
o desenvolvimento mental:
O primeiro parte do pressuposto de que a criança não se
adapta ao mundo dos objetos humanos, mas dele se apropria. O processo
de adaptação possui um sentido mais biológico,
indicando que o organismo animal muda suas qualidades de acordo com
as exigências ambientais, e a apropriação é
um processo que permite a reprodução das características
humanas de comportamento, as quais não são herdadas. As
conquistas do gênero humano são produzidas nas ações
da criança frente aos objetos, aos fenômenos e ao mundo
que a rodeia. A atividade não se desenvolve na criança
independentemente, mas mediante às relações práticas
e verbais.
O segundo aspecto entende que o ser humano nasce com um equipamento
biológico responsável por diversas capacidades e funções,
porém as funções mentais superiores não
podem ser concebidas como morfologicamente estáveis, porque segundo
Vygotsky os sistemas cerebrais permitem novas formações
no desenvolvimento mental, as quais vão sendo construídas
durante a vida da criança.
O último princípio refere-se às construções
das ações mentais, onde a linguagem, ocupa um papel de
destaque, porque possibilita à criança adquirir e acumular
conhecimentos produzidos pela humanidade, bem como os conceitos sobre
o mundo em que vive. Para isso, é necessário que a pessoa
desenvolva processos cognoscitivos adequados, formados a partir das
generalizações que realiza através da experiência
individual, e que posteriormente determinam novas associações,
ou seja, as ações mentais se organizam no plano externo
e depois se transformam em ações internas.
Nesta ótica, a transformação das funções
psicológicas emergentes se consolidam a partir da relação
entre as pessoas. Assim, pode-se afirmar que inicialmente existe um
organismo biológico herdado (produto sócio-histórico)
com capacidades para o desenvolvimento na relação com
o outro, e o plano intra-subjetivo não existe a priori, mas é
criado no processo de internalização.
Leontiev (1991) cita os estudos de Galperin sobre o processo de formação
das operações do pensamento, onde apresenta três
etapas de desenvolvimento que não podem ser rígidas em
sua seqüência. Em tais etapas os estudiosos orientaram as
crianças sobre algumas tarefas, mostrando o que deveriam realizar.
Após a intervenção dos adultos, as crianças
passaram a executá-las (ações externas com objetos
externos); posteriormente as crianças já são capazes
de executar essas tarefas de modo mais independente e abreviado. Na
etapa seguinte, tanto as palavras quanto os conceitos são convertidos
em ações mentais que se automatizam, até que adquiram
características de uma operação interna de pensamento.
Para que uma operação interna de pensamento se complete,
ela fica sujeita às alterações que precisam ser
exteriorizadas e corrigidas pelos adultos. Nesse sentido seria interessante
observar quais são as operações mentais que a criança
com deficiência mental utiliza para resolver um problema, ao se
propor a uma reorganização de capacidades, conceitos,
etc.
Há que se ressaltar o papel da linguagem como mediação
da percepção humana e como fator estruturante do desenvolvimento
cognitivo do ser humano. É através dela que o homem se
constitui como sujeito, uma vez que está intimamente ligada ao
desenvolvimento das funções psicológicas superiores
e à regulação do comportamento.
Note-se que a linguagem ocupa um papel de destaque no desenvolvimento
da atividade mental prática da criança, pois inicialmente
ela aprende os conhecimentos construídos, pertinente à
sua cultura, como os conceitos, dos objetos, (caráter externo)
através do contato com os adultos Normalmente esse aprendizado
relaciona-se com as necessidades da vida que se impõe à
pessoa. Essas experiências ao serem internalizadas adquirem um
caráter interno, e às vezes inaudível, constituindo
a base do ato intelectual, ou seja, a linguagem tem um papel estruturante
do pensamento.
Nesse referencial, Luria (1990) coloca como fundamental para conhecer
a criança com deficiência a técnica da observação
do desenvolvimento de sua linguagem, no sentido mais amplo do termo
(verbal, corporal etc.) e como esta se organiza frente às mediações
realizadas pelos adultos através das atividades, permitindo-lhe
compreender e reorganizar suas respostas.
Vygotsky (1989) e seus colaboradores estudaram a formação
das funções psicológicas superiores através
da atividade simbolicamente mediada, ou seja, preocuparam-se em analisar
os respectivos processos dos sujeitos durante a realização
de atividades. Para isso, desenvolveram o método da dupla estimulação
que consistia em apresentar uma tarefa à pessoa que exigia um
pouco mais das suas capacidades que ora era capaz de demonstrar. Introduzia
um ou vários objetos para a execução da atividade
proposta, observando como essa pessoa utilizaria os instrumentos para
a resolução do problema. A seguir, oferecia ao sujeito
um segundo conjunto de estímulos, para verificar como os examinandos
conseguiam completar a tarefa mediante os novos significados auxiliares.
Este autor conseguia observar como a criança criava, e ainda
como se utilizava de novos meios para a realização ou
para a reorganização da tarefa experimental. O método
da dupla estimulação permitia-lhe o acesso a processos
ocultos que emergiam à medida em que a pessoa interagia com o
ambiente. Com esse método, foi possível ter acesso à
Zona de Desenvolvimento Proximal.
O conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal foi descrito por Vygotsky
por volta de 1930, e sua importância reside no fato de possibilitar
a compreensão de uma série de pressupostos pertinentes
à gênese social do ser humano, sobretudo no que diz respeito
ao processo de internalização, fundamental na relação
desenvolvimento - aprendizagem, no jogo, nas brincadeiras, e nas interações
sociais.
Sobre isso Bruner e Haste (1987), comentam que essa abordagem provocou
uma reação silenciosa na psicologia do desenvolvimento
na última década, pois a criança voltou a ser considerada
um ser social, através das interações que ela estabelece
com o meio social que adquire estrutura para interpretar a experiência,
e aprende a negociar os significados de acordo com as exigências
da cultura.
Assim, Vygotsky utilizou-se da avaliação para estudar
o processo de aprendizagem e desenvolvimento, visando compreender melhor
a criança. Portanto, a investigação do desenvolvimento
ontogenético do organismo o qual ocorre nas inter-relações
com o meio, reflete as realizações das propriedades específicas
desse desenvolvimento. Nas conquistas ontogenéticas, é
preciso considerar que o desenvolvimento do ser humano ocorre em dois
níveis: real e potencial. O primeiro nível refere-se ao
conjunto de atividades que a criança consegue desenvolver sozinha.
Com isso o psicólogo poderá observar as funções
psicológicas que o aluno já construiu até o momento
investigado. O segundo diz respeito ao conjunto de atividades que a
criança não consegue desempenhar sem a ajuda de uma pessoa
mais experiente (criança mais experiente ou adulto). Note-se
que, se essa criança for devidamente orientada nessas atividades,
o psicólogo terá oportunidade de observar como ela se
organiza frente às pistas que lhes são fornecidas. A distância
entre o nível real e o potencial de desenvolvimento caracteriza
o que Vygotsky denominou de Zona de Desenvolvimento proximal. (Vygotsky,
1984, p 97)
Esse conceito foi observado mediante algumas situações
de pesquisa realizadas pelo citado autor, quando o mesmo apresentava
problemas para as crianças que aparentemente possuíam
um mesmo nível mental de desenvolvimento real. Aplicaram-se testes
de inteligência2 nessas crianças e constataram que ambas
conseguiam resolver sozinhas os mesmos problemas. Entretanto, quando
lhes foram apresentadas tarefas mais complexas, Vygotsky percebeu que
uma das crianças conseguia resolver o problema com ajuda, e outras,
sob as mesmas condições e orientações, apresentavam
dificuldades para solucioná-los.
Embora essas crianças apresentassem uma aparente homogeneidade,
diferiam sobremaneira entre si, tomando-se como referência as
possibilidades futuras de aprendizagem e desenvolvimento. O psicólogo,
de posse desses dados, poderá intervir na gênese das funções
psicológicas superiores, uma vez que a Zona de Desenvolvimento
proximal é a região dinâmica que possibilita o processo
de internalização (transição do interpsicológico
para o intrapsicológico).
Desse modo, a Zona de Desenvolvimento Proximal representou também
mudança de enfoque na própria teoria, permitindo o deslocamento
do foco - atividade mediada pelo signo para o desenvolvimento e a prática
social.
Para o diagnóstico é imprescindível a reconstrução
de cada estágio de desenvolvimento para entender o desenvolvimento
mental da criança enquanto processo de apropriação
da experiência humana. Tal apropriação consiste
em reconstruir o "real" através das operações
mentais interiores. As funções da aprendizagem não
são funções específicas limitadas à
aquisição de habilidades, pois, as mesmas contém
uma organização intelectual que permite a transferência
de um princípio geral descoberto durante a solução
de uma situação, para outras tarefas ou situações.
Para compreender o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal é
necessário abordar três aspectos importantes, principalmente
no que se refere ao âmbito educacional: análise holística,
mediação e mudança.
A análise holística exige uma abordagem mais globalizadora,
e a unidade de estudo deve ser a atividade psicológica em toda
a sua complexidade. Para isso, utiliza-se a palavra como unidade básica
de estudo, por considerá-la como refletora da unicidade do pensamento
e do discurso. Desse modo, a busca de significado e sentido exerce papel
fundamental, especificamente em seu retrospecto ontogenético.
Nessa busca coloca-se o estudo da percepção das crianças,
os estudos sobre os usos cognitivos de signos e instrumentos, o desenvolvimento
da escrita e do jogo.
O conceito de mediação é central na teoria de Vygotsky,
uma vez que o mesmo enfatiza as interações sociais que
acontecem entre os adultos e as crianças e sugere que através
de um sistema organizado de instrução o aluno pode ser
levado ao desenvolvimento de uma tomada de consciência e de controle
voluntário do conhecimento. Daí surge o que o autor denominou
de conceitos científicos, diferenciando-os dos conceitos espontâneos
ou do dia-a-dia, porque surgem no processo de aprendizagem formal.
Por isso, esse autor acredita que a análise evolutiva dos processos
psicológicos devem ser olhados e pesquisados como transitórios.
Via de regra, uma atividade que uma criança pode realizar hoje,
individualmente, foi decorrente de alguma intervenção
que ontem vivenciara. Nesse sentido, entende-se que a mudança
é fundamental para análise da zona de desenvolvimento
proximal.
Para observar como esta "Zona" se comporta, é preciso
considerar três características básicas: 1. Propor
ao estudante situações desafiadoras, sem que sejam extremamente
difíceis; 2. Dirigir o aluno, através de pistas, para
que o mesmo possa cumprir o objetivo proposto pela tarefa; 3. Avaliar
o processo de autonomização da criança no desempenho
da tarefa proposta.
Moll (1996) alerta para os perigos de considerar que todas as tarefas
acadêmicas que contenham as três características,
acima citadas, representam a Zona de Desenvolvimento Proximal, já
que nem toda instrução oferecida aos estudantes, baseada
no principio da "instrução-treinamento-prática"
visando o desenvolvimento de habilidades de um modo mecânico,
pode ser assim considerada.
Russo (1994) afirma que para a Educação Especial, conhecer
a Zona de Desenvolvimento Proximal possibilita ao professor compreender
como as mediações externas influenciam o indivíduo
a organizar seu potencial intelectual. Isso constitui-se num campo fecundo
para pesquisa, ao relacionar-se intimamente com o binômio desenvolvimento
- aprendizagem.
Na educação especial, as idéias de Vygotsky foram
amplamente aceitas e difundidas em seu estudo intitulado Fundamentos
de Defectologia, cuja tradução espanhola data de 1989.
Esse autor não conseguiu concluir os seus trabalhos, pois morreu
aos 38 anos de idade, vítima de tuberculose. Apesar disso, conseguiu
deixar para a ciência grandes contribuições, destacando-se
a incompletude de sua obra, fator que instiga os estudiosos a darem
continuidade às pesquisas e construírem novos conhecimentos.
Vygotsky (1989) tomou como referência as idéias de Alfred
Adler, ampliando-as para discutir sua concepção de desenvolvimento
atípico. Nesse percurso, afirma que a deficiência gera
um impacto em seu meio, e dependendo das mediações que
a pessoa estabelece com o seu ambiente físico e social, poderá
acionar sentimentos, com destaque para os de menos-valia, podendo ativar
os mecanismos compensatórios. Assim, os aspectos afetivos e cognitivos
interinfluenciam-se, e as funções psicológicas
superiores (mémória, abstração, percepção,
etc) são substituídas por outros esquemas psicológicos
mais primitivos. A esse processo Vygotsky denominou de compensação.
"(...) a criança começa a apreender sua inferioridade,
e reage a isto desenvolvendo uma série de tendências, linhas
de conduta, que claramente poderão ser interpretadas como uma
super-estrutura neurótica, e passam a ser um fator que organiza,
utiliza e direciona todas as outras síndromes do subdesenvolvimento
infantil". (Rubinstein, 1972. p.15)
O interesse de Vygotsky centrava-se na tentativa de explicação
do nível de compreensão da pessoa com deficiência,
a ponto de acionar os seus mecanismos compensatórios, ou seja,
como as crianças consideradas inaptas trabalham o seu sentimento
de inferioridade. Esses mecanismos foram estudados também por
Rubinstein que os denominou de manifestações secundárias
da deficiência. Esse posicionamento permite afirmar que a deficiência,
seja ela em que grau for, causa impacto no ambiente. Tal impacto poderá
se configurar em fonte geradora de possibilidades ou limitações.
Com isso chamo atenção para que o psicólogo, ao
diagnosticar uma criança, não a olhe com um ser "patológico",
e por isso passivo, mas que consiga diferenciar as manifestações
primárias das secundárias, o que exige uma outra leitura
sobre o desenvolvimento mental do ser humano.
Russo (1994) informa que os estudos das atividades cognitivas das pessoas
com deficiência eram analisados sob dois ângulos: os aspectos
primários, que se referem ao nível de comprometimento
neurológico da pessoa, detectados por uma avaliação
médica, cujo comprometimento, no decorrer da história
das pessoas, podem levá-las a uma delimitação secundária,
(segundo ângulo) caracterizada pela ausência de experiências
sócio-culturais, normalmente vividas por elas. Reconhecer os
núcleos primários e os secundários para fins educacionais,
significa estudá-los em conexão com os mecanismos compensatórios
construídos pelo aluno.
A partir de observações de grupo de crianças com
deficiência, Vygotsky (1989) revisou a teoria de Kurt Lewin concluindo
que as deficiências intelectuais não são as únicas
responsáveis pelo rebaixamento cognitivo, pois existem outros
fatores que poderiam estar influenciando, entre eles a desmotivação,
característica predominante nesta categoria.
A criança com deficiência mental leve apresenta um comportamento
baseado na relação de escolha - "este ou aquele ",
em decorrência da rigidez de sua psiquê, a qual se estende
tanto ao aspecto cognitivo quanto ao afetivo, incapacitando-a para relativizar
seus pontos de vista e realizar generalizações a partir
de conceitos ou vivências. Nesse sentido, são importantes
as atividades que exigem abstração, e que possibilitam
maior flexibilidade, com vistas à transformação
qualitativa das capacidades cognitivas.
Vygotsky (1989) ampliou o experimento de Lewin realizado em 1926, o
qual consistia em demonstrar o nível de satisfação
psicológica de crianças com deficiência mental,
quando convidadas e estimuladas a desenhar paralelas na vertical com
o objetivo de observar as conexões e influências da inteligência
e do aspecto afetivo. Paulatinamente, algumas crianças foram
deixando o lápis e recusando-se a continuar, o que seria um dos
indicadores do estado psicológico de saturação
da atividade.
Através de outras instruções, o autor solicitava
das mesmas crianças a troca de lugares ou ainda que mudassem
a cor do lápis etc., para estimulá-las a continuar o citado
exercício. Esse procedimento não foi necessário
ser feito com as crianças cujo padrão de desenvolvimento
era compatível com a sua idade cronológica.
Ao observar os trabalhos de várias crianças com deficiência
mental, Vygotsky (1989) percebeu que um número expressivo destas
atividades eram interrompidas e substituídas por outras. Segundo
ele, esse comportamento pode ser resultante dos baixos índices
motivacionais, bem como do alto grau de ansiedade, insegurança,
frente a situações novas, ou mesmo difíceis. Essa
constatação levou-o a afirmar que as funções
psicológicas superiores são influenciadas pelos aspectos
afetivos e cognitivos. Essa relação é dinâmica
e aciona os mecanismos de compensação, oferecendo possibilidades
para que a intervenção ocorra.
O processo de intervenção só é possível
se houver conhecimento de como a pessoa aciona seus mecanismos compensatórios,
o que requer interação entre avaliador e avaliado, onde
o primeiro consiga enfocar (e não medir) a Zona de desenvolvimento
proximal, pois um diagnóstico que se preocupa apenas em observar
o nível real é considerado incompleto, como por exemplo,
os que se baseiam apenas nos resultados dos testes psicométricos.
Atualmente, existem algumas propostas de diagnóstico da Zona
de Desenvolvimento Proximal, entre elas destaca-se a avaliação
dinâmica padronizada ou estruturada e a de caráter clínico.
Na primeira abordagem faço referência ao "Programa
de Aprendizagem Potencial e Educabilidade desenvolvido por Budoff e
Hamilton (1976), destinado a deficientes mentais leves e baseado na
concepção de inteligência com ênfase ao treinamento
de habilidades. Nesse referencial, as crianças eram treinadas
para resolver as situações problemas com base no teste
Raven e nos cubos de Kohs. Os resultados sobre o potencial da criança
não ficaram evidenciados.
A proposta de diagnóstico desses autores seguiam a seqüência
teste-treinamento-teste. A princípio a criança é
submetida ao diagnóstico sem nenhum preparo, a seguir, caso a
criança não tenha conseguido resolver o problema, apresentam-lhe
pistas para que a mesma solucione o problema. Nessa pesquisa os autores
citados detectaram três tipos de crianças dentro da categoria
deficiente mental leve:
1. Crianças que não obtiveram nenhum ganho após
serem instruídas;
2. Crianças que demonstraram ter ganhos significativos;
3. Crianças que conseguiram solucionar os problemas no pré-teste.
Embora os autores citados tenham concluído que há uma
inadequação dos testes tradicionais, principalmente no
que se refere à sua utilização e observando ganhos
com seu método de investigação, acreditam que numa
avaliação assistida, torna-se inapropriado fornecer instruções
fixas, assim como propor os procedimentos padronizados. Além
disso não se tem garantias de que as respostas incorretas das
crianças às mediações realizadas sejam indicadores
de incapacidade para aprender, e sim porque necessitam receber pistas
mais direcionadas.
A segunda abordagem envolve as avaliações dinâmicas
de caráter clínico, cujas intervenções são
menos sistematizadas, e oferecidas de acordo com a necessidade do examinando.
Nessa abordagem é difícil separar as respostas obtidas
inicialmente, as quais ocorrem sem ajuda das que resultam da mediação
do examinador.
Foi encontrada literatura que considera os trabalhos de Feuerstein classificados
como avaliação assistida de caráter estrutural,
porque o citado autor considera de suma importância identificar
primeiro as funções cognitivas "deficientes"
para organizar pistas com o objetivo de produzir mudanças posteriormente.
(Linhares, 1995) Já nos textos de Lunt (1993), a proposta do
Programa Instrumental de Desenvolvimento fora considerada mais clínica
porque, embora no primeiro momento utilize o procedimento teste-treinamento-teste
(reteste), a sua avaliação e a forma com que realiza as
entrevistas são mais flexíveis.
Tem-se notícia de que os trabalhos de Feuerstein trazem informações
valiosas para a compreensão do aluno com dificuldades de aprendizagem
e capacitação de professores, a partir dos conhecimentos
obtidos no decorrer da avaliação assistida e de programas
de intervenção. Lunt (1993) informa que embora essas contribuições
sejam valiosas e possam ser consideradas pistas para um trabalho mais
significativo para o aluno com dificuldades de aprendizagem, ela requer
um bom período de tempo para que o diagnóstico da deficiência
mental seja confirmado e centra-se mais em habilidades gerais do que
em especificidades dos currículos educativos. Segundo a autora,
o próprio Feurestein, em 1980 destacou esses limites em sua proposta.
Acrescento ainda a ênfase dada à dificuldade acadêmica
como indicador básico para que o processo de diagnóstico
seja realizado.
De um modo geral a avaliação assistida é um método
organizado no contexto de ensino, oferecido por uma pessoa mais competente
(examinador), visando melhorar o desempenho acadêmico do aluno
através de uma prática guiada de assistência, baseada
em situações de ensino-aprendizagem. Pode ser caracterizada
por quatro aspectos importantes: interação, método,
conteúdo, e foco.
Seguindo os pressupostos da teoria sócio-histórica, a
interação entre a criança e o psicólogo
baseia-se no princípio da mediação. O psicólogo
fornece pistas para que a criança possa ir conseguindo resolver
as atividades que lhe são propostas. Essas pistas podem ser:
demonstrações, sugestões, demonstrações,
novas tentativas. Como já foi exposto, essa mediação
pode se usar de métodos estruturados e clínicos, dependendo
da abordagem escolhida
Em relação ao conteúdo, essa abordagem pode ter
a finalidade de avaliar habilidades de domínio geral e cognitivo,
incluindo operações cognitivas e raciocínio, ou
habilidades de domínio específico, entre elas compreensão,
leitura, aritmética. Note-se que essas habilidades têm
sido avaliadas de acordo com um modelo mais estrutural, como contemplam
as Matrizes Progressivas de Raven, os Cubos de Kohs ou as que buscam
desenvolver estratégias que visam ativar o processamento de informações
e por meio de perguntas de busca, com obediência às regras.
Além dessas questões apontadas, o conteúdo dessas
avaliações, a princípio, parece desconsiderar os
aspectos afetivos, amplamente defendidos por Vygotsky. Parece que ainda
a dificuldade está em romper com as cristalizações
do método psicométrico, uma vez que as funções
psicológicas são dinâmicas e, portanto, passíveis
de transformações, graças às atividades
partilhadas com pessoas mais experientes. Acredito que tais funções
não são passíveis de medida, mas de serem observadas
e compreendidas.
O foco da avaliação assistida é o desempenho da
criança, o qual poderá indicar a região de maior
sensibilidade, e o ritmo à instrução. Brown e Ferrara
(1985), com base em atividades que combinavam resolução
de problemas com a capacidade de transferir a aprendizagem (com medida
de QI), identificaram o nível de desempenho e propuseram a seguinte
classificação: Lento- necessitando de muitas pistas, pois
tem um quociente de inteligência rebaixado; Dependente do contexto-
precisa de menos pistas, e o QI está na média, porém
tem dificuldade em transferir a aprendizagem; Alto escore - necessita
de poucas pistas, e tem boa capacidade de transferência de aprendizagem,
apresentando um QI na média.
Percebe-se que há uma tentativa de complementação
dos testes de inteligência e não uma substituição.
Embora essa pesquisa constitua um avanço no que diz respeito
ao aprimoramento dos procedimentos psicométricos, continuam a
classificar os alunos de acordo com o seu grau de competência.
É preciso considerar que há uma tentativa de se sondar
a sensibilidade da criança frente à resolução
dos problemas que lhe são fornecidos, e de observar as estratégias
e recursos de que ela utiliza para o desempenho dos mesmos, entretanto,
Linhares (1995) aponta para algumas questões emergentes, as quais
precisam ser cuidadosamente pesquisadas, já que se relacionam
aos limites entre diagnosticar e intervir e se os conteúdos das
avaliações serão de natureza acadêmica ou
vinculados a conteúdos cognitivos, como classificar, fazer analogias,
analisar, sintetizar, entre outros.
Nessa linha, existem interpretações diferenciadas sobre
a avaliação que se subdividem em dois grupos. O primeiro
se utiliza de métodos padronizados, e que depende de um formato
pronto a ser seguido, tentando se apreender quantitativamente a capacidade
de aprendizagem da criança. Seguindo essa abordagem, os trabalhos
de Campione (1984) e colaboradores procuram combinar os pontos fortes
de uma situação de aprendizagem mediada com os benefícios
da comparação entre os indivíduos. O segundo grupo,
adepto da abordagem clínica, liderado por Feuerstein (1981) e
seus colegas, utiliza-se da aprendizagem mediada, com objetivo de obter
informações qualitativas sobre a natureza dos processos
psicológicos da criança, e sobre o tipo de intervenção
de que ela necessita.
Parece que as duas abordagens não conseguem apreender o sujeito
de forma globalizada. Minick (1987) compara as duas abordagens e afirma
que Feuerstein (1981) e seus colaboradores se esforçam para obter
informações sobre a natureza qualitativa dos processos
psicológicos da criança, com o propósito de fornecer
a ela assistência necessária para o seu progresso; já
Campione (1984) e seus colegas privilegiam os fatores quantitativos
sobre os qualitativo, para que os resultados sejam confiáveis
a respeito da capacidade de aprendizagem da criança.
Diante disso, pode-se concluir que o desafio para essa década
é de pesquisar outros procedimentos de avaliação
dinâmica que conciliem dados obtidos nas descrições
qualitativas com as informações quantitativas sobre as
diferenças individuais, subsidiando uma intervenção
pedagógica adequada às necessidades da pessoa em situação
de diagnóstico, evitando assim, conclusões tendenciosas
que possam vir a prejudicar toda a sua vida acadêmica.
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Publicado em 03 de janeiro de 2004