Reflexões sobre os Aspectos do Desenvolvimento Social e Psicológico na Terceira Infância

Autoras: Bruna E. Maeoka e Simone Zattar

RESUMO

As relações sociais permeiam a vida humana. O artigo discute o tema terceira infância, procurando identificar os aspectos referentes ao desenvolvimento psicossocial nesta fase, relacionados a família, amigos e ao autoconceito, mais especificamente sobre o salto de qualidade nas construções sociais da criança, o qual mostra-se como relevante na formação de sua identidade. Nosso olhar volta-se a esta fase considerando que durante a mesma a criança aprende a conhecer a si e ao outro estabelecendo padrões de comportamento duradouros.

INTRODUÇÃO

A fase da terceira infância usualmente tem seu período cronológico compreendido dos 6 até por volta dos 12 anos. Podem-se observar duas marcas, por assim dizer, quanto ao seu início e término. Por volta dos 6/7 anos a criança inicia sua vida escolar e aos 11/12 anos, visualiza-se a ‘passagem’ para a pré-adolescência.

Nesta fase os interesses mentais se socializam denotando uma diminuição no egocentrismo (característico da fase anterior), amplia-se o desenvolvimento da memória e a utilização da linguagem especialmente no tocante ao simbólico.

Pode ser observada neste período a relevância de aspectos sociais – os amigos assumem uma maior importância, que acontece também o desenvolvimento da auto-imagem e a relação com a auto-estima.

Na terceira infância, ocorre o desenvolvimento do autoconceito e acontecem diversas transformações nas relações da criança com o outro. As mudanças deste período dos 6 aos 12 anos deixam marcas importantes para o resto da vida da pessoa, principalmente no campo dos relacionamentos.

Família:

Neste período a criança ainda tem nos pais uma grande base de apoio e influência, apesar da importância dos companheiros aumentarem consideravelmente. Como a família ainda é a parte mais importante do mundo na criança em idade escolar, torna-se importante o estudo do ambiente familiar. Conforme elaboração feita por Papalia & Olds (2000), o ambiente familiar divide-se em estrutura familiar (a estruturação da família a partir de seus componentes) e atmosfera econômica, social e psicológica.

As famílias atualmente podem configurar-se de várias maneiras. Com o aumento do número de divórcios, podemos perceber composições familiares diferenciadas do formato ‘tradicional’ de família (pai, mãe e filhos), entre elas as famílias com apenas um os pais, crianças que vivem em meio ao segundo casamento dos pais, crianças com pais homossexuais, entre outros. Algumas pesquisas afirmam que filhos de famílias intactas tendem a se sair melhor do que os filhos que vivem outras configurações familiares de acordo com o contexto em que essas são realizadas.

Não se pode desconsiderar os traumas e dificuldades que sofre uma criança com pais divorciados ou cujo pai ou mãe faleceu, porém, o segredo do desenvolvimento saudável não está na estrutura, e sim na atmosfera que a família proporciona à criança. Considera-se que independente do contexto, os pais, mesmo em situações de estrutura familiar não tradicional, necessitam criar um ambiente com figuras de autoridade e apoio para a criança, além de evitar ao máximo que problemas de relacionamento conjugal afetem seus filhos.

O relacionamento com irmãos durante a terceira infância é marcado por muitos desentendimentos, o que torna este tipo de relacionamento “um laboratório para resolver conflitos” (Papalia & Olds, 2000). Os irmãos mais velhos geralmente começam a ter funções de responsabilidade, como cuidar dos irmãos mais novos ou ajudar em tarefas domésticas. Esse tipo de responsabilidade é mais visível em sociedades não industrializadas.

Quanto à influência da cultura em geral no desenvolvimento psicossocial na terceira infância, o que realmente determina um desenvolvimento saudável parece ser a capacidade da família em criar um ambiente de apoio à criança, na qual a mesma consiga desenvolver suas habilidades intelectuais e sociais. Para tanto, é necessário nos dias atuais uma atenção especial também à qualidade dos programas de TV e sobre os games.

Amigos:

A importância dos amigos aumenta consideravelmente em relação à idade pré-escolar, fato este considerado como a maior mudança nas relações durante a meninice intermediária.

Constitui-se nesta fase uma maior centralização do grupo de companheiros e esta nova constituição significa também um fator de superação do egocentrismo apresentado pela criança até por volta dos 6 anos (Piaget, 1973). Para transpor esta fase egocêntrica é necessário que o sujeito apresente maturidade cognitiva, no sentido de reversibilidade, ou seja, descentralizar, tentar compreender a perspectiva, o pensamento do outro desvinculado de seu próprio pensar, de sua lógica pessoal.

Piaget (1973) ressalta ainda que existem graus de socialização – e não uma criança social ou não, para a ele a socialização se dá de acordo com a fase de desenvolvimento na qual sejam possíveis as trocas intelectuais, a socialização do pensamento.

A reciprocidade de perspectivas, citada anteriormente, é melhor compreendida ao se observar as relações com os amigos. Além de companheiro de brincadeiras, o amigo torna-se para a criança na infância intermediária, alguém especial, com quem pode partilhar segredos e revelar seus sentimentos e críticas. As amizades tornam-se mais estáveis e duradouras neste período.

A segregação de gênero é notável. As amizades entre meninas geralmente são mais íntimas e intensas; os meninos possuem maior quantidade de amigos, mas as relações entre eles são menos afetuosas. Esse tipo de padrão de amizade desenvolvido na terceira infância reflete no comportamento em relação a amigos para o resto a vida. É fácil perceber tanto na adolescência quanto na vida adulta que a maioria dos homens tem muitos mais amigos, mas não desenvolvem laços estreitos com a maioria. Para as mulheres, o conceito de amizade é um pouco diferente. Elas valorizam poucas amizades, desde que estas sejam intensas e afetuosas.

Os relacionamentos na idade escolar apresentam um salto de qualidade. O que anteriormente era apenas o brincar junto, partilhar brinquedos e objetos, agora exige confiança recíproca entre os pares.

A partir do desenvolvimento cognitivo ocorrido nesta fase, a criança entende o que é reciprocidade de perspectivas, o que possibilita o salto de qualidade já mencionado.

Conceito de self:

Segundo os estudos de Bee (1997) sobre o desenvolvimento do conceito de self, neste período a criança já tem uma percepção mais elaborada e profunda de si mesma, e também dos outros. Utiliza em suas descrições de si mesmo e dos colegas cada vez mais sentimentos e características da personalidade, em detrimento das características físicas.

A partir da elaboração do conceito de self, inicia na criança o desenvolvimento da auto-estima, ou seja, sua avaliação de seu valor como pessoa. Crianças com baixa auto-estima possuem autoconceito negativo, mesmo muito tempo após a infância ter terminado (Papalia & Olds, 2000).

Os estudos sobre como a auto-estima é determinada em crianças mostram-se relevantes à medida que se percebem os efeitos que a baixa auto-estima produz na pessoa, não apenas na infância mas em todo o ciclo vital, como depressão, insegurança, entre outros.

Estudos de Harter (1988), afirmam que a auto-estima de uma criança pode ser medida através do grau de discrepância entre o que pensa ser e o que deseja ser. Quanto menor essa discrepância, maior a auto-estima da pessoa. Outro ponto para avaliar o nível de auto-estima da criança é a quantidade de apoio que essa criança sente que possui. Desta forma quanto maior a rede de apoio, aqui entendida como família e amigos, da criança e quanto menor a distância entre seus objetivos e conquistas, maior será sua auto-estima.

O estudo de fenômenos de popularidade e rejeição na população infantil possui importância real, já que esses tendem a acompanhar o indivíduo até a adolescência, além de ser grande fonte de sofrimento, de transtornos de conduta e depressão. As crianças percebidas como rejeitadas assim o são devido a características físicas (como exemplo: obesidade, baixa estatura) e comportamentais, geralmente ligadas à falta de habilidades sociais (agressividade, não-cooperação, entre outros).

Na maioria das vezes os comportamentos da criança que levam a rejeição são adquiridos em casa. Segundo dados de pesquisas relatadas por Patterson, Kupersmidt & Griesler,1990 “Crianças impopulares descrevem relacionamentos menos favoráveis com seus pais”.

As conseqüências da baixa popularidade podem ser: tristeza, senso de rejeição e baixa auto-estima, além do que, este tipo de padrão de relacionamento pode se manter para além do período de infância. Dessa forma, Papalia & Olds (2000) propõem intervenções para ajudar crianças impopulares, focalizando no treino em habilidades sociais e no relacionamento entre pais e filhos.

Considerações finais:

Diante do exposto os aspectos relevantes sobre o desenvolvimento psicossocial dos 6 aos 12 anos refere-se às mudanças importantes no campo dos relacionamentos e no conceito de self, e conseqüente desenvolvimento da auto-estima.

Estas reflexões nos apontam também para a necessidade em uma maior atenção aos comportamentos expressos nesta fase em especial no âmbito escolar, pois o mesmo passa a ser o cenário do desenvolvimento da criança, que encontra neste, um espaço propicio para o desenvolvimento de sua autonomia e construção de sua identidade.

O âmbito familiar ainda é de dependência, mas na escola e com os amigos a criança passa a conhecer outros limites, seus e dos outros, e constrói suas redes sociais.

Podemos dizer que o padrão de relacionamento desenvolvido neste período geralmente é levado para além da infância, constituindo a forma como a pessoa vai se relacionar com seus pares e familiares em todo o resto do ciclo vital.

Neste sentido é importante perceber a forma como esse padrão se constrói e prestar atenção se isso acontece de forma dolorosa para a criança, como ocorre nos casos de impopularidade por exemplo. Quanto mais cedo se perceber a necessidade de intervenção, melhor será o desenvolvimento psicossocial desse indivíduo.

REFERÊNCIAS:

Bee, H. (1997). O ciclo vital. Porto Alegre: Artes Médicas Sul.
Harter, S. (1988). Self-esteem and self-concept. In T. D. Yawkey & J.E. Johnson
(Eds), Integrative processes and socialization: Early to middle childhood. Hillsdale,
N. J.: Lawrence Eribaum Associates Inc., pp. 45-78.
Papalia, D. E. & Olds, S. W. (2000). Desenvolvimento Humano. 7ª ed. Porto Alegre: Artmed.
Patterson, C. J., Kupersmidt, J. B. & Griesler, P. C. (1990). Children’s perceptions of self and of relationships with others as a function of sociometric status. Child Development, 61, 1335-1349.
Piaget, J. (1973). Estudos sociológicos. Rio de Janeiro: Forense.

Bruna E. Maeoka e Simone Zattar - Bruna Maeoka: Acadêmica do curso de Psicologia da UFPR. e-mail: brumaeoka@gmail.com
Simone Zattar: Psicóloga. Mestre em Educação/PUC-Pr. Professora Substituta no curso de Psicologia da UFPR e Professora Assistente no curso de Pedagogia do Instituto Modelo de Ensino Superior.