A
Psicologia e a Fonoaudiologia na Educação Inclusiva: Algumas
Considerações Sobre as Interfaces no Processo Educacional.
Liliane Garcez
Universidade de São Paulo
Coordenadora da Comissão de Educação do
Conselho Regional de Psicologia de São Paulo
Fórum em Defesa da Escola pública
Fórum Permanente de Educação Inclusiva
Marisa Sacaloski
Departamento de Educação Especial do Município
de Mauá
Universidade Federal de São Paulo - EPM
Universidade Metodista de São Paulo, Fundação Santo
André e FATEA - Lorena
Fórum Permanente de Educação Inclusiva
e-mail: lipsico@terra.com.br
Introdução
A
psicologia e, mais recentemente, a fonoaudiologia têm participado
das discussões e do processo de construção escolar
que hoje se apresenta em nosso País. Muitas têm sido as
contribuições e contradições destas ciências
nesse caminho.
O objetivo do presente trabalho é refletir sobre as possibilidades
de atuação de psicólogos e fonoaudiólogos
enquanto membros da equipe escolar no processo de inclusão a
partir da participação no Fórum Permanente de Educação
Inclusiva promovido pela Representação do MEC/SP.
Iniciaremos com um breve histórico do conceito de Educação
Inclusiva, à luz de alguns dos principais documentos que vêm
embasando esta questão. Pretendemos apontar a importância
destes agentes educacionais na ruptura de paradigmas ainda presentes
na instituição escolar. Objetivamos, ainda, apontar algumas
perspectivas de ações a partir do relato de experiências
dos profissionais envolvidos.
A Educação Inclusiva resgata a importância de um
novo olhar da sociedade, da necessidade de ambientes menos restritivos,
da educação para todos. Alguns documentos internacionais
como a Declaração de Educação para Todos
(Conferência de JOIMTIEN) de 1990 e a Declaração
de Salamanca de 1994, que deu continuidade a este movimento, transformaram-se
na base legal para a execução de projetos de educação
no mundo inteiro. Estas Declarações partem do pressuposto
de que a forma com que o sistema educacional atua tem levado grande
parcela dos alunos à exclusão, principalmente das minorias
sejam elas sociais, sexuais, de grupos étnicos ou de portadores
de deficiências. Tais documentos não se propõem
a serem cartas de intenções gerais para a educação
mundial, mas, ao contrário, promovem a particularização
do ensino em cada país, cidade ou município para que estes
desenvolvam sistemas educacionais de acordo com suas necessidades específicas.
Pontuam que todas as crianças têm o direito básico
à educação e que esta deve levar em conta seus
interesses, habilidades e necessidades de aprendizagem. A Declaração
de Salamanca afirma que "as escolas regulares com orientação
para a educação inclusiva são o meio mais eficaz
no combate às atitudes discriminatórias, propiciando condições
para o desenvolvimento de comunidades integradas, base da construção
da sociedade inclusiva e obtenção de uma real educação
para todos. Portanto, visa o compromisso dos governos na adoção
dos princípios de educação inclusiva como base
da preparação de novas leis ou políticas de desenvolvimento
de projetos educativos".
No Brasil, esta influência está bem caracterizada na atual
legislação, seja no Estatuto da Criança e do Adolescente
ou na Nova Lei de Diretrizes e Bases, embora, de fato, sua implementação
esteja apenas começando.
Por outro lado, sabemos que a consecução do processo de
inclusão de todos os alunos na rede regular de Ensino não
se efetua por decretos ou mesmo leis, pois requer uma mudança
profunda na forma de encarar a diferença no sentido de sua despatologização.
O sofrimento ético-político, do qual nos fala SAWAYA (1999),
retrata a vivência das questões sociais em cada época
histórica, especialmente a dor originada da situação
social de ser tratado como inferior, subalterno, incapaz, apêndice
inútil da sociedade. Este estado revela a desigualdade social,
e a impossibilidade da maioria apropriar-se da produção
material, cultural e social de sua época, de movimentar-se no
espaço público e expressar seu desejo e seu afeto. Seu
contraponto é a felicidade pública, que não é
sinônimo de prazer e alegria. Ela é sentida quando se ultrapassa
a prática do individualismo e do corporativismo para abrir-se
a humanidade. É a negação da afetividade narcísica
de nossa época, de uma política que substitui o justo
pelo eficaz e vê a multiplicidade humana como perigo e não
como um potencial inexplorado de possibilidades sociais não realizadas.
O sentido da expressão dialética exclusão/inclusão
marca que ambas não constituem categorias em si, mas que formam
um par indissociável que se constitui na própria relação.
A inclusão é, portanto, um processo complexo, configurado
nas confluências entre o pensar, sentir e o agir e as determinações
sociais mediadas pela raça, classe, idade e gênero, num
movimento dialético. Assim, apenas a orientação
legalista assegurada pelas diretrizes da educação não
garante a inclusão de todos no processo. O resgate de valores
éticos universais funcionando como um regulador das ações
no sentido do desenvolvimento da consciência moral deve ser a
base para que seja rompido o processo de exclusão.
Configuram-se, pois, duas estratégias de enfrentamento da exclusão
e a possibilidade da inclusão: a de responsabilidade do poder
público e a que cabe a cada um de nós. Unindo estas duas
dimensões, as políticas públicas são fortalecidas
pelo exercício da legitimidade individual, promovendo bons encontros
e uma ação no presente. Esta intervenção
social só é possível quando alargamos nosso campo
de ação juntando forças. Os benefícios de
uma coletividade organizada são relevantes a todos e o coletivo
é produto do consentimento e não do pacto ou contrato.
Há, para a inclusão, uma demanda de que se abandone a
crença que a integração da criança deficiente
ou de qualquer criança excluída será naturalmente
feita na escola comum, partindo de um diagnóstico técnico
e de um atendimento em instituições ou classes especiais
visando sua "normalização" para que ela possa
conviver na sociedade. No movimento inclusivo, todas as crianças
devem receber o mesmo tipo de ambiente e condições de
ingresso, privilegiando uma preparação de todos os agentes
educacionais no sentido de trabalhar seus estereótipos e preconceitos
para que haja uma educação de qualidade para todos. Enfocam-se
as potencialidades e não as deficiências, valorizando-se
a diversidade dentro da comunidade humana.
SANTOS (1995) situa a identidade nas relações de poder
apresentando-a como síntese de múltiplas identificações
em curso e não um conjunto de atributos permanentes. É
um processo de construção de um modo de ser e de estar
no confronto entre igualdade e diferença, que nega o individualismo
e abre espaço para o sujeito ao coletivo. A busca pela identidade
quer para negá-la, reforçá-la ou construí-la
é parte do confronto do poder na dialética da inclusão/exclusão
e sua construção ocorre pela negação dos
direitos e pela afirmação de privilégios. Quando
se supera este uso político, encara-se a identidade como igualdade
e diferença, mantendo-se a tensão entre os dois sentidos
implícitos no conceito - permanência e transformação
- fugindo da lógica de que "pau que nasce torto morre torto".
A identidade é, portanto, a qualidade que permite reconhecer
e ser reconhecido pela alteridade sem ser discriminado ou discriminar,
garantindo a diversidade e a autonomia como realização
bem sucedida do projeto reflexivo do eu, condição de se
relacionar com as pessoas de modo igualitário. Nesta perspectiva,
acolhe a multiplicidade nos encontros afetivos, que geram prazer, alimentados
pela diversidade sem temer o estranho, mantendo a possibilidade da política
criar formas de solidariedade entre diversos através dos bons
encontros.
De um modo geral, o professor, o aluno, o supervisor, o coordenador
pedagógico, o diretor, etc., internalizaram que, no caso de alunos
deficientes ou com dificuldade de aprendizagem, o processo ensino-aprendizagem
é de natureza patológica e que, portanto, há muito
pouco a se fazer. Existe ainda uma baixa expectativa dos professores
quanto à capacidade de aprendizagem dos alunos provenientes de
grupos estigmatizados, como por exemplo, os vindos das camadas populares,
cujas causas são atribuídas principalmente a fatores extra-escolares
como famílias desagregadas, desnutrição, falta
de cultura e incentivo dentro de casa. A capacidade de indignar-se diante
da pobreza está subjugada por um modelo em que inclui pela exclusão
e que culpabiliza o indivíduo fazendo uma leitura individual
de um processo sócio-histórico. A inclusão efetiva
supera a concepção de que a preocupação
do pobre é unicamente de sobrevivência e que não
há justificativa para trabalhar-se a emoção quando
se passa fome. A inclusão vista como sofrimento de diferentes
qualidades recupera o indivíduo, sem tirar a responsabilidade
do Estado. É o indivíduo que sofre, mas a gênese
deste sofrimento está nas intersubjetividades delineadas socialmente.
A formação dos professores, por outro lado, reforça
a existência de um modelo de aluno ideal, que respeita as regras
e que consegue aprender, mas que na prática inexiste o que reforça
o modelo excludente que está configurado.
A necessidade de se construir um sistema educacional de qualidade para
todos impõe uma forma de atuação diferenciada por
parte daqueles que trabalham no campo da educação. A quebra
de estereótipos e preconceitos, ponto de partida para a implantação
de uma escola inclusiva, faz-se necessária para que o modelo
que aí está se rompa. A colaboração e a
cooperação entre todos os participantes do processo educacional
(pais, professores, alunos, coordenadores pedagógicos, diretores,
comunidade, etc.) na tentativa de mudar papéis e responsabilidades
tornando o ambiente educacional mais flexível são alguns
dos objetivos a serem alcançados neste processo.
Como toda a construção, a educação inclusiva
é gradativa porque é preciso analisar todas as crenças
que envolvem o sistema educacional brasileiro e que têm resultado
nos altos índices de repetência e evasão. Neste
projeto social, o papel do psicólogo na escola deve mudar, pois
a força estigmatizadora dos laudos psicológicos tem contribuído
para configurar este quadro que deve ser alterado. O laudo como rótulo
imposto à criança, limitando seu acesso educacional, sem
considerar a situação em que a mesma se encontra, coloca-a
num lugar preestabelecido do qual ela não terá chance
de sair. Em nome da suposta neutralidade destes pareceres, muitos conceitos
científicos têm culpabilizado o sujeito por sua situação
social e legitimado as relações de poder, fragmentando
a apreensão do fenômeno social. A vergonha e a culpa são
internalizadas pelos grupos subjugados e aparecem como sentimentos morais
ideologizados com a função de manter a ordem excludente,
de forma que a vergonha das pessoas e a exploração social
constituem as duas faces de uma mesma questão. Por serem sociais,
as emoções são fenômenos históricos,
cujo conteúdo está em permanente constituição.
Não há entidades absolutas do nosso psiquismo, mas significados
construídos no cotidiano, que afetam o sistema psicológico
pela mediação das intersubjetividades. Os processos psicológicos,
as relações exteriores e o organismo biológico,
segundo VYGOTSKY, se conectam através das mediações
semióticas, configurando motivos, que são estados portadores
de um valor emocional estável, desencadeadores da ação
e do pensamento. O significado assim, penetra na comunicação
neurobiológica levando o homem a agir em resposta a uma idéia.
A força de um laudo que afirma que uma criança tem uma
certa patologia ou dificuldade pode impor limites a ela e levá-la
a reagir em resposta a este lugar que lhe é dado. Neste sentido,
algumas das crenças que envolvem o sistema educacional atualmente,
como por exemplo, a baixa expectativa dos professores em relação
à capacidade de aprendizagem dos alunos provenientes de grupos
estigmatizados, como aqueles das camadas populares, tem possibilitado
uma leitura que se revela semelhante ao tratamento dispensado aos alunos
com necessidades educativas especiais. Em ambos os casos o aluno em
questão não é aquele aluno ideal para o qual a
formação do professor foi dirigida. Não aprende
no tempo certo e nem da forma esperada, não se comporta segundo
os padrões corretos, enfim não é o aluno para o
qual o professor sente-se preparado. Esta diferença entre o ideal
e o real faz com que algumas respostas sejam também estereotipadas
para justificar o fracasso iminente destes alunos (ainda as profecias
auto-realizadoras das quais fala PATTO e a culpabilização
dos pais). Concluímos, portanto, que não podemos falar
de educação inclusiva partindo de grupos específicos.
A inclusão deve ser vista como um processo social que envolve
todos.
O
Fórum Permanente de Educação Inclusiva
A
iniciativa de organização deste Fórum partiu da
Fundação ORSA e da Representação do MEC
em São Paulo que tinham como objetivo principal construir um
espaço de discussão das questões da educação
especial para subsidiar todos os envolvidos, específica e prioritariamente
as Secretarias de Educação dos Municípios Paulistas,
com o estudo e reflexão sobre teorias, legislação
e práticas de trabalhos institucionais da Educação
Especial. Como a intenção inicial era apenas de implementar
uma política de educação que estava delineada nas
diretrizes e nos parâmetros curriculares, foram convidados a participar
do Fórum entidades com atuação na área de
Educação Especial, como as APAEs, Secretarias Municipais
de Educação, Secretaria Estadual de Educação,
algumas Instituições de Ensino Superior, Conselho Estadual
de Educação, Ministério Público Estadual,
segundo ofício nº43/99/SP/MEC, de 09.06.1999.
O Fórum foi se expandindo por suas atividades e tornando-se conhecido
e outros parceiros foram chamados. Diante das dificuldades de implementação
das Diretrizes Curriculares para a Educação Especial,
aos poucos foram se dando conta de que não se tratava de fazer
com que a lei fosse cumprida, mas de construir efetivamente uma nova
concepção de escola onde a inclusão fosse a base
da educação. Com este propósito foram instituídos
grupos de trabalho com os seguintes temas: pesquisa, políticas
públicas, legislação e parâmetros curriculares.
Foi também apontada a necessidade de uma pesquisa para verificar
a situação das escolas estaduais e municipais do Estado
de São Paulo, no que se referia à Educação
Especial. Assim ficou marcada a intenção de que o Fórum
pudesse efetivamente dialogar com aqueles que estavam no processo diário
nas instituições de ensino.
Durante os primeiros meses de 2000, estes grupos de trabalho foram sendo
constituídos com os novos interlocutores, entre eles o Conselho
Regional de Psicologia de São Paulo e o Departamento de Educação
Especial de Mauá. A estrutura dos encontros passou a ter, além
de palestras de convidados pela manhã, reuniões dos grupos
de trabalho na parte da tarde. A partir de julho, por uma necessidade
do próprio Fórum de ter uma noção mais clara
da realidade da Educação Especial no Estado de São
Paulo, as palestras foram substituídas pelos relatos de experiências
dos membros do mesmo. Essa experiência foi muito rica e contribuiu
para que o Fórum fosse sendo delimitado efetivamente como um
espaço de discussão e construção da Educação
Inclusiva.
Vários questionamentos apareceram ao longo deste período
como, por exemplo:a questão da inclusão fazer parte das
políticas públicas para a educação indo
no sentido, não de uma mudança benéfica, mas, da
queda na qualidade do atendimento das escolas pois poucas têm
infra estrutura para receber crianças com necessidades educativas
especiais (classe lotadas, falta de preparação para os
professores, falta de pessoal de apoio para auxiliar neste atendimento,
etc); o caráter passageiro destas políticas, questionando
se a inclusão era apenas mais um modismo inventado pelo governo
do qual os educadores teriam que dar conta, mas que depois cairia no
esquecimento.
Na avaliação de 2000, foram apresentados os trabalhos
dos grupos, ampliando-se a discussão sobre os temas já
estudados para o Fórum como um todo. Foi também estabelecida
a estrutura da equipe de coordenação do mesmo, que ficou
responsável pela coordenação geral, no sentido
de dar continuidade às atividades de reflexão sobre as
práticas institucionais em Educação Especial. A
partir dos relatos das instituições sentiu-se a necessidade
de conceituar a inclusão de uma nova forma mais ampla. Para tal
foram elencados alguns temas de grande importância dentro desta
perspectiva: definição coletiva de inclusão, formação
de professores, serviços de apoio, currículo e avaliação.
A escolha de um novo nome para o Fórum, que passou a chamar-se
Fórum Permanente de Educação Inclusiva, marcou
definitivamente a saída de um propósito legalista inicial
para uma intervenção efetiva na realidade de cada município
para a construção de uma Educação para Todos.
O Fórum tem-se firmado como um canal de diálogo entre
aqueles que fazem a inclusão na prática e o governo, que
é quem estabelece as políticas públicas. São
Paulo parece ser o único estado que tem um espaço privilegiado
de discussão, articulação e fortalecimento da rede,
o que aumenta sua importância no cenário educacional.
Durante este período, temos participado ativamente das discussões
propostas, e verificado o constante questionamento quanto à escola
ser de fato o lócus de atuação de profissionais
de apoio, uma vez que para a maioria dos envolvidos, a atuação
do psicólogo e do fonoaudiólogo, é basicamente
clínica. Atuações que envolvem orientação
a professores e pais de alunos incluídos e a própria discussão
dos pressupostos da inclusão são atividades encaradas
como não pertencentes às atividades desses profissionais.
O Fórum Permanente de Educação Inclusiva tem sido
um espaço privilegiado de interlocução entre estes
agentes educacionais viabilizando a construção de um novo
olhar sobre as possibilidades de atuação da psicologia
e da fonoaudiologia.
O objetivo principal era de desestabilizar algumas certezas que impedem
os educadores de estabelecerem novas relações com seus
alunos, com os colegas, e com os outros agentes educacionais (entre
eles psicólogos) discutindo estas imagens e preconceitos. É
este desequilíbrio que pode gerar condições para
que haja uma reinvenção do cotidiano das práticas
escolares. O lugar estratégico que a escola ocupa na discussão
e articulação de um novo modelo social e político
que tem como base a inclusão e não a exclusão passa
pela ruptura dos antigos modelos de ação.
Este entendimento da educação inclusiva não como
uma implementação de regras pedagógicas pré-estabelecidas,
mas como uma construção que implica na revisão
de valores embutidos na educação, obviamente, ainda não
é hegemônico no cotidiano escolar. A preocupação
em resgatar a força do projeto pedagógico como o norteador
das diretrizes escolares no sentido de coletivizar o trabalho da sala
de aula, fazendo com que o professor não se sinta mais isolado
e único responsável pelo processo de ensino-aprendizagem,
que ele tenha todo o apoio necessário para desempenhar as atividades
pedagógicas é o que irá efetivar a passagem de
um discurso inclusivo para uma prática de inclusão. Aos
poucos estas questões estão sendo trabalhadas juntamente
com a progressão continuada e da avaliação como
um conjunto de diretrizes educacionais que são os pilares para
que a inclusão possa se dar de maneira efetiva com a promoção
das potencialidades e o trabalho com as diferenças. A discussão
sobre a autonomia escolar também é uma forma de viabilizar
este tipo de intervenção institucional que enfoca o que
podemos chamar de necessidades especiais de cada escola segundo a clientela
que esta atende, o local onde se encontra, etc.
A educação inclusiva requer uma mudança do olhar
em relação a todos aqueles que de alguma forma são
excluídos do processo educacional e da sociedade e esta transformação
não se dará de forma natural e nem tampouco rápida.
Há, portanto, muito trabalho pela frente.
A
Participação da Psicologia
Com
o intuito de ampliar o campo de ação e de repensar todos
os aspectos envolvidos na educação inclusiva à
luz de todos os aspectos teóricos mencionados anteriormente,
iniciamos a participação no Fórum de Educação
Especial representando o Conselho Regional de Psicologia de São
Paulo. As discussões dentro da Comissão de Educação
do CRP/SP apontavam para uma perspectiva de ação do psicólogo
no sentido de ajudar a construir esta nova perspectiva de sociedade.
A participação dos psicólogos neste Fórum
tem tido muita repercussão tanto interna quanto externamente.
Ajudamos a rever a meta principal que era a implementação
uma nova série de práticas que eliminaria todos os problemas
das escolas. O estabelecimento de novas relações discutindo
e eliminando barreiras educacionais para a transformação
das instituições de ensino em espaços abertos para
a diversidade gerou muito desequilíbrio, que, acreditamos, é
condição "sine qua non" para que haja uma reinvenção
do cotidiano escolar, tendo como "gancho" o saber dos professores.
A ruptura de um sistema que não dá mais conta do desejo
de seus participantes se dará a partir da consciência das
práticas pedagógicas que estão sendo utilizadas
nos estabelecimentos de ensino e da conseqüente valorização
dos saberes de cada comunidade. Esta prática diferenciada dos
antigos modelos de ação dão ao psicólogo
um outro tipo de inserção na comunidade respaldando sua
ação na valorização social de sua profissão.
Sair de um lugar marcado por perspectivas tradicionais da prática
psicológica foi condição, e ainda o é, para
que possamos atender as necessidades da maioria da população
prestando um serviço de qualidade e para que sejamos encarados
como verdadeiros profissionais da educação. A escola,
enquanto espaço estratégico de discussão e articulação
de um novo modelo social e político, pode e deve ser também
um espaço de atuação e de compromisso social do
psicólogo.
Introduzir a afetividade na análise e na prática de enfrentamento
da exclusão, papel da Psicologia, é colocar a felicidade
como critério de definição de cidadania e do cuidado
que a sociedade e o Estado tem para com o seu cidadão, sem cair
no excesso de negar as determinações estruturais e jurídicas,
e enaltecer a estatização individualista, promovendo o
enfraquecimento da política e das ações na esfera
pública e aprisionando os homens em egos escravizados pela tirania
e narcisismo da intimidade. O resgate de uma ação mais
potente dentro do âmbito educacional faz com que este conceito-processo,
como nos propõe SAWAIA, adquira sentido, pois dele participam
todos que fazem parte de sua construção.
Buscando
caminhos na Fonoaudiologia
Segundo
a Lei 6965 de 9/12/81, no artigo 1º, "Fonoaudiólogo
é o profissional com graduação plena que atua em
pesquisa, prevenção, avaliação e terapia
na área da comunicação oral e escrita, voz e audição,
bem como em aperfeiçoamento dos padrões de fala".
No capítulo II, artigo 3º, é estabelecido que: "É
de competência do fonoaudiólogo desenvolver trabalho de
prevenção no que se refere à área de comunicação
escrita e oral, voz e audição, participar da equipe de
orientação e planejamento escolar, inserindo aspectos
preventivos ligados a assuntos fonoaudiológico".
Os aspectos legais apresentados anteriormente são resultados
de uma construção realizada por fonoaudiólogos
que já atuavam em escolas desde a década de 60, o que
culminou na participação do fonoaudiólogo como
assessor, consultor e administrador. Como assessor, seu papel seria
o de subsidiar a equipe escolar, oferecendo informações
sobre sua área, bem como, participar do planejamento anual. A
função de consultor envolve a orientação
aos professores sobre a detecção precoce dos distúrbios
da comunicação humana através da observação
ou triagem dos alunos. E, finalmente como administrador esse profissional
seria responsável pela criação, implantação
e implementação de programas educacionais.
Essa construção caminha para os dias atuais, nos quais
a inclusão é uma realidade, envolvendo diferentes setores
da educação, incluindo a educação especial.
No Departamento de Educação Especial do Município
de Mauá, atuam psicólogos, fisioterapeutas, terapeutas
ocupacionais e fonoaudiólogos, engajados em diversos projetos
de atuação, um deles é o Programa de Atenção
ao deficiente auditivo (PADAM) no qual são atendidos crianças,
adolescentes e adultos e suas famílias, com o objetivo de desenvolver
aspectos comunicativos e lingüísticos a fim de que a pessoa
deficiente auditiva possa exercer sua cidadania através de uma
inclusão social que ocorra de fato. Este é o caráter
terapêutico educacional que permeia o trabalho realizado, que
inclui a família, o sujeito e o professor, num processo de despatologização,
devolvendo a cada um seu papel no processo educacional. Esse caráter
é diverso do clínico, pois o enfoque não é
a patologia e o atendimento individual, mas o trabalho em grupos na
busca de adaptações necessárias para a inclusão,
daí não se falar em paciente, mas em usuário (ativo),
que participa e propõe as direções do processo.
Além disso, os professores que têm alunos deficientes auditivos
em salas do ensino regular e em classes especiais participam de reuniões
técnicas nas quais são discutidas formas de atender às
necessidades especiais de seus alunos, facilitando o processo de inclusão
escolar.
Os pais também são envolvidos no trabalho de forma atuante,
durante os atendimentos e através de orientações.
Nas discussões do Fórum pareceu óbvio que o atendimento
aos portadores de necessidades especiais deva ser feito na saúde,
ou seja, em Unidades Básicas ou Centros de Especialidades, e
que o apoio poderia ser feito esporadicamente através de palestras
dadas por estes profissionais que atendem a "pacientes deficientes",
coincidentemente inseridos no Ensino regular. Era estabelecido um amplo
questionamento quando se colocava que os profissionais de apoio poderiam
estar inseridos na própria equipe da escola ou na educação
especial, e que sua atuação deveria ter um cunho educacional.
Estas idéias, aparentemente refletem uma visão confusa
sobre o verdadeiro papel destes profissionais e nos remetem a uma série
de questionamentos.
Desta maneira, as perguntas que ficam são: que inclusão
estamos construindo? Uma inclusão que requer que o indivíduo
deficiente necessite de atendimento baseado em pressupostos clínicos,
ou seja, da patologia, da etiologia, dos rótulos, do diagnóstico?
Não estamos então, estabelecendo um paradoxo: incluído
na escola, mas submetido a um "tratamento" que "minimize
seqüelas", ou seja, entre deficiência e doença?
As respostas a estas demandas podem definir alguns dos muitos entraves
estabelecidos no processo de inclusão. Parece-nos que vale a
pena estabelecer que o terapeuta também é um educador
e, portanto, pode compor e acrescentar instrumentos para a construção
de uma escola verdadeiramente inclusiva.
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