Surdez, Educação e Trabalho:
Discursos Constituindo o Surdo Trabalhador
Autora:
Madalena Klein
1.Introdução
Esse trabalho resulta de uma pesquisa, em andamento, e que pretende
se voltar aos discursos sobre a surdez e os surdos, bem como sobre a
educação e o trabalho, e que vem constituindo sujeitos
surdos trabalhadores. A aproximação a esses discursos
não se dá no sentido de procurar encontrar o "realmente
dito" ou mesmo aquilo que possa estar encoberto (Foucault, 1980)
e que, através da pesquisa, viesse à toa, desvelando,
assim, seu sentido verdadeiro. Nem tampouco é intenção
revelar a cientificidade ou não desses discursos. Interessa-me,
sim, "ver historicamente como se produzem efeitos de verdade
no interior dos discursos que não são em si nem verdadeiros
nem falsos" (Foucault, 1990: 7).
Vou trilhar, ou pelo menos tentar faze-lo, por caminhos insinuados na
perspectiva que, de forma instigante, Foucault investigou, e que vem
servindo de referência a tantos outros pesquisadores ligados à
educação, estimulando outras formas de problematizar os
múltiplos temas nessa área. Poderia citar aqui alguns
dos pesquisadores que, se valendo de, se assim se pode chamar, um jeito
foucaultiano de investigar, têm trazido à educação
novas questões que dizem respeito aos sujeitos muitas vezes esquecidos
nas discussões generalizadas desse campo. Assim, ajudam-me a
caminhar nessa perspectiva, Popkewitz (1995), Walkerdine (1995), Fischer
(1995, 1996), Larrosa, (1995), Costa (1996), Costa e Silveira (no prelo),
Veiga-Neto (1996), Palamidessi (1996), entre outros, que, em suas investigações,
trazem à discussão as discursividades e a constituição
dos sujeitos da educação.
Entendo, segundo a perspectiva referenciada, que os discursos sobre
a surdez e os surdos não se apresentam se forma homogênea.
Eles estão inscritos entre diversas formações discursivas,
constituídas à partir de diferentes práticas ligadas
aos campos da medicina, da pedagogia, da lingüística, entre
outros. Esses saberes, articulam-se através de jogos de poder
que devem ser entendidos em sua historicidade, levando em conta as suas
marcas institucionais, como também a posição e
a situação dos sujeitos que falam nesses discursos (Fischer,
1995). Como disse Foucault, em Arqueologia do Saber, as práticas
discursivas se referem a "... um conjunto de regras anônimas,
históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço,
que definiram em uma época dada, e para uma área social,
econômica, geográfica ou lingüística dada,
as condições de exercício da função
enunciativa" (1980: 136).
Será interessante e produtivo, procurar evidenciar as relações
entre os diferentes discursos que se inscrevem enquanto formação
discursiva sobre a surdez, os surdos, a educação e o trabalho,
na tentativa de estabelecer as compatibilidades e incompatibilidades,
e assim, evidenciar as regularidades que se inscrevem entre eles. (Fischer,
1995).
Machado (1982), argumenta que, para Foucault, não interessa se
o discurso tem uma lógica interna. O ponto de unidade do discurso,
se assim se pode falar, é a dispersão: a regularidade
é a dispersão. Para Foucault, a análise do discurso
vai em busca de regularidades que estão dentro de uma "nuvem
de enunciados". Assim, os discursos não se organizam como
tratados, mas sim em fragmentos, aforismos, máximas, ensaios
(Veiga-Neto, 1996). Como disse o filósofo francês, "os
discursos devem ser tratados como práticas descontínuas,
que se cruzam por vezes, mas também se ignoram ou se excluem"
(Foucault, 1996: 52).
Interessante, nessa perspectiva, é a idéia de campos discursivos,
constituídos a partir de diferentes formações discursivas,
e por onde as subjetividades vão sendo formadas. Como bem explicita
Popkewitz:
A importância da idéia de campo discursivo (o que Foucault
chama de "região") está no fato de que ela nos
permite focalizar a forma como os discursos historicamente construídos
em locais fisicamente diferentes juntam-se para formar uma plataforma
a partir do qual a individualidade é definida. A individualidade
parece transcender eventos e ancoragens geográficas sociais particulares.
( Popkewitz, 1995: 203)
Campos discursivos não dizem respeito a um contexto onde os discursos
se efetivam, ou seja, não dizem respeito ao espaço físico
onde eles se produzem. Referem-se, sim, aos discursos que determinam
regras, que instituem padrões institucionais, que classificam,
à partir de um espaço epistemológico particular,
onde são formadas subjetividades e onde há desdobramento
de poder.
Pensando em diferentes discursos envolvidos nos campos discursivos,
onde sujeitos surdos trabalhadores são formados, pretendo apresentar
alguns daqueles que considero estarem em jogo na construção
desse campo que se refere à surdez, à educação
e ao trabalho. Refiro-me aos discursos sobre a integração
dos sujeitos surdos na sociedade, bem como aos discursos sobre a deficiência,
enquanto condição a ser superada. Esses, entre tantos
outros, são discursos que vem interferindo de forma decisiva
nas práticas institucionais ligadas a educação
dos surdos e sua formação para o trabalho.
2. A surdez inserida numa lógica da deficiência: as
práticas de reabilitação.
A hegemonia de discursos ligando à surdez a questão médica,
fez predominar uma abordagem clínico - terapêutica dentro
dos projetos educacionais desde o final do século passado, persistindo
até os dias de hoje. A escola, assim, enquanto palco pedagógico,
se apresenta também enquanto proposta clínica de atendimento
as alunas e aos alunos surdos.
Autores como Sanchez (1990), Skliar (1997 a, 1997b.), procurando contextualizar
historicamente a educação de surdos, fazem referência
a esta perspectiva clínica - terapêutica que tem predominado
nas escolas, em detrimento de um projeto pedagógico. Segundo
Skliar
As idéias dominantes nos últimos cem anos são um
claro testemunho de um sentido comum segundo o qual os surdos correspondem,
encaixam-se e adaptam-se com naturalidade a um modelo clínico
- terapêutico, versão amplificada e exagerada da pedagogia
corretiva de princípios do século XX e vigentes até
o momento. (1997b.: 248)
Ainda hoje podemos perceber, nos discursos que circulam pelas escolas
de surdos, o que Sanchez (1990), valendo-se de Foucault, chama de pedagogia
ortopédica, onde, muito mais que educar, se pretende corrigir.
Práticas voltadas a fazer falar, a se adaptar ao uso de um aparelho
auditivo, são exemplos de reabilitação que se estendem
para além do espaço da escola e chega também aos
locais de trabalho, onde surdas e surdos devem se adequar as exigências
do mercado que busca a eficiência e a lucratividade.
Através de um relato histórico da vida dos surdos da Dinamarca,
a socióloga Jonna Widell (1992) apresenta uma fase da história
dos surdos, a que a autora chama de fase do isolamento, onde a escola
distingue-se por ensinar as crianças a fala e a disciplina, consideradas
necessárias para a inserção no mercado de trabalho
Encontramos aí um entendimento da surdez enquanto algo a ser
reabilitado, sendo esse o discurso hegemônico nas escolas do final
do século, e ainda presente, mesmo em décadas mais recentes,
em diferentes escolas para surdos.
Exemplo disso são os Programa de Informação e Orientação
Profissional de escolas de surdos, onde a realização desse
tipo de programa dentro da escola é justificado como "parte
integrante do processo de reabilitação, possibilitando
a sua (do surdo) plena integração à sociedade"
(Strobel e Dias, 1995: 73).
O sentido de reabilitação é bastante encontrado
em diferentes projetos direcionados às questões do Trabalho
nas escolas de surdos. Isso pode ser associado a uma concepção
clínica, já referida anteriormente, e que entende o surdo
enquanto sujeito deficiente, a partir da falta de audição,
e que, segundo Padden e Humphries (1988), acabam por determinar a forma
de interpretar todos os outros aspectos de suas vidas. Interessante
pensar que, se as escolas de surdos atendem a crianças e jovens
que ainda não foram inseridos no mercado de trabalho, é
estranho, e até equivocado falar em reabilitação,
como se fosse necessário reparar algo que já falhou.
3. Associações e clubes de surdos promovendo ações
ligadas ao mundo do trabalho: a presença dos discursos da deficiência
e da integração
A maioria da comunidade surda consistia de trabalhadores especializados,
e era característico do período que o objetivo da associação
surda fosse semelhante ao objetivo das associações de
trabalhadores. (...) Além disso, pretendiam encontrar emprego
para trabalhadores especializados que estivessem desempregados. (Widell,
1992: 21).
A citação acima refere-se ao relato que a socióloga
dinamarquesa faz sobre as fases históricas da cultura surda,
mais especificamente, o surgimento de associações de surdos
no período entre 1866-1893. No texto, são várias
as referências aos objetivos e realizações dessas
associações, sendo que entre ações de lazer,
recreação e assistência, também a preocupação
com o trabalho era privilegiada. A autora, inclusive se refere a primeira
associação de seu país como sendo formada a partir
do encontro de artesãos, motivados por iniciativas semelhantes
ocorridas em outros países.
Os registros encontrados fazem referência a situação
dos surdos da época. Grande parte desses constituíam-se
de mão-de-obra mal escolarizada, ocorrendo exploração
por parte das indústrias. As associações, então,
tinham um papel fundamental no treinamento desses surdos, como também
nas negociações no sentido de conquistas legais de garantia
de educação e trabalho.
A autora segue seu relato, dizendo que nas primeiras décadas
desse século "é graças a socialização
terciaria na associação dos surdos-mudos que a comunidade
surda aprendeu a ascender socialmente no emprego. Era na associação
que as soluções para problemas como afrontas, sindicatos,
operários, etc. eram discutidos" (Widell, 1992: 36).
A preocupação com o trabalho esteve sempre associada com
a possibilidade de independência, de autonomia das pessoas surdas.
Nas últimas décadas, principalmente após o Ano
Internacional dos Deficientes promovido pela ONU, no ano de 1981, a
questão do trabalho foi inserida num discurso de conquista de
cidadania.
As associações de surdos, juntamente com o movimento de
pessoas portadoras de deficiência (cegos, deficientes físicos,
mentais) iniciaram campanhas intensas no sentido de propagar os direitos
dos cidadãos com deficiência: direitos a atendimentos qualificados,
a educação, ao lazer, à profissionalização,
ao emprego.
As ações reivindicatórias por leis que garantam
o acesso ao trabalho são prioridades das associações,
e isso ocorre de forma intensiva em diferentes países. No Brasil
são conquistas desses movimentos a lei de reserva de mercado
(Constituição Federal, art. 37º, inciso VIII) e a
Instrução Normativa N.º 5 de 30/08/91 do Ministério
do Trabalho e da Previdência, que institui o programa de treinamento
profissional junto as empresas. Essa Instrução Normativa
refere-se ao trabalho para pessoas portadoras de deficiência que
oferece atividades com fins terapêuticos, de reabilitação,
e que ocorre sob a tutela de entidades que tenham o objetivo de assistir
o deficiente.
Encontramos nessas leis uma concepção de sujeito a partir
de sua deficiência, e as ações daí efetivadas
partem de uma idéia de reabilitação e de normalização.
Esse é um ponto que considero interessante e importante para
a discussão sobre a educação dos surdos e o trabalho,
uma vez que vamos encontrar um discurso, tanto das escolas quanto das
associações no sentido de demonstrar as competências,
a eficiência das pessoas surdas, discurso esse inserido numa lógica
neo-liberal que, utilizados por esses grupos, reinscrevem-se na lógica
da deficiência.
Padden (1993) em entrevista para uma revista, fala sobre as reações
das pessoas surdas ao termo descapacitado ou deficiente. Segundo ela,
esse termo tem uma finalidade política nos Estados Unidos, significando
dinheiro de fundos para apoiar as pessoas surdas, para que tenham acesso
a telefone, canais de TV. Assim, o termo passa a ter uma conotação
útil e desejada. Porém, quando o caso é referir-se
a Língua de Sinais e a cultura das pessoas surdas, há
uma compreensão equivocada no uso desse termo.
Também encontramos elementos para essa discussão em Wrigley
(1996), onde o autor comenta sobre as incertezas entre os líderes
surdos sobre as estratégias no uso de termos que os identificam
com incapacitados. A tensão entre esses diferentes termos é
uma constante nos pronunciamentos encontrados em documentos, reportagens,
material de divulgação veiculado pelas associações
de surdos em nosso país. É muito comum o uso do termo
deficiente com a letra d riscada, evidenciando uma tentativa
de mudança de concepção. Mesmo fazendo referência
a uma negativa ao enunciado da deficiência, esses discursos falam
desde uma visão binária, onde um elemento tem sua comprovação
a partir da existência/convivência com outro termo opositor
que definiria a norma. Skliar (1997b: 263), propõe o abandono
das grandes narrativas e dos contrastes binários na Educação
de Surdos:
A questão das oposições binárias na educação
dos surdos - normalidade/anormalidade, surdo/ouvinte, maioria (ouvinte)/minoria
(surda), oralidade/gestualidade, etc. - aparece entretanto hoje como
um dos fatores de risco mais nocivos na análise da realidade
educacional relativa aos surdos e cujo enraizamento ideológico
parece tão inevitável como insuperável.
Poderíamos incluir, ainda, a oposição eficiente/deficiente
que, nas relações de trabalho, apresentam-se enquanto
discursividade predominante. Ao procurar riscar a letra d, acaba-se
por restituir, ou mesmo reinscrever, o discurso hegemônico da
deficiência. Dentro dessa argumentação, Davis, apud
Silva (1997), como também Wrigley (1996) fazem referência
a uma distinção comum na língua inglesa aos termos
surdo (fato físico da surdez) e Surdo (surdos enquanto grupo
cultural e comunidade lingüística). Davis, apud Silva (1997:
9) embora reconhecendo essa distinção como estratégia
política, ressalta que "paradoxalmente, ao admitir que,
afinal, existe um núcleo físico que pode ser separado
de sua definição social e cultura, essa operação
acaba por restituir aos discursos dominantes sobre a surdez parte de
sua eficácia retórica". A eficácia desses
discursos dominantes está na normalização, no controle,
no que Skliar (1997b: 259 ) denomina de "ouvintismo"
dos surdos a partir das práticas pedagógicas.
Quero argumentar aqui, que não existe de um lado os discursos
dos ouvintes, poderosos, contrapondo-se aos discursos dos surdos.
Tanto nas escolas quanto nos movimentos surdos, percebemos falas e práticas
relacionadas a uma deficiência a ser superada, sendo que um dos
momentos privilegiados para isso é o ambiente de trabalho.
Num cartaz distribuído pela FENEIS (s.n.t.), há uma chamada
com esses termos: "Procura-se empresários que exijam
dedicação e eficiência". Entre desenhos
de surdos desempenhando funções de digitadores e de operadores
de máquina de xerox, lemos o seguinte texto:
O trabalho é o principal meio de integração do
homem na sociedade. É através deste que o indivíduo
comprova sua capacidade igualitária de produção.
Com os convênios firmados pela Federação Nacional
de Educação e Integração dos Surdos - FENEIS,
o surdo vem conquistando um espaço maior e demonstrando seu potencial
em várias áreas, aumentando assim o interesse das grandes
empresas. LUCRE INVESTINDO CERTO NO SEU PESSOAL.
As práticas das escolas e dos movimentos surdos, no sentido de
encaminhamentos ao trabalho, muitas vezes se aproximam a uma tutela.
Uma instituição, um grupo, toma para si o encargo de "lutar
por" condições de reconhecimento da competência
dos surdos, dizendo o que ele é. Em uma reportagem sob o título
Surdos X Mercado de Trabalho está dito que "esse trabalho
realizado pela Feneis faz com que muitas empresas passem a ver o surdo
como uma pessoa capaz de trabalhar, produzir, enfim, ser útil
à sociedade". (Braga, 1992: 4).
Muitas associações de surdos somam esforços com
entidades representativas de pessoas portadoras de deficiência
tais como cegos, paraplégicos, entre outros. Realizam ações
conjuntas junto aos governos e aos empresários, procurando garantias
de seus direitos. Dentro do registro das deficiências eficientes
encontramos uma carta aberta aos empresários de Campo Grande
- MS, divulgada pela Secretaria de Educação daquele estado
em conjunto com um centro de atendimento aos surdos, cuja diretora é
uma professora surda.
É normal que você empresário sinta algumas dúvidas
em dar emprego a uma pessoa portadora de deficiência. Talvez nunca
tenha pensado nisso.
Mas isso pode ser uma vantagem. Porque ele possui a motivação,
dedicação e força de vontade necessárias
para aprender uma profissão.
Acreditar nas capacidades profissionais de uma pessoa portadora de deficiência
é dar-lhe a oportunidade de as poder comprovar.
A Secretaria de Educação desenvolve um projeto de integração
do portador de deficiência no Mercado de trabalho, o qual visa
o treinamento dentro da Empresa, nas atividades compatíveis às
suas habilidades e interesses.
Para a realização deste projeto é firmado um Convênio
entre Secretaria de estado de Educação e o empresário,
onde compete à Secretaria de Estado de Educação/CEADA,
o encaminhamento, supervisão e fornecimento dos meios necessários
à aprendizagem e realização do trabalho.(MATO GROSSO,198?:
.1).
Percebemos nesse documento um discurso que, procurando convencer os
empresários das competências da pessoas portadoras de deficiência,
acaba reafirmando, ou reinscrevendo esses sujeitos numa lógica
da deficiência. Para que haja uma integração, torna-se
necessária a intervenção, se não uma tutela,
por parte das suas associações, no sentido de transformar
essa deficiência em competência, requisito desejável
para a integração no mundo do trabalho.
Walkerdine (1995), explicitando o pensamento de Foucault acerca da regulação
dos sujeitos, refere-se a abordagem científica em relação
ao raciocínio das crianças, onde ela fala sobre as estratégias
de governo no sentido de transformação dos desvios em
características desejáveis.
Isto é parte central da moderna estratégia de governo
na qual um cidadão governável, obediente e cumpridor das
leis deve ser produzido por técnicas que não são
necessariamente técnicas de supressão direta, mas que
transformam as características desejáveis em normais e
naturais. Todos os desvios destas normas aparecem, pois, como patologias
medicalizáveis a serem corrigidas. (Walkerdine, 1995: 210).
Os empresários não precisam se preocupar com o desvio,
com a deficiência, uma vez que o programa faz o "acompanhamento,
a supervisão e o fornecimento dos meios necessários à
aprendizagem e a realização do trabalho"(MATO
GROSSO, 198?: 1) O programa incorpora-se às "tecnologias"
no sentido da regulação e da produção de
uma "verdade" sobre um surdo adequado às exigências
do mercado de trabalho.
4. A mulher surda trabalhadora: uma presença "ausente"
Na pesquisa aos documentos, artigos, cartazes que falam do surdo trabalhador,
fica evidenciada a ausência de uma personagem: a mulher surda.
A predominância nesses discursos dizem de um homem - o trabalhador,
ficando em segundo plano, ou mesmo esquecidas es especificidades dessa
mulher surda que ascende ao mundo do trabalho.
Skliar (1997 a), ao analisar a educação de surdos, refere-se
a existência de um currículo angustiante, onde quem
está presente é um homem ouvinte, branco, profissional.
Ao ser referida a categoria surdo, tem-se a impressão de que
essa expressão é suficiente, não havendo lugar
a outras diferenças.
Vem ocorrendo mudanças lentas nesse sentido. Exemplo disso são
alguns dos trabalhos apresentados por ocasião do XII Congresso
Mundial da Federação Mundial dos Surdos, em Viena, no
ano de 1995, que falavam das condições de surdos negros,
surdas mulheres africanas, surdas lésbicas, surdos gays, entre
outros.
Tornar visível aquela que fora ocultada foi o grande objetivo
das estudiosas feministas desses primeiros tempos. A segregação
social e política a que as mulheres foram historicamente conduzidas
tivera como conseqüência a sua ampla invisibilidade como
sujeito - inclusive como sujeito da Ciência. (Louro, 1997, p.17)
Trazer à visibilidade essas mulheres ainda é uma condição
tímida nos discursos que falam sobre surdez e trabalho. Um exemplo
está numa pesquisa apresentada no Congresso anteriormente referido.
Essa pesquisa fala sobre o treinamento de arquitetos profissionais ao
nível universitário na cidade de Tsukuba, Japão,
onde, dos 34 profissionais pesquisados, 7 são mulheres, ou seja,
representam uma minoria, que aparecem apenas enquanto número
estatístico, sem que haja qualquer referência sobre suas
condições de mulheres surdas trabalhadoras.
A capa de uma das publicações da FENEIS traz o desenho
de quatro situações de trabalho onde surdos estão
envolvidos: uma gráfica, uma padaria industrial, uma cartonagem
e uma sala de digitação. Apenas nesse último quadro
está retratada a figura feminina, passando uma idéia de
que algumas atividades são para as mulheres, e outras para os
homens.
O estigma de ser mulher deficiente está presente tanto nas respostas
de mulheres às pesquisas, quanto na fala de homens surdos que
muitas vezes consideram a situação da mulher surda quase
que beirando a tragédia. Certa vez ouvi o depoimento de um surdo
que participou de uma peça de teatro onde uma jovem surda teria
cometido o suicídio. Ele dizia do quanto que a vida das moças
surdas é difícil, do quanto as famílias as protegem,
não acreditam em suas possibilidades, ficando o suicídio
como saída para o desespero.
O documento Reflexões sobre a condição da mulher
portadora de deficiência distribuído pelo Conselho
Estadual dos Direitos da Mulher do Rio de Janeiro trata, em uma de suas
seções, sobre o trabalho. Os depoimentos ali apresentados
falam de uma dupla discriminação "pelo próprio
fato da pessoa em questão ser mulher e por ser portadora de deficiência"
(p.27), como também da necessidade de esforçarem-se
no sentido de serem "supermulheres", para tentar superar,
inclusive, as chamadas mulheres normais" (p.30).
Na história dos movimentos surdos, encontramos várias
mulheres surdas destacando-se na luta pelo reconhecimento da Língua
de Sinais, da valorização das pessoas surdas. São
mulheres que vêm possibilitando uma visibilidade enquanto sujeitos.
Elas estão aí, interferindo nas vidas das pessoas surdas,
faltando ainda que se deixem falar, que se possibilitem narrar-se, interferindo
nos discursos hegemônicos que tratam das questões do trabalho
e da surdez como um espaço masculino.
5. Considerações finais
O tema Educação e Trabalho vem acompanhando as práticas
educacionais para os surdos, atravessando os espaços escolares
como também os dos movimentos surdos. Os discursos que falam
desse sujeito surdo enquanto trabalhador encontram-se emergidos num
discurso da deficiência, da falta, a ser reabilitada, compensada.
Eficiência e competência são discursividades que,
ao falar do surdo trabalhador, reafirmam discursos hegemônicos
de uma abordagem clínico - terapêutica, abordagem essa
que vem sendo discutida e criticada pela comunidade surda.
Outros discursos se atravessam. Eis as possibilidades, num campo discursivo
que "...se ordena, estrutura e transforma historicamente. Neles,
as hegemonias são instáveis, contestadas, provisórias.
Junto com os discursos, as representações sociais emergem,
reinam, mudam, para logo desaparecer". (Palamidessi, 1996:
211).
Compreendo, como Wrigley (1996, p.20) que a surdez é um problema
epistemológico, entendendo epistemologia em seu sentido político,
nas suas relações de saber/poder envolvidos nos discursos
que falam dos sujeitos surdos. Ao falar principalmente à partir
de um registro privilegiado (modelo médico, por exemplo), ocorrem
"exclusões de uma forma de conhecimento, de uma modalidade
de comunicação e de uma identidade social e humana".
Pensar a surdez sob o foco da epistemologia requer um descentramento
do sujeito surdo, passando a perguntar sobre as práticas discursivas
e não discursivas que constituem esse sujeito e desafiando, assim,
"as convenções nas quais essas práticas
ocorrem" (Popkewitz, 1995: 207).
Segundo Popkewitz, apud Silva (1994) e Veiga-Neto (1995) os discursos,
ordenados de uma certa maneira, moldam o mundo de tal forma que não
há sentido fora desse registro. Numa perspectiva pós-estruturalista
"todo saber é colocado sob suspeita, todo saber é
visto como relação social" (Silva, 1997).
Esse trabalho, que no momento apresento, pretende estar inscrita nessa
perspectiva, procurando não enquadrar os movimentos surdos dentro
de uma escala de valor entre o certo e o errado. Eles não estão
em julgamento. Também não se trata de buscar o discurso
verdadeiro sobre a surdez e os surdos. Se há algum mérito
nele, espero que seja, simplesmente, a possibilidade de "mexer"
com as essencialidades. Os discursos resultantes desse olhar investigativo
será apenas mais um entre tantos discursos, porém tentando
ver de outros lugares, ensaiando outras possibilidades de se pensar
sobre esses sujeitos surdos inseridos no campo do trabalho.
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