Língua Padrão

Autora: Stella Atiliane Almeida de Sá


Introdução

As línguas são um conjunto variado de formas lingüísticas, cada uma tendo sua gramática, sua organização estrutural. Cientificamente, nenhuma forma lingüística é melhor que outra, exceto se não a virmos como ciência, mas sim, tendo como critério o preconceito ou o gosto pessoal.

Porém, é certo que há uma diferenciação valorativa proveniente não da diferença de formas, mas do significado social que adquirem na sociedade. Costumamos medir nossas palavras? Porque o ouvinte julga além do que se diz, também quem diz, identificando assim, a classe social, a região, o ponto de vista, a escolaridade, a intenção..., ou seja, a linguagem é também um índice de poder.

Assim, este artigo procura mostrar como a língua padrão é privilegiada, ou seja, socialmente aceitável, de falar ou escrever.

Língua padrão: um "peixe ensaboado"?

A língua padrão na sua origem é a língua do poder político, econômico e social. Suas formas são asseguradas pelo processo social coercitivo agindo em várias direções. Uma delas é a própria escola que funciona para transmitir e conservar a língua "certa". Outra força é a dos próprios usuários da língua que lutam para alcançar a língua padrão porque sabem que não usá-las em certos contextos implica censura, discriminação e bloqueio à ascensão social.

Entretanto, se todos concordam com a existência e com as vantagens da língua padrão, pouca gente - se é que existe - é capaz de descrevê-la rigorosamente. Portanto a " língua padrão" é um peixe ensaboado!

Para que não haja “desespero", existem alguns aspectos que devem ser observados quando se fala em língua padrão:

a- A língua padrão não é uniforme, ela admite variações. Algumas delas são:

Variação geográfica - De uma região para outra, o padrão aceita diferenças de pronúncia, de vocabulário e de sintaxe. Porém, não são todas as variações que são aceitas. O grau de aceitação depende da importância social e econômica da região de origem.

Níveis de formalidade - O mesmo usuário da língua empregará formas lingüísticas diferentes de acordo com as situações vivenciadas.

Diferenças estilísticas - Cada usuário da língua tem um estilo próprio.

Língua oral e língua escrita - O padrão oral é mais flexível que o padrão escrito.

b- A língua padrão muda no tempo. Existem algumas conseqüências dessas mudanças:

Imprecisão de suas características - Quando há uma tendência forte na linguagem oral em "fugir" da língua padrão e, conseqüentemente, passa também a fazer parte da linguagem escrita.

"Convivência" entre formas arcaicas e contemporâneas - As "novidades" lentamente vão se popularizando e disseminando até o momento em que ninguém consegue perceber a nova forma como erro.

Língua Padrão: há um referencial?

Tradicionalmente, a referência era a dos bons escritores do passado. Mas, no mundo contemporâneo é levado em consideração os meios de comunicação social.

Diante disto, é importante que aquele que pretende dominar a língua não se limite a decorar regras, e sim, torne-se parte ativa e integrante da língua que fala e escreve.

O primeiro passo que deve ser dado nesse sentido é diversificar as fontes de referência da língua padrão. Não podemos nos limitar a uma só gramática tradicional e devemos vê-las cautelosamente, uma vez que trabalham normalmente com exemplos literários de autores antigos, são conservadoras, quando não intolerantes, diante dos sinais de mudança da língua.

Outra fonte importante de referência são os meios de comunicação de massa que têm produzido seus próprios manuais de redação procurando padronizar a linguagem do veículo, estabelecendo um padrão próprio. Mas também devemos ter cautela, já que em muitos aspectos esses manuais reproduzem (mal) normas das gramáticas tradicionais a que eles mesmos desobedecem...

Concluindo...

Este artigo procurou lembrar que o domínio da língua padrão não representa o domínio de regras. Ele é apenas o ponto de partida do que é efetivamente importante: o texto.

Além do mais, há também os textos literários que servem de referência para a língua padrão, embora já não tenha a hegemonia que tiveram em séculos passados. Nesse sentido, a sua leitura é fundamental no universo de quem pretende dominar a língua padrão. Porém, do ponto de vista técnico, precisamos observar dois aspectos. O primeiro é que a linguagem literária é um gênero específico da língua, e não um instrumento que sirva para qualquer finalidade. O segundo aspecto é que não há relação direta entre literatura e língua padrão. Afinal, quem escreve bem, escreve bons textos, e não boas frases.


BIBLIOGRAFIA

FARACO, Carlos Alberto - Prática de Texto. Petrópolis: Vozes, 1992.

Stella Atiliane Almeida de Sá - Profª de Didática e Prática de Ensino na Autarquia de Ensino Superior de Arcoverde, especialista em Língua Portuguesa e Psicopedagogia.