O Papel do Lúdico Para a Aprendizagem de Crianças com TDAH na Psicopedagogia Clínica

Autora: Anabela Pinto

Monografia apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Especialista do Curso de Especialização em Psicopedagogia Clínica e Institucional, da Universidade Estadual Vale do Aracajú - UVA, sob a orientação da professora Silvana Maria Aguiar Figueiredo.

“Onde a criança poderá manifestar e exercer sua autoridade, sua oposição, sua generosidade, sua clemência, em resumo, todas as raízes e flores da sociedade, se não for em estado livre, entre seus semelhantes? Eduquem as crianças pelas crianças. A entrada na sala de jogos é, para elas, a do mundo, e é a troca com seus pares que desenvolve suas forças intelectuais”.

Jean Paul

RESUMO

Objetivando destacar o papel do lúdico na psicopedagogia clínica como elemento facilitador da aprendizagem de crianças com TDAH, elaborou-se esse trabalho. O desenvolvimento desta pesquisa baseou-se num estudo de caso, realizado durante o estágio clínico em que se atendeu um adolescente de 14 anos com sérias dificuldades de aprendizagem escolar, principalmente em leitura, escrita e matemática. Há evidências e fortes indícios de que essas dificuldades provavelmente foram ocasionadas por carência de estímulos suficientes nos primeiros anos, falta de interação com crianças da mesma faixa etária, falta de mediadores significativos no âmbito familiar e escolar, além de uma possível lesão cerebral. Ao longo do atendimento foi se investigando e checando informações, avaliando e trabalhando atividades de aspectos orgânicos, emocionais, sociais e pedagógicos sempre fundamentados em PIAGET e VYGOTSKY que consideram o jogo essencial na educação, principalmente na educação infantil. Durante as sessões foi percebido a grande dificuldade do adolescente em concentrar-se nas atividades, em ficar sentado, principalmente durante as atividades que lembrassem sala de aula e o grande interesse por jogos e brincadeiras; foi somente a partir da utilização do lúdico que foi quebrada a resistência à leitura e o aprendente passou a se interessar em ler as regras dos jogos, começou a respeitar melhor as regras, esperando a vez de cada um jogar e conseguiu se concentrar no que estava fazendo até o final da sessão. Os resultados indicam que através de atividades lúdicas foi observado o grande salto do adolescente em relação a esses aspectos. Logo se entende que o jogo, a brincadeira, são estratégias cognitivas fundamentais para crianças com dificuldades de aprendizagem.

INTRODUÇÃO

A cada dia cresce, demasiadamente, o número de crianças com dificuldades de aprendizagem. Investigando-se os motivos das dificuldades, freqüentemente estão associados a problemas emocionais como: falta de estímulos suficientes, ausência materna e ou paterna e uma educação inadequada das escolas.

Além disso, o que se percebe é que nos tempos atuais, as crianças não brincam mais; primeiro, por falta de tempo e segundo, por falta de espaço. Muito cedo a criança vai à escola, à aula de computação, à aula de inglês, para não ficar fora do mercado. Quando há tempo para brincar, a brincadeira preferida é num computador, num video-game, isolado de pessoas, sem interação alguma, um com o outro. A participação dos pais nas brincadeiras, então, é quase inexistente. Não há tempo a perder, é preciso trabalhar, trabalhar muito, para poder dar tudo de bom para os filhos. E assim, desta forma, as crianças deixam de brincar, de interagir com outras crianças e, principalmente, de interagir com os pais.

Em virtude dessa realidade, pretende-se neste estudo, compreender o papel do lúdico na aprendizagem de crianças com TDAH, na psicopedagogia clínica.

A fundamentação teórica que norteou essa pesquisa baseia-se em VYGOTSKY (1988), PIAGET (1990), WINNICOTTI (1975) que abordam o jogo como estratégia cognitiva e comprovar a melhora do aprendente, ao final do estágio.

Durante quatro meses, atendeu-se L.C.L, um adolescente de 14 anos, que já havia sido atendido anteriormente, no início do ano de 2002, por outra dupla de estagiárias psicopedagogas. O cliente apresentava sérias dificuldades de aprendizagem escolar, principalmente em oralidade, leitura, escrita e matemática e repetia a 6ª série, pela segunda vez. No período da infância, praticamente não teve contato com jogos e brincadeiras, não interagiu com crianças de sua faixa etária e não manteve um relacionamento constante com os pais, pois a mãe trabalha três expedientes e o pai viaja constantemente a trabalho; o resultado disso foi um comprometimento sério na aprendizagem e em sua auto - estima.

Foram realizadas vinte sessões; três, com a família (anamnese com os pais, e devolutiva final), duas com a escola, uma com a médica neurologista e quatorze sessões com o adolescente. Ao longo do atendimento foi se checando informações, avaliando e trabalhando atividades nos aspectos orgânicos, cognitivos, emocionais, sociais e pedagógicos.

No primeiro capítulo será analisado o caso clínico que incorpora: a identificação do cliente, queixa trazida pela família, as anamneses, a fotografia do cliente (como a família, a escola, e as estagiárias o percebem, e como ele mesmo se percebe). Finalizando este capítulo, será feito um levantamento das hipóteses diagnósticas de acordo com o que foi investigado, enfatizando algumas sessões em que L.C.L não se concentrou em momento algum durante a sessão (características de TDAH) e outras sessões em que o mesmo jogou, brincou, melhorou a concentração e demonstrou grande interesse em aprender.

No segundo capítulo, serão comentados conceitos sobre TDAH, algumas características e causas.

No terceiro capítulo, será explorado o papel do lúdico na psicopedagogia clínica para facilitar a aprendizagem de crianças com TDAH, e no quarto capítulo, será apresentada a devolutiva do cliente descrevendo o que foi feito, checado, as atividades desenvolvidas e as melhoras obtidas.

Para o encerramento da monografia, seguirá a conclusão, precedida da bibliografia consultada.

O CASO CLÍNICO

1.1 – IDENTIFICAÇÃO DO CLIENTE

O cliente L.C.L, nascido em trinta de agosto de 1988 (14 anos de idade), é filho de J. M. L, que tem como profissão, auxiliar cabista, e I. M. C. L, professora; mora no Conjunto Timbó, no bairro de Maracanaú, é estudante do Colégio E. sob a coordenação de S. M. e a orientação de D.; foi atendido durante o período de quatro meses, no segundo semestre de 2002, pelas estagiárias do curso de pós-graduação em psicopedagogia clínica e institucional, no consultório da UVA, localizado na R. Joaquim Nabuco 1293, embora já tivesse sido atendido anteriormente por outra dupla de estagiárias no primeiro semestre de 2002.

1.2 – QUEIXA

Conforme o relatório da dupla anterior, o cliente apresenta dificuldades de aprendizagem escolar, principalmente em linguagem, leitura, escrita e matemática. Também tem dificuldades de expressar sua opinião na construção de textos, lê com dificuldade, gagueja, troca palavra, salta linhas, escreve muito errado e troca às letras p/t, a/o, r/l. O garoto apresenta dificuldades de concentração, é agitado, dispersivo e quer fazer várias coisas ao mesmo tempo.

Embora estas queixas ainda permaneçam visíveis, tanto à família, como à escola – perceberam uma melhora em relação à linguagem oral (suas histórias já apresentam uma seqüência de começo, meio e fim), houve uma melhora na concentração e no comportamento infantilizado.

1.3 – SÍNTESE DA ANAMNESE

Segundo a anamnese feita com a mãe, em relação à melhora obtida após o atendimento da dupla anterior, percebeu-se uma melhora na concentração, coerência nos pensamentos e relatos de L. apesar de continuar apresentando dificuldades neste aspecto.

Em várias perguntas que foram feitas, a S. I. demonstrou não saber praticamente nada, em relação ao filho; não sabe quais os dias da natação, não o acompanha nos aniversários, “porque é festa de criança”, e acha que o adolescente tem é preguiça de estudar. Comentou que, aos sete anos de idade, o garoto fez tratamento neurológico, mas não prosseguiu o tratamento, não lembra o nome do remédio, nem do médico. Demonstrou desejo que o filho tivesse mais gosto pelos estudos. Perguntando-lhe sobre a que atribuía essas dificuldades, emocionou-se, e supôs ser sua ausência; porém, nos finais de semana, tem procurado estar mais presente.

Na anamnese com o pai, obteve-se uma descoberta fundamental para a construção da hipótese diagnóstica. Ao falar a respeito de seu filho ser muito desobediente, confessou que, aos sete anos de idade, num momento de descontrole com a criança, deu-lhe um tapa na altura do ouvido que lhe provocou um desmaio. Também comentou que durante os primeiros 10 anos de vida de L, viajava muito a trabalho, e por isso, quase não teve contato com o filho.

Os dois trabalham muito para “dar uma melhor educação ao filho”; a mãe, quase nunca está em casa, e quando está, precisa descansar e corrigir provas; hoje em dia, ele tem mais contato com o filho, e tenta acompanhá-lo à natação e aos jogos de futebol. O pai acha que precisava ter mais coerência na hora de impor regras ao filho; a mãe, muito faltosa, deixa o menino fazer tudo, dessa forma, ele manda, e ela desmanda.

S. M. fica impressionado quando o filho está fazendo uma tarefa e olha a resposta na frente dele, várias vezes, e não consegue enxergar. Indagado sobre as coisas que o filho gosta de fazer, respondeu apenas: jogar bola.

Outra descoberta valiosa foi o relato de K., que cuida do adolescente, comentando que durante um período da infância, o menino ficava sozinho trancado em casa, (não se sabe como, aonde) e somente nas horas das refeições, alguém vinha alimentá-lo.

1.4 – FOTOGRAFIA DO CLIENTE

Em relação às suas qualidades, o cliente se percebe: um pouco inteligente, gosta de brincar de vídeo game e de desenhar, e durante as atividades demonstra estar sempre cansado. Seus defeitos: sentir cócegas e jogar vídeo game.

Seus amigos o vêem: um pouco inteligente. Os pais também o vêem pouco inteligente. O que a mãe espera dele: que não jogue vídeo game.

Já a família o vê como um garoto simpático, alegre, comunicativo, mas, muito dependente, inquieto, desobediente, com grandes dificuldades nos estudos, principalmente em português e matemática. Gostariam que ele tivesse mais gosto e interesse pelos estudos. Apesar das dificuldades, acreditam que com a intervenção psicopedagógica, mesmo em longo prazo, ele possa superar estas dificuldades.

A escola o define como um adolescente simpático, aparentando ter menos idade do que a que realmente tem. Não participa das aulas, parece estar sempre no “mundo da lua”, porém, não é indisciplinado. Quanto aos seus textos, não têm coerência alguma. Perceberam uma pequena melhora em relação ao interesse. Gosta muito de jogar bola e fica muito zangado quando o time perde.

As estagiárias consideram L. um garoto de 14 anos de idade, com atitudes e aspectos de uma criança bem mais nova. Gosta de músicas infantis, massinha de modelar, pintura, jogos e carros de corrida; não transforma e não conserva; é desatento, inquieto, com grandes dificuldades em aceitar regras, limites e sem poder de concentração; também sem nenhum domínio do verbal. Apesar de ter consciência de suas dificuldades de aprendizagem, é um menino alegre, vaidoso, simpático, com uma excelente percepção visual.

1.5 – HIPÓTESES DIAGNÓSTICAS

L. C. L. é um adolescente com quatorze anos de idade, filho único, cursando a 6a. série, repetente do jardim I e da alfabetização, que apresenta grandes dificuldades de aprendizagem, principalmente em leitura, escrita e matemática.

Conforme as observações, nas atividades aplicadas e brincadeiras com jogos percebe-se que sua atenção é hiperexclusiva, por ver fragmentos isolados e alguns sem esgotar o repertório (pré-conceitual, percepção centrada), indicando dificuldades na atenção seletiva, pois durante as atividades distrai-se com facilidade diante de estímulos irrelevantes, fatigando-se facilmente quando tentava se concentrar por mais tempo.

Quanto à memória, demonstra excelente memória sensorial e a curto prazo, memorizando rapidamente as gravuras e os detalhes das figuras, nos jogos de memória; já na memória a longo prazo, tem muita dificuldade para recordar seqüências de meses, datas e dias da semana.

Em atividades projetivas, o garoto retrata sua insegurança e imaturidade, e nos testes piagetianos de conservação, constatou-se que L. não conserva, com indícios de que ainda se encontra na fase pré-operacional, (PIAGET) com idade cognitiva em torno dos sete anos de idade, provavelmente seja este o motivo para interessar-se bastante por músicas e histórias infantis dentro desta faixa etária. Devido à pobreza de contato com o objeto que redunda em esquemas de objetos empobrecidos, déficit lúdico e criativo, e uma pobreza de contato com o objeto, dificuldade na internalização de imagens, a criança sofreu a falta de estimulação ou o abandono.

Há evidências e fortes indícios de que as dificuldades de aprendizagem do adolescente provavelmente foram ocasionadas por carência de estímulos suficientes de acordo com sua idade, falta de interação com crianças da mesma faixa etária, falta de mediadores significativos no âmbito familiar e escolar, além de uma possível lesão cerebral que faz levantar-se as hipóteses diagnósticas de déficit de atenção com hiperatividade e dislexia e confirmadas segundo o laudo da neurologista Dra.Maria Darcy Figueiredo, que ao saber da dupla, da violência do filho, sofrida pelo pai aos sete anos de idade, e diante de sua experiência, não acredita que um pai que tenha tomado uma atitude brutal como esta, tenha mudado e deixado de agir desta forma, e que as agressões além de serem físicas, devem ser morais, reforçando ainda mais as dificuldades do garoto e impossibilitando a sua melhora.

TRANSTORNO DE DÉFICIT DE ATENÇÃO COM HIPERATIVIDADE - DEFINIÇÃO

É comum na área de educação hoje em dia, ouvir-se falar sobre hiperatividade; na realidade, as crianças pequenas apresentam características de desatenção e excesso de agitação, mas quando estes sinais persistem após os cinco anos, é possível ser um distúrbio chamado de transtorno de déficit de atenção com hiperatividade. (TDAH ).

O transtorno é de origem genética e impede a criança de concentrar-se numa tarefa podendo resultar em um déficit de atenção e em sérias dificuldades de aprendizagem.

Para RODHE & BENCZIC (1999)

Trata-se de um problema de saúde mental que possui três características básicas: a desatenção, a agitação (ou hiperatividade) e a impulsividade. Este transtorno tem um grande impacto na vida da criança ou adolescente e das pessoas com as quais convive. Pode levar a dificuldades emocionais, de relacionamento familiar e social, bem como a um baixo rendimento escolar. (RODHE & BENCZIC, 1999:37).

Os problemas de atenção impedem que haja a seleção da informação essencial para que ocorra a aprendizagem. FONSECA (1995), considera a presença de dois ou mais estímulos como prejudicial a essas crianças, tanto ao nível visual como auditivo, e ainda comenta que conforme estudos atuais à atenção é controlada pelo tronco cerebral, e uma vez afetada esta unidade funcional, o cérebro está impedido de processar e conservar a informação, pondo em risco as funções de decodificação e codificação (FONSECA, 1995:253). Quando não ocorre a seleção da informação o córtex poderá tornar-se confuso na hora de identificar a informação como relevante ou irrelevante e em algumas tarefas que precise mudar o controle da atenção, dificilmente as crianças com dificuldades de aprendizagem conseguem concluir esse processo.

Além dos problemas de atenção, as crianças com dificuldades de aprendizagem apresentam problemas perceptivos e de memória. O desenvolvimento perceptivo dependerá do desenvolvimento motor, portanto, o estágio sensório-motor é de grande relevância para o desenvolvimento da criança. FONSECA (1995) acrescenta que:

A capacidade perceptiva de discriminar, analisar, sintetizar, reconhecer e armazenar estímulos e suas relações está indissociavelmente ligada à manipulação de objetos e à elaboração de respostas simples, compostas e complexas. O reconhecimento do objeto (contorno, forma, comprimento, largura, orientação, etc.) é inseparável da sua manipulação, motivo pelo qual a percepção envolve reciprocamente um componente motor. (FONSECA, 1995:255).

Em relação aos problemas de memória o autor supracitado aponta a memória e a aprendizagem como processos indissociáveis, assegurando como ser essa a razão pela qual as crianças com dificuldades de aprendizagem apresentam constantemente problemas de memorização, conservação, consolidação, retenção, rememorização, rechamada (visual, auditiva e tatilquinestésica), etc, da informação anteriormente recebida.(FONSECA 1995:266). Como conseqüência dessas falhas na memória, é importante lembrar que conforme FONSECA (1995):

Esquecer é também sinônimo de desaprender, provavelmente porque não se operou uma organização interna que envolve processos neurológicos determinados. Os estímulos que estão na base da aprendizagem precisam ser identificados e discriminados, mas também armazenados, para que possam estar disponíveis e acessíveis para as funções expressivas. (FONSECA, 1995:268).

No caso de L. notava-se a incapacidade em discriminar, analisar e elaborar respostas simples, em reconhecer objetos diferenciá-los conforme tamanho, largura, comprimento, forma e confirmando que a falta de estímulos suficientes no estágio sensório motor comprometeu o desenvolvimento motor do aprendente, apresentando problemas perceptivos e de memória.

2.1 – CARACTERÍSTICAS E CAUSAS DO TDAH

ROHDE & BENCZIC (1999:39) caracterizaram o TDAH por dois grupos de sintomas: (1) desatenção e (2) hiperatividade (agitação) e impulsividade.

No grupo de desatenção as crianças com TDAH não conseguem prestar atenção a detalhes, cometem erros por descuido, demonstram uma grande dificuldade para concentrar-se em tarefas e ou jogos e por não conseguirem prestar atenção ao que lhes é dito, dão a impressão de estarem no “mundo da lua”; além disso, dificilmente conseguem terminar algo que começam a fazer, não conseguindo também seguir as regras e as instruções; são desorganizadas com materiais e tarefas evitando atividades que são exigidas um esforço mental maior; costumam perder coisas importantes facilmente e distraem-se com coisas que não têm nenhuma relação com o que está sendo feito.

Como sintomas do grupo de hiperatividade / impulsividade ROHDE & BENCZIC (1999) citam a incessante movimentação que essas crianças fazem com as mãos e os pés quando estão sentadas e das dificuldades em manterem-se sentadas por muito tempo; são crianças que parecem ter uma sensação interna de inquietude e por isso chegam a pular e a correr demasiadamente em situações inadequadas; ao jogar ou brincar, são muito barulhentas, agitadas, falam demais, respondem às perguntas quase sempre antes de terem sido terminadas, não suportam esperar a vez e intrometem-se nas conversas e jogos dos outros constantemente.

De acordo com as pesquisas mais recentes são necessários, pelo menos, seis sintomas de desatenção e seis dos sintomas de hiperatividade/impulsividade para que se possa pensar na possibilidade do diagnóstico de TDAH. ROHDE & BENCZIC (1999).

L.C.L. apresentou freqüentemente durante o estágio a maioria desses sintomas, embora ao final do estágio tenham sido bastante reduzidos.

Estudos comprovam que o transtorno é causado por uma pequena disfunção cerebral que torna a pessoa incapaz de pensar claramente, de ter um humor estável, de manter as fantasias e impulsos sobre controle, de estar satisfatoriamente motivada na vida e de regular essa energia na proporção correta, dentro da situação em que se encontra. Além da falta de atenção, impulsividade, irritabilidade, intolerância e frustração, os portadores de TDAH têm maior tendência à depressão e uso de drogas e álcool.

Segundo TREDGOLD apud LEWIS (1993), no ano de 1908, o termo “disfunção cerebral mínima”, foi elaborado para classificar crianças que se mostravam impulsivas, desatentas e hiperativas. Contudo, não foi comprovado seguramente esse dado em todas as crianças com TDAH. Da mesma forma, foram acrescentados outros fatores como possíveis causas do TDAH: anormalidades genéticas, lesão perinatal, infecções, envenenamento por chumbo, traumatismo na cabeça, transtornos metabólicos, transtorno dos neurotransmissores, problemas dietéticos e fatores psicossociais. (LEWIS, 1993:387).

Há uma alta incidência do transtorno em meninos, levando-se a acreditar que o problema possivelmente está relacionado também ao hormônio masculino testosterona.

Como diagnóstico diferencial LEWIS (1993) inclui transtorno de ansiedade, transtornos afetivos, transtornos de conduta, transtornos de personalidade anti-social, dificuldades severas de aprendizagem e retardo mental (LEWIS, 1993:387). O autor ainda alerta para que uma vez sendo confirmado o diagnóstico, o tratamento seja logo iniciado, pois caso contrário, a criança passará a ser punida, ao invés de ser tratada, podendo assim, ocorrer um comprometimento severo em sua auto-estima, que poderá ocasionar uma depressão, um comportamento agressivo e conseqüentemente um fracasso escolar.


O PAPEL DO LÚDICO PARA A APRENDIZAGEM DE CRIANÇAS COM TDAH NA PSICOPEDAGOGIA CLÍNICA

No decorrer deste trabalho, a palavra lúdica será utilizada para indicar o processo de jogar, brincar, representar e dramatizar como condutas semelhantes à vida infantil.

Segundo VYGOTSKY (1988), PIAGET (1990), WINNICOTTI (1971), o jogo está presente como um papel de fundamental importância na educação, principalmente na educação infantil; no entanto, CHATEAU (1987) adverte para que a educação não se limite somente ao jogo, pois isso levaria o homem a viver num mundo ilusório e cita o jogo apenas como uma preparação para o trabalho, exercício, propedêutica. (CHATEAU, 1987:155). Sua teoria fundamenta-se nas relações mútuas entre jogo e trabalho; de acordo com o autor, o jogar exige um esforço muito grande, e quase sempre tem como objetivo cumprir uma tarefa; portanto, o jogo é um dever tanto quanto uma tarefa escolar; e desta forma, o jogo passa a ter um caráter moral. Além disso, o jogo e o trabalho possuem valores sociais. Jogando, a criança entra em contato com outras crianças, passa a respeitar os diferentes pontos de vistas, e isso irá favorecer a saída de seu egocentrismo original.

Em relação a esse aspecto, CLAPARÈDE, apud CHATEAU, (1987), confirma que é preciso tomar muito cuidado para que o jogo não se torne apenas um divertimento, desprezando essa parte de orgulho e de grandeza humana que dá seu caráter próprio ao jogo humano. (CHATEAU, 1987:124).

Conforme BROUGÈRE (1998), o jogo nos dá a oportunidade de descobrir informações sobre o nosso meio que contribuem para nossa visão de mundo, e para várias formas de aprendizagens. (BROUGÈRE, 1998:190). Através dos jogos, são exercitados aspectos físicos e mentais do indivíduo. Portanto, por que não aprender matemática, leitura, escrita, de uma forma prazerosa, interativa, em que trocamos pontos de vista, conhecemos melhor o outro, convivemos de uma maneira harmoniosa e feliz? Por mais que haja desgaste físico, algumas frustrações, o prazer que sentimos ao jogar, ao brincar, é imensurável.

O jogo chega a ser considerado por FREUD apud BOSSA, 2000 como uma atividade criativa e curativa, pois permite à criança (re) viver ativamente as situações dolorosas que viveu passivamente, modificando os enlaces dolorosos e ensaiando na brincadeira as suas expectativas da realidade. (BOSSA, 200:111).

O prazer moral proporcionado pelo jogo deverá ser transposto para a educação, calcada na atividade espontânea do jogo. A criança precisa superar obstáculos, precisa querer superá-los. De acordo com CHATEAU (1987), a verdadeira alegria, a alegria humana, é aquela que se obtém num triunfo sobre si, num domínio de si. Por mais cansativo que seja o jogo, o prazer da vitória é gratificante. (CHATEAU, 1987:128).

Como tão bem observou FERNÁNDEZ (2001) Brincando descobre-se à riqueza da linguagem; aprendendo, vamos apropriando-nos dela.

Brincando inventamos novas histórias; o aprendizado permite historiar-nos, ser nossos próprios biógrafos.

Jogar é pôr a galopar as palavras, as mãos e os sonhos. (FERNÁNDEZ, 2001:36).

Para MAIA, (1993), o jogo está presente nas mais diversas fases e atividades da vida humana, englobando desde o desenvolvimento físico, psicomotor e cognitivo até o afetivo e social. (MAIA, 1993:36).

Felizmente, a psicopedagogia surgiu para comprovar que é possível minimizar, as dificuldades de aprendizagem, através de intervenções em que sejam utilizadas atividades lúdicas.

Diante das hipóteses diagnosticadas de L.C.L, um adolescente que não teve contato com o lúdico nos primeiros anos, praticamente abandonado pelos pais, com a auto-estima baixa, dificuldades de concentração, resistência a tudo que lembra sala de aula, constatou-se que os jogos e as brincadeiras constituíram-se como excelentes suportes para o desenvolvimento e a conseqüente superação das dificuldades do cliente.

FONSECA (1995) descreve algumas características das crianças com dificuldades de aprendizagem e cita os problemas perceptivos motores e perceptivos como problemas presentes nestas crianças.

A capacidade perceptiva de discriminar, analisar, sintetizar, reconhecer e armazenar estímulos e suas relações está indissociavelmente ligada à manipulação de objetos e à elaboração de respostas simples, compostas e complexas. O reconhecimento do objeto (contorno, forma, comprimento, largura, orientação, etc.) é inseparável da sua manipulação, motivo pelo qual a percepção envolve reciprocamente um componente motor (processo perceptivo-motor). (FONSECA, 1995:255).

O interesse demonstrado pelo aprendente, a alegria ao ganhar e o vínculo positivo estabelecido durante as sessões lúdicas foram percebidos claramente. L.C.L passou a tomar iniciativa para escolher o jogo, para ler as regras, demonstrou curiosidade para entender o objetivo do jogo, começou a se sentir mais feliz, mais confiante e aceitando melhor as regras e lidando melhor com as perdas. As vitórias conseguidas em relação aos processos cognitivos, motores, físicos e sociais, foram gratificantes ao final do estágio, embora seja indispensável à continuidade do atendimento, com a colaboração primordial da família, escola e demais profissionais encaminhados.

DEVOLUTIVA

No primeiro momento, pediu-se aos pais que falassem a respeito das mudanças percebidas no filho, se notaram algum novo interesse, e que falassem em que o atendimento tinha ajudado. Apesar de terem percebido poucas mudanças, acreditam que o atendimento está sendo importante para o garoto.

Foi bastante satisfatório saber do interesse de L. por histórias infantis acompanhadas por um cd e da melhora na concentração.

No segundo momento, falou-se em relação aos alcances e às qualidades de L., fazendo uma retrospectiva de todo o trabalho psicopedagógico, partindo da queixa trazida, mostrando os resultados obtidos, comparando as dificuldades do início e os resultados alcançados.

No terceiro momento, levantou-se as hipóteses diagnósticas e as possíveis causas.

Finalizou-se a conversa, com algumas orientações, ressaltando a importância da presença dos pais para o filho, da participação nas atividades escolares e sociais, da coerência nas posturas, nos limites, permissões e punições e que devido às hipóteses diagnosticadas, as tarefas de L. deveriam ser curtas, para não cansá-lo e não desmotivá-lo e que era preciso continuar o tratamento psicopedagógico, fonoaudiólgo e neurológico, incentivá-lo para que continue na natação e que L. tenha mais contato com garotos de sua idade. Informou-se e pediu-se permissão aos pais para que fosse feita a devolutiva também com a escola, sugerindo algumas orientações.

CONCLUSÃO

Por que não resgatar a criança que se foi um dia e tornar a vida alegre, divertida e simplesmente prazerosa? Por que não tornar a aprendizagem tão estimulante como são os jogos, as contações de histórias, as músicas infantis, as brincadeiras de pega-pega, de esconde-esconde e de faz - de- conta...?

Para CUNHA apud BRANDÃO (1997), a brincadeira é primordial e desenvolve a arte de amar. (BRANDÃO, 1997:7).

Acredita-se que, através da psicopedagogia, a educação poderá ter respostas surpreedentes como a que se teve no caso de L.C.L, quando ao final do estágio, nas últimas sessões, pôde se ver o olho do adolescente brilhando de felicidade diante de um livro de Leonardo da Vinci, e lendo, mesmo com uma dificuldade imensa e ao concluir uma pintura feita por ele, de sua família, pintando-se de vermelho ao invés de branco, o que demonstra a melhora de sua auto-estima.

Embora os resultados obtidos ainda não sejam muito visíveis aos olhos da família e escola, através de inúmeras observações, os resultados foram de grande valia. Nas sessões com L.C.L percebia-se a alegria demonstrada pelo cliente ao jogar e o quanto isso proporcionou um vínculo forte com a dupla de estagiárias, o que facilitou para que o adolescente aprendesse a lidar melhor com seus medos e inseguranças, a lidar melhor com a aceitação de limites e demonstrando mais interesse por aquilo que estava sendo jogado.

Conclui-se desta forma, que apesar de reconhecer-se o desenvolvimento maturacional do aprendente da pesquisa, atribui-se os avanços cognitivos alcançados à intervenção com jogos, pretende-se com esse estudo, confirmar a importância do lúdico para as crianças e principalmente para aquelas que apresentam maiores dificuldades de aprendizagem.


BIBLIOGRAFIA

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Anabela Pinto - Aluna da Licenciatura em Ensino Básico, na Escola Superior de Educação de Lisboa