Desenvolvimento Cognitivo e Aprendizagem Veicular.

Autora: Marta Carolina dos Santos

A abordagem Desenvolvimento Cognitivo e Aprendizagem Veicular apresentam uma epistemologia sobre a aquisição de conhecimentos teóricos e práticos no trânsito, pois a aprendizagem em direção veicular requer o exercício das competências cognitivas, sócio afetivas, biológicas e motoras.

De acordo com as pesquisas e discussões acerca da qualidade de ensino em direção veicular, constata-se a necessidade de estar avaliando, questionando e reeducando conceitos e habilidades do candidato à obtenção da carteira Nacional de Habilitação (CNH), bem como os demais usuários do trânsito. Para compreender o processo de aprendizagem veicular, é preciso repensar os aspectos da estrutura humana, do meio sociais e metodológicos que fundamentam o processo educativo formal ou informal.

PIRITO (1999:26), em Medicina de Tráfego, assinala que “ dirigir um veículo motorizado é uma atividade complexa, que requer integração rápida e contínua de habilidades cognitivas sensório-perceptivas e motoras de alto nível ”.

A aprendizagem veicular requer habilidades humanamente construídas tais como: habilidades motoras, funções cognitivas, habilidades sensoriais, memória-atenção, aspectos sócio – afetivos, aspectos histórico – pessoais.

Em relação às habilidades motoras, “... os elementos chaves para a habilidade motora ao dirigir incluem força, amplitude de movimento das extremidades, mobilidade do tronco e pescoço e propriocepção ( percepção da posição e movimento do corpo). (Ibidem p.26).”...A força é um requisito importante mesmo para dispositivos como freios ABS e direção hidráulica.” (Ibidem p.26).

Além da força, a agilidade corporal, a velocidade que o corpo potencializa para reagir sobre os mecanismos do veículo é fundamental para situações defensivas no trânsito, bem como manobras complexas. Fazem parte das habilidades motoras: ações reflexivas, força, velocidade, equilíbrio, lateralidade, domínio dos membros inferiores, postura corporal.

Já as funções cognitivas, quando relacionadas à direção veicular incluem a memória e atenção, a avaliação sistemática do ambiente e outras habilidades visuoespaciais, verbais e de processamento de informações, tomada de decisões e resolução de problemas. Estas funções devem se processar de modo dinâmico.” (Ibidem p.27)”.

Na aprendizagem veicular é imprescindível que sejam observados os aspectos cognitivos a fim de se aplicar a intervenção educativa adequada. A metodologia a ser adotada pelo instrutor deverá suprir a necessidade cognitiva de cada aprendente. Fazem parte do desenvolvimento cognitivo: a linguagem, pois o condutor de veículo deverá adquirir a leitura do trânsito e a sinalização é o tema que fundamenta a leitura simbólica. Porém, a leitura convencional se faz necessário para compreender a legislação que disciplina as ações no trânsito. Interpretar a Lei, as práticas de prevenção e humanização no trânsito é fundamental para a prática da direção veicular.

As Funções Sensoriais, com as percepções visual e auditiva. A visão é um fator decisivo na direção veicular, a atenção visual alia a capacidade da visão noturna, visão de cores e luz do dia, visão periférica e visão central em boas condições. Por este motivo, o condutor deve estar avaliando sua visão periodicamente, a fim de prevenir doenças e ser orientado por oftalmologista, mantendo em bom estado as condições oculares. O instrutor de veículo poderá desenvolver atividades que agucem a habilidade visual.A memória visual é a capacidade essencial na aprendizagem das placas de sinalização vertical na sinalização horizontal e semafórica. Já a percepção auditiva, apesar de ser importante na direção veicular, não é fator decisivo para que se adquira a CNH de acordo com o artigo 145 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB).Levando em consideração o que o artigo disciplina, a audição poderá contribuir para aquelas pessoas que possuam o campo visual limitado ou que não conseguem observar com precisão o ambiente trânsito, assim, “poderão se tornar conscientes da presença de um veículo ou pedestres apenas quando soa a buzina ou com a ajuda de um passageiro ao lado”. (Ibidem p.26). A audição também é capacidade sensorial que contribui para o aprendizado por estar envolvendo o campo da memória auditiva. O que o aprendiz ouve sobre os assuntos do trânsito fica arquivado na memória por um longo prazo. A memória com o armazenamento, pelo cérebro, de todas as informações que necessitamos para a vida e de todas as informações de nossas experiências vividas.Há, além da memória visual e auditiva que discorremos anteriormente, a memória declarativa, que possibilita a rememoração e o reconhecimento de palavras e imagens; e a memória procedimental, memória inconsciente, que possibilita as aprendizagens perceptivas e motoras, base de nossos automatismos, tais como: andar e dirigir a atenção, fator decisivo na direção defensiva deve ser desenvolvida pelo aprendente e avaliada por um especialista, sujeito à reeducação, afinal a falta de atenção é o maior causador de acidentes segundo as estatísticas dos órgãos ligados ao Sistema Nacional de Trânsito. A atenção difusa é responsável pela nossa habilidade em dirigir e estar atento ao mesmo tempo no ambiente trânsito.

Também os aspectos sócio–afetivos são de grande importância na direção veicular, pois dizem respeito à pré-disposição sócio–afetiva do sujeito para a aprendizagem veicular. Muitos condutores, sem terem maturidade emocional para estarem à frente de uma direção, não se dão conta da responsabilidade de estarem conduzindo um veículo. A direção de um veículo passa a ser vista como uma atividade comum, ao longo dos anos mesmo condutor poderá apresentar diminuição nas habilidades vitais para o exercício veicular, comprometendo a sua segurança e dos demais usuários. Porém, continuam na função de motoristas. Estes precisam de orientação no que diz respeito às suas limitações. A insegurança, o estresse e outros bloqueios de ordem emocional podem afetar a aprendizagem do futuro condutor, que muitas vezes terminam o curso de formação apresentando dificuldades e falhas no ato de dirigir. Além destes, os aspectos históricos –sociais do aprendiz devem ser levados em consideração, afinal, a forma de apropriação do conhecimento tem relação com sua construção e aquisição de experiências vividas. Um sujeito que teve acesso ao manuseio dos equipamentos e mecanismos do veículo há pouco tempo levará mais tempo para dominar esses conhecimentos; aquele que teve acesso ao veículo há mais tempo, terá uma certa facilidade para compreender o desenvolvimento do carro e das relações de direção defensiva.

Considerações Psicopedagógicas sobre a aprendizagem veicular

A aprendizagem veicular exige do aprendiz a manifestação das capacidades sensoriais, motoras e cognitivas. Sabe-se também que os aspectos sócio-afetivos influenciam não só na aprendizagem mas, durante toda a vida no trânsito. As preocupações do dia a dia, a sonolência e o uso de medicamentos ou bebidas alcoólicas (crime de trânsito: infrações que ferem o Código do Direito Civil); são fatores que afetam o desempenho do condutor e em conseqüência desencadeiam os acidentes de trânsito. A aprendizagem veicular é um processo de aquisições de habilidades motoras, cognitivas, através de informações sobre o trânsito e suas implicações técnicas, preventivas, defensivas e punitivas.

A educação do condutor tem caráter sistemático, em aulas teórico-práticas nos Centros de Formação para Condutores assistemático, quando o condutor se auto-avalia e procura se informar sobre as questões ligadas ao trânsito, aperfeiçoando sua prática veicular. A aprendizagem acontece de forma intrínseca e extrínseca.Intrínseca, quando o condutor descobre suas próprias limitações e busca aperfeiçoamento, pesquisando, lendo, repensando sua ação enquanto condutor (dinâmica da aprendizagem de dentro para fora, do interior do sujeito para o exterior); extrínseca, quando o condutor recebe informações de cursos, palestras, abordagem educativa e punitiva (dinâmica de aprendizagem de fora para dentro, meio social/exterior para o interior do sujeito).

Na formação do condutor, o instrutor deverá oportunizar momentos de aprendizagem que permitirão uma análise do processo educativo. Primeiramente, é preciso conhecer o sujeito que aprende: descobrir o contexto histórico-social do candidato a CNH ou reciclagem; conhecer suas capacidades cognitivas, habilidades motoras, capacidades sensoriais; desenvolver vínculo afetivo entre aprendiz e instrutor, possibilitando relação interpessoal positiva para compreender aspectos emocionais que poderão interferir na aprendizagem veicular e conseqüentemente no futuro motorista; respeitar a diversidade cultural e faixa etária do indivíduo.

Num segundo momento, é necessário desenvolver uma metodologia de aprendizagem, os conteúdos a serem explanados não podem estar resumidos apenas na apresentação das disciplinas em slides.Durante quatro horas-aula o sujeito não conseguirá absorver toda informação apenas utilizando a visualização e a audição. Ele memorizará de forma superficial, mas não absorverá significativamente o conhecimento apresentado. O que se sugere é a subdivisão das aulas em diferentes atividades que contemplem os três níveis de competências: cognitivas, sensoriais e psicomotoras. A diversificação de tarefas pode ser organizada a partir de oficinas de trabalho, podendo optar pelos seguintes movimentos:

- trabalhos em pequenos grupos na resolução de problemas descritivos sob forma de pergunta – texto. Podem conter desenhos ilustrativos nos diferentes enfoques: direção defensiva, legislação, regras de circulação, sinalização, meio ambiente e cidadania, mecânica básica, primeiros socorros, psicologia do trânsito.

- testes específicos: objetivos ou descritivos, de acordo com a disciplina apresentada. Os testes não devem ser realizados apenas no final de cada módulo, mas durante as aulas, com objetivo do aluno pesquisar informações e discuti-las com o grupo.

- jogos Operativos, são jogos trabalhados com todo o grupo. A necessidade de movimento durante as aulas é importante, pois além de socializar e criar um ambiente acolhedor permite que todos participem do tema apresentado;

- reformulação de textos informativos: O texto oferecido para a leitura, poderá se tornar material de transformação, objetivando a memorização em longo prazo.

Em um terceiro momento, é hora de avaliar e reeducar o aprendiz e o instrutor. Este deverá estar em constante avaliação, tanto no desempenho do aluno, como na sua prática docente. Avaliar o material pedagógico a ser utilizado também é importante; a qualidade do material expressa a qualificação do instrutor enquanto educador. A avaliação deve ter uma função significativa e produtiva. A avaliação dos conteúdos e da prática veicular não deve estar vinculada à seleção e à eliminação, mas ao conhecimento do nível de compreensão e dificuldades a serem superadas. A avaliação deve ser o indicativo de que o sujeito precisa de mais informações sobre determinado assunto. A seleção e eliminação acontecem no exame físico e no exame veicular realizado pelo órgão competente de acordo com o Sistema Nacional de Trânsito. Portanto, o instrutor poderá desenvolver em suas aulas situações que levem o aluno a se auto–avaliar e buscar se reeducar.

Atualmente, o instrutor está procurando aperfeiçoar sua formação profissional com o objetivo de atender a demanda do intenso tráfego de veículos, afinal quanto maior intensidade de tráfego, maior a necessidade de condutores mais precisos e habilidosos na arte de dirigir defensivamente.

CONCLUSÃO

O processo de aprendizagem requer constante avaliação, discussão e replanejamento. Na aprendizagem veicular é necessário que se crie espaços de discussões sobre as causas das dificuldades de aprendizagem na direção veicular, que originam as falhas no trânsito.

É preciso oferecer qualificação e atualização para os instrutores oportunizando construir uma visão pedagógica da educação e formação de novos condutores. Cabe aos pedagogos fundamentar a relação de aprendizagem veicular e humanização do trânsito a luz das teorias do desenvolvimento da inteligência, do movimento e sócio-afetivos.

Marta Carolina dos Santos - Pedagoga e Psicopedagoga Clínica