Surdez, Educação e Trabalho:
Discursos Constituindo o Surdo Trabalhador

Autora: Madalena Klein

1.Introdução

Esse trabalho resulta de uma pesquisa, em andamento, e que pretende se voltar aos discursos sobre a surdez e os surdos, bem como sobre a educação e o trabalho, e que vem constituindo sujeitos surdos trabalhadores. A aproximação a esses discursos não se dá no sentido de procurar encontrar o "realmente dito" ou mesmo aquilo que possa estar encoberto (Foucault, 1980) e que, através da pesquisa, viesse à toa, desvelando, assim, seu sentido verdadeiro. Nem tampouco é intenção revelar a cientificidade ou não desses discursos. Interessa-me, sim, "ver historicamente como se produzem efeitos de verdade no interior dos discursos que não são em si nem verdadeiros nem falsos" (Foucault, 1990: 7).

Vou trilhar, ou pelo menos tentar faze-lo, por caminhos insinuados na perspectiva que, de forma instigante, Foucault investigou, e que vem servindo de referência a tantos outros pesquisadores ligados à educação, estimulando outras formas de problematizar os múltiplos temas nessa área. Poderia citar aqui alguns dos pesquisadores que, se valendo de, se assim se pode chamar, um jeito foucaultiano de investigar, têm trazido à educação novas questões que dizem respeito aos sujeitos muitas vezes esquecidos nas discussões generalizadas desse campo. Assim, ajudam-me a caminhar nessa perspectiva, Popkewitz (1995), Walkerdine (1995), Fischer (1995, 1996), Larrosa, (1995), Costa (1996), Costa e Silveira (no prelo), Veiga-Neto (1996), Palamidessi (1996), entre outros, que, em suas investigações, trazem à discussão as discursividades e a constituição dos sujeitos da educação.

Entendo, segundo a perspectiva referenciada, que os discursos sobre a surdez e os surdos não se apresentam se forma homogênea. Eles estão inscritos entre diversas formações discursivas, constituídas à partir de diferentes práticas ligadas aos campos da medicina, da pedagogia, da lingüística, entre outros. Esses saberes, articulam-se através de jogos de poder que devem ser entendidos em sua historicidade, levando em conta as suas marcas institucionais, como também a posição e a situação dos sujeitos que falam nesses discursos (Fischer, 1995). Como disse Foucault, em Arqueologia do Saber, as práticas discursivas se referem a "... um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram em uma época dada, e para uma área social, econômica, geográfica ou lingüística dada, as condições de exercício da função enunciativa" (1980: 136).

Será interessante e produtivo, procurar evidenciar as relações entre os diferentes discursos que se inscrevem enquanto formação discursiva sobre a surdez, os surdos, a educação e o trabalho, na tentativa de estabelecer as compatibilidades e incompatibilidades, e assim, evidenciar as regularidades que se inscrevem entre eles. (Fischer, 1995).

Machado (1982), argumenta que, para Foucault, não interessa se o discurso tem uma lógica interna. O ponto de unidade do discurso, se assim se pode falar, é a dispersão: a regularidade é a dispersão. Para Foucault, a análise do discurso vai em busca de regularidades que estão dentro de uma "nuvem de enunciados". Assim, os discursos não se organizam como tratados, mas sim em fragmentos, aforismos, máximas, ensaios (Veiga-Neto, 1996). Como disse o filósofo francês, "os discursos devem ser tratados como práticas descontínuas, que se cruzam por vezes, mas também se ignoram ou se excluem" (Foucault, 1996: 52).

Interessante, nessa perspectiva, é a idéia de campos discursivos, constituídos a partir de diferentes formações discursivas, e por onde as subjetividades vão sendo formadas. Como bem explicita Popkewitz:

A importância da idéia de campo discursivo (o que Foucault chama de "região") está no fato de que ela nos permite focalizar a forma como os discursos historicamente construídos em locais fisicamente diferentes juntam-se para formar uma plataforma a partir do qual a individualidade é definida. A individualidade parece transcender eventos e ancoragens geográficas sociais particulares. ( Popkewitz, 1995: 203)

Campos discursivos não dizem respeito a um contexto onde os discursos se efetivam, ou seja, não dizem respeito ao espaço físico onde eles se produzem. Referem-se, sim, aos discursos que determinam regras, que instituem padrões institucionais, que classificam, à partir de um espaço epistemológico particular, onde são formadas subjetividades e onde há desdobramento de poder.

Pensando em diferentes discursos envolvidos nos campos discursivos, onde sujeitos surdos trabalhadores são formados, pretendo apresentar alguns daqueles que considero estarem em jogo na construção desse campo que se refere à surdez, à educação e ao trabalho. Refiro-me aos discursos sobre a integração dos sujeitos surdos na sociedade, bem como aos discursos sobre a deficiência, enquanto condição a ser superada. Esses, entre tantos outros, são discursos que vem interferindo de forma decisiva nas práticas institucionais ligadas a educação dos surdos e sua formação para o trabalho.

2. A surdez inserida numa lógica da deficiência: as práticas de reabilitação.

A hegemonia de discursos ligando à surdez a questão médica, fez predominar uma abordagem clínico - terapêutica dentro dos projetos educacionais desde o final do século passado, persistindo até os dias de hoje. A escola, assim, enquanto palco pedagógico, se apresenta também enquanto proposta clínica de atendimento as alunas e aos alunos surdos.

Autores como Sanchez (1990), Skliar (1997 a, 1997b.), procurando contextualizar historicamente a educação de surdos, fazem referência a esta perspectiva clínica - terapêutica que tem predominado nas escolas, em detrimento de um projeto pedagógico. Segundo Skliar

As idéias dominantes nos últimos cem anos são um claro testemunho de um sentido comum segundo o qual os surdos correspondem, encaixam-se e adaptam-se com naturalidade a um modelo clínico - terapêutico, versão amplificada e exagerada da pedagogia corretiva de princípios do século XX e vigentes até o momento. (1997b.: 248)

Ainda hoje podemos perceber, nos discursos que circulam pelas escolas de surdos, o que Sanchez (1990), valendo-se de Foucault, chama de pedagogia ortopédica, onde, muito mais que educar, se pretende corrigir. Práticas voltadas a fazer falar, a se adaptar ao uso de um aparelho auditivo, são exemplos de reabilitação que se estendem para além do espaço da escola e chega também aos locais de trabalho, onde surdas e surdos devem se adequar as exigências do mercado que busca a eficiência e a lucratividade.

Através de um relato histórico da vida dos surdos da Dinamarca, a socióloga Jonna Widell (1992) apresenta uma fase da história dos surdos, a que a autora chama de fase do isolamento, onde a escola distingue-se por ensinar as crianças a fala e a disciplina, consideradas necessárias para a inserção no mercado de trabalho Encontramos aí um entendimento da surdez enquanto algo a ser reabilitado, sendo esse o discurso hegemônico nas escolas do final do século, e ainda presente, mesmo em décadas mais recentes, em diferentes escolas para surdos.

Exemplo disso são os Programa de Informação e Orientação Profissional de escolas de surdos, onde a realização desse tipo de programa dentro da escola é justificado como "parte integrante do processo de reabilitação, possibilitando a sua (do surdo) plena integração à sociedade" (Strobel e Dias, 1995: 73).

O sentido de reabilitação é bastante encontrado em diferentes projetos direcionados às questões do Trabalho nas escolas de surdos. Isso pode ser associado a uma concepção clínica, já referida anteriormente, e que entende o surdo enquanto sujeito deficiente, a partir da falta de audição, e que, segundo Padden e Humphries (1988), acabam por determinar a forma de interpretar todos os outros aspectos de suas vidas. Interessante pensar que, se as escolas de surdos atendem a crianças e jovens que ainda não foram inseridos no mercado de trabalho, é estranho, e até equivocado falar em reabilitação, como se fosse necessário reparar algo que já falhou.

3. Associações e clubes de surdos promovendo ações ligadas ao mundo do trabalho: a presença dos discursos da deficiência e da integração

A maioria da comunidade surda consistia de trabalhadores especializados, e era característico do período que o objetivo da associação surda fosse semelhante ao objetivo das associações de trabalhadores. (...) Além disso, pretendiam encontrar emprego para trabalhadores especializados que estivessem desempregados. (Widell, 1992: 21).

A citação acima refere-se ao relato que a socióloga dinamarquesa faz sobre as fases históricas da cultura surda, mais especificamente, o surgimento de associações de surdos no período entre 1866-1893. No texto, são várias as referências aos objetivos e realizações dessas associações, sendo que entre ações de lazer, recreação e assistência, também a preocupação com o trabalho era privilegiada. A autora, inclusive se refere a primeira associação de seu país como sendo formada a partir do encontro de artesãos, motivados por iniciativas semelhantes ocorridas em outros países.

Os registros encontrados fazem referência a situação dos surdos da época. Grande parte desses constituíam-se de mão-de-obra mal escolarizada, ocorrendo exploração por parte das indústrias. As associações, então, tinham um papel fundamental no treinamento desses surdos, como também nas negociações no sentido de conquistas legais de garantia de educação e trabalho.

A autora segue seu relato, dizendo que nas primeiras décadas desse século "é graças a socialização terciaria na associação dos surdos-mudos que a comunidade surda aprendeu a ascender socialmente no emprego. Era na associação que as soluções para problemas como afrontas, sindicatos, operários, etc. eram discutidos" (Widell, 1992: 36).

A preocupação com o trabalho esteve sempre associada com a possibilidade de independência, de autonomia das pessoas surdas. Nas últimas décadas, principalmente após o Ano Internacional dos Deficientes promovido pela ONU, no ano de 1981, a questão do trabalho foi inserida num discurso de conquista de cidadania.

As associações de surdos, juntamente com o movimento de pessoas portadoras de deficiência (cegos, deficientes físicos, mentais) iniciaram campanhas intensas no sentido de propagar os direitos dos cidadãos com deficiência: direitos a atendimentos qualificados, a educação, ao lazer, à profissionalização, ao emprego.

As ações reivindicatórias por leis que garantam o acesso ao trabalho são prioridades das associações, e isso ocorre de forma intensiva em diferentes países. No Brasil são conquistas desses movimentos a lei de reserva de mercado (Constituição Federal, art. 37º, inciso VIII) e a Instrução Normativa N.º 5 de 30/08/91 do Ministério do Trabalho e da Previdência, que institui o programa de treinamento profissional junto as empresas. Essa Instrução Normativa refere-se ao trabalho para pessoas portadoras de deficiência que oferece atividades com fins terapêuticos, de reabilitação, e que ocorre sob a tutela de entidades que tenham o objetivo de assistir o deficiente.

Encontramos nessas leis uma concepção de sujeito a partir de sua deficiência, e as ações daí efetivadas partem de uma idéia de reabilitação e de normalização. Esse é um ponto que considero interessante e importante para a discussão sobre a educação dos surdos e o trabalho, uma vez que vamos encontrar um discurso, tanto das escolas quanto das associações no sentido de demonstrar as competências, a eficiência das pessoas surdas, discurso esse inserido numa lógica neo-liberal que, utilizados por esses grupos, reinscrevem-se na lógica da deficiência.

Padden (1993) em entrevista para uma revista, fala sobre as reações das pessoas surdas ao termo descapacitado ou deficiente. Segundo ela, esse termo tem uma finalidade política nos Estados Unidos, significando dinheiro de fundos para apoiar as pessoas surdas, para que tenham acesso a telefone, canais de TV. Assim, o termo passa a ter uma conotação útil e desejada. Porém, quando o caso é referir-se a Língua de Sinais e a cultura das pessoas surdas, há uma compreensão equivocada no uso desse termo.

Também encontramos elementos para essa discussão em Wrigley (1996), onde o autor comenta sobre as incertezas entre os líderes surdos sobre as estratégias no uso de termos que os identificam com incapacitados. A tensão entre esses diferentes termos é uma constante nos pronunciamentos encontrados em documentos, reportagens, material de divulgação veiculado pelas associações de surdos em nosso país. É muito comum o uso do termo deficiente com a letra d riscada, evidenciando uma tentativa de mudança de concepção. Mesmo fazendo referência a uma negativa ao enunciado da deficiência, esses discursos falam desde uma visão binária, onde um elemento tem sua comprovação a partir da existência/convivência com outro termo opositor que definiria a norma. Skliar (1997b: 263), propõe o abandono das grandes narrativas e dos contrastes binários na Educação de Surdos:

A questão das oposições binárias na educação dos surdos - normalidade/anormalidade, surdo/ouvinte, maioria (ouvinte)/minoria (surda), oralidade/gestualidade, etc. - aparece entretanto hoje como um dos fatores de risco mais nocivos na análise da realidade educacional relativa aos surdos e cujo enraizamento ideológico parece tão inevitável como insuperável.

Poderíamos incluir, ainda, a oposição eficiente/deficiente que, nas relações de trabalho, apresentam-se enquanto discursividade predominante. Ao procurar riscar a letra d, acaba-se por restituir, ou mesmo reinscrever, o discurso hegemônico da deficiência. Dentro dessa argumentação, Davis, apud Silva (1997), como também Wrigley (1996) fazem referência a uma distinção comum na língua inglesa aos termos surdo (fato físico da surdez) e Surdo (surdos enquanto grupo cultural e comunidade lingüística). Davis, apud Silva (1997: 9) embora reconhecendo essa distinção como estratégia política, ressalta que "paradoxalmente, ao admitir que, afinal, existe um núcleo físico que pode ser separado de sua definição social e cultura, essa operação acaba por restituir aos discursos dominantes sobre a surdez parte de sua eficácia retórica". A eficácia desses discursos dominantes está na normalização, no controle, no que Skliar (1997b: 259 ) denomina de "ouvintismo" dos surdos a partir das práticas pedagógicas.

Quero argumentar aqui, que não existe de um lado os discursos dos ouvintes, poderosos, contrapondo-se aos discursos dos surdos. Tanto nas escolas quanto nos movimentos surdos, percebemos falas e práticas relacionadas a uma deficiência a ser superada, sendo que um dos momentos privilegiados para isso é o ambiente de trabalho.

Num cartaz distribuído pela FENEIS (s.n.t.), há uma chamada com esses termos: "Procura-se empresários que exijam dedicação e eficiência". Entre desenhos de surdos desempenhando funções de digitadores e de operadores de máquina de xerox, lemos o seguinte texto:

O trabalho é o principal meio de integração do homem na sociedade. É através deste que o indivíduo comprova sua capacidade igualitária de produção. Com os convênios firmados pela Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos - FENEIS, o surdo vem conquistando um espaço maior e demonstrando seu potencial em várias áreas, aumentando assim o interesse das grandes empresas. LUCRE INVESTINDO CERTO NO SEU PESSOAL.

As práticas das escolas e dos movimentos surdos, no sentido de encaminhamentos ao trabalho, muitas vezes se aproximam a uma tutela. Uma instituição, um grupo, toma para si o encargo de "lutar por" condições de reconhecimento da competência dos surdos, dizendo o que ele é. Em uma reportagem sob o título Surdos X Mercado de Trabalho está dito que "esse trabalho realizado pela Feneis faz com que muitas empresas passem a ver o surdo como uma pessoa capaz de trabalhar, produzir, enfim, ser útil à sociedade". (Braga, 1992: 4).

Muitas associações de surdos somam esforços com entidades representativas de pessoas portadoras de deficiência tais como cegos, paraplégicos, entre outros. Realizam ações conjuntas junto aos governos e aos empresários, procurando garantias de seus direitos. Dentro do registro das deficiências eficientes encontramos uma carta aberta aos empresários de Campo Grande - MS, divulgada pela Secretaria de Educação daquele estado em conjunto com um centro de atendimento aos surdos, cuja diretora é uma professora surda.

É normal que você empresário sinta algumas dúvidas em dar emprego a uma pessoa portadora de deficiência. Talvez nunca tenha pensado nisso.

Mas isso pode ser uma vantagem. Porque ele possui a motivação, dedicação e força de vontade necessárias para aprender uma profissão.

Acreditar nas capacidades profissionais de uma pessoa portadora de deficiência é dar-lhe a oportunidade de as poder comprovar.

A Secretaria de Educação desenvolve um projeto de integração do portador de deficiência no Mercado de trabalho, o qual visa o treinamento dentro da Empresa, nas atividades compatíveis às suas habilidades e interesses.

Para a realização deste projeto é firmado um Convênio entre Secretaria de estado de Educação e o empresário, onde compete à Secretaria de Estado de Educação/CEADA, o encaminhamento, supervisão e fornecimento dos meios necessários à aprendizagem e realização do trabalho.(MATO GROSSO,198?: .1).

Percebemos nesse documento um discurso que, procurando convencer os empresários das competências da pessoas portadoras de deficiência, acaba reafirmando, ou reinscrevendo esses sujeitos numa lógica da deficiência. Para que haja uma integração, torna-se necessária a intervenção, se não uma tutela, por parte das suas associações, no sentido de transformar essa deficiência em competência, requisito desejável para a integração no mundo do trabalho.

Walkerdine (1995), explicitando o pensamento de Foucault acerca da regulação dos sujeitos, refere-se a abordagem científica em relação ao raciocínio das crianças, onde ela fala sobre as estratégias de governo no sentido de transformação dos desvios em características desejáveis.

Isto é parte central da moderna estratégia de governo na qual um cidadão governável, obediente e cumpridor das leis deve ser produzido por técnicas que não são necessariamente técnicas de supressão direta, mas que transformam as características desejáveis em normais e naturais. Todos os desvios destas normas aparecem, pois, como patologias medicalizáveis a serem corrigidas. (Walkerdine, 1995: 210).

Os empresários não precisam se preocupar com o desvio, com a deficiência, uma vez que o programa faz o "acompanhamento, a supervisão e o fornecimento dos meios necessários à aprendizagem e a realização do trabalho"(MATO GROSSO, 198?: 1) O programa incorpora-se às "tecnologias" no sentido da regulação e da produção de uma "verdade" sobre um surdo adequado às exigências do mercado de trabalho.

4. A mulher surda trabalhadora: uma presença "ausente"

Na pesquisa aos documentos, artigos, cartazes que falam do surdo trabalhador, fica evidenciada a ausência de uma personagem: a mulher surda. A predominância nesses discursos dizem de um homem - o trabalhador, ficando em segundo plano, ou mesmo esquecidas es especificidades dessa mulher surda que ascende ao mundo do trabalho.

Skliar (1997 a), ao analisar a educação de surdos, refere-se a existência de um currículo angustiante, onde quem está presente é um homem ouvinte, branco, profissional. Ao ser referida a categoria surdo, tem-se a impressão de que essa expressão é suficiente, não havendo lugar a outras diferenças.

Vem ocorrendo mudanças lentas nesse sentido. Exemplo disso são alguns dos trabalhos apresentados por ocasião do XII Congresso Mundial da Federação Mundial dos Surdos, em Viena, no ano de 1995, que falavam das condições de surdos negros, surdas mulheres africanas, surdas lésbicas, surdos gays, entre outros.

Tornar visível aquela que fora ocultada foi o grande objetivo das estudiosas feministas desses primeiros tempos. A segregação social e política a que as mulheres foram historicamente conduzidas tivera como conseqüência a sua ampla invisibilidade como sujeito - inclusive como sujeito da Ciência. (Louro, 1997, p.17)

Trazer à visibilidade essas mulheres ainda é uma condição tímida nos discursos que falam sobre surdez e trabalho. Um exemplo está numa pesquisa apresentada no Congresso anteriormente referido. Essa pesquisa fala sobre o treinamento de arquitetos profissionais ao nível universitário na cidade de Tsukuba, Japão, onde, dos 34 profissionais pesquisados, 7 são mulheres, ou seja, representam uma minoria, que aparecem apenas enquanto número estatístico, sem que haja qualquer referência sobre suas condições de mulheres surdas trabalhadoras.

A capa de uma das publicações da FENEIS traz o desenho de quatro situações de trabalho onde surdos estão envolvidos: uma gráfica, uma padaria industrial, uma cartonagem e uma sala de digitação. Apenas nesse último quadro está retratada a figura feminina, passando uma idéia de que algumas atividades são para as mulheres, e outras para os homens.

O estigma de ser mulher deficiente está presente tanto nas respostas de mulheres às pesquisas, quanto na fala de homens surdos que muitas vezes consideram a situação da mulher surda quase que beirando a tragédia. Certa vez ouvi o depoimento de um surdo que participou de uma peça de teatro onde uma jovem surda teria cometido o suicídio. Ele dizia do quanto que a vida das moças surdas é difícil, do quanto as famílias as protegem, não acreditam em suas possibilidades, ficando o suicídio como saída para o desespero.

O documento Reflexões sobre a condição da mulher portadora de deficiência distribuído pelo Conselho Estadual dos Direitos da Mulher do Rio de Janeiro trata, em uma de suas seções, sobre o trabalho. Os depoimentos ali apresentados falam de uma dupla discriminação "pelo próprio fato da pessoa em questão ser mulher e por ser portadora de deficiência" (p.27), como também da necessidade de esforçarem-se no sentido de serem "supermulheres", para tentar superar, inclusive, as chamadas mulheres normais" (p.30).

Na história dos movimentos surdos, encontramos várias mulheres surdas destacando-se na luta pelo reconhecimento da Língua de Sinais, da valorização das pessoas surdas. São mulheres que vêm possibilitando uma visibilidade enquanto sujeitos. Elas estão aí, interferindo nas vidas das pessoas surdas, faltando ainda que se deixem falar, que se possibilitem narrar-se, interferindo nos discursos hegemônicos que tratam das questões do trabalho e da surdez como um espaço masculino.

5. Considerações finais

O tema Educação e Trabalho vem acompanhando as práticas educacionais para os surdos, atravessando os espaços escolares como também os dos movimentos surdos. Os discursos que falam desse sujeito surdo enquanto trabalhador encontram-se emergidos num discurso da deficiência, da falta, a ser reabilitada, compensada.

Eficiência e competência são discursividades que, ao falar do surdo trabalhador, reafirmam discursos hegemônicos de uma abordagem clínico - terapêutica, abordagem essa que vem sendo discutida e criticada pela comunidade surda.

Outros discursos se atravessam. Eis as possibilidades, num campo discursivo que "...se ordena, estrutura e transforma historicamente. Neles, as hegemonias são instáveis, contestadas, provisórias. Junto com os discursos, as representações sociais emergem, reinam, mudam, para logo desaparecer". (Palamidessi, 1996: 211).

Compreendo, como Wrigley (1996, p.20) que a surdez é um problema epistemológico, entendendo epistemologia em seu sentido político, nas suas relações de saber/poder envolvidos nos discursos que falam dos sujeitos surdos. Ao falar principalmente à partir de um registro privilegiado (modelo médico, por exemplo), ocorrem "exclusões de uma forma de conhecimento, de uma modalidade de comunicação e de uma identidade social e humana". Pensar a surdez sob o foco da epistemologia requer um descentramento do sujeito surdo, passando a perguntar sobre as práticas discursivas e não discursivas que constituem esse sujeito e desafiando, assim, "as convenções nas quais essas práticas ocorrem" (Popkewitz, 1995: 207).

Segundo Popkewitz, apud Silva (1994) e Veiga-Neto (1995) os discursos, ordenados de uma certa maneira, moldam o mundo de tal forma que não há sentido fora desse registro. Numa perspectiva pós-estruturalista "todo saber é colocado sob suspeita, todo saber é visto como relação social" (Silva, 1997).

Esse trabalho, que no momento apresento, pretende estar inscrita nessa perspectiva, procurando não enquadrar os movimentos surdos dentro de uma escala de valor entre o certo e o errado. Eles não estão em julgamento. Também não se trata de buscar o discurso verdadeiro sobre a surdez e os surdos. Se há algum mérito nele, espero que seja, simplesmente, a possibilidade de "mexer" com as essencialidades. Os discursos resultantes desse olhar investigativo será apenas mais um entre tantos discursos, porém tentando ver de outros lugares, ensaiando outras possibilidades de se pensar sobre esses sujeitos surdos inseridos no campo do trabalho.

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