Educação Especial: a Prevenção das Deficiências e a Busca de Melhoras para Amenizar a Deficiência Adquirida

Autora:Mara Silvia Pasian

Quando pensamos em pessoas com necessidades especiais fica claro que é preciso discutir terminologia, instrução, formação, atendimento e infra-estrutura para que a deficiência não impeça o indivíduo de viver em todos os aspectos de uma maneira confortável e prática.

No entanto, é preciso primeiro investir na promoção da saúde para prevenir que possíveis deficiências ocorram, pois muitas são geradas por problemas que podem ser evitados. Muitos fatores podem facilitar a prevenção da deficiência, entre eles estão:

•Saneamento básico e educação sanitária, isso pode evitar diversas doenças que causam danos irreversíveis ou mesmo a morte.

•Proteção contra-acidentes, muitos destes podem e devem ser evitados com orientações e materiais adequados de proteção. Como exemplo, podemos citar o caso dos protetores auriculares, que devem ser utilizados nas industrias onde o nível de ruído está acima do nível permitido, afetando a audição dos operários. Os danos mais freqüentemente causados por acidentes no trabalho são deficiência física e surdez.

•Evitar doenças contagiosas através de vacinação, orientação e divulgação.

•Tratar da cura das doenças o mais cedo possível, buscando-se diagnósticos precoces, podendo assim evitar conseqüências irreversíveis.

•Exames realizados no nascimento dos bebês podem servir para a descoberta de alguma anormalidade com necessidade de tratamento, a qual descoberta a tempo e tratada pode evitar uma futura deficiência. Como por exemplo, o teste do "pezinho", ou testes que podem diagnosticar uma futura surdez ou cegueira. Mas é preciso que todos tenham direito a esses exames e que haja uma orientação e principalmente informação para que todos, além do acesso, estejam cientes que é preciso realizá-los.

•A orientação aos pais sobre o pré-natal e os cuidados básicos que devem ter com o bebê pode evitar que ele se torne um futuro portador de alguma deficiência.

É necessário investir primeiro nos aspectos que podem evitar a deficiência. Alertar para os cuidados, precauções e principalmente informações à população.

No entanto, esses fatores e a falta de informação para a população são falhos, mas estão melhorando. A vacinação e alguns testes têm evitado deficiências antes comuns. Uma vitória alcançada é a erradicação da poliomielite, graças a grandes campanhas de informação e o esforço das autoridades.

Nem toda deficiência pode ser prevenida e evitada. Mas podemos diminuir o número de casos com vacinas, cuidados e precauções.

Melhoras Possíveis para Amenizar a Deficiência

Quando a deficiência existe e não há mais nada a fazer para solucionar o problema do indivíduo, é preciso então buscar alternativas para amenizá-la. Muito se pode fazer para bebês e crianças que têm algum tipo de deficiência, para que possa ter alternativas de melhora no desenvolvimento físico e intelectual.

O esclarecimentos aos pais da deficiência que seu filho possuí e o que eles podem fazer é muito importante. Em alguns casos, onde os pais sentem-se incapazes ou perdidos é preciso oferecer apoio, isso pode ser fundamental para conseguir que eles aceitem e entendam a deficiência, para poder trabalhar melhor com seus filhos.

No caso dos adultos que adquirem alguma deficiência, o treinamento e a reeducação são necessários para possibilitar a máxima utilização das capacidades restantes, ensinando-os a alcançar os melhores resultados.

A intervenção precoce pode ajudar o desenvolvimento dos bebês. A fisioterapia, a linguagem e a estimulação podem ser trabalhadas com profissionais e também com os pais que devem ser orientados no que for preciso.

No entanto, apesar de procurar amenizar, é importante mostrar a realidade, que o indivíduo possuí uma deficiência. Isso deve estar claro para os pais e para o próprio indivíduo. O termo "Indivíduos com Necessidades Especiais" expressa de maneira menos aversiva essa realidade.

Infelizmente nem sempre se pensou assim, vamos relembrar um pouco da história de como as pessoas consideradas fora do padrão estipulado como normalidade foram tratadas.

Educação Especial

Na era antiga o abandono era ético, as explicações sobre as causas das deficiências variavam, mas normalmente se justificava como "castigo" ou desejo de Deus por alguma razão. Era normal castigar ou torturar as pessoas que tivessem algum tipo de deficiência. Havia "asilos" que alojavam essas pessoas juntamente com velhos. O deficiente mental era chamado de "idiota".

Os filósofos começam a estudar as deficiências e começam a separar os tipos que existem: cegos, surdos, deficiências mentais ou físicas.

No entanto a procura das causas parece ser mais importante que o cuidado com as pessoas, os médicos procuram diagnosticar as deficiências, começa o conceito de hereditariedade, onde surgem tentativas de esterilização das pessoas com deficiência ou eliminação das mesmas (Petersen, Kube & Palmer, 1998).

O progresso na pesquisa biomédica mostra que deficiência não é hereditária. Procura-se melhores maneira de tratar o deficiente. Percebe-se que a incurabilidade é diferente da educabilidade e então inicia-se um processo de educação para os deficientes.

A educação especial começou como assistencial, apenas priorizando o bem estar das pessoas, com acompanhamento médico e psicológico. Depois aparece como instituição de educação escolar e em seguida a busca da integração no sistema geral de ensino. Hoje a proposta é a de inclusão total desses alunos nas salas de aula do ensino regular (Mantoan, 2002).

O caminho da mudança de nomenclatura passou também por uma história. Os deficientes eram chamados de "idiotas" antigamente e não se pensava em pessoas que poderiam ser ensinadas e sim, excluídas. Hoje é usada a terminologia "alunos com necessidades educacionais especiais" ou "portadores de necessidade educacionais especiais" (Brasil, 1994).

O nome com que é denominada a deficiência ou como tratar os deficientes é reflexo de uma mudança na maneira como as pessoas pensam sobre a deficiência e da procura por maneiras de trabalhar para uma melhora de vida das pessoas que possuem algum tipo de "descapacidade" (Skrtic, 1997).

Considerando que a terminologia reflete a postura social, a ONU (Organização das Nações Unidas) adotou a nomenclatura "Pessoas Portadoras de Deficiência" (Slee, 1999). Este termo reflete que a deficiência está na pessoa, mas não é a pessoa. Pensando-se assim fica mais fácil atuar na procura de melhora específica do que a pessoa necessita para torná-la capaz de superar os obstáculos que precisa enfrentar.

O estudo feito por Halgren & Clarizio (1993) sobre mudanças nos programas e categorias nos serviços de educação especial mostrou que mudança na categoria da deficiência de um indivíduo o levava a tratamentos diferentes, auxiliando a sua melhora, integração e engajamento no trabalho.

Todos as criticas sobre a política da Educação Especial e as tentativas de atuação que ocorrem desde 1968 e que se acentuaram nos dias de hoje vem fortalecer e criar maiores discussões e procuras de soluções para um ensino eficaz e adequado para os estudantes com necessidades especiais.

Algumas medidas e planejamentos parecem ainda ser utópico perante a realidade existente, no entanto é preciso conseguir a realização de pequenas melhoras, que podem significar muito.

Inclusão Escolar

Atualmente a inclusão é considerada para os alunos com necessidade educacionais especiais. Com certeza é certo procurar incluir todos os alunos no ensino regular, no entanto, é preciso viabilizar e suprir algumas necessidades e em alguns casos avaliar qual o melhor atendimento para esse aluno.

A inclusão significa educação gratuita e apropriada, em ambientes sem restrições, com crianças da mesma idade.

As classes especiais ou algum outro tipo de escolarização separada devem ocorrer apenas em casos em que as limitações ou severidade impossibilitem ou que possa surtir melhores efeitos que a classe comum (Brasil, 1998).

Os pais deveriam ter direito de escolher o mais adequado para seu filho, mas para isso é preciso esclarecimentos e opções para os mesmos.

Infelizmente no Brasil de cada grupo de 100 alunos que ingressam na 1ª série do ensino fundamental 59 conseguem terminar a 8ª série e os outros 41 param de estudar no meio do caminho. Para aqueles que entraram no ensino médio, a expectativa de conclusão é maior: 74% conseguem terminá-lo (Kuno & Gouvêa, 2001).

Muitos desses alunos que ingressam na escola e não terminam são crianças consideradas com necessidades educacionais especiais, mais especificamente os alunos com dificuldade de aprendizagem, muitos deles encaminhados a salas especiais e ficando nelas por vários anos sem nenhuma melhora, até sua desistência do aprender abandonando a escola (Dockrell, 2000)

É preciso pensar na Educação Brasileira como algo sério, precisam ser tomadas decisões na procura de soluções para diminuir o número de alunos que não conseguem alfabetizar-se e deixarem de ser excluídos do ensino regular. Assim como os indivíduos com necessidades especiais, que precisam ser incluídos na educação regular e participarem dessa inclusão.


Referências

•BRASIL, Secretaria de Educação Especial - Educação Especial no Brasil : Série Inst.2/ MEC/SEESP, Brasília, 1994

•BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: Adaptações Curriculares / Secretaria de Educação Fundamental. Secretaria de Educação Especial. – Brasília : MEC/ SEF/SEESP, 1998. 62p.

•KUNO, P.R.; GOUVÊA, S.F. Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. 2001

•Dockrell, J. Crianças com dificuldade de aprendizagem: uma abordagem cognitiva/ Julie Dockrell e John McShane; trad. Andrea Negreda. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

•Halgren, D.W.; ClarizioH.F. Categorical and Programing. Changes in Special Educacion Services. Michigan State University, 1993.

•Mantoan, M.T.E. A Educação Especial no Brasil - Da exclusão à inclusão escolar. Universidade Estadual de Campinas. Faculdade de Edcucação. Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino e Diversidade - LEPED/Unicamp. 2002.

•Petersen,M.C.; Kube,D.A. & Palmer,F.B. Classification of developmental delays. Seminars in Pediatric Neurology. 5, 1, 2-14. 1998.

•Slee,R. Is there a desk with my name on it? the politics of integration. Cap. 3: A política de integração: observações sobre o Relatório Warnock. Deakin Studies in Education, 1999.

•Skrtic, T.M. La crisis en el conocimiento de la educación especial: una perspectiva sobre la perspectiva. In B. Franklin, Interpretación de la discapacidade. (pp 35-41). Madrid: Pomares-Corredor.1997.

Mara Silvia Pasian - Mestre em Educação Especial pela Universidade Federal de São Carlos.