O Brincar no Desenvolvimento Infantil

Autor: Armando Correa de Siqueira Neto

Resumo

Há na natureza uma sabedoria própria, um constante ensinar sobre aquilo que é natural e parte de nós seres humanos, o caminho essencial, que pode ter o mesmo número de configurações quanto de personalidades diferentes das pessoas. Este caminho natural, do desenvolvimento humano, tem características próprias, ao mesmo tempo em que é flexível frente às mudanças e conseqüentes adaptações das quais nos submetemos constantemente, porém, até o momento, uma delas, objeto de estudo neste trabalho, tem se mostrado fundamentalmente convicta de sua própria existência, competente nos seus efeitos, simples em seu conceito e dinâmica, e complexa no que se refere a sua atuação no ser humano, esta estrutura invisível, o brincar, tem todo este acervo de conteúdos em seu bojo, oferecendo a quem dele se utilizar, possibilidades naturais de sermos mais naturais, principalmente, na infância, onde construímos a nossa base principal, suporte para toda uma vida. Ser natural nos possibilita o melhor acesso a nós mesmos durante a vida, para que possamos nos observar, ora externa, ora internamente, e nessa alternância de constante re-conhecimento de si mesmo, lidemos com boa parte de nossos conteúdos, para que, finalmente, estejamos sempre nos permitindo continuar o caminhar do nosso desenvolvimento.

O brincar é essencial às crianças e nos revela de diversas formas que tem poder terapêutico natural, além de constituir auxílio na boa formação infantil, nas esferas emocional, intelectiva, social, volitiva e física. Esquecer-se do brincar é também esquecer de viver com qualidade de vida, e, ao oferecermos às crianças a possibilidade de brincar, oferecemos muito mais do que o ato em si mesmo, visível aos olhos, estendemos uma perspectiva de vida melhor, um desenvolvimento mais natural e eficiente, uma socialização decorrente de tão somente brincar, e ainda mais, a possibilidade de se reconhecer como ser, na terapia constante do expressar e concretizar criativamente os recursos internos de que dispomos.

Introdução

A proposta deste trabalho é a de transitar pelas experiências clínicas vividas por diversos profissionais de atuação junto à infância, que se utilizaram do instrumento lúdico em terapias e que deixaram uma rica e vasta teoria para novas e constantes pesquisas, e, relacionar este procedimento ao brincar natural, objeto em foco deste estudo, procurando sinalizar ao final da pesquisa, os valores que representam este mesmo brincar natural. Objetivamos entender se a natureza encontrada no brincar durante a infância tem efeitos positivos quanto ao desenvolvimento e em quais esferas ela acaba por atuar.

O brincar

De acordo com Cabral (2000) “Análise infantil é um método de diagnóstico e terapia infantil que combina os princípios da Psicanálise freudiana e as técnicas projetivas consagradas nos testes de Rorschach e de Murray (T.A.T.). A esse método deu Melanie Klein (Psicanálise da Criança, 1932) o nome de playtechnique, ou técnica de brinquedo, ou ainda ludoterapia, depois desenvolvida por outros psicanalistas da Escola de Londres, como D. W. Winnicott e Money Kyrle, e adotada no todo ou em parte por analistas de outras correntes. A análise infantil funda-se no princípio da catarse, uma vez que tenta explorar o mundo de sentimentos e impulsos inconscientes (os”fantasmas” infantis) como origem efetiva de todas as ações e reações observadas nos pequenos pacientes.”

Klein (1975) nos fala sobre as descobertas da psicanálise que resultaram numa criação de uma nova Psicologia Infantil. Por meio delas aprendemos que, já nos primeiros anos de vida, as crianças experimentam não apenas impulsos sexuais e angústia, como também sofrem grandes desilusões.

O caráter primitivo do psiquismo infantil requer uma técnica analítica especialmente adaptada à criança, e vamos encontrá-la na análise lúdica. Por meio deste método obtemos acesso às fixações e experiências mais profundamente recalcadas da criança, o que nos possibilita exercer uma influência radical em seu desenvolvimento.

O terapeuta busca a comunicação da criança e sabe que geralmente ela não possui um domínio da linguagem capaz de transmitir as infinitas sutilezas que podem ser encontradas na brincadeira por aqueles que as procuram.

A fim de dar um lugar ao brincar, Winnicott (1971) postulou a existência de um espaço potencial entre o bebê e a mãe. Esse espaço varia bastante segundo as experiências de vida do bebê em relação à mãe ou figura materna, e eu contrasto esse espaço potencial (a) com o mundo interno (relacionado à parceria psicossomática), e (b) com a realidade concreta ou externa (que possui suas próprias dimensões e pode ser estudada objetivamente, e que, por muito que possa parecer variar, segundo o estado do indivíduo que a está observando, na verdade permanece constante).

É a brincadeira que é universal e que é própria da saúde: o brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais; o brincar pode ser uma forma de comunicação na psicoterapia; finalmente, a psicanálise foi desenvolvida como forma altamente especializada do brincar, a serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros.

É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança e adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self).

Conforme Arzeno (1995) Devemos comunicar-nos com as crianças através da brincadeira ou jogo e de algumas palavras simples que possam captar claramente.

De acordo com Junqueira O desenvolvimento infantil se encontra particularmente vinculado ao brincar, uma vez que este último se apresenta como a linguagem própria da criança, através da qual lhe será possível o acesso à cultura e sua assimilação. O brincar se apresenta como fundamental tanto ao desenvolvimento cognitivo e motor da criança quanto à sua socialização, sendo um importante instrumento de intervenção em saúde durante a infância.

Molon nos diz (2001) “Em meu trabalho na clínica fica evidente a importância da atividade lúdica para as crianças. Nesta posição de descobridores adquirem novas habilidades (as funções do brincar estão ligadas à construção do próprio corpo), enfrentam emoções complexas e conflitantes reencenando a vida real.

Resultado de pesquisa

As informações resultantes do questionário de pesquisa apontam alguns dados que delineiam o nosso perfil quanto ao brincar durante a infância, bem como alguns aspectos ligados às funções clínicas da Ludoterapia e seus instrumentos inerentes.

Dos profissionais pesquisados, havia algumas especialidades, dentre elas, da linha junguiana, psicanalítica e gestáltica.

Sobre a utilização e o porque da técnica ludoterápica, as afirmações indicaram a necessidade diante dos casos de tratamento psicológico e emocional, percepção do contexto familiar, na situação psicodiagnóstica e posteriormente na psicoterapia, para realizar aproximação e contato com a criança e estratégia de construção de conhecimento e auto-percepção.

A indagação, “No seu entender teórico-prático, a criança se expressa por meio do brinquedo?”, nos posiciona que, sim, todos os profissionais alegaram afirmativamente quanto às crianças se expressarem através do brinquedo enquanto brincam.

Sobre o efeito terapêutico da ludoterapia sobre a criança, foi possível perceber que, seis sétimos, em torno de 85% das crianças obtêm este resultado proposto pela técnica em questão.

A pergunta “Em que colabora o brincar na formação da criança?”, os resultados mostram que, 38,9% dos pesquisados alegou que o brincar colabora na formação emocional, intelectiva, volitiva, social e física, e, de outro lado, concordando integralmente com as questões emocionais, intelectivas e sociais, descartando a volitiva e a física, montavam 61,1% dos entrevistados.

Considerar o brincar como parte da psicologia preventiva do ser humano obteve o resultado de 100% nas respostas, destacadamente, aquela onde se ressalta o termo “fundamental”.

Ao serem questionados quanto às formas de se brincar, qual teria os melhores recursos psicoterápicos para a criança, foi indicado que, 40% apontam as naturais, como o barro, as físicas e esportivas e as semiprontas e os jogos, 33,33% disseram ser as prontas, como a boneca, as manufaturadas, como a pipa e o playground, e, por último, 26,67% apontaram os eletrônicos.

Discussão

Da análise dos resultados obtidos desta pesquisa, relacionamos que no trabalho clínico, as pessoas que dele necessitam, visam buscar o eu (self) através de suas experiências criativas, e o instrumento brinquedo, em sua utilidade maior, o brincar fornecem dados variados e fundamentais, que, do ponto de vista da ludoterapia, há uma utilização mais específica quanto ao diagnóstico e a terapia com o auxílio desta técnica, mas é evidente que ela se abre em novas possibilidades conforme percebido em cada profissional. Possibilidades estas, que derivam do ambiente terapêutico, tais como facilitar o contato com a criança, expressão de sentimentos, construção de conhecimento e autopercepção, além de percepção do contexto familiar.

A questão ludoterapia foi enfatizada no entender teórico-prático dos entrevistados, os quais concordaram, na sua totalidade, que a criança se expressa por meio do brinquedo.

Foi notado que a maioria das entrevistas indicou que durante a ludoterapia clínica, a criança obtém algum efeito psicoterápico, constatação esta, dentro do ambiente técnico da psicoterapia.

Indagamos se existiria algum efeito terapêutico na criança, apenas brincando, sem estar numa sessão, o que nos foi respondido, na sua maioria, que sim, a criança obtêm este efeito terapêutico. Alguns profissionais responderam que não, e outros que um pouco. Uma maioria indicadora de que o brincar natural, isto é, fora do cenário técnico, é gerador de efeito terapêutico, uma qualidade na vida das crianças que utilizam deste recurso tão antigo e nosso tema em voga. Dispomos que o brincar é por si mesmo uma terapia. Oferecer às crianças o brincar é em si mesmo uma psicoterapia que possui aplicação imediata e universal, e viabiliza a elas uma atitude social positiva com respeito ao brincar.

No desenvolvimento da criança podemos encontrar agentes colaboradores, através do brincar, tais como o fator social entre eles, a construção desta convivência em sociedade, o desenvolvimento emocional e intelectivo, para todos os pesquisados, cabendo ainda, o desenvolvimento volitivo e físico para 38,9% deles.

Conclusão

A pesquisa revelou que o brincar natural tem expressivo efeito terapêutico por si só, além de auxiliador no desenvolvimento infantil, nas esferas emocional, intelectiva, social, volitiva e física, demonstrando a sua fundamental importância neste período riquíssimo do ser humano, ou seja, a sua própria estruturação, a base construtiva do que tenderemos a chegar no desencadear de nossas vidas, dando-nos o asseguramento necessário para a progressão natural do ciclo vital humano.

O encerramento deste trabalho, apenas abre, ainda mais, a discussão sobre uma temática tão importante de nossas vidas, pois que já fomos crianças em algum tempo, o brincar natural, os brinquedos que fazem parte de nosso desenvolvimento. Cabe lembrar ainda, que trabalhos nesta direção podem e devem apontar hipóteses para a questão do convívio social, elemento pelo qual apenas esbarramos, sem nos atermos, haja vista a sua enorme dimensão. Pesquisas que possam somar informações e valores de como ocorrem os relacionamentos entre as crianças atualmente, dentro de seu universo do brincar, fonte de estruturação também no campo do progresso humano. E, por fim, ressaltar a proposta e objetivo desta pesquisa, sinalizando para quem dela tome posse, que, aquilo que já intuitivamente sabíamos pela natureza das coisas e a própria experiência humana é trazido neste trabalho, pela pequena colaboração científica encontrada nele, que, o brincar natural, tem no mínimo, o poder de colaborar no desenvolvimento das crianças, servindo-lhes ainda, como fonte terapêutica natural.

Referências:

Arzeno, Maria Esther Garcia – Psicodiagnóstico clínico: novas contribuições, Porto Alegre, Artes Médicas, 1995.
Cabral, Álvaro e Nick, Eva – Dicionário Técnico de Psicologia, São Paulo, Cultrix, 2000.
Ginott, Hain G. – Psicoterapia de grupo com crianças: a teoria e a prática da ludoterapia, Belo Horizonte, Interlivros, 1979.
Junqueira, Maria de Fátima Pinheiro da Silva – O brincar e o desenvolvimento infantil, http://www.saudedafamilia.hpg.ig.com.br, Rio de Janeiro.
Klein, Melanie – Psicanálise da criança, São Paulo, Editora Mestre Jou, 2º edição em português, 1975.
Molon, Fernanda Silva – O brincar na clínica infantil, http://www.sapereaudare.hpg.ig.com.br/, 2001.
Winnicott, D.W. – O brincar e a realidade, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1971.

Armando Correa de Siqueira Neto
Psicólogo Faculdade Paulistana de Ciências e Letras.