A Utilização da Escala de Fugl- Meyer no Estudo do Desempenho Funcional de Membro Superior no Tratamento em Grupo de Indivíduos Hemiparéticos pós AVE

Autores: Carlos Henrique Senkiio, Esperança Dias de Souza, Marcos Roberto Negreti, Cleber Alexandre de Oliveira, Nazareti Pereira Ferreira Alves, Selma Ramos da Silva e Souza .

Resumo

O objetivo deste estudo foi utilizar um instrumento de avaliação e verificar o grau de confiabilidade do mesmo enquanto aplicado em indivíduos com seqüelas de acidente vascular encefálico (AVE). A Avaliação de Fugl-Meyer, validada desde 1975, é amplamente aplicada em experimentos internacionais direcionados à indivíduos portadores de hemiparesia com predomínio braquial. Os testes oferecem condições de pontuar atividades funcionais que necessitam da participação dos membros superiores e que são consideradas subjetivas. Um grupo composto por dez indivíduos portadores de hemiparesia foi submetido inicialmente a avaliação de Fugl-Meyer, receberam tratamento fisioterapêutico e novamente foram reavaliados. Os resultados mostram que a avaliação de Fugl-Meyer permitiu quantificar o desempenho motor do indivíduos com seqüela de AVE sem que a análise qualitativa fosse desconsiderada.

Introdução

O Acidente Vascular Encefálico (AVE) é a doença vascular que mais acomete o sistema nervoso central, bem como, a principal causa de incapacidades físicas e cognitivas. Suas causas estão relacionadas com a interrupção do fluxo sangüíneo para o encéfalo, originado tanto por obstrução de uma artéria que o supre caracterizando o AVE isquêmico, quanto por ruptura de um vaso caracterizando o AVE hemorrágico [2].

As seqüelas estarão relacionadas diretamente com a localização, tamanho da área encefálica atingida e o tempo que o paciente esperou para ser socorrido. A alteração mais comum é a hemiparesia, correspondendo a deficiência motora

caracterizada por fraqueza no hemicorpo contralateral a lesão, também podendo ser acompanhada por alterações sensitivas, mentais, perceptivas e da linguagem [1,3,5,6].

O membro superior parético do indivíduo com seqüela de AVE limita suas atividades motoras, desde a mais simples como levar um copo até a boca, até a mais complexa como abotoar uma camisa. Essas restrições são consequências dos prejuízos relacionados a alteração do tônus, força muscular, amplitude do movimento e habilidades motoras específicas para o membro referido [3,4,7].

Para que o processo de reabilitação ocorra de forma adequada há necessidade de estabelecer critérios de avaliação, tratamento e reavaliação. Os parâmetros utilizados na avaliação devem reproduzir fielmente o método eleito para que a qualquer momento que se faça necessário a repetição de sua aplicação, o avaliador possa contar com o menor índice de variabilidade possível.

Materiais e Métodos

A amostra foi composta por dez indivíduos hemiparéticos com predomínio braquial, sendo 6 mulheres e 4 homens com média de idade de 49,50.

Os indivíduos com comprometimento cognitivo, distúrbios de linguagem, componente espástico severo e cadeirantes foram exclusos do experimento.

O instrumento de avaliação utilizado foi a Escala de Fugl-Meyer traduzida e adaptada, que tem por objetivo quantificar o desempenho funcional de membros superior e inferior de portadores de hemiparesia, sendo que nesta pesquisa foi abordado apenas a avaliação de membro superior.

Os indivíduos foram submetidos a avaliação na Clínica-Escola da Universidade Camilo Castelo Branco-São Paulo, respeitando os mesmos parâmetros para todos os participantes, como local utilizado para a avaliação, duração, orientação prévia quanto ao posicionamento dos testes e execução das atividades solicitadas e sequenciamento dos itens avaliados sendo atividade reflexa, atividade voluntária, atividade voluntária associada ao sinergismo, atividade voluntária associada a pouco sinergismo, atividade reflexa normal, estabilidade de punho, movimentação da mão e coordenação. Todos esses itens receberam pontuação segundo score estabelecido pelo método.

Após ser realizada a avaliação, os voluntários foram submetidos a tratamento fisioterapêutico que consistiu em dez sessões de cinesioterapia adaptada às atividades funcionais para membro superior relacionada com as atividades de vida diária. A avaliação de Fugl-Meyer foi aplicada novamente ao término do cumprimento das dez sessões de fisioterapia.

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da instituição envolvida e todos os pacientes assinaram o termo de consentimento informado.

Resultados e Discussão

Baseado nos dados coletados acerca do grupo, observou-se que em todos os itens avaliados houve evolução relacionada ao desempenho motor do membro superior acometido, com exceção dos itens atividade voluntária que se refere a flexão pura de ombro de 90º à 180º e abdução pura de ombro até 90º .

Verificou-se que durante a execução dos itens mencionados os voluntários referiram dificuldades relacionada-às a dor localizada no ombro acometido.

Ao progredir com a carga de exercícios durante o tratamento fisioterapêutico do paciente com seqüela de AVE, é possível que ocorra complicações no ombro como tendinite ou bursite [4,8,9].

Embora tenha ocorrido a diminuição de duas funções relacionadas a atividade voluntária, outros aspectos importantes verificados na avaliação apresentaram evolução como estabilidade de punho, preensão e coordenação motora que são primordiais para beneficiar a execução de atividades cotidianas.

O progresso pôde ser notado em simples atividades como a sustentação de um copo, uma escova de dentes ou de outros objetos. Em relação a melhora do desempenho de diversos tipos de preensão palmar pode-se afirmar que esta atividade contribui para a facilitação de funções como segurar objetos pequenos como caneta ou então uma folha de papel.

Averiguou-se a melhora da coordenação motora dos pacientes submetidos ao tratamento que foram favorecidos quanto a execução de ações como escrever, colocar uma chave na fechadura ou então controlar a direção do segmento para a realização dessas atividades.

O fato dos pacientes realizarem atividades seletivas utilizando o membro superior acometido, beneficiou outras atividades relevantes como as funcionais. Para o paciente neurológico, recuperar a integridade do membro superior é um fator decisivo durante o período de reabilitação, pois da mesma forma que a marcha a funcionalidade dos membros superiores confere ao indivíduo o caráter de independência.

Conclusão

A avaliação de Fugl-Meyer permitiu quantificar o desempenho motor do indivíduos com seqüela de AVE sem que a análise qualitativa fosse desconsiderada.

A utilização de um instrumento de avaliação para uma criteriosa coleta de dados quantitativa, se bem interpretada afim de que uma melhor conduta de tratamento seja estipulada, vem a favorecer a evolução funcional do paciente neurológico e o fisioterapeuta passa a contar com um confiável recurso de avaliação.

Agradecimentos

Aos Prof. Ms. Sandro Rogério dos Santos, Prof. Ms. Adriano Ribeiro de Freitas pela concessão do espaço e incentivo à produção científica .

Aos voluntários pela paciência e dedicação quando solicitados.

Referências

1. O’Sullivan S, Schmitz T.Fisioterapia: Avaliação e Tratamento. São Paulo:

Manole;1993.

2. Souza SRS, Oliveira CA, Mizuta NA, Santos MH, Moreira AP. Reabilitação Funcional para Membros Superiores pós Acidente Vascular Encefálico. Rev Fisioterapia Brasil 2003;4(3):195-199.

3. Bobath B. Hemiplegia no Adulto: Avaliação e Tratamento. São Paulo:Manole;1980.

4. Freitas ED. Manual prático de reeducação motora de membro superior na hemiplegia: fundamentado no método Brunnstrom. São Paulo: Memnon;2000.

5. Ekman LL. Neurociência Fundamentos para a Reabilitação. Rio de Janeiro:Guanabara Koogan;2000.

6. Rowland LP. Merritt Tratado de Neurologia. Rio de Janeiro:Guanabara Koogan,2002.

7. Page SJ, Sisto S, Levine P, Johnston MV. Modified constraint induced therapy: A randomized feasibility and efficacy study. Journal of Rehabilitation an Development 2001;38(5):583-590.

8. Horn AI, Fontes SV, Carvaho SMR, Silvado RAB, Barbosa PMK, Durigan Jr. A, Attalah AN, Fukujima MM, Prado GF. Cinesioterapia Previne Ombro Doloroso em Pacientes Hemiplégicos/Paréticos na Fase Sub-Aguda do Acidente Vascular Encefálico. Arq Neuropsiquiatr 2003; 61(3-B):768-771.

9. Martínez JFM. Síndrome Doloroso Regional Camplejo Tipo I. Rev Medunab 2001; 4(10):1-7.

10. Davies PM. Passos a Seguir Um Manual para o Tratamento da Hemiplegia no Adulto. São Paulo:Editora Manole; 1993.

11. Fugl-Meyer,AR, Jääskö L, Leyman I, Olsson S, Steglind. The Post-Stroke Hemiplegic Patient: A Method for Evaluation of Physical Performance. Scand J Rehab Med 7: 13-31, 1975.

Carlos Henrique Senkiio*, Esperança Dias de Souza*, Marcos Roberto Negreti*, Cleber Alexandre de Oliveira**, Nazareti Pereira Ferreira Alves***, Selma Ramos da Silva e Souza***
*Fisioterapeuta, **Fisioterapeuta, Mestrando em Engenharia Biomédica, Supervisor de Estágio em Hidroterapia e em Fisioterapia Pediátrica da Universidade Camilo Castelo Branco – SP, ***Nazareti Pereira Ferreira Alves, Fisioterapeuta, Mestre em Educação, Supervisora de Estágio de Fisioterapia Aplicada às Disfunções Motoras Hospitalares da Universidade Camilo Castelo Branco – SP, Professora da Faculdade do Clube Náutico Mogiano-SP, ***Selma Ramos da Silva e Souza, Fisioterapeuta, Mestre em Engenharia Biomédica, Supervisora de Estágio em Neurologia do Adulto na Universidade Camilo Castelo Branco