A LÍNGUA DE SINAIS NA ELABORAÇÃO
DA CRIANÇA SURDA SOBRE A ESCRITA
Zilda M. GESUELI
M. Cecília R. de GÓES
Introdução
A utilização da língua de sinais vem sendo reconhecida
como um caminho necessário para a efetiva mudança nas
condições oferecidas pela escola no atendimento educacional
de alunos surdos. Apesar de haver várias questões controvertidas
perpassando a discussão nessa área, além de ambigüidades
e indefinições nas propostas, temos testemunhado uma tendência
à afirmação da necessidade desse caminho para a
escolarização do surdo. Concretizá-lo é
um desafio para os educadores, e entre os problemas postos por esse
desafio está o modo pelo qual se pode lidar com a participação
de duas línguas nas experiências escolares.
O Plano Nacional de Educação Especial (MEC/SEESP, 1994)
propõe o incentivo ao uso e à oficialização
da Lingua Brasileira de Sinais (LIBRAS); ao mencionar o ensino da Língua
Portuguesa para o surdo, o documento recomenda que isso deve ser feito
"por meio de uma metodologia própria" (p. 52,
grifo nosso). Mesmo que não pensemos em "uma" metodologia
mas em modelos diversos de atuação, muitas indagações
permanecem quanto ao que configuraria a especificidade aí implicada.
E essa especificidade parece passar, a nosso ver, pelas formas como
são estabelecidas relações entre as duas línguas.
No presente trabalho pretendemos trazer alguns elementos de contribuição
para a análise desse problema, com base num estudo realizado
com crianças surdas que estão em aquisição
da LIBRAS e em processo inicial de conhecimento da linguagem escrita.
Embora o estudo refira-se ao contexto de uma instituição
especial, julgamos que os apontamentos são igualmente relevantes
para aqueles que propõem a inserção do surdo na
escola regular.
Na análise a ser apresentada tomamos como referência as
teses gerais da abordagem histórico-cultural, em especial as
proposições de Vygotsky (1981, 1993). Essa perspectiva
teórica tem como pressuposto que a relação do sujeito
com o mundo não é direta, mas mediada, e que as ocorrências
de mediação vão emergir através de outrem
e, depois, orientar-se para o próprio sujeito. No processo de
desenvolvimento do sujeito, a linguagem tem um lugar central, como mediadora
das interações e como instância de significação
por excelência; ou seja, ela não pode ser reduzida, meramente,
a um instrumento de comunicação.
Em razão dessa centralidade da linguagem, o significado da palavra
é tomado como referência essencial na interpretação
da formação da consciência e do funcionamento superior.
O significado da palavra representa, um amálgama tão estreito
do pensamento e da linguagem, que fica difícil dizer se trata
de um fenômeno da fala ou de um fenômeno do pensamento.
Uma palavra sem significado é um som vazio; o significado, portanto,
é um critério da "palavra", seu componente indispensável"
(Vygotsky, 1993, pg.104). Pensamento e linguagem não são,
pois, processos paralelos e independentes, mas afetam-se reciprocamente.
A relação entre pensamento e linguagem se constitui em
"um movimento contínuo de vaivém do pensamento para
a palavra, e vice-versa" (Vygotsky, 1993, pg.108).
Assumindo esse estatuto especial da linguagem em sua relação
com o pensamento, como encarar o processo de desenvolvimento e aprendizagem
da criança surda? Se a linguagem exerce um papel mediador na
relação com o mundo e fundante na construção
da subjetividade, como se dará a construção do
funcionamento psicológico superior das crianças surdas,
uma vez que elas fazem (ou podem fazer) uso predominante de uma linguagem
não utilizada por muitos de seus "outros sociais"?
Com base nas considerações teóricas que salientam
o papel da linguagem no processo de interação e nos processos
cognitivos, podemos presumir que, em geral, a criança surda encontra-se
por demais prejudicada, em função das insuficientes oportunidades
oferecidas pelo grupo social e, em termos da experiência escolar,
em função do fato de que professor e aluno não
partilham a mesma linguagem (como indicam, por exemplo, os estudos de
Lacerda, 1996; Souza, 1996; Góes e Souza, 1997).
A questão da surdez está intimamente relacionada com o
uso efetivo da língua. Entretanto, o que normalmente acontece
no contexto pedagógico é que o aluno surdo, sobretudo
na escolarização inicial, não domina a língua
oral, e o professor, por seu lado, não é um usuário
efetivo da língua de sinais. No mais das vezes, o professor dispõe-se
a aprender a língua de sinais (pelo menos no contexto de escolas
ou salas especiais), porém focalizando correspondências
de vocabulário entre sinais e palavra falada (Português),
numa busca de incorporação de itens lexicais, sem exploração
do uso das regras de enunciação naquela língua.
Contudo, quem faz uso da língua não fica restrito a um
referencial de dicionário, porque este não reflete os
enunciados vivos e não dá conta da polissemia da linguagem.
Como afirma Bakhtin (1995), "o sentido da palavra é totalmente
determinado por seu contexto. De fato há tantas significações
possíveis quantos contextos possíveis" (pg.106).
A língua se constitui na interação verbal entre
diferentes interlocutores inseridos em diferentes contextos; "a
verdadeira substância da língua é constituída
pelo fenômeno social da interação verbal, realizada
através da enunciação" (pg.123). Por isso,
para haver diálogo efetivo, é preciso que os interlocutores
estejam integrados numa situação social e pertençam
à mesma comunidade lingüística, o que cria um terreno
que torna possível a troca lingüística.
Em relação à criança surda usuária
da língua de sinais, torna-se necessário considerar que
essa língua assume a mediação entre os interlocutores
e funda o processo de construção de conhecimento (como
por exemplo, dos conceitos escolares), pois este não acontecerá
fora da linguagem. Isso porque "...não existe atividade
mental sem expressão, mas, ao contrário, é a expressão
que organiza a atividade mental", que a modela e determina sua
orientação (Bakhtin, 1995, pg.112).
De acordo com essa concepção de linguagem, podemos derivar
a idéia de que é preciso que a criança saiba fazer
uso da língua, ou seja, que assuma o papel de interlocutor, para
que possa exercer também o papel de autor-leitor. Mas, no caso
do aluno surdo que utiliza sinais, emerge um entrelaçamento de
capacidades lingüísticas que envolvem dois sistemas (da
língua de sinais e da língua do grupo majoritário
ouvinte), num processo complexo que vem sendo estudado (por exemplo,
Gesuelli, 1988; Souza, 1997), mas que ainda demanda muitas análises.
Considerando a linguagem como um sistema vivo, presente na história
e no meio social, encontramos-nos, ainda, com inúmeros questionamentos
em relação à surdez. Sabemos que os problemas teóricos
quanto à interdependência de pensamento e linguagem não
estão totalmente resolvidos e não podemos ser simplistas
em relação à criança surda, acreditando
que a língua de sinais, por si só, será a solução
de todos os problemas hoje encontrados na sala de aula (ver, a esse
respeito, Góes, 1996; Souza, 1996; e Skliar, 1997). Ainda assim,
a discussão da forma de "entrada" dos sinais na sala
de aula deve ser um dos aspectos centrais dos estudos e iniciativas
nessa área.
Se, como já mencionamos, é a expressão-enunciação
que organiza a atividade mental, vale indagar como fica, então,
a criança surda filha de pais ouvintes (a grande maioria do surdos
está nessa condição) que terá acesso à
língua de sinais tardiamente. Estará ela defasada, cognitivamente,
pelo não contato precoce com a língua que pode aprender
de forma natural? Se estiver defasada, como se dará o processo
de ensino-aprendizagem a partir da língua de sinais, mesmo que
adquirida tardiamente? E como se caracterizará seu processo de
construção da escrita?
Estas são algumas indagações, além das que
já fizemos inicialmente, que acreditamos ser relevantes para
uma discussão entre os educadores, frente à necessidade
de se propor mudanças significativas no trabalho com a criança
surda.
Os trabalhos de Souza (1996), Lacerda (1996) e Góes e Souza (1997)
nos mostram que a situação comumente observada em sala
de aula é semelhante à lenda bíblica de Babel,
pelo fato de professor e aluno surdo não compartilharem a mesma
língua, o que acarreta sérias consequências para
o processo de construção de conhecimento. Portanto, a
situação ensino-aprendizagem aparece, sem dúvida,
comprometida e com inúmeras lacunas pois torna-se muito improvável
que as trocas comunicativas assim constituídas possam propiciar
reflexão sobre o mundo, decorrendo disso a limitação
tanto das operações de ensinar como das de aprender (Souza,
1997).
Estas reflexões enfatizam a necessidade de um repensar sobre
a realidade de sala de aula, para que possamos esboçar as possíveis
soluções. Apesar de vários educadores estarem,
hoje em dia, buscando uma prática de ensino bilíngüe,
aceitando a língua de sinais como língua natural e primeira
língua a ser adquirida pelo surdo, parece que tem sido difícil
abandonar por completo as práticas de ensino baseadas em concepções
estruturalistas da língua assim como a visão terapêutica
da educação especial, ainda tão presentes em nosso
cotidiano. Já no início deste século encontramos
críticas à subordinação do educacional ao
terapêutico (como em Vygotsky, 1989) e essa problemática
ainda perdura no âmbito da educação de surdos (conforme
aponta Behares, 1993).
As proposições de Vygotsky e Bakhtin nos impelem a pensar
uma forte mudança na prática pegagógica, que não
será consolidada num curto espaço de tempo, porém
que deve orientar-se pela importância do aprendizado da língua
de sinais.
Podemos observar que a língua de sinais, nas instituições
que o permitem, vem tomando espaço na sala de aula, e tendo,
hoje em dia, um papel fundamental no contexto escolar; os próprios
alunos contribuem para isto, demonstrando um enorme empenho, juntamente
com o professor, em fazer uso desta língua. E não podemos
esquecer que, para propiciar contexto lingüístico para que
isso aconteça, é de fundamental importância a contribuição
da presença do instrutor surdo no projeto educacional.
Com o propósito de contribuir para a compreensão desse
cenário de problemas e possibilidades, realizamos uma pesquisa
com crianças surdas pré-escolares, orientando a análise
para a interlocução em LIBRAS, durante momentos de trabalho
com narrativas, em atividades de recontagem, leitura e escritura. Cabe
esclarecer que, no presente relato, apenas uma parte da pesquisa é
apresentada, correspondente à observação dos modos
pelos quais, nas primeiras fases da alfabetização, a criança
opera na produção e leitura de texto, com destaque para
alguns indícios da relação que se estabelece, nessa
operação, entre a LIBRAS e a escrita do Português.
O objetivo é, pois, examinar as elaborações
iniciais da criança sobre a linguagem escrita, levando em consideração
a inserção da língua de sinais neste processo de
construção.
Metodologia
A pesquisa abrangeu um estudo longitudinal, em que foi feito um acompanhamento
de seis sujeitos surdos, por um período de um ano e meio. Eles
apresentavam perda auditiva profunda (média de 90 dB), e sua
idade, no começo da pesquisa, estava na faixa de 5-6 anos. Frequentavam
uma instituição especializada, localizada na região
de Campinas-SP, que oferecia atendimento relativo à educação
infantil e desenvolvia projetos para outras faixas etárias (apoio
à escolaridade para alunos do ensino fundamental, alfabetização
de jovens e adultos etc).
O grupo de sujeitos compunha uma classe pré-escolar em que a
primeira autora atuava como professora. Essas crianças estavam
em aquisição da LIBRAS, dentro de uma proposta de educação
bilíngüe que inclui o uso de sinais pelos professores ouvintes
e a participação de instrutores surdos nas atividades
pedagógicas.
Nesse projeto pedagógico, paralelamente ao trabalho diário
com as crianças, aconteciam também atividades de orientação
aos pais. Estes recebiam, mensalmente, explicações sobre
o trabalho realizado em sala de aula e eram incentivados a participar
do curso de língua de sinais oferecido pela instituição.
Os profissionais procuravam mostrar-lhes a importância dessa experiência
para aprimorar sua interação com o filho surdo, bem como
para colaborar em seu processo de aprendizagem escolar (com atenção
especial para a aprendizagem da leitura e escrita).
O estudo envolveu a vídeo-gravação das atividades
de classe no período de um ano e meio. As filmagens foram feitas
quinzenalmente, com duração aproximada de uma hora cada,
por um auxiliar de pesquisa que foi orientado para essa tarefa. É
importante dizer que as crianças estavam acostumadas a situações
de gravação; em geral desenvolviam as atividades, ignorando
a câmera, e algumas vezes dirigiam a atenção a quem
estava filmando, para mostrar trabalhos, acenar, etc.
O trabalho da professora responsável pela sala de aula estava
voltado, principalmente, para o ensino inicial da leitura-escritura,
o desenvolvimento do raciocínio lógico-matemático
e a exploração de tópicos relativos às áreas
de ciências, matemática e estudos sociais. A professora
usava preferencialmente sinais nas interações com os alunos,
durante a realização das atividades; entretanto, em muitos
momentos seus enunciados envolviam o uso concomitante de sinais e fala.
O instrutor surdo tinha horários regulares de trabalho com as
crianças, visando propiciar a vivência de uso da LIBRAS.
Ele também participava de algumas atividades nos horários
de aula da professora da sala. Dentro do projeto institucional, buscava-se
deixar bem definido o papel de cada profissional: a fonoaudióloga
(em intervenção individual) ficaria responsável
pelo trabalho com a fala; o instrutor, pelas experiências de interlocução
através do uso da LIBRAS; e a professora, pela leitura-escrita
e demais áreas curriculares.
As crianças eram sempre incentivadas ao contato com a leitura-escrita
e, principalmente, a perceber a sua função e importância
no mundo de hoje, o que envolveu inclusive atividades extra-classe,
como passeios e saídas realizadas com o grupo. O instrutor estava
constantemente presente nesses momentos, auxiliando na interação
com as crianças e mediando suas iniciativas de interpretar os
acontecimentos vivenciados. A expectativa da equipe de educadores era
de que, com a presença do instrutor surdo propiciando contexto
linguístico para uso da LIBRAS, os alunos passassem a dialogar
através desta e, a partir daí, construíssem conhecimentos
efetivos, principalmente no que se refere ao processo de aquisição
de leitura e escrita.
A partir do material documentado em vídeo na sala de aula, foi
feito um recorte das atividades em que havia ocorrências de produção
de leitura-escrita sobre temas narrativos, propostos pela professora
ou de interesse dos alunos. As transcrições foram organizadas
sob a forma de episódios que se mostraram significativos para
a análise pretendida, e o exame dos episódios foi complementado
por anotações de campo.
Resultados
O papel da professora neste processo foi o de despertar na criança
a curiosidade pelos textos e orientar as tentativas de compreensão
das características e propósitos sociais de uso da escrita.
Sendo assim, ela apontava para a escrita contida nos objetos, utilizando
a língua de sinais para perguntar sobre o seu significado ou
sobre o que os alunos achavam que poderia estar escrito; também
conduzia, com o oferecimento de pistas, as atividades de registro de
palavras ou produção de pequenos textos. As crianças
já dominavam a escrita de algumas palavras, como por exemplo,
a do seu próprio nome, de colegas e de alguns membros da família.
Na análise dos episódios transcritos, buscamos examinar
algumas relações que as crianças começam
a estabelecer no processo de compreender a linguagem escrita. Nosso
questionamento está em saber quais seriam estas relações,
ou seja, o que as leva a ler ou escrever de uma maneira e não
de outra.
Em todas as situações examinadas, chama a atenção
o fato de que as crianças "transitam" da língua
de sinais para a escrita e vice-versa, numa elaboração
dinâmica, em que os sinais permitem significar as possibilidades
de registro do Português escrito. Nesse trânsito, as crianças
dizem, em sinais, o que irão registrar ou o que foi por elas
registrado; e dialogam entre si e com a professora sobre as formas de
registrar. É importante ressaltar que ao explicitarem, em sinais,
os significados daquilo que está escrito, as crianças
não estão efetuando, de forma de reflexiva ou consciente,
uma operação de tradução. Embora possamos,
enquanto observadores, remeter esse processo a um jogo de tradução,
temos de considerar que elas estão em aquisição
das duas línguas e, provavelmente, não tratam ainda os
enunciados (sinalizados, falados ou escritos) como pertencentes a sistemas
lingüísticos inteiramente distintos. O estabelecimento dessa
distinção é, na verdade, um dos pontos do trabalho
pedagógico, focalizado pela professora e pelo instrutor surdo.
Outra indicação do exame das situações focalizadas
diz respeito à tendência da criança para ler e escrever
partindo, principalmente, do aspecto visual da escrita, já que,
pelo fato de não ouvir, ela apoia-se menos e apenas indiretamente
na relação escrita/oralidade. Isso não significa
haver qualquer problema ou dificuldade inerente à surdez, pois
mesmo a criança ouvinte, no início da alfabetização,
não parece fazer a relação da escrita com a oralidade
de maneira natural, ou seja, sem a influência do professor ou
outros adultos. Importa ressaltar que as pesquisas têm indicado
que esta relação com a fala não é essencial
no processo de aquisição de leitura-escrita, mesmo porque
tem sido argumentado que a alfabetização feita nestes
moldes pode levar a uma não compreensão ou interpretação
limitada e à incorporação de um mecanismo de decodificação
apenas.
A importância que tem o visual para estes sujeitos reflete-se,
adicionalmente, em sua capacidade de perceber pequenos detalhes que
para nós, adultos alfabetizados, seriam insignificantes, no que
concerne a semelhanças e diferenças entre registros escritos.
Por exemplo, a criança encontra a escrita do apelido da irmã
("Tata") na escrita de outra palavra, que seria o nome da
irmã do colega ("Tatiane"); ou, ainda, a escrita do
seu nome inserida em outra palavra ("Ari" na palavra "armário").
É comum também o fato de que elas observam a presença
de uma escrita muito discreta (em letras bem pequenas) em objetos ou
folhetos de rua, o que parece demonstrar que exploram ativamente o contexto
visual a que estão expostas. Embora isso ocorra também
com crianças ouvintes, parece-nos que a intensidade e frequência
dessas explorações são marcantes na criança
surda.
Esse destaque que fazemos para o visual não decorre de uma concepção
de construção da escrita como "processamento de informação
visual". Na verdade, trata-se de um trabalho de significar, de
elaborar sobre a linguagem através da linguagem. Entretanto,
a ênfase aqui colocada deve-se ao fato de os dados sugerirem que,
para essas crianças pelo menos, o oral-auditivo situa-se secundariamente
no processo, pois a instância propiciadora de interpretação
do registro visual-escrito está numa língua de caráter
gestual-visual.
Estamos em contato com diferentes formas de comunicação
visual e "o que nós consideramos 'escrita' coexistiu durante
milênios com outras formas de comunicação visual
que não consideramos 'escrita' " (Gnerre, 1985, pg.31).
E podemos encontrar um interesse muito grande, por parte das crianças,
pelos detalhes do contexto em que a escrita está inserida, o
que vem a ser de extrema importância para o processo de construção
da escrita, enquanto fenômeno visual que é (ver Gesueli,
1988). Em outras palavras, a criança surda toma o registro enquanto
signo visual e apóia a interpretação do sistema
numa linguagem que tem caráter visual - dada a realização
viso-gestual das línguas de sinais. As relações
com aspectos auditivos, indiretamente percebidos na oralidade, parecem
consistir em um componente complementar do processo.
Antes de passarmos à apresentação das indicações
gerais desta análise, expomos um episódio de produção
escrita, que permite ilustrar aspectos adicionais importantes dos resultados.
A classe tinha conhecido a estória da Branca de Neve, através
de um livro e de uma fita de vídeo. Quando esta situação
foi gravada, o instrutor surdo já havia desenvolvido algumas
atividades relacionadas ao assunto como, por exemplo, a escrita de palavras
relacionadas ao texto, como nomes de personagens e de animais que aparecem
na estória. Na aula analisada, a professora pede, primeiramente,
às crianças que relembrem a estória, e, a partir
daí, a narrativa vai se construindo em sinais. Em certo momento
ela pergunta pelos nomes dos personagens e incentiva os alunos a escreverem
na lousa. Durante as tentativas de escritura, as crianças conversam
em sinais sobre a forma de registrar, corrigem-se, negociam correspondências
da escrita com os sinais etc. Reproduzimos, a seguir, um segmento dessas
produções escritas.
Uma aluna levanta, vai para a lousa, passando a escrever e enunciar
em sinais a palavra escrita:
1) CMARM (para castelo)
2) MA (para mulher má)
3) BIMRNEL (para branca de neve)
4) PIMR (para príncipe)
5) OMPIRIMBI (para bruxa)
6) BIAOI (para caçador)
Na mesma situação, em um outro momento, a mesma criança
escreve:
7) CMARI (para castelo)
8) CMAIMAI (para bruxa)
9) BIARIMA (para branca de neve)
10) PIMAIM (para príncipe)
11) 7OIMVIMRII (para anão)
Em seguida uma outra criança levanta, vai a lousa e escreve:
12) BIANAE (para branca de neve)
13) 7ANOROANO (para anão)
Este segmento transcrito mostra que as crianças estão
bem muito atentas à dimensão visual e que a primeira letra
das produções, na maioria dos casos, é a mesma
da escrita convencional, como ocorre nos exemplos: 1, 2, 3, e 4 (registro
de castelo, má, branca de neve e príncipe). Nos exemplos
7, 9 e 10 temos a mesma criança em um outro momento re-escrevendo
essas palavras, usando o critério da primeira letra. E, ainda,
notamos uma outra criança operando de modo semelhante no exemplo
12 (registro de branca de neve).
O fato de as crianças estarem utilizando na sua produção
a primeira letra da escrita convencional pode ser explicado, pelo menos
em grande parte, pela presença de uma correspondência desta
na configuração do sinal das palavras acima; ou seja,
as palavras castelo, príncipe e branca de neve são sinalizadas
com a configuração da mão correspondente à
primeira letra em português, com base no alfabeto digital. Por
exemplo: a palavra príncipe é enunciada com a mão
em "p" e com movimento de toque no peito.
Portanto, a criança estaria fazendo a relação da
escrita com a língua de sinais, além de usar os sinais
para a interpretação da escrita do português, como
já mencionamos.
No caso da palavra "bruxa" no exemplo 5 (OMPIRIMBI) e "caçador"
no exemplo 6 (BIAOI), podemos, talvez, justificar a ausência da
primeira letra da escrita convencional ("b" e "c")
pela não presença desta na configuração
do sinal. Mas, naturalmente, não se trata apenas disso; outros
aspectos do processo parecem estar envolvidos.
Observamos que a mesma criança escreve uma palavra duas vezes
e de maneiras diferentes, o que pode indicar que ela ainda não
se deu conta da conservação da escrita (o que ocorre,
igualmente, com a escrita das palavras "castelo", "branca
de neve" e príncipe" nos exemplos 1, 3, 4 e 7, 9 e
10, destacados anteriormente). Mas os as formas de registrar mostram
que, assim como o sujeito ouvinte, a criança surda recorre a
"palavras referenciais", por assim dizer, para nelas apoiar
a composição da escrita. Como ilustração,
nos exemplos 5 e 8, em ambas as escritas da palavra "bruxa"
(OMPIRIMBI e CMAIMAI) e "castelo" (CMARM e CMARI), a criança
utiliza-se repetidas vezes da primeira letra do seu nome ("M")
e também das outras letras deste, cuja escrita ela domina (exemplos
5, 8, 1 e 7). O mesmo ocorre com as palavras "príncipe"
e "branca de neve" (exemplos 3, 4, 9 e 10).
Para a escrita de "anão" (exemplos 11 - 7OIMVIMRII
e 13 - 7ANOROANO) ressaltamos que, apesar de a letra "a" aparecer
na configuração do sinal, as duas crianças preferem
utilizar o numeral "7", o que talvez possa ser mais significativo
para elas, na medida em que este representa a quantidade de anões,
sendo que, no exemplo 13, a criança utiliza a letra "a"
logo em seguida ao numeral 7, além de "n" e "o",
que são outras letras dessa palavra.
Temos ainda, no exemplo 12, a produção escrita de outra
criança para a palavra "branca de neve" (BIANAE), cuja
relação não parece diferente do que apontamos até
aqui, isto é, ocorre a utilização da primeira letra
da escrita convencional, provavelmente por influência da própria
configuração do sinal, assim como a combinação
de algumas letras da palavra. Esta combinação pode significar
um recorte feito pela criança da palavra escrita, isto é,
ela compõe o seu registro com base no que lhe foi possível
memorizar. (Neste sentido, esclarecemos que o texto escrito esteve sempre
presente na sala de aula servindo, inclusive, como material de consulta.)
Considerando, de um lado, a pequena amostra aqui focalizada sobre a
produção escrita e, de outro, as análises do conjunto
de episódios documentados, podemos apontar as seguintes constatações:
- As crianças não fazem uma combinação totalmente
aleatória entre as letras do alfabeto, mas tratam os signos visuais
de forma inteligente e fundamentam suas respostas no que já conhecem
do português escrito. Buscam registrar aspectos da forma convencional
da escrita da palavra ou fazem uma combinação das letras
de nomes próprios, cuja escrita elas já dominavam. Todos
os alunos eram capazes de reconhecer a escrita do nome do amigo e de
escrever o seu nome. Sendo assim parece razoável eles utilizarem
estas letras para compor sua escrita, como ocorre com alfabetizandos
ouvintes.
- O apoio na dimensão visual na significação da
escrita parece muito relevante neste processo de construção,
principalmente pelo fato de que as crianças não ouvem.
Elas fazem um recorte da palavra em português, levando em conta
a configuração da escrita.
- Ocorre, também, o apoio na configuração da mão
na realização do sinal o que, muitas vezes, facilita o
recorte da palavra em português.
- O recurso à oralidade (dentro do que é perceptível
para elas, como, por exemplo, a partir da leitura labial ou, mais eventualmente,
da articulação da palavra falada pela própria criança)
mostra-se presente neste processo, porém de forma complementar.
- O uso da LIBRAS é de fundamental importância, pois é
através desta que as crianças buscam ler e interpretar
o Português escrito, dialogando sobre o texto enquanto objeto
de conhecimento e explicitando os significados em sinais. Temos, então,
nesse processo de construção da escrita, a língua
de sinais fundando a aprendizagem do Português.
O ensino da linguagem escrita envolve um trabalho que traz a necessidade
de o educador analisar sua posição teórica, o que
exige uma reflexão sobre a linguagem e sobre a postura pedagógica
decorrente dessa reflexão.
Se o processo de alfabetização deve acontecer a partir
do dizer do aluno, de suas vivências e escolhas; se o despertar
do interesse pela linguagem escrita e suas funções depende
de se poder dizer os textos e sobre os textos; se a criança
com surdez profunda ou severa pode dizer numa modalidade viso-gestual
de linguagem, pois adquire naturalmente uma língua de sinais
e tem uma aprendizagem muito mais lenta da língua oral, que,
ademais, requer um todo um trabalho especial; se admitimos que a criança
surda tem o direito de dizer em sinais e, portanto, de se desenvolver
como pessoa bilíngüe; então, as bases para o encontro
com o objeto escrito na sala de aula podem ser criadas mais eficazmente
pelas possibilidades decorrentes da capacidade de dizer na língua
de sinais.
Conclusão
As observações feitas fortalecem o argumento da importância
da língua de sinais no trabalho educacional com a criança
surda e sugerem, ainda que por indicações indiretas, que
a participação de instrutores surdos fluentes nessa língua
é imprescindível para um projeto que assuma o direito
da criança a ter uma escolarização em que suas
possibilidades língüístico- cognitivas sejam concretizadas.
Em relação ao ensino da escrita, mais especificamente,
o estudo aponta para o papel dos sinais, que permitem consolidar o interesse
pela escrita e fundamentar a compreensão de suas características
e funções sociais. Cabe reiterar que esse papel não
está restrito à viabilização de uma atividade
de "tradução" - do texto escrito para os sinais
e vice-versa. De fato, ocorre um jogo de interpretação
e explicitação de significados do texto com base nos sinais,
mas, para além disso, é em sinais que as crianças
conversam, corrigem-se, negociam e elaboram sobre a escrita.
Julgamos que essas constatações são importantes
para ponderarmos sobre as condições a serem oferecidas
para a alfabetização de alunos surdos. Por outro lado,
o presente trabalho restringiu-se a uma fase inicial da alfabetização,
razão pela qual reconhecemos que se fazem necessárias
análises do desdobramento desse processo de construção,
pois é presumível que, em fases mais avançadas,
transformações importantes surjam quanto às formas
pelas quais ocorre a mediação pela LIBRAS na relação
que a criança estabelece com a escrita do Português.
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