Potencialidades das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) e sua Utilização por Crianças.

Autor: Manuel Chaves

“A necessidade de transmitir conhecimento e competências, e o desejo de os adquirir são constantes da natureza humana. Mestres e discípulos, ensino e aprendizagem, deverão continuar a existir enquanto existirem sociedades”.
George Steiner

A utilização das TIC foi largamente referenciada como ferramenta essencial de apoio ás comunidades aprendentes. Um ensino básico de elevada qualidade para todos, a partir dos primórdios da vida de uma criança, constitui o alicerce fundamental. Aprender a aprender, estratégia importante com resultados no futuro. As pessoas só planearam aprendizagem ao longo das suas vidas se quiserem aprender, e não quererão continuar a fazê-lo se as suas primeiras experiências de aprendizagem tiverem sido mal sucedidas e pessoalmente negativas. As técnicas de aprendizagem assentes nas TIC oferecem amplas oportunidades e potencialidades de inovação dos métodos de ensino e de aprendizagem. Apesar desta evidência, grande parte do que os nossos sistemas de educação e formação oferecem é ainda organizado como se as tradicionais formas de planear e organizar a vida das pessoas não se tivesse alterado na última metade do século passado.

Os países em vias de desenvolvimento ou com desenvolvimento moderado apresentam ainda diferenças graves assimetrias repartido entre o litoral, grandes metrópoles e o interior. Além da disponibilidade de emprego, as deslocações de populações teve também como factor etiológico a necessidade de melhores condições de ensino. As TIC constituem um meio fundamental para chegar às populações disseminadas e isoladas, com a vantagem adicional de o seu custo ser reduzido, contribuindo para a fixação das populações locais, oferecendo “educação desde cedo para todos e ao longo da vida”.

Um estudo conduzido pelo Departamento de Educação Norte-Americano, citado na sua página electrónica, revela que a quase totalidade das escolas públicas Norte Americanas tem acesso à Internet, mas poucas tiram vantagem efectiva da tecnologia para ensinar os alunos que as frequentam, que acabam por desmotivar devido à pouca efectividade desta ferramenta no seu dia-a-dia escolar.

Na última década, 99 por cento das instituições de ensino básico e secundário nos Estados Unidos passaram a estar ligadas à Internet, instalando-se um computador por cada cinco alunos, revela o estudo denominado "Toward a New Golden Age in American Education: How the Internet, the law and today's students are revolutionizing expectations", que por outro lado indica que a maioria destas escolas ainda não aproveita os recursos informáticos para enriquecer a experiência de ensino. " O sector da educação parece ser o único sector que ainda debate os benefícios das tecnologias da informação e comunicação", considera o secretário norte-americano da educação, Rod Paige, U.S. Secretary of Education, acrescentando que o funcionamento nas escolas permanece inalterado na maioria dos casos, apesar das inúmeras reformas e dos muitos investimentos feitos em computadores e redes.

Os computadores estão normalmente instalados em salas separadas e não no principal espaço de estudo. Esta e outras opções levam a que os estudantes acabem por aprender mais sobre informática em casa do que na escola.

Por exemplo, 72 por cento de todos os estudantes do ensino básico usam o computador de casa pelo menos uma vez por semana durante as suas férias de Verão, de acordo com o National Center for Education Statistics. O maior grupo de novos utilizadores de Internet entre 2000 e 2002 situava-se entre os dois e os cinco anos de idade, ao que se seguiam os situados entre os seis e os oito anos. Como poderá a escola do futuro sobreviver sem novas tecnologias? Que escolas vão encontrar as crianças que habitualmente já utilizam as novas tecnologias? Estes dados mais do que espelha o resultado da metodologia implementada pelos Norte Americanos, a sua análise é útil para que erros como estes não se repitam na realidade Portuguesa.

Em Inglaterra, ao contrário dos Estados Unidos, a utilização integrada das novas tecnologias de informação e comunicação está a dar os seus frutos, segundo informação recolhida no site “educare” publicado em Janeiro de 2005. O governo britânico revela que 99% das escolas de ensino primário (5 aos 11 anos) e de ensino secundário (11 aos 16 anos) encontram-se ligadas à Internet. A média de computadores por escola é de 31 nas de ensino primário e de 218 nas de ensino secundário e há, em média, 1 computador para 8 alunos do ensino primário, valor que passa para 5 quando falamos do secundário. Cerca de 63% das escolas de ensino primário contam, em média, com dois quadros interactivos, enquanto que no secundário 92% das escolas têm uma média de sete por estabelecimento de ensino. O facto de este esforço não se limitar apenas ao investimento na instalação de equipamentos, mas também no incentivo à sua utilização de forma eficaz, explica o sucesso destas medidas. Creditando os fornecedores de recursos de hardware, de software e de conteúdos, o Governo britânico concedeu aos professores a opção de escolha. No âmbito destas medidas, os docentes podem escolher o seu equipamento informático subsidiado a fundo perdido, do mesmo modo que podem escolher, através de um acesso disponível on-line os recursos educativos digitais para utilização em contexto de aula, nomeadamente através de quadros interactivos.

Numa análise superficial mas atenta da realidade escolar, facilmente se conclui sobre o actual desfasamento entre os argumentos utilizados e aqueles já disponíveis fruto desenvolvimento tecnológico em que vivemos. Os argumentos das nossas escolas terão obrigatoriamente ser os mesmos que se utilizam nos outros sectores da sociedade, correndo o risco de elevar a desmotivação e o insucesso dos nossos alunos. As barreiras para o uso das TIC em contexto educativo são ainda muitas.

Segundo Paiva (2002), estas barreiras podem-se agrupar em duas classes: uma que se prende com o parque informático das escolas e outra que tem a ver com os constrangimentos dos agentes educativos. Em relação à primeira dificuldade centrada nos equipamentos das escolas, Portugal tem feito um esforço para recuperar o tempo perdido na modernização do parque informático. Mas, a quantidade dos materiais, não quer dizer utilização discernida e sistemática, nada nos diz sobre o que se faz com eles e até que ponto estão em mudança as práticas lectivas.

Num estudo efectuado pelo Departamento de Avaliação Prospectiva e Planeamento do Ministério da Educação Português, publicado em 2002, verifica-se que a utilização de TIC em contexto educativo pré-escolar é muito deficiente devido à insuficiência de materiais e desconhecimento das TIC pelos professores. Se compararmos estes resultados, com a percentagem de crianças Americanas dos 2 aos 5 anos que frequentam a internet, verifica-se um desfasamento grande, estando a hipotecar um desenvolvimento pleno e já disponível, não esquecendo que as crianças do pré-escolar de hoje são as mesmas que no futuro frequentaram o ensino básico.

Para ultrapassar este défice de TIC no pré-escolar a formação dos professores será o ponto de partida. Atinkson (1977), citado por Paiva reforça a ideia da necessidade de termos professores empenhados e despertos, deveríamos incluir, no seu programa de formação, as novas tecnologias em dois sentidos: no sentido de valorizar as pedagogias clássicas e no sentido de os fazer entender que as TIC não são antagonistas dos métodos tradicionais, mas antes os dois se interpotenciam.

Segundo Wild (1996), existem algumas dificuldades que podem levar ao não uso das TIC em contexto educativo:

- Falta de oportunidades para usar computadores regularmente, criando uma continuidade pedagogicamente benéfica;

- O facto de muitos alunos de extractos sócio-económicos baixos não possuírem computador. Este dado é relevante em Portugal. Em 2001 a percentagem de computadores na população portuguesa era de 39% (Mata, 2002);

- Recursos informáticos escassos na escola. Na realidade portuguesa verifica-se mais na rede pré-escolar;

- Stress do professor;

- Falta de confiança e segurança para usar as TIC;

- Falta de conhecimento sobre o verdadeiro impacto do uso das TIC em contexto educativo;

- Poucas experiências com TIC na formação de professores quer inicial quer durante a actividade.

A utilidade das TIC na aprendizagem das crianças está comprovada. A sua utilização na escola apesar de lenta é uma realidade. Em Fevereiro de 2002, em Avelar distrito de Coimbra, Portugal, foi inaugurado um projecto de “Escolas Navegadoras”. Este projecto representa um novo conceito de acesso e de partilha de conhecimentos nas escolas. É disponibilizado material informático portátil integrado em rede sem fios. Pretende-se novas formas de interacção pedagógica em contexto de sala de aula, promovendo a aprendizagem cooperativa, auto-regulada, e redes de comunicação mais alargadas, em busca da adaptação da escola à sociedade e às suas formas de construir o conhecimento, produzir e desenvolver-se.

Resultado das observações directas efectuadas por alunos da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, podemos constatar que existe uma motivação acrescida no ambiente de aprendizagem, professores, alunos e pais. Verifica-se uma rápida aprendizagem de toda a tecnologia disponível. Segundo referência de uma professora incluída neste projecto, os alunos com dificuldade na concentração saiem beneficiados com esta nova metodologia tecnológica.

A utilização de quadros interactivos muda a dinâmica na sala de aula. É mais um factor motivador para a aprendizagem. Deixa de ser um momento de stress ir ao quadro para ser um momento de descontracção e aprendizagem efectiva.

A importância da utilização dos quadros interactivos nas escolas do ensino básico e não só, pressupõe que o professor utilize de uma forma activa toda a tecnologia disponível proporcionando que os seus alunos aprendam mais, melhor e em menos tempo.

A utilização de novas tecnologias na escola poderá racionalizar o seu uso, poderá ter uma acção disciplinadora da sua utilização. Não podemos esquecer que a criança precisa também de contacto com o mundo real, e esse contacto poderá ser mais efectivo após o horário lectivo por vezes repleto de novas tecnologias.

BIBLIOGRAFIA

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http://www.edutic.giase.min-edu.pt/estudos.htm

http://www.uib.es/depart/gte/revelec.html

Manuel Chaves - Professor de Enfermagem a exercer funções de Assistente na Escola Superior de Enfermagem de Bissaya Barreto em Coimbra
Mestrando em Psicologia da Educação da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra. A desenvolver a tese: “Competências Pedagógicas do Professor no Ensino Superior”.
e-mail: mchaves@esebb.pt