A Escrita do Surdo: Relação Texto e Concepção
Autora: Luciana Aparecida Oliveira (UFJF)
É
notório que o centro do ensino escolar fundamenta-se na aprendizagem
e na compreensão da escrita e da leitura. Quando a criança
chega à escola, já possui muitos conhecimentos acerca
das regras gramaticais, porém passa a usar a língua num
contexto diferenciado daquele natural e cotidiano, com o qual está
familiarizada, ou seja, depara-se com uma linguagem nova, formal e padronizada,
a fim de que possa escrever e compreender textos escritos (descontextualizar).
Partindo dessa constatação geral, deparo-me com a questão
peculiar dos alunos com surdez (indivíduos com perda maior ou
menor da percepção auditiva), que representam uma clientela
específica, com aspectos que não podem ser desconsiderados.
Considerando que os indivíduos com surdez não acessam
a informação escrita como as outras pessoas (dificuldades
decorrentes da falta de audição), esclarecendo, inclusive,
que mesmo os usuários de prótese não têm
a audição como a de pessoas comuns, e muitas vezes escutam
sons distorcidos ou diferentes de nossa realidade de ouvintes, percebemos
que estes indivíduos apresentam uma grande resistência
a escrita e a leitura de textos e informações escritas,
em geral.
Diante dessa realidade, questiono sobre o que temos feito ou sobre o
que podemos fazer, enquanto educadores, para reduzir a distância
que existe entre a linguagem específica do aluno com surdez,
baseada na LIBRAS - Língua Brasileira de Sinais - a qual funciona
como língua 1 para o mesmo, por apresentar um aprendizado natural
e mais facilitado, e o Português, considerado língua 2
para este mesmo aluno; sabendo que as duas línguas possuem princípios
e regras diferenciadas.
Devemos considerar, no entanto, que todos nós, surdos ou ouvintes,
vivemos em uma sociedade que tem como base lingüística a
língua materna dos falantes nativos do país (no caso do
Brasil, o Português), e não a língua de sinais (realidade
de um grupo minoritário).
Por não haver o feedback via audição, pelos surdos,
torna-se muito difícil a compreensão do mecanismo do Português,
nos moldes tradicionais da escola, principalmente para aqueles que possuem
perda severa e profunda.
Constata-se, desta forma, através do uso de metodologias equivocadas,
um expressivo fracasso escolar, por parte dos alunos com surdez.
Como um primeiro caminho para a busca de alternativas efetivas que os
auxiliem na melhor estruturação de sua linguagem, se faz
urgente a compreensão dos efeitos das concepções
que orientaram e continuam a orientar, na maioria das escolas, a constituição
da linguagem destes sujeitos.
É o que procuraremos tratar como tema principal deste trabalho,
considerando que a educação de qualidade para todo e qualquer
indivíduo é um direito, cuja responsabilidade para sua
efetivação real cabe a cada um de nós.
De acordo com o BRASIL/MEC/SEESP (1994), é considerado surdo
o indivíduo que possui audição não funcional
na vida comum, e parcialmente surdo aquele que, mesmo com perda
auditiva, possui audição funcional com ou sem prótese.
A deficiência auditiva pode ser congênita ou adquirida.
É congênita quando ocorre antes do nascimento ou,
em alguns casos, durante o parto e adquirida quando ocorre após
o nascimento.
O volume ou intensidade dos sons é medido por unidades chamadas
decibéis (dB).
Podemos verificar, a partir da perda auditiva em decibéis, a
existência de diferentes graus de surdez. Do ponto de vista educacional,
considera-se dois grupos específicos que se subdividem, conforme
descrito a seguir.
O grupo dos parcialmente surdos engloba os sujeitos com surdez leve
e os com surdez moderada.
O aluno com surdez leve apresenta uma perda auditiva de até 40
dB. Essa perda impede a percepção perfeita de todos os
fonemas da palavra, mas não impede a aquisição
normal da linguagem. Pode, no entanto, causar algum problema articulatório
ou dificuldade na leitura e/ou escrita.
O aluno com surdez moderada apresenta perda auditiva entre 40 e 70 dB.
Esses limites se encontram no nível da percepção
da palavra, sendo necessário uma voz de certa intensidade para
que seja claramente percebida. Esse aluno apresenta maior dificuldade
de discriminação auditiva em ambientes ruidosos. Ele identifica
as palavras mais significativas, mas tem dificuldade na compreensão
de certos termos de relação e/ou frases gramaticais complexas.
O grupo dos surdos abrange os sujeitos com surdez severa e os com surdez
profunda.
O aluno com surdez severa apresenta uma perda auditiva entre 70 e 90
dB. Essa perda permite a identificação de alguns ruídos
familiares e apenas a percepção da voz de timbre mais
forte. A compreensão verbal vai depender da utilização
da percepção visual e da observação do contexto
das situações.
O aluno com surdez profunda apresenta perda auditiva superior a 90 dB.
Essa perda é muito grave e pode privar o indivíduo da
percepção e identificação da voz humana,
impedindo-o de adquirir naturalmente a linguagem oral.
Os conhecimentos lingüísticos desses indivíduos (especificamente
dos sujeitos com surdez profunda) podem apresentar sérias deficiências
no que se refere ao domínio de suas estruturas, sobretudo na
produção escrita, caso não sejam mediados adequadamente.
Segundo Fernandes (1990) essas dificuldades podem ser demonstradas por
dificuldades com o léxico, falta de consciência de processos
de formação de palavras, desconhecimento da contração
de preposição com o artigo; uso inadequado dos verbos
em suas conjugações, tempos e modos, uso inadequado das
preposições, omissão de conectivos em geral e de
verbos de ligação, troca do verbo ser por estar, uso indevido
dos verbos estar e ter, colocação inadequada do advérbio
na frase, falta de domínio e uso restrito de outras estruturas
de subordinação.
Ao longo da história, três filosofias educacionais se destacaram
na educação de surdos, e continuam presentes em maior
ou menor intensidade nas instituições e/ou escolas que
atendem alunos com deficiência auditiva.
De acordo com Dorziat (1997, p. 13), "apesar das diferentes opiniões
que dividem e subdividem as metodologias específicas ao ensino
de surdos, em termos de pressupostos básicos, existem três
grandes correntes filosóficas: a do Oralismo, da Comunicação
Total e do Bilingüismo".
Mediante tal afirmação seria interessante apresentarmos
um breve histórico da educação de surdos, a fim
de situarmos as tais concepções filosóficas citadas.
SACKS (1998) conta que até o final do século XV não
havia escolas para surdos, estes eram considerados incapazes de aprender.
Em meados do século XVI, Girolano Cardano propôs um conjunto
de princípios que prometia uma ajuda educacional e social para
os surdos, afirmando que este podia ser pensante, compreender símbolos
gráficos ou combinações de símbolos associados
a objetos ou figuras que os representassem. Assim, no início
de 1555, surgiu a educação oral para crianças surdas.
Algumas crianças surdas de famílias nobres aprenderam
a falar e a ler para poderem ser reconhecidas como pessoas nos termos
da lei e herdar títulos e propriedades de suas famílias.
Nos Estados Unidos, em 1817, Thomas Hopkins Gallaudet, com Laurent Clerc,
fundaram o Asilo Americano para Educação e Instrução
dos Surdos Mudos (atual Universidade Gallaudet). Nesta época
houve uma grande valorização e aceitação
da língua de sinais, aumentando o número de surdos alfabetizados
na França, nos Estados Unidos e em outras partes do mundo.
Após esse período, ocorreu o chamado "ponto crucial"
para a história dos surdos, onde tudo, que bem ou mal estava
caminhando, mudou o percurso da história. Começou a surgir
um movimento contra o uso de sinais por e para os surdos.
No ano de 1880 aconteceu um Congresso Internacional de Educadores de
Surdos, em Milão, no qual foi depreciado o uso da língua
de sinais. Segundo Skliar (1997), esse Congresso não contou com
a participação, tampouco com a opinião dos surdos,
ao contrário, um grupo de educadores ouvintes impôs a superioridade
da língua oral sobre a língua de sinais, sendo, então,
decretado que a primeira deveria constituir o único objetivo
do ensino de surdos.
A partir de então baniu-se completamente o uso dos sinais no
ensino de alunos com surdez.
Essa concepção de educação enquadra-se no
modelo clínico terapêutico da surdez, impondo uma visão
patológica e um déficit biológico, os quais seriam
reparados e/ou corrigidos pelas estratégias e recursos educacionais
do Oralismo.
Dorziat (1997) nos esclarece de que a concepção do Oralismo
visa a integração dos surdos, na comunidade de ouvintes,
condicionando-os ao aprendizado e desenvolvimento da linguagem oral.
Considera-se que, para a boa comunicação, a pessoa com
surdez deva oralizar bem, sendo o principal objetivo dessa filosofia,
como já foi apresentado, fazer uma reabilitação
da criança surda em direção à "normalidade",
à "não surdez".
As metodologias utilizadas no Oralismo se justificam por pressupostos
e práticas diferenciadas, mas se unem no fato de acreditarem
que a língua oral é a única forma desejável
e efetiva de comunicação do surdo.
De acordo com Dorziat (1997, p.13) "esse método procura
assim reeducar auditivamente a criança surda pela amplificação
de sons, juntamente com técnicas específicas de oralidade".
Autores e pesquisadores na área de surdez como Sacks (1998) e
Dorziat (1997), dentre outros, avaliam que o Oralismo e a supressão
de sinais tiveram como conseqüência a deteriorização
das conquistas educacionais dos sujeitos com surdez e do grau de instrução
alcançados por esses indivíduos.
Alguns oralistas tentam justificar os resultados negativos ou incompreendidos
do Oralismo, de forma geral, por aqueles que se contrapõem às
suas idéias. Freeman, Carbin e Boese (1999, p. 145) fazem o seguinte
comentário acerca dessas justificativas:
Em vez de questionar a sabedoria de sua abordagem restritiva, os oralistas
argumentam que os resultados de um treinamento oral, reconhecidamente
pobres, originam-se do fato de não se ter feito um diagnóstico
o quanto antes, de não haver iniciado a amplificação
cedo, de não se dispor de um aparelho auditivo corretamente ajustado,
de não existir pessoal adequadamente qualificado, de não
se ter conseguido motivar os pais, para que insistissem no uso constante
do aparelho auditivo [...] as condições para o sucesso
são objetivos ideais pelos quais alguns podem desejar lutar para
alcançar, mas, ao mesmo tempo, essas condições
são uma desculpa pronta para o que os outros consideram "insucessos",
na abordagem básica do tratamento da criança surda.
Marchesi, apud Chaves (s.n.t.), relata que nos anos 60 ocorreu nos Estados
Unidos um novo movimento, fruto da insatisfação com os
resultados obtidos na educação de surdos, retomando, assim,
as concepções que utilizavam a língua de sinais,
enfatizando, nesse primeiro momento de transição, a Comunicação
Total, sobretudo nas décadas de 70 e 80.
Podemos dizer que o grande mérito dessa concepção
consiste em deslocar a língua oral como o grande e principal
objetivo na educação de sujeitos com surdez, priorizando
a comunicação dos mesmos. O sujeito com surdez deixa de
ser visto como portador de uma "patologia", e passa a ser
considerado como uma pessoa capaz.
O principal objetivo da Comunicação Total consiste na
efetivação dos processos de comunicação
entre os sujeitos com surdez e entre estes, e os demais sujeitos.
De acordo com Denton (1976, p. 4), apud Freeman, Carbin, Boese (1999,
p. 171), a definição freqüentemente citada é
a seguinte:
A Comunicação Total implica em que a criança com
surdez congênita seja introduzida precocemente em um sistema de
símbolos expressivos e receptivos, os quais ela aprenderá
a manipular livremente e por meio dos quais poderá abstrair significados
ao interagir irrestritamente com outras pessoas. A Comunicação
Total inclui todo o espectro dos modos lingüísticos: gestos
criados pelas crianças, língua de sinais, fala, leitura
oro-facial, alfabeto manual, leitura e escrita. A Comunicação
Total incorpora o desenvolvimento de quaisquer restos de audição
para a melhoria das habilidades de fala ou de leitura oro-facial, através
de uso constante, por um longo período de tempo, de aparelhos
auditivos individuais e/ou sistemas de alta fidelidade para amplificação
em grupo.
Os maiores benefícios da Comunicação Total residem
no fato de que esta encoraja a aceitação da criança
surda como uma pessoa cuja linguagem precoce pode crescer em resposta
às necessidades crescentes, reforçando uma abordagem individualista
de acordo com as habilidades de cada criança e de cada tipo ou
grau de surdez.
Autores como Sanches (1990) e Dorziat (1997), dentre outros, dizem que
o grande problema desta filosofia é a mistura de duas línguas
(Português + Língua de Sinais), o que resulta numa terceira
modalidade que é o Português sinalizado, onde ocorre a
introdução de elementos gramaticais de uma língua
na outra. Essa prática recebe, também, o nome de Bimodalismo
e inviabiliza o uso adequado da língua de sinais.
Dorziat (1997, p.16) faz a seguinte citação a respeito
dessa problemática:
Como não existem na língua de sinais componentes da estrutura
frasal do Português (preposição, conjunção,
etc.), são criados sinais para expressá-los. Além
disso, utilizam-se marcadores de tempo, de número e de gênero
para descrever a língua portuguesa através de sinais.
A isto se chama de Português sinalizado. Outra estratégia
utilizada pela Comunicação Total é o uso de sinais
na ordem do Português, sem no entanto, usar marcadores, como no
Português sinalizado. O que existe em ambos os casos é
um ajuste da língua de sinais à estrutura da língua
portuguesa.
A conclusão que alguns autores tiram do uso da Comunicação
Total é que essa concepção, através de seus
procedimentos comunicativos, serviu mais aos pais e professores ouvintes
do que aos alunos com surdez.
A partir da efetivação de discussões como as que
apresentamos acerca das práticas até então utilizadas
junto aos sujeitos com surdez, surge uma nova filosofia educacional
que apreende a língua de sinais na sua forma genuína,
é a chamada Bilingüismo, a qual tem sido difundiada e apreciada,
sobretudo, a partir da década de 90.
Goldfeld (1997, p. 38) caracteriza o Bilingüismo da seguinte forma:
O Bilingüismo tem como pressuposto básico que o surdo deve
ser Bilíngue, ou seja deve adquirir como língua materna
a língua de sinais, que é considerada a língua
natural dos surdos e, como Segunda língua , a língua oficial
de seu país[...]os autores ligados ao Bilingïsmo percebem
o surdo de forma bastante diferente dos autores oralistas e da Comunicação
Total. Para os bilingüistas, o surdo não precisa almejar
uma vida semelhante ao ouvinte, podendo assumir sua surdez.
O Bilingüismo assume que a língua é uma importante
via de acesso para o desenvolvimento do surdo em todas as esferas de
conhecimento, propiciando a comunicação do sujeito com
surdez com os seus pares e com os outros sujeitos, dando suporte ao
pensamento e estimulando o desenvolvimento cognitivo e social.
De acordo com Sacks (1998, p. 44):
A língua de sinais deve ser introduzida e adquirida o mais cedo
possível, senão seu desenvolvimento pode ser permanentemente
retardado e prejudicado, com todos os problemas ligados à capacidade
de "proposicionar" [...] no caso dos profundamente surdos,
isso só pode ser feito por meio da língua de sinais. Portanto,
a surdez deve ser diagnosticada o mais cedo possível. As crianças
surdas precisam ser postas em contato primeiro com pessoas fluentes
na língua de sinais, sejam seus pais, professores ou outros.
Assim que a comunicação por sinais for aprendida, e ela
pode ser fluente aos três anos de idade, tudo então pode
decorrer: livre intercurso de pensamento, livre fluxo de informações,
aprendizado da leitura e escrita e, talvez, da fala. Não há
indícios de que o uso de uma língua de sinais iniba a
aquisição da fala. De fato, provavelmente, ocorre o inverso.
Dessa forma percebemos que na instauração real do Bilingüismo,
a língua de sinais é importante e imprescindível
por possibilitar o domínio lingüístico e a capacidade
de expressar-se de forma plena e segura; e a língua oral ou escrita
em Português possibilitará a comunicação
com o meio.
Segundo Goldfeld (1998), há duas formas distintas de definição
da filosofia bilíngüe, quais sejam, a primeira acredita
que a criança surda deve adquirir a língua de sinais e
a modalidade oral da língua de seu país, sendo que posteriormente
esta deverá ser alfabetizada na língua oficial de seu
país. Por outro lado existem aqueles que acreditam que os sujeitos
com surdez devam aprender a língua de sinais e a língua
oficial de seu país apenas na modalidade escrita e não
na oral.
De acordo com Bernardino (2000, p. 29):
a língua é considerada importante via de acesso para
o desenvolvimento do surdo em todas as esferas do conhecimento, propiciando
não apenas a comunicação do surdo com o ouvinte,
mas também com o surdo, desempenhando também a função
de suporte do pensamento e de estimulador do desenvolvimento cognitivo
e social. O Bilingüismo considera que a língua oral não
preenche todas essas funções, sendo imprescindível
o aprendizado de uma língua visual-sinalizada desde tenra idade,
possibilitando ao surdo o preenchimento das funções lingüísticas
que a língua oral não preenche. Assim, as línguas
de sinais são tanto o objetivo quanto o facilitador do aprendizado
em geral, assim como do aprendizado da língua oral.
Tendo havido um reconhecimento geral da surdez e das filosofias educacionais
utilizadas ao longo da história, assim como uma apreciação
geral de determinados autores acerca de cada uma delas, podemos dizer
que estamos passando por um período de transição
entre as idéias oralistas e aquelas que têm se baseado
na utilização da LIBRAS.
A abordagem metodológica utilizada neste trabalho é a
pesquisa qualitativa, através da qual, segundo Bogdan e Biklen
(1994, p.51):
Os investigadores qualitativos estabelecem estratégias e procedimentos
que lhes permitem tomar em consideração as experiências
do ponto de vista do informador. O processo de condução
de investigação qualitativa reflete uma espécie
de diálogo entre os investigadores e os respectivos sujeitos,
dado estes não serem abordados por aqueles de uma forma neutra.
A modalidade de pesquisa a ser utilizada é a análise de
textos produzidos pelos alunos com surdez, já alfabetizados,
nos quais analisaremos os efeitos das teorias educacionais, que foram
norteadoras do processo pedagógico utilizado com esses indivíduos,
para sua linguagem escrita.
Os sujeitos da pesquisa se constituem em 3 alunos com surdez, já
escolarizados e alfabetizados em um dos modelos das três teorias
educacionais apresentadas, sendo F. de 18 anos (surdez profunda), B.
de 15 anos (surdez profunda) e K. de 10 anos (surdez severa à
profunda), oriundos de escolas diferentes, das redes municipal e estadual.
Os instrumentos de pesquisa são as próprias produções
escritas dos alunos.
Utilizamos, também, a entrevista não-estruturada, para
obtenção da história de vida escolar dos sujeitos
da pesquisa. Na entrevista não-estruturada, de acordo com Lüdke
e André (1986, p.33-4),
não há imposição de uma ordem rígida
de questões, o entrevistado discorre sobre o tema proposto com
base nas informações que ele detém e que no findo
são a verdadeira razão da entrevista. Na medida em que
houver um clima de estímulo e de aceitação mútua,
as informações fluirão de maneira notável
e autêntica.
Tais entrevistas nos possibilitaram confirmar em qual modelo os sujeitos
da pesquisa tinham sido educados, uma vez que já os conhecendo
em seu processo educacional, tínhamos uma hipótese sobre
tal questão. Realizamos entrevistas com os próprios sujeitos
e com os responsáveis dos alunos B. e K., por serem menores.
Para tanto, iniciaremos nossa análise relatando a história
de vida escolar de cada um dos sujeitos da pesquisa, principalmente
no que se refere à filosofia educacional para surdos que norteou
tal processo dos mesmos.
Começando por F., de 18 anos, destacamos que esta apresenta surdez
profunda congênita . Os atendimentos fonoaudiológicos de
F. foram iniciados tardiamente, aproximadamente entre 4/5 anos.
A escolarização de F. iniciou-se aos 8 anos, tendo esta
freqüentado a escola especial por quatro anos. Aos 12 ingressou
na escola regular de ensino. Ambas as escolas - especial e regular -
que F. freqüentou tinham como filosofia educacional para surdos
o Oralismo.
Vejamos a transcrição de um texto escrito por F., direcionado
à uma intérprete, no qual ela relata, em forma de bilhete,
como seria seu dia escolar na segunda-feira.
Porque Amanhã todo já trabalho mais hora rápido
6 FLAVIANA Assim você corre para junto só uma bom Professora
Feliz rir falou amigo tem papel cada muito gosta de Deus Flaviana não
aluno falou acabou aluno já casa rapido.
Ao observarmos o texto de F., podemos perceber todas as dificuldades
estruturais de linguagem escrita do aluno com surdez que destacamos
em Fernandes (1990), no início deste trabalho.
Uma pessoa que não conheça as peculiaridades da escrita
de alunos com surdez, especificamente que não conheça
a escrita da referida aluna, não compreenderia o bilhete da mesma,
ao contrário, acreditaria ser um amontoado de palavras desconexas,
sem significado algum.
F. diz, em seu bilhete, que amanhã (segunda-feira) todos os alunos
de sua turma irão fazer os trabalhos (atividades) de aula rapidamente
(talvez uma competição freqüente entre os alunos
de sua turma), para ver quem termina primeiro, colocando-se como a 6a
na ordem. Diz, ainda, que a professora fica feliz com quem termina antes,
considerando (percepção da aluna) o terminar primeiro
como qualidade do bom aluno. Além da mensagem principal, ela
comenta que falou com alguns amigos, através de papéis
escritos (bilhetes), que gosta de Deus. Finalmente, escreve que algum
aluno teria falado que quem acaba antes vai para casa mais rápido,
e ela não estaria neste grupo de alunos. Portanto, justifica-se
o seu desejo de ser uma das primeiras a terminar as atividades escolares,
o mais rápido possível.
Percebemos que o texto dessa aluna é incompreensível na
estrutura de escrita do Português que conhecemos, onde usa-se,
no mínimo, uma seqüência simples de SUJEITO-VERBO-OBJETO.
Apesar de, em alguns momentos, ela tentar utilizar de todos os recursos
que conhece da língua majoritária (tais como letras maiúsculas,
pontuação, flexão temporal de verbos, dentre outros),
esta se perde na forma correta de inseri-los no texto.
O texto de F. reflete uma grande incompreensão acerca da linguagem
que lhe cerca e da língua utilizada em seu dia a dia, tornando
seu registro indecifrável, pela maioria das pessoas, e por ela
mesma, pelo fato de não ter segurança em como fazê-lo.
Ao escrever, a aluna lança mão de todos os aspectos que,
visualmente, ficaram registrados em sua memória (via imitação),
mesmo não os compreendendo, e insiste em fazer um bilhete, já
que o percebe como uma prática social de escrita bem aceita socialmente.
Percebemos, assim, que mesmo sem saber utilizar, corretamente, os instrumentos
primordiais para a leitura escrita, a aluna conhece a importância
social de fazê-lo.
Tendo sido inserida num contexto diário de pura oralização,
tanto familiar quanto escolar, F. foi impossibilitada de construir e
compreender conceitos e práticas lingüísticas que
lhe capacitassem para uma comunicação efetiva e fluente,
na forma gestual, oral ou escrita. A conseqüência dessa prática
inconsistente é a difícil compreensão de sua oralização
e de suas produções escritas, como vimos no modelo que
foi utilizado.
Podemos dizer que as palavras de Gotti (1997, p. 32) reforçam
e complementam com exatidão o equívoco lingüístico
cometido com F., quais sejam:
A leitura orofacial é um auxílio à comunicação
e não um substituto da audição. É um instrumento
interpretativo, inexato e por isso mesmo "ambíguo",
uma vez que grande quantidade de fonemas que "soam" diferentes
ao ouvido normal, "aparecem" iguais nos lábios de quem
as pronuncia, e outros nem mesmo "aparecem".
Assim, ao promover a oralização do sujeito com surdez,
exclusivamente para possibilitar sua integração no mundo
oralizado e sonoro de ouvintes (como ocorreu com F., no caso apresentado),
percebemos que sem a utilização de uma língua adquirida
através da interação, a qual determine a formação
do pensamento, estaremos, na realidade, intensificando essa diferença
lingüística, pois esses indivíduos, apesar de se
esforçarem para falar o Português, provavelmente sofrerão
dificuldades cognitivas, sociais e emocionais.
O segundo aluno, cuja história de vida passamos a relatar, é
B. de 15 anos.
B. apresenta surdez profunda adquirida, cujas causas baseiam-se nas
seqüelas deixadas pela Meningite Meningocócica contraída
aos 12 meses de idade .
Todas as fonoaudiólogas que atenderam B. eram adeptas do Oralismo,
tendo o aluno conhecido a língua de sinais anos depois, através
do contato com surdos adultos.
Sua escolarização formal iniciou-se em uma escola especial,
aos 4 anos, tendo freqüentado a mesma durante sete anos, a qual
baseava-se no modelo da Comunicação Total. Aos 11 anos,
B. ingressou na escola regular de ensino, onde as metodologias utilizadas
representavam um misto do Oralismo com a Comunicação Total
(e ainda representam, pois o aluno continua na mesma escola).
Ao entrevistarmos a mãe de B. e o próprio aluno, fomos
informados de que a utilização da Comunicação
Total facilitou o relacionamento e a comunicação familiar,
porém, o aluno relatou que se sentia muito confuso na escola
com expressões criadas que dificultavam uma compreensão
clara e objetiva dos conteúdos, além da falta de consonância
entre os sinais usados em casa e na escola. O uso da datilologia (alfabeto
manual) era mais freqüente devido a facilidade de compreensão
pelos professores e pais.
Após uma apreciação geral do histórico de
vida de B. passemos ao texto escolhido para análise. Trata-se
de uma carta de contexto religioso enviada a uma intérprete de
LIBRAS.
Oi tudo bom L.
Eu sou muito feliz você.
Espírito Santo visitar sua vida.
Deus dar sua dons própria surdo mundo.
Quando L. chegou igreja. Você viu dois surdo B.-D. Verdade.
Passado muito difícil para mim Por causas. Não tem interpretas.
Agora Deus prepara já começou Graça Deus.
Eu te amo L. realidade.
Eu nunca esqueça Você Por que amo Verdade.
Toque Silêncio amo você
Abaçou pra L.
Beijo Boca.
O texto de B. traz diferenças significativas se for comparado
ao texto de F.que analisamos anteriormente.
B. procura escrever dando um corpo inteligível a sua carta, marcando
o início (com os cumprimentos e o começo da mensagem desejada),
o meio (com os argumentos de sustentação da mensagem)
e o fim (com o fechamento da mensagem desejada e os cumprimentos finais).
Percebemos que em seu texto também ocorrem equívocos quanto
à estruturação de sua escrita no que concerne ao
uso de alguns elementos de ligação, flexão do verbo,
ao uso da letra maiúscula fora de hora (talvez como marca ou
supercorreção), disposição de frases e/ou
parágrafos, dentre outros. No entanto visualizamos um avanço
muito grande com relação à escrita do aluno anterior.
Tendo sido educado num modelo mais voltado para a Comunicação
Total, B. pôde contar com o melhor aproveitamento de seu potencial
visual e gestual, aliado ao grande apoio familiar.
Mesmo com os grandes avanços percebidos em sua escrita, devemos
considerar que, ainda assim lhe falta uma linguagem efetiva, visto que
a Comunicação Total baseia-se num conjunto de recursos
e não na fluência de uma língua.
Ao termos analisado o texto de B., percebemos que a Comunicação
Total, como filosofia de educação de sujeitos com surdez,
demonstrou uma eficácia maior em relação ao Oralismo,
levando em consideração aspectos importantes do desenvolvimento.
No entanto, esta não utiliza a língua de sinais em sua
forma plena e passa a criar recursos artificiais para facilitar a comunicação,
tendo como conseqüência a dificuldade de comunicação
entre sujeitos com surdez que dominam códigos diferentes da língua
de sinais.
Finalmente, apresentaremos a história de vida de K. de 10 anos.
A aluna em questão apresenta surdez severa à profunda
congênita, decorrente da Rubéola contraída, pela
mãe, através de um familiar.
A aluna freqüenta o atendimento fonoaudiológico desde a
descoberta da surdez.
K. freqüentou o ensino especial durante quatro anos, especificamente
dos 5 aos 9 anos, sendo esta baseada num modelo de transição
do Oralismo para a Comunicação Total. Posteriormente,
a aluna ingressou em uma escola regular que tem se empenhado no sentido
de promover um ensino voltado para o Bilingüismo. Podemos dizer
que essa escola encontra-se num modelo transitório de Comunicação
Total para o Bilingüismo.
Iremos utilizar dois textos de K., escritos em momentos diferentes de
sua escolarização, os quais mesmo sendo produções
de texto simples, nos apresentam diferenças estruturais consideráveis.
O primeiro é uma produção de texto realizada logo
que K entrou na escola regular. Esta foi feita com base em leitura de
imagem e uma incentivação escrita como pretexto.
Era uma ves um jacaré com conversar. Veio muito veio. A tartaruga
estava com Triste. O jacaré começou Fala igual O Bico
Do papagaio muito levado.O jacaré pediu De sculpa.
Este outro texto foi produzido após dez meses de freqüência
de K. no ensino regular e se trata de uma produção feita
a partir de imagens ordenadas pela própria aluna.
A pescaria.
O Alex foi pescar peixe na lagoa.
O menino ficou alegre porque pescou um peixe muito bonito e grande.
Ele assou o peixe para comer.
O peixe estava muito gostoso!
O primeiro texto de K. traz características muito semelhantes
ao do aluno B. com relação às peculiaridades lingüísticas
marcadas pela omissão de elementos e palavras importantes para
o corpo textual, ou mesmo pelo uso equivocado de outros recursos.
No entanto, o segundo texto apresenta um amadurecimento muito grande
com relação ao uso de conectivos ou mesmo flexões
verbais, tão difíceis de serem compreendidas pelo sujeito
com surdez.
O processo de aprendizagem de K. foi efetivado pelo uso sistemático
da língua de sinais, sobretudo para a organização
do pensamento e para a compreensão de conceitos, mesmo havendo
grandes diferenças entre a estrutura da LIBRAS e a estrutura
do Português.
Quando o aluno com surdez é mediado adequadamente e tem a oportunidade
de organizar seu pensamento via sinais (que é sua língua
primeira e que deve ser o ponto de partida para a aprendizagem da segunda,
o Português), este tem a possibilidade de produzir um texto bem
estruturado e compreensível para os leitores que por ventura
venham a lê-lo, cuja prática de escrita vai se aperfeiçoando
com a mediação dos ouvintes, não de forma mecânica,
mas interativa.
O aluno com surdez, inicialmente, agirá por imitação,
num caráter prospectivo de que, futuramente, venha a fazê-lo
de forma independente e ativa (como ocorreu com K.). Vigotskii (1998,
p. 112) nos esclarece acerca da imitação dizendo que:
A diferença substancial no caso da criança é
que esta pode imitar um grande número de ações
- senão um número ilimitado - que supera os limites da
sua capacidade atual. Com o auxílio da imitação
na atividade coletiva guiada pelos adultos, a criança pode fazer
muito mais do que com a sua capacidade de compreensão de modo
independente. A diferença entre o nível das tarefas realizáveis
com o auxílio dos adultos e o nível das tarefas que podem
desenvolver-se com uma atividade independente define a área de
desenvolvimento potencial da criança.
Dessa forma ocorre uma apropriação consciente da língua,
ou seja, o aluno com surdez não age apenas como um mero repetidor
da língua oficial do país, mas é capaz de colocar-se
como sujeito ativo. Isso ocorre exclusivamente, porque através
da mediação, temos a oportunidade de reconhecer regras
e conceitos impossíveis de serem compreendidos apenas pela imposição
de cópias e repetições orais.
Cabe à escola conhecer as diferenças lingüísticas
de seus alunos, e, a partir delas, encontrar caminhos efetivos para
a apropriação da linguagem escrita por todos eles, independente
de suas peculiaridades específicas, como é o caso da surdez.
Ao buscarmos pesquisar os efeitos das concepções e/ou
filosofias de educação para surdos em sua linguagem escrita,
tivemos a oportunidade de questionar não apenas a questão
peculiar dos sujeitos com surdez, mas a educação geral
como um todo. Sabendo que a escola, especificamente nos dias de hoje,
conta com uma clientela extremamente heterogênea, cabe a todos
nós, enquanto educadores, revermos nossa prática pedagógica
e nos capacitarmos no sentido de melhor atender a essa diversidade que
se apresenta.
No caso dos alunos com surdez, procuramos buscar sujeitos freqüentes
em escolas regulares por acreditarmos que o melhor lugar para toda e
qualquer pessoa, independente de sua situação social,
cultural, física, com deficiência ou não, no que
diz respeito à educação formal, é a escola
regular e as salas regulares de ensino. Acreditamos, no entanto, que
o sucesso se dará com o crescente conhecimento e aperfeiçoamento
da prática pedagógica que baseará tal trabalho.
Percebemos que a aquisição de uma língua é
primordial para o desenvolvimento intelectual, emocional, social e afetivo
de qualquer ser humano, considerando que a melhor forma de aprender
a usar seus instrumentos de forma consciente e transformadora é
através da mediação ativa de usuários da
mesma.
Falamos muito em modelo e em imitação, durante a análise
dos textos que apresentamos, porém procuramos deixar bem claro
que o sentido apresentado diferencia-se de submissão, sendo este,
apenas um referencial para sujeitos que não ouvem, mas que possuem
um potencial como todos os outros indivíduos, ativado através
da mediação.
Usando as palavras de Fernandes (s.n.t.) podemos dizer que:
Dominar uma língua é, na verdade, um fato abstrato,
não submisso ao funcionamento, ou melhor, ao desempenho lingüístico.
É um fenômeno decorrente do contato com a língua,
do desempenho lingüístico em qualquer de suas modalidades
(oral ou escrita). Mas decorrência não deve ser confundida
com submissão: utilizar os modelos de desempenho para ativar
regras de seleção é base e conseqüência
da exposição ao desempenho lingüístico, mas,
uma vez ativadas, as regras selecionadas, ativam, por sua vez, mecanismos
cerebrais para moldar a arquitetura da composição de domínio
da língua em módulos abstratos [...] Para o ouvinte, ouvir
é, provavelmente, o principal meio de processamento de entrada
para seleção das regras gramaticais de uma língua.
Devemos, no entanto, evitar a suposta premissa de que este é
o único meio ou o melhor, mesmo no caso de crianças ouvintes.
Considerando a necessidade da modalidade gestual para a educação
dos alunos com surdez, cabe a nós viabilizarmos recursos de ensino/aprendizagem
que valorizem a memória e o pensamento que se dão pelo
aspecto visual, característico desses sujeitos, lembrando que
a língua de sinais propicia o desenvolvimento lingüístico
dos mesmos, facilitando, inclusive, o processo de aprendizagem de línguas
orais, servindo de apoio para a leitura e compreensão de textos
escritos e favorecendo a produção escrita.
Ao percebermos as conseqüências de uma e outra concepcão
de educação para os sujeitos com surdez, tornou-se claro
o reconhecimento da língua de sinais como base do trabalho com
esses indivíduos, mesmo ao considerarmos que existem dificuldades
para o aprendizado da mesma. Não podemos, no entanto, fazer dessas
dificuldades uma justificativa para nos acomodarmos e engrossarmos o
grupo que afirma que os indivíduos com surdez não são
capazes de escrever textos estruturados, compreensíveis e lógicos.
Precisamos, além de refletir sobre as práticas pedagógicas
utilizadas e sobre os métodos educacionais que delas fazem parte,
nos instrumentalizar teoricamente, no sentido de conhecermos os variados
estudos e enfoques que têm permeado as discussões sobre
a educação de surdos no ensino regular, no Brasil e no
mundo.
Ao falarmos em comunicação, em linguagem e em língua,
é importante que consideremos todas as possibilidades dos indivíduos,
a fim de que todas as dimensões da linguagem humana sejam estabelecidas.
As produções escritas que vimos, através dos nossos
sujeitos de pesquisa, representam um pouco daquilo que tem ocorrido
com os alunos com surdez, aqui no Brasil e em outros países do
mundo.
Para o momento esperamos ter atingido o nosso objetivo maior que foi
fomentar uma reflexão sobre os efeitos das concepções
e/ou filosofias de educação de sujeitos com surdez, apresentando
a escola e as turmas regulares de ensino como o espaço ideal
para o ensino formal, e a língua de sinais como o caminho principal
para a efetivação de uma educação de qualidade
junto a esses alunos.
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