Como se Preparar Para o Amor

Autora: Elizabeth Zamerul Ally

O amor é o objetivo máximo do ser humano na vida. Mesmo quando ele luta pela realização de tantos outros sonhos, o homem (no sentido genérico) só se sente feliz e preenchido quando vive a experiência do amor. Mas, muitos pensam que viver o amor é ser amado. Enganam-se estes. Viver o amor é amar, e isto se pode aprender. Infelizmente, nem sempre se aprende em casa e certamente não é automático ou um dom que cai do céu. Parece que alguns já nascem mais prontos e propensos para amar e outros estão mais crus e inexperientes. Percebe-se isto, por exemplo, pela sensibilidade que cada pessoa tem para notar, enxergar e compreender realmente o outro. Alguns parecem ainda tão centrados em si mesmos que não têm interesse e capacidade de se colocar no lugar do outro. Ou pior ainda, há pessoas que não têm noção clara de si próprias e de suas necessidades e seguem uma programação automática do que deve ser bom para alguém ser feliz, entendendo que isto vem realmente de dentro de si mesmas e que é a sua verdade. Isto leva a muita frustração e sofrimento.

Amar é prestar atenção, em si mesmo, no outro, nos fatos da vida e, como isto é um aprendizado, depende de muito treinamento, boa vontade, foco, disciplina, flexibilidade, aceitação...

Deste modo, para amar é preciso desenvolver outras competências. Por isto é uma arte complexa, o que não significa que seja difícil. Mas, que outras competências seriam estas?

Aqui ressaltaremos algumas:

* Prestar atenção em si mesmo, às suas necessidades e tentar supri-las carinhosamente, de verdade, é um modo de desenvolver a auto-estima. Tratar-se com respeito, consideração, paciência e cuidar-se bem, são as palavras-chaves para trabalhar este aspecto fundamental do amor, pois como alguém pode pretender conseguir realmente prestar atenção à necessidade do outro se não consegue enxergar a sua própria?
* Outro aspecto fundamental para preparar-se para o amor é trabalhar e filtrar as próprias crenças a respeito do amor. Muitas pessoas alimentam idéias pessimistas em relação ao amor e aos relacionamentos, do tipo: Amar é sofrer... Casamento é forca... Namorar sério é encrenca... Compromisso é perigoso... Os homens não prestam... Mulher é tudo igual... E por aí vai. Estas e muitas outras crenças contribuem para dificultar que as pessoas realmente se enxerguem, funcionando como um filtro que induz à interpretação dos fatos para uma certa direção, geralmente destrutiva, das relações. E como alguém pode perceber quais são suas crenças? Prestar atenção ao tipo de pensamento que mantém em relação a este assunto pode ajudar muito.Ler a respeito também pode ajudar.
* É preciso olhar para o último relacionamento e ter coragem de se enxergar honestamente. A maioria das pessoas, ou fica afogada na própria avaliação a respeito das atitudes do ex-parceiro, do que este fez de ruim ou deixou de fazer de bom, ou deseja "virar a página" o mais rapidamente possível para esquecer tudo o que passou e doeu no último namoro ou casamento. A primeira atitude não traz qualquer proveito, a não ser de aliviar a culpa e a segunda, esconde uma grande possibilidade de repetir tudo de novo com o próximo parceiro. O momento da separação é, porém, um momento crucial para se preparar realmente para a próxima relação. De qualquer modo, é importante fazer uma revisão da relação, se possível do começo ao fim, com a visão de que cada um dos parceiros contribui 50% para os prazeres e desprazeres, isto é, para qualquer fase da relação, incluindo o final desta. O objetivo disto é clarear para si mesmo qual a sua participação ou de que modo contribuiu para que o relacionamento degringolasse. Nem sempre isto significa encontrar erros. Alguns relacionamentos se acabam porque houve mudanças nos rumos, interesses ou valores individuais, provocados pela evolução de cada um e não faz mais sentido o casal ficar junto. Outra situação comum é um parceiro ter sido muito passivo ou omisso e, desta forma, ter contribuído para o fim. Atitudes passivas são mais difíceis de serem enxergadas, mas contam tanto quanto atitudes ativas, visíveis. Se alguém se encoraja a revisar a relação, notará certamente que houve sinais que mostravam que o rumo não estava bom. Normalmente cada parceiro sinaliza, das formas as mais diversas, suas insatisfações e aí está o benefício desta revisão, isto é, uma tomada de consciência de como se está atuando dentro da relação com o outro. Assim, muito mais do que perder tempo em se sentir culpado, é possível usar estes dados para corrigir ações inadequadas, visando mais sucesso na próxima oportunidade.

Preparar-se para o amor é muito importante, e não se trata de deixar isto para alguns momentos na vida. Bom é manter esta atitude constante, pois podemos aprender o tempo todo com nossos relacionamentos pessoais atuais, mesmo que não o amoroso. É possível observar nosso jeito de agir para detectar como complicamos ou facilitamos a fluência das relações, como causamos satisfação ou insatisfação nos outros, como afastamos ou aproximamos as pessoas, como nos satisfazemos ou nos decepcionamos, como enxergamos a nós e aos outros. Enfim, relacionar-se a dois pode ser um céu ou um inferno. Tudo dependerá do nível de empenho e atenção que se coloca na aprendizagem do amor.

Dra. Elizabeth Zamerul Ally
Psiquiatra e Psicoterapeuta de Casais e Indivíduos
Autora do livro: Juntos Porém Livres - Editora Rocco
Publicado em: 01/11/2002