Mitos, Crenças e Preconceitos Sobre a Sexualidade dos Deficientes

Autoras: Ana Teresa Reis, Andréia Oliveira, Maria João Velez, Conceição Oliveira

Índice

Mitos, crenças e preconceitos sobre a sexualidade dos deficientes

Desenvolvimento sexual e afectivo das crianças e jovens portadores de deficiência

Portadores de deficiência mental
Portadores de paralisia cerebral
Portadores de Trissomia 21

As atitudes das famílias face ao desenvolvimento sexual e afectivo dos seus filhos portadores de deficiência
Apoio profissional aos pais

Princípios e práticas da educação sexual
Educação Sexual
Programas
Actividades

Conclusão

Bibliografia

Mitos, crenças e preconceitos sobre a sexualidade dos deficientes

Sexualidade e deficientes: dificilmente se juntarão dois conceitos tão carregados de conotações negativistas e preconceituosas (Gomes, 1995 cit. Félix, 1995).

Se, na sexualidade em geral existe uma série de crenças e ideais feitas e, sobretudo estereotipadas, podemos perceber que este tema relacionado com a deficiência aumentará as características acima referidas. Os estereótipos existentes sobre a sexualidade em geral aplicam-se à sexualidade dos deficientes mas com tonalidades ainda mais negativas.

Apesar de inúmeros esforços para que a sexualidade das pessoas portadoras de deficiência passe a ser um direito e, como tal, se expresse nas suas diferentes dimensões, a nossa sociedade continua a vê-los como pessoas "assexuadas". A sexualidade é ainda associada, quase exclusivamente, a pessoas novas, fisicamente atractivas e sãs (Lopes e Fuertes, 1989, cit. Félix, 2002).

A sexualidade humana está mergulhada em várias contradições, entre as quais se destaca, a título ilustrativo, a seguinte: por um lado, existe o impulso sexual como fonte motivadora que procura realizar um determinado comportamento, por outro lado, opõe-se-lhe um sistema de crenças limitativo, porque apenas legitima a relação sexual quando esta acontece entre adultos heterossexuais casados. E acresce que as contradições aumentam pelo facto de actualmente haver certa mudança social no sentido da permissividade e comercialização do sexo. Isto é, socialmente, através dos mass media veiculam-se mensagens de incitamento, mais ou menos directo, à actividade sexual e depois, contraditoriamente não existem estruturas de assistência afectiva para as pessoas, sobretudo jovens, sexualmente activas (López, 1985; 1986, cit. por Gomes in Félix, 1995).

Dizendo de outra forma: apesar de, nos últimos decénios, termos assistido a alterações nos padrões culturais, que se reflectem numa relativa mudança de mentalidades, de facto, ainda se verifica uma forte influência do modelo reprodutivo e seus corolários. Não será necessária uma análise detalhada deste tema, mas é oportuna uma visão rápida de algumas questões que ele levanta. Este modelo, como se sabe, privilegia a vertente reprodutiva da expressão sexual, esquecendo, negando, ou deixando para segundo plano, outras importantes valências da sexualidade, tais como: a afectividade e o prazer. Em consequência, duas pessoas que, por uma determinada razão, por exemplo, por limitações físicas, estão impedidas de assumir a paternidade/maternidade, acabam por ver frequentemente lesado o seu legítimo direito a um relacionamento sexo-afectivo sem fins reprodutivos.

Como corolários do referido "modelo" temos o duplo padrão de moral sexual e a dicotomização dos papéis psico-socio-sexuais, segundo a qual o homem deve ser activo e a mulher passiva, o que pode provocar disfunções relacionais e/ou sexuais. Não sendo propriamente um corolário do referido modelo, mas talvez mais uma "propriedade associada", acresce que muitas pessoas têm tendência a pensar que a expressão do impulso sexual será (apenas) aceitável quando acontece entre gente "jovem e bonita". Se o conceito de juventude é questionável, ainda mais será o de beleza.

Para resumir e esquematizar: existe uma visão geral da sexualidade que está estreitamente ligada a um sistema de valores, crenças e atitudes que tem por base:
• O modelo reprodutivo de sexo;
• O paradigma do coito heterossexual:
• O mito da beleza física e jovem;
• A dicotomização dos papéis psico-socio-sexuais.

Esta perspectiva constitui-se numa "grelha mental" que leva muitas pessoas a encarar de forma enviesada e redutora a sexualidade de vários grupos de indivíduos, concretamente: as crianças, os adolescentes, os idosos, os deficientes (físicos e mentais), ou porque não "devem" (adolescentes, deficientes e homens idosos), ou porque não conseguem alcançar um "aconselhável" relacionamento heterossexual (porventura, no caso dos deficientes, devido a restritos contactos sociais derivados do isolamento institucional em que muitos deles vivem), ou ainda porque não correspondem aos estereótipos da beleza vigente, determinadas pessoas, entre as quais os deficientes, vêem assim limitada a sua expressão sexual. Quando muito, reconhece-se teoricamente que eles têm esse direito, na condição de não passarem à prática (Gomes, 1995, in Félix, 1995).

Nesta linha de pensamento, pode-se então referenciar que a Declaração dos Direitos Humanos é inegavelmente um marco de referência para o posicionamento do ser humano no Mundo, na sua dimensão individual e social. Proclamando os direitos do Homem e as suas liberdades fundamentais, a dignidade e valor da pessoa humana, justiça social e paz, serviu de base a outras convenções, acordos e instrumentos internacionais que imprimiram um cariz específico aos princípios consignados na Declaração, destacando-se as "Normas Sobre a Igualdade de Oportunidades para as pessoas com deficiências". (Nações Unidas,1994, cit. por Rocha, 2003).

Produto de particular atenção por parte das Nações Unidas e de outras organizações internacionais e nacionais, as Normas colocam a tónica na dimensão sócio-ética, assente em argumentos humanistas que defendem a igualdade de oportunidades e os direitos das pessoas com deficiência, exaltando-se a importância da participação, poder de decisão e escolha dessas pessoas no que concerne a actividades e papéis inerentes a áreas decisivas da qualidade de vida, nomeadamente a Acessibilidade, Educação, Emprego, Vida Familiar e Dignidade pessoal, Cultura, etc.

Seguindo estas linhas orientadoras, alguns países europeus têm desenvolvido mediadas jurídico-legislativas e psicológico-educacionais consentâneas com os princípios de inclusão e normalização. Apesar da experiência e dos conhecimentos acumulados na área dos direitos humanos e, em particular nos direitos das pessoas com deficiência, onde o "slogan" a salientar tem sido qualidade de vida, a sociedade deste novo milénio continua com sérias dificuldades em perceber que proporcionar unicamente condições objectivas a essas pessoas, não é suficiente para lhes garantir qualidade de vida, pois esta envolve a "(...) interacção de factores objectivos e subjectivos diversos, mas que em última instância só ganha sentido mo âmbito da experiência subjectiva de cada um e não no significado que observadores a exteriores lhe possam atribuir (...)" (Manual dos Currículos Funcionais). Esta consciencialização acerca do que é qualidade de vida das pessoas com deficiência mental torna-se fundamental em áreas determinantes, entre as quais salientamos as seguintes dimensões: interacção e relações sociais. Bem estar psico-afectivo, autonomia e poder de decisão.

Contudo, não faz qualquer sentido falarmos destas dimensões da qualidade de vida da pessoa portadora de deficiência mental quando, ao mesmo tempo, se lhe é vedado o direito à sua sexualidade e afectividade. Se pensarmos que a sexualidade se revela, segundo a OMS, como "(...) uma energia que nos motiva para encontrar amor, contacto, ternura e intimidade; ela integra-se no modo como nos sentimos, movemos, tocamos e somos tocados; é ser-se sensual e ao mesmo tempo ser-se sexual. A sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, acções e interacções e, por isso, influencia também a nossa saúde física e mental", facilmente percebemos que é através dela que passa toda a experiência e auto-consciência de um indivíduo: a pessoa percebe, sente, pensa e deseja. López e Fuertes, 1999 cit. por Rocha, 2003, referem a esse propósito que "(...) o Homem é um ser sexuado; a sexualidade mediatiza todo o nosso ser." Neste sentido, toda a problemática da sexualidade remete-nos, inevitavelmente, para o desenvolvimento humano e para a própria complexidade que o caracteriza. Sendo a sexualidade uma dimensão da personalidade, não se pode negar à pessoa portadora de deficiência mental a liberdade de viver e expressar a sua sexualidade. Entenda-se que ao falarmos de sexualidade estamos a falar de uma realidade que não se esgota no acto sexual. Ela é também e, sobretudo, amizade, carinho e relacionamento pessoal. Possuir amigos, partilhar interesses, relacionar-se e experimentar sentimentos de união são algumas das necessidades mais profundas de todo o ser humano. A pessoa portadora de deficiência mental deve aprender desde logo a reconhecer a sua individualidade, compreender o comportamento social e o seu comportamento como membro de uma sociedade, conhecer a sua própria vulnerabilidade e, essencialmente, saber escolher, decidir e desenvolver a sua própria sexualidade.

Sendo assim, deparamo-nos com um grande desafio: garantir a normalização da vida afectivo-sexual dessa população.

Conseguirá a nossa sociedade responder a este desafio?

Ao caminharmos num sentido mais humanista - reconhecido nos movimentos actuais de índole social, educacional, psicológico e legislativo - seria contraditório e inconcebível que não se respeitasse e reconhecesse o direito à sexualidade e à educação sexual daqueles que são "diferentes" (Rocha, 2003).

Será também importante deixar claro que existem outras crenças difundidas e não fundamentadas tais como:

• Há muitas pessoas que pensam que as pessoas portadoras de deficiência não sentem quaisquer necessidades sexuais e outras consideram o oposto, ou seja, que eles só pensam em sexo. Ambas opiniões estão erradas porquanto, nesse aspecto, eles são exactamente como todas as outras pessoas, isto é, sendo seres humanos, têm impulso sexual. Este impulso pode ser fraco ou forte, variando de pessoa para pessoa. Cada indivíduo pode controlar, sublimar ou exprimir de alguma forma o seu impulso sexual. Mas uma coisa é certa: pelo facto de existirmos, todos somos sexuados. Não existem seres humanos sem essa característica. Por isso se diz que a sexualidade é uma categoria permanente do Self. Assim como as pessoas sem deficiências físicas aprendem a lidar com a sua sexualidade, o mesmo acontece com os deficientes físicos (Gomes, 1995, in Félix, 1995).

• É importante sublinhar que a abordagem da sexualidade nos deficientes tende, por vezes, a cair numa visão generalista do tema. Tendência esta que não é correcta, pois as deficiências não são todas iguais, havendo deficientes físicos e deficientes mentais, com características específicas que os distinguem, sendo portanto diferente a forma de abordar a sua sexualidade (França, 2001).

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Desenvolvimento sexual e afectivo das crianças e jovens portadores de deficiência

"A sexualidade é uma categoria permanente do eu: ela mediatiza e é mediatizada por todo o nosso ser. É pois uma dimensão humana tão digna e importante como qualquer outra, pelo que deve ser estudada, conhecida e vivida".
In Félix e Marques (1995)

 

 

A sexualidade é definida pela Organização Mundial de Saúde como: "uma energia que nos motiva para encontrar o amor, contacto, ternura e intimidade; ela integra-se no modo como nos sentimos, movemos, tocamos e somos tocados; é ser-se sensual ... ser-se sexual ... A sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, acções e interacções e, por isso, influencia também a nossa saúde física e mental" (citado por Félix, s/d).

A sexualidade é uma das funções naturais de todo o ser humano, pelo que a pessoa deficiente não é excepção, apesar de constituir, ainda hoje, um tabu, na medida em que a sociedade os olha como seres "assexuados", portanto, sem se lhe conceder o direito a uma plena realização afectiva. Este modo de pensar começa na própria família, estendo-se depois à sociedade em geral. A família da pessoa portadora de deficiência tende a considerar que ela não cresce - que fica sempre infantil (a atitude da família, principalmente dos pais, face ao desenvolvimento do indivíduo portador de deficiência será abordada, de seguida, neste trabalho). No entanto, a realidade é bem diferente. A criança com deficiência passa por diferentes etapas desenvolvimento, tal como as outras crianças, embora com os condicionalismos que a sua deficiência comporta. Assim, a criança vai construindo a sua identidade sexual e afectiva ao longo da vida (Andrade, s/d).

Neste processo o psicólogo tem um papel fundamental (como veremos adiante), contudo, deve ter o cuidado de "respeitar o pudor e o recato que o respeito pelo jovem nos exige" (Andrade, s/d). É, deste modo, que se deve educar sexualmente e ajudar os jovens portadores de deficiência a desenvolverem uma capacidade de autonomia, sobretudo a partir da puberdade, para que possam assumir uma identidade de homens e mulheres responsáveis, embora "cientes da sua diferença, mas também dos seus direitos a uma vida sexual e afectiva com outros jovens da sua idade" (Andrade, s/d).

É também função do psicólogo, ajudar os pais, e a própria sociedade, a perceber a irrelevância de algumas crenças acerca da sexualidade da pessoa portadora de deficiência, pois apesar das diferenças quase todos são capazes de "diferenciar comportamento apropriado de não-apropriado e desenvolver um senso de responsabilidade de cuidados pessoais e relacionamento com os outros" (Gejer, s/d), embora alguns não tenham capacidade de aprendizagem, independência, estabilidade emocional e habilidade social (Master & Johnson, citados por Gejer, s/d), mas os "deficientes mentais leves e moderados são capazes de viver integrados na comunidade, e portanto, expostos a riscos, liberdades e responsabilidades", o que demonstra a importância e a necessidade de os educar - também a nível sexual - e de os preparar para as transformações físicas e sociais, bem como para os perigos, a que estão expostos na adolescência.

Segundo Gejer (s/d), é preciso desmistificar algumas preocupações e crenças sociais acerca da sexualidade destas pessoas:

- Jovens com deficiência NÃO são sexualmente activos: ainda que alguns com deficiência profunda, possam ser menos aptos, a crença é infundada - pois a deficiência, em si, não impede o desenvolvimento da sexualidade.

- As aspirações sociais e sexuais destas pessoas são diferentes dos seus pares: muitos estudos demonstraram que estes jovens gostariam de ser sexualmente activos, de casar e ter filhos. O que acontece é que, em geral, são isolados do contacto social, e por isso não têm oportunidade de realizarem as suas aspirações.

- Os pais dos adolescentes com deficiência proporcionam-lhes educação sexual suficiente: uma das consequência da não integração destes jovens é que eles não desenvolvem competências de interacção social, e isso dificulta-lhes o acesso a informação sobre sexualidade, reprodução, contracepção e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, logo estão menos preparados para um envolvimento sexual responsável.

- Jovens com deficiência são sexualmente vulneráveis a assédios sexuais: esta crença parece ter fundamento, daí a necessidade de educá-los nesse sentido, e, nalguns casos, será aconselhável prevenir com contracepção para que este facto não seja impedimento à integração.

Do que temos vindo a dizer, podemos concluir que, estes jovens, precisam, desde muito cedo, adquirir atitudes e comportamentos saudáveis em relação ao seu corpo e às funções sexuais. O psicólogo, tem aqui, o papel fundamental de apoiar e orientar, de modo individualizado - pois, cada caso é um caso - "e participado sem regras fixas ou tabus pré-estabelecidos" (Andrade, s/d).

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Portadores de deficiência mental

Segundo a Organização Mundial de Saúde a deficiência mental pode definir-se como "funcionamento intelectual geral inferior à média, com origem no período de desenvolvimento associado a uma alteração do ajustamento u da maturação, ou dos dois, na aprendizagem e na socialização" (Félix, s/d).

Ainda que a nível mental, a pessoa esteja numa situação de desvantagem - em ralação à média - e "não corresponda aos padrões esperados para a sua idade, não temos que concluir que sexualmente a sua capacidade tenha sido afectada" (Félix, 2002, citando Amezúa, 1978), apenas se desenvolve de modo diferente, como diferente é também o seu desenvolvimento bio-psíquico.

Ou seja o desenvolvimento da sua sexualidade está condicionada por factores sócio-ambientais - aliás, como também o desenvolvimento sexual das pessoas ditas "normais", pois segundo Félix e Marques (1995, citando, Lopez e Fuertes, 1989) "os processos de desenvolvimento sexual a partir do nascimento são de ordem essencialmente social, [deste modo] poderemos compreender que as suas dificuldades são tanto maiores quanto maior é a estigmatização a que estão sujeitos".

Assim, quanto maior for o isolamento que lhe for imposto e quanto mais o seu processo de desenvolvimento estiver condicionado a uma "socialização assexuada na infância; infantilização das relações; ausência de educação sexual; repressão e patologização das condutas sexuais; superproteção doentia dos pais;" mais dificuldades terão estes jovens de estabelecer relações sociais, de amizade e, sobretudo de amor.

Estas pessoas, como todos nós, realizam aprendizagens na interacção com os outros - os quais servem de mediadores e modelam o que e como aprendemos - sobretudo nos chamados "períodos críticos". Daí a importância do meio envolvente nas "oportunidades que este fornece ao indivíduo" (Félix & Marques, 1995) e dos modelos desse contexto no desenvolvimento dos sujeitos, desempenhando aqui a família um papel extremamente importante.

De facto, qualquer mãe, ao engravidar, começa a idealizar o seu filho e depois dele nascer tem que fazer o "luto" dessa idealização para poder aceitar o bebé real que deu à luz. Ora, quando o bebé nasce deficiente, ou se mais tarde revela alguma deficiência, esse processo é mais complexo, pelo que o "aceitar" passa por várias fases - revolta, frustração, culpabilização, baixa auto-estima, etc.

Algumas vezes, o vínculo não é possível porque entram em acção os mecanismos de defesa inconscientes - "normalmente de fuga e rejeição, que podem assumir três formas diferente: negação, superproteção e abandono". O abandono pode ser real, ou psicológico. No primeiro caso a criança é mesmo abandonada, no segundo, a criança fica na família, são-lhe "prestados os cuidados básicos de sobrevivência, mas investe-se pouco, em tempo, em amor, em ternura" (Félix, 2002).

Deste modo, vai-se "condicionar o posterior desenvolvimento daquela criança, muito para além do seu potencial", na medida em que, à deficiência se vão acrescentar, em muitos casos, "uma deficiência afectiva; e uma deficiência social" (Félix & Marques, 1995). Esta última resulta do facto da família se sentir socialmente diminuída, uma vez que ainda perduram as crenças irracionais de "castigo divino", o sentimento de vergonha - daí a tendência de muitas famílias esconderem os filhos em casa, isolando-os e privando-os de contacto social tão necessário ao seu desenvolvimento - pois, como diz Erickson "a criança aprende a existir no espaço e no tempo, à medida que aprende a ser um indivíduo no espaço e no tempo da sua cultura".

Todos estes condicionalismos vão afectar o processo de crescimento e o desenvolvimento sexual do deficiente mental, embora a sexualidade seja "a mais normal das características humanas, e é sentida de maneira idêntica por deficientes e não deficientes" (Craft & Craft, 1978, citados por Félix & Marques, 1995), por isso reprimi-la não é solução, apenas se está a impor limites à natureza do ser humano e a impedir a integração, a inclusão e a fomentar a marginalização destas pessoas.

Por outro, lado é preciso ter em conta que sexualidade, não se restringe ao acto sexual. Ela é um elemento relacional, uma expressão da afectividade, uma capacidade de se relacionar consigo e com o outro, uma construção da auto-estima e do bem-estar, e tem uma função de prazer e de reprodução, e desenvolve-se seguindo "o ritmo do desenvolvimento global da pessoa " (Félix & Marques, 1995). Portanto, a sexualidade da pessoa com deficiência não é diferente da sexualidade das pessoas ditas "normais" - segue e insere-se, apenas, no próprio processo de desenvolvimento de cada indivíduo.

A deficiência mental, como outras deficiência, tem vários graus de gravidade: profunda, moderada, ligeira - cujas características diferenciadoras se sintetizam no quadro seguinte:

PROFUNDA
MODERADA
LIGEIRA
- Dependência, quase total, de uma terceira pessoa.
- Nível de comunicação reduzido.
- Relação com o ambiente muito pobre.
- Instabilidade emocional
- Autonomia de nível razoável.
- Bom desenvolvimento motor.
- Domínio da linguagem verbal.
- Obtém níveis mínimos de escolaridade.
- Conseguem desempenhar uma profissão artesanal.
- Fazem a diferenciação entre si e o outro.
- Percebem a diferença anatómica dos sexos.
- Têm deficiências mínimas a nível sensório-motor.
- Têm competências sociais e comunicação (pré-escolares).
- Problemas de aprendizagem escolar.
- Em meios sócio-culturais pobres podem passar despercebidos.
- São autónomos a nível pessoal, social e vocacional.
- Alguma instabilidade emocional.
- Têm capacidade para tomar decisões e assumir responsabilidades.
Puberdade
Puberdade
Puberdade
- Mudanças hormonais e fisiológicas.
- Desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários: menstruação e produção se sémen.
- Comportamentos de masturbação frequentes.
- Mudanças hormonais e fisiológicas.
- Desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários: menstruação e produção se sémen.
- Contacto de exploração corporal com o outro sexo.
- Sentem o corpo do outro como fonte de prazer.
- Têm dificuldades em reconhecer as convenções sociais.
- Mudanças hormonais e fisiológicas.
- Desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários: menstruação e produção se sémen.
- Alguns desvios de conduta, o que dificulta os vínculos interpessoais.
- Comportamentos de masturbação frequentes.
- Não têm condições para um relacionamento afectivo-sexual. - Não têm consciência real do significado das relações sexuais e da reprodução.
- Mas, são aptos fisicamente para o seu desempenho.
- Total consciência de si e do outro.
- Compreendem as potencialidades sexuais (prazer, reprodução).
- Têm condições para um relacionamento afectivo-sexual.

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Portadores de paralisia cerebral

A paralisia cerebral caracteriza-se por uma perturbação global da postura e do movimento, com dificuldades de coordenação motora e do equilíbrio e com movimentos involuntários, resultante de lesão cerebral ocorrida no período pré, peri ou pós-natal (Andrade, s/d). Pode, ainda, estar associada à deficiência motora outras perturbações: visuais, auditivas, cognitivas e/ou da fala.

Deste quadro, facilmente de deduz que estes indivíduos têm, dependendo do grau de severidade da perturbação, problemas de autonomia, de comunicação, de auto-imagem - sobretudo se as funções cognitivas não estão afectadas.

Desde muito cedo, estas pessoas são sujeitas a manipulações do seu corpo, devido aos exercícios fisioterapia, o que pode ser sentido como uma intrusão, desagrado e gerar sentimentos de autodesvalorização.

Além disso, estes jovens têm "grandes dúvidas e anseios [quanto] ao futuro e às suas possibilidades de amarem e serem amados" (Andrade, citado por Félix & Marques, 1995), quando têm consciência das suas limitações e dificuldades de autonomia. Estas limitações, comportam falta de privacidade, o que por sua vez, gera ansiedade, frustração e problemas de relacionamento.

Por outro lado, e como já se disse anteriormente, os pais tendem a superprotegê-los o que lhes limita as interacções sociais os seu pares.

Assim, estes jovens vêem dificultada a possibilidade de se relacionarem afectivamente, e de viverem a sua sexualidade de forma satisfatória - a qual assumirá expressões diferentes conforme a problemática motora que esteja presente.

Ivone Félix (2002), no seu artigo "Os jovens "normais" e os "outros"" propõe um programa destinado a estes jovens, cujos objectivos são:

"proporcionar um espaço de diálogo em que a problemática da sexualidade seja abordada numa perspectiva de inter-ajuda e auto-conhecimento, aumentado e reforçando a auto-estima, segurança e autonomia;

aumentar os conhecimentos sobre: anatomia e fisiologia; métodos contraceptivos; resposta sexual humana, gravidez e parto; influência do seu tipo/grau de deficiência na vivência da sexualidade;

aumentar a capacidade de decidir e de gerir a sua vida nos aspectos relacionados com a sexualidade;

promover atitudes preventivas em relação a abusos sexuais;

reforçar a capacidade de pedir ajuda e procurar os recursos existentes.

Não pudemos deixar de referir este programa, dada a importância e actualidade dos seus objectivos na ajuda aos jovens que têm este handicap, na certeza de que "todas as pessoas são sexuadas ao longo de toda a sua vida" (Félix & Marques, 1995).

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Portadores de Trissomia 21

A síndrome resulta de uma alteração genética, com a existência de três cromossomas no par 21 - trissomia - em vez dos dois habituais.

O desenvolvimento orgânico-sexual das crianças portadoras do Síndroma de Down verifica-se em 2/3 dos casos, sendo notória uma mudança sexual lenta, mas harmoniosa. Nos casos restantes, é possível observar, no final da adolescência, uma atrofia sexual e ausência de caracteres sexuais secundários (Amaral, 1995).

Na maioria dos casos, os rapazes apresentam:

• pêlos púbicos e axilares, mais ou menos, desenvolvidos;
• por vezes, barba pouco cerrada;
• os órgãos genitais podem apresentar criptorquídea (não descida dos testículos), pénis pequeno e fimose.

Nas raparigas, geralmente, verifica-se:

• obesidade (devido à hipertrofia do tecido adiposo);
• pele oleosa e acne;
• órgãos genitais geralmente normais;
• menarca na idade habitual;
• períodos menstruais regulares e com fluxo normal;
• menopausa precoce;
• envelhecimento prematuro.

"Nas raparigas com este síndroma a gravidez é possível e evolui organicamente bem. A aceitação e compreensão da gravidez varia com o grau da deficiência mental da jovem, mas os afectos são muito adaptados à situação. A jovem trata o bebé com todo o carinho, mas mostra-se incapaz de responder às necessidades da criança e de cuidar dela no dia-a-dia" (Amaral, 1995, p.64).

Durante a puberdade dos jovens com Síndroma de Down evidencia-se, igualmente, o desenvolvimento das características psicológicas típicas da idade adulta. Neste período ocorrem mudanças súbitas e variáveis na personalidade do jovem, ou seja, é notória uma alteração acentuada em relação à infância (em a criança é dócil, colaborante e dependente), visando alguma liberdade e independência próprias da idade adulta. Geralmente, os pais revelam-se resistentes ao crescimento psicológico do filho e incapazes de perceber as mudanças deste, tendo sempre presente uma imagem infantil.

No entanto, contrariamente ao que se poderia julgar, o jovem com Síndroma de Down apresenta as pulsões, comportamentos, sentimentos e afectos típicos da adolescência: alternância entre momentos de produtividade e criação e períodos de grande confusão e de busca de uma identidade; primeiras abordagens heterossexuais; identificação sexual com o grupo de pares; curiosidade pelas alterações corporais, primeiros namoros, etc. (Amaral, 1995). Por um lado, as dificuldades intelectuais na compreensão dos raciocínios, normas, teorias e éticas podem predispor à infracção involuntária das normas sociais, por outro, a evidente ingenuidade, generosidade e credibilidade que os caracteriza pode facilitar a ocorrência de abusos por parte de adultos, que se aproveitam do seu déficit intelectual. Assim, Amaral (1995) refere que na sua prática clínica com adolescentes com Síndroma de Down, as principais queixas dos pais baseiam-se, no referente aos rapazes, na excitação sexual com ejaculações nocturnas e masturbação excessiva e solicitação de abuso sexual por parte de adultos homossexuais. No que concerne às raparigas, as principais preocupações consistem no receio de violação e gravidez involuntária. A laqueação das Trompas de Falópio, por volta dos 15 anos, é uma medida possível, norma na Holanda, mas pouco frequente em Portugal, devido à controvérsia que gera. Porém, antes de se recorrer a esta medida é imprescindível um estudo pormenorizado de cada caso individualizado, pois implica, como se sabe, uma cirurgia irreversível.

Frequentemente, os jovens com Síndroma de Down manifestam o desejo de namorar, casar e ter filhos. Quando o filho exprime esta intenção, os pais não sabem como reagir, uma vez que "a lei portuguesa não permite o casamento de deficientes mentais do Síndroma de Down, visto não lhes reconhecer a maioridade e, portanto, a responsabilidade civil" (Amaral, 1995, p.66). Note-se que a disponibilidade para esclarecer e ensinar na área sexual, a atenção e afecto dos pais, educadores e técnicos de saúde são fundamentais, permitindo que o jovem adquira confiança e à vontade suficientes para falar abertamente sobre os seus problemas sexuais e colocar as suas dúvidas.

Resumindo, as mudanças biofísicas da adolescência tornam este período difícil tanto para o jovem como para os pais, porque têm dificuldades cognitivas de compreensão das normas e dos limites, mas, em geral, "os sentimentos e afectos são os de qualquer adolescente" (Amaral, 1995).

"Todos os deficientes têm direito a uma vida plena. Eles partilham dos mesmos sentimentos e esperanças, fantasias e medos, dúvidas e ansiedades, que o resto das pessoas ."
In Félix e Marques (1995)

 


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As atitudes das famílias face ao desenvolvimento sexual e afectivo dos seus filhos portadores de deficiência

O desenvolvimento psicossexual é um processo resultante da interacção do indivíduo com os outros, sobretudo com os pais ou as pessoas significativas que rodeiam e interagem com a criança. Importa referir que a sexualidade não surge, subitamente, na puberdade, mas constituí parte integrante de todos os seres humanos, cujo desenvolvimento é muito determinado pelo modo como a sexualidade e o relacionamento interpessoal em geral são encarados e sentidos pelas pessoas próximas da criança. Note-se que, frequentemente, os pais de filhos portadores de deficiência apresentam uma confusão extrema sobre o comportamento sexual adequado dos seus filhos, para a qual contribuem, muitas vezes, os sentimentos negativos, as expectativas, as representações, os valores e as atitudes em relação aos indivíduos portadores de deficiência (por exemplo, vistos como seres assexuados, impotentes, estéreis ou "depravados sexuais") prevalecentes na comunidade a que os pais pertencem (Loureiro, 1994/95), que os faz negar ou reprimir a evidente sexualidade dos seus filhos.

Este contexto social e cultural, onde o estigma da deficiência surge, geralmente, associado "à inferioridade, à incapacidade, ao comportamento social inadequado, à necessidade de ajuda e vigilância permanentes, ao "defeito físico"" (Loureiro, 1994/95, p. 106) é passível de comprometer o papel parental, a sua função educativa e suporte afectivo em relação ao filho, devido à dificuldade em aceitar a sua deficiência.

Os pais "manifestam atitudes de tolerância perante a integração, a normalização e o respeito pelos direitos humanos, quando enunciados como princípios gerais" (Félix, 2001, p.20), no entanto, é evidente uma menor aceitação dos mesmos princípios quando relativos ao seu filho portador de deficiência. Ou seja, na maioria dos casos, os pais, face à sexualidade do seu próprio filho, apresentam atitudes superprotectoras e dessexualizadoras. Tal como a sociedade em geral, os pais não se encontram preparados para reconhecer o corpo sexuado do filho portador de deficiência, esperando, por exemplo, "nas raparigas, que a menstruação não venha ou que venha o mais tardiamente possível; surgem atitudes de denegação em relação à masturbação; reforçam comportamentos infantis que visam negar a puberdade e prolongar a criança eterna" (França, 2001, p.2), em que as necessidades sexuais do filho são completamente alienadas.

Vários estudos realizados nesta área concluem que, frequentemente, os pais evitam fornecer aos seus filhos qualquer tipo de informação sexual, julgando que, deste modo, é possível evitar ou atenuar o interesse do seu filho pela sexualidade. Por um lado, para além de possuírem conhecimentos muito limitados sobre estes temas, os pais não se consideram preparados para transmitirem conhecimentos aos filhos, apresentando uma notória ansiedade perante os perigos a que os seus filhos se encontram sujeitos nesta área, nomeadamente, a possibilidade de ocorrência de abusos sexuais (Félix, 2002). Por outro, os pais atribuem, com frequência, a si próprios a responsabilidade da deficiência do filho, formulando como possíveis causas a negligência; omissões ocorridas durante a gravidez; conflitos conjugais ou práticas sexuais inadequadas. Veja-se que, quando tal ocorre, é usual a tentativa, através da superproteção exagerada com sobrevalorização das limitações, de impedir a sexualidade do seu filho (Greengross, 1980).

Como já referido anteriormente, os pais, geralmente, evitam que os seus filhos portadores de deficiência corram riscos, sendo evidente a superproteção, visando impedir o seu sofrimento físico e psíquico, isso é natural e saudável, pois revela o amor que lhes têm. Porém, não podemos esquecer que eles precisam fazer as suas próprias "experiências" para crescerem, desenvolverem e evoluírem para a adultez, assim, afastando-os do contacto com o grupo de pares, impede-os de terem amigos e de se realizarem afectivamente, não possibilitam que o filho experimente a sexualidade e explore o significado da masculinidade e feminilidade. Parafraseando Greengross (1980), "todo o crescimento emocional envolve uma aprendizagem e compreensão das diferenças entre a fantasia e a realidade e a vontade de viver num mundo real, por muito desagradável que este mundo possa ser" (p. 14).

Este notório isolamento, impede-os, simultaneamente, de aprenderem a "dar aos outros o seu amor" (Andrade, s/d) e de o receberem. Por isso, é muito útil providenciar-lhes actividades de recreio e desporto, especialmente na adolescência, para lhes favorecer as relações interpessoais - por exemplo, a integração do jovem deficiente em grupos de jovens pode ser um excelente meio de lhe proporcionar experiências sociais gratificantes e que o ajudam, também, a desenvolver a auto-estima. Contudo se a família tem uma atitude de superprotecção, prejudicam a construção de uma adequada identidade masculina ou feminina, o que irá influenciar o futuro das suas relações psico-sexo-afectivas. Ou seja, não permitirão o desenvolvimento de uma pessoa "completa", com uma boa auto- imagem, auto-estima e autoconfiança, e da aceitação das suas diferenças psico-fisiológicas (Andrade, s/d).

Esta excessiva dependência é, na maioria dos casos, em relação à figura materna, sendo notório, muitas vezes, um fraco vínculo à figura paterna. Esta atitude de exclusão do pai pode repercutir-se negativamente no desenvolvimento psicossexual dos seus filhos, dificultando o processo de construção da identidade sexual e dos papéis sexuais (Loureiro, 1994/95).

O interesse e o prazer que advém da exploração do seu corpo (especialmente os órgãos genitais) conduzem a criança a sentir curiosidade pelo corpo do Outro e pelas suas diferenças. O aumento do desejo sexual e das sensações eróticas conduz a comportamentos sexuais, tais como a masturbação, jogos sexuais entre jovens do mesmo sexo, beliscões, apalpadelas, trocas de beijos e carícias entre jovens de sexo diferente. Perante estas manifestações, é possível observar diferentes atitudes dos pais (Loureiro, 1994/95):

- negação da ocorrência destes comportamentos de natureza sexual;
- repressão e redobro do controlo, por receio de eventuais riscos de abuso, exploração sexual ou marginalização social. Estas atitudes de repressão e comentários negativos dos pais podem influenciar o modo como o filho vai viver e expressar a sua sexualidade, gerando sentimentos de culpabilidade e angústia;
- displicência perante estes comportamentos, visto não encararem a possibilidade do filho manter, futuramente, uma vida sexual activa;
- recorrência à Educação Sexual (á qual nos reportaremos adiante) do filho e à utilização de medidas contraceptivas, através da ajuda de técnicos especializados, para lidar de forma equilibrada com a sexualidade do seu filho.

Segundo Turner (referido por Félix, 2002), a masturbação constitui a manifestação de sexualidade que mais embaraço, angústia e preocupação causa aos pais. No caso dos jovens "ditos normais", os pais, embora conscientes da possibilidade de ocorrência deste comportamento, procuram ignorá-lo e, para tal, garantem ao filho alguma privacidade. No entanto, é notória a necessidade de maior envolvimento parental em todas as actividades dos indivíduos portadores de deficiência, não constituindo a masturbação uma excepção. Esta proximidade (muitas vezes involuntária) com a sexualidade dos filhos é susceptível de aumentar a ansiedade dos pais, principalmente quando estes defendem que é improvável que o seu filho usufrua de uma vida sexual saudável. No entanto, é possível, por exemplo, ensinar os indivíduos portadores de deficiência a limitar os actos de masturbação à privacidade da casa de banho ou do quarto, através de métodos não punitivos, preservando o seu bem-estar físico e psicológico (Greengross, 1980). Neste processo de aprendizagem é fundamental, obviamente, a participação activa dos pais.

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Apoio profissional aos pais

Poder-se-á afirmar que os pais recebem escassa ajuda profissional, no sentido de os auxiliar a lidar com a sexualidade dos seus filhos portadores de deficiência. A partilha das suas ansiedades é passível de aliviar, grandemente, o stress familiar, permitindo, deste modo, a promoção de uma atitude positiva perante a sexualidade dos seus filhos. Porém, é habitual, numa primeira entrevista, os profissionais colocarem questões aos pais acerca de todas as áreas de funcionamento do seu filho, excepto a sexualidade, transmitindo a ideia que os pais podem evidenciar dúvidas sobre tudo, menos sobre a área sexual (Greengross, 1980). Esta atitude poder-se-á dever ao facto de "ainda não se ter conseguido alterar a problemática directa ou indirecta, ou seja, pessoal e social da sexualidade das pessoas portadoras de deficiência, somente passámos de uma fase de eliminação e repressão para uma de liberalismo e tolerância, ainda muito longe de uma fase de Culto da Sexualidade" (Félix, 2002, p. 23).

Contudo, os psicólogos devem fornecer aos pais toda a informação disponível e, simultaneamente, gerir os sentimentos negativos que esta informação pode provocar. Ou seja, as ansiedades parentais sobre masturbação, menstruação ou outros sinais da emergente sexualidade dos seus filhos são susceptíveis de ser atenuadas, caso estes acontecimentos normais possam ser discutidos antes da sua ocorrência. Desta forma, os pais permitem, mais facilmente, a experimentação e rebelião anteriores à independência emocional característica da idade adulta, não obstante a dependência física (Greengross, 1980). O aconselhamento psicológico pretende, igualmente, ajudar os pais a explorar, de modo realista, o potencial do seu filho portador de deficiência para manter uma vida independente, aceitar a sua sexualidade e potenciar a construção da sua individualidade e a sua capacidade de identidade e envolvimento interpessoal, abandonando as atitudes de idolatria afectiva e dedicação quase exclusiva. Deste modo, o ideal é que a família seja alertada para este facto, pois costumam preocupar-se sobretudo com os tratamentos, esquecendo que é fundamental que "logo nas primeiras idades orientar ... no sentido de [desenvolver] um grande respeito pela identidade" da criança (Andrade, s/d), valorizando as suas potencialidades, pontos fortes, e procurando desenvolver os pontos mais fracos. Da mesma forma, é preciso alertar os pais para a necessidade de se desenvolver a socialização destas crianças e jovens, bem como a sua capacidade de iniciativa, decisão e escolha - que lhe são, geralmente, vedadas - o que os torna ainda mais dependentes.

Veja-se, ainda, a importância das oportunidades de formação dos pais, com o objectivo de transformar as representações sociais, as expectativas e as atitudes em relação ao filho portador de deficiência (Loureiro, 1994/95), assim como "adquirir novas referências capacidades e competências que melhorem o desempenho das suas tarefas educativas essenciais para um normal desenvolvimento psicossexual dos seus filhos" (Loureiro, 1994/95, p.112).

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Princípios e práticas da educação sexual

O nascimento de um filho deficiente é um acontecimento traumático no seio de uma família e pode desencadear um processo de desequilíbrio relacional. Face a este filho deficiente experimentam um sentimento de perda (perda de uma série de expectativas e planos outrora traçados), que pode dar origem a uma atitude de não aceitação e de rejeição do seu filho deficiente ou então a uma atitude de superprotecção desse mesmo filho (que é a atitude socialmente melhor aceite). Esta atitude de superprotecção é extremamente limitadora das potencialidades do jovem deficiente, sobretudo ao nível das relações interpessoais, fazendo com que seja socialmente reconhecido como uma pessoa dependente, uma vez que é usual salientar-lhe as dificuldades e não as suas aquisições, o que o tornaria num ser mais autónomo. Deste modo quando surge o desenvolvimento sexual do jovem deficiente, é extremamente difícil para os pais e para a sociedade aceitarem-no. Face aos sinais exteriores da sexualidade e à capacidade potencial da procriação, a problemática da aceitação reacende-se novamente e a atitude mais dominante dos pais é a negação da realidade sexual que já é tão visível no filho, mas que só eles não querem ver (Marques, 1995) (Trovão, 1996/97).

É na adolescência que surgem as principais questões relativas à sexualidade, tornando-se por isso de extrema importância promover um desenvolvimento e conhecimento harmonioso da sexualidade que é indispensável a uma vida equilibrada e saudável. A Adolescência é vista como um momento fundamental no desenvolvimento e maturação morfológica, biológica e psicológica do indivíduo, antes da idade adulta. Nesta fase, ocorrem grandes mudanças que marcam quatro esferas do desenvolvimento: o corpo (resultantes da puberdade), a vida social (o estatuto do sujeito no seu meio), o pensamento e a representação de si. Alguns dos interesses, neste período, prendem-se com a descoberta de si, curiosidades acerca da sua transformação corporal, com a vontade de participar em conversas cujo tema seja a sexualidade, com o desejo de conhecer o corpo do sexo oposto, com o desejo de explorar e experimentar coisas novas, com a curiosidade de ver espectáculos ou fotografias de conteúdo erótico, entre outros. A partir da concretização destes interesses e desejos, tentam afastar medos e inseguranças resultantes de uma sexualidade em desenvolvimento acelerado e que é desconhecida pelos adolescentes (Trovão, 1996/97). No caso do jovem deficiente, as mudanças anátomo-psicológicas e emocionais ligadas à puberdade e abordadas na adolescência, colocam ainda mais dificuldades e causam maior ansiedade. Assim, é fulcral que os outros significativos que rodeiam o jovem deficiente e acompanham o seu desenvolvimento (pais e educadores), reflictam sobre as competências que devem ser desenvolvidas, de forma a irem de encontro às necessidades desse jovem. É necessário ter presente que "não é a severidade do "handicap" que determina uma vida sexual satisfatória mas sim a importância que a deficiência assume nas relações interpessoais e o significado que o indivíduo dá ao termo sexualidade" (citado por Trovão, 1996/97, p. 23). É preciso tentar que o deficiente, dentro das suas limitações, possa usufruir da sua sensibilidade, erotismo e afectividade, lembrando sempre que a própria reabilitação completa do deficiente, não passa só pela reabilitação física e profissional, mas também pela reabilitação emocional e sexual. A relação sexual não pode ser sempre vista como um factor primordial na relação afectiva, a carícia e o tactear são fundamentais e por isso um dos aspectos principais da sexualidade em determinados deficientes, é a ideia de que se pode fazer amor sem cópula (idem).

A infância destes jovens não foi igual à das outras crianças da sua idade, sempre foram olhados de forma diferente, alguns até podem ter sentido alguma resistência por parte da mãe em lhes satisfazer as suas necessidades de afecto (serem acariciados e acarinhados), isto porque não corresponderam à imagem que os pais tinham formado do filho que desejariam, fazendo até com que não sejam tão estimulados por estes, como seria um filho dito "normal". Estes jovens, também foram sempre muito privados das experiências próprias para a sua idade ou de assumirem responsabilidades, deixando as decisões a cargo dos outros. É precisamente na adolescência que tentam atingir a sua independência/autonomia, assumir o papel sexual e reforçar o sentimento de identidade, mas é também na adolescência que toma consciência da sua dita "diferença". O jovem deficiente embrenha-se numa luta de identificação com os seus companheiros ditos "normais, começa a querer sair com os outros, a querer vestir-se, falar e agir como eles, a querer entrar para um grupo, a querer ter contactos mais íntimos com um parceiro, a ter uma experiência de namoro. Porém, o facto de se aperceber que o seu desenvolvimento é menos harmonioso e mais retardado que o dos seus companheiros, vai ter um grande impacto sobre a sua auto-estima (desenvolvem sentimentos de inferioridade, estão convictos de que não são aceites pelos outros), vai gerar uma deficiente imagem corporal e a vivência conflituosa da sua identidade sexual. De facto, estes jovens acabam por sentir o que os outros realmente pensam deles, não é fruto da sua imaginação (idem). O meio social envolvente está carregado de preconceitos e tabus em relação a toda esta temática da afectividade e sexualidade e muito mais o está quando se trata da pessoa deficiente. A sociedade nega esse direito à pessoa deficiente, reprova qualquer manifestação exibida socialmente por eles, muitas vezes, expondo essas manifestações ao ridículo, projectando nesta atitude a sua incapacidade de viver com a sua própria sexualidade. Da mesma forma, as instituições, dada a diversidade de personalidades que a compõem , a respectiva dinâmica interna e as forças que para ela convergem, são as entidades mais retrógradas e mais defensoras do status quo nesta matéria. No que diz respeito aos técnicos, as atitudes são as mais diversas, desde a passividade, à repressão, até àqueles que, face a estes comportamentos, agem de um modo equilibrado (se é que alguém sabe o que isto significa...) (Marques, 1995). É necessário que se entenda que os jovens deficientes criam relações e têm uma sexualidade reconhecível, contudo, a forma como essas relações progridem, depende muito das atitudes de quem com eles interage e rodeia. As pessoas deficientes são pessoas sexuadas, como todas as outras, têm a mesma capacidade e o mesmo desejo de amar e de serem amadas. Ao se reprimir a expressão da sexualidade nestas pessoas, dificultar-se-ia o seu crescimento e desenvolvimento enquanto Pessoas.

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Educação Sexual

Diariamente, de uma forma pouco consciente, todos transmitimos e recebemos educação sexual nos vários espaços em que nos movemos e intervimos: no grupo de amigos, na família, na escola. Assim, todos os que interagem e se relacionam com o jovem deficiente, nos vários contextos de vida, estão a fazer Educação Sexual e é por isso que se torna tão importante intervir sobre a qualidade dessas interacções e relações. Se de facto não existe educação que não seja sexualizada, então podemos dizer que a Educação Sexual começa com a vida relacional, uma vez que a pessoa vai-se construindo na relação com a mãe e com o pai. São também os exemplos de modelos de relação Homem-Mulher que lhes são oferecidos, tal como as trocas afectivas e o tipo de comunicação existente entre Pais-Filhos, Professores-Alunos, que vão contribuir para um desenvolvimento psicológico global e para um desenvolvimento psicossexual em particular, mais harmonioso. Os pais, ou outros significativos, e os professores, são aqueles que presenciam mais frequentemente os comportamentos afectivo sexuais dos jovens deficientes, os seus comentários relacionados com o sexo e a sexualidade, o seu interesse e atenção pelas imagens dos mass média e é também a eles que são colocadas questões relacionadas com a sexualidade. Isto porque, tal como os outros jovens, os jovens deficientes estão expostos a todo o tipo de mensagens sobre o sexo e a sexualidade e face a isto precisam de questionar quem eles mais confiam. Além disso, também estão expostos a todo o tipo de riscos, como abuso sexual, gravidez indesejada, doenças sexualmente transmissíveis, exploração sexual. Desta forma, dado o facto de serem pessoas mais vulneráveis e indefesas, dada a menor diversidade e número de contextos de vida a que têm acesso e à menor qualidade de experiências e vivências relacionais, a Educação Sexual informal não é suficiente (Loureiro, 1997).

Os primeiros programas de Educação Sexual concebidos para pessoas com deficiência, tal como para os jovens "normais", visavam fundamentalmente o aprofundamento dos conhecimentos sobre a fisiologia e anatomia da sexualidade, sobre a gravidez, contracepção, nascimento, aborto, ciclo de resposta sexual, menstruação, masturbação, ejaculação, desejo sexual, com a preocupação exclusiva de reduzir e impedir os problemas relacionados directamente com a sexualidade (Marques, 1995). Veio-se a constatar que este tipo de concepção dos programas e o tipo de intervenção utilizada, tiveram resultados praticamente nulos, como foi o caso da Deficiência Mental. Após a participação de um número significativo de pessoas com Deficiência Mental, estas continuaram a apresentar as mesmas dificuldades de antes: indefesa perante situações de risco de abuso sexual, dada a interiorização de que devem fazer o que lhes pedem sem questionar e dada a falta de capacidade que têm para tomar decisões e serem assertivos; manifestações indiscriminadas de afecto, por não terem aprendido "onde", "quando" e "com quem" devem ocorrer essas manifestações; dificuldades em comunicar os seus sentimentos, desejos, medos e interesses aos outros, não só devido á sua deficiência mas também devido á falta de experiências de participação e interacção; não consideração das necessidades e sentimentos dos outros, dada a falta de desenvolvimento da capacidade de respeitar e reconhecer na relação essas mesmas necessidades e sentimentos, que têm o mesmo valor que as suas; exibição em público de comportamentos sexuais, como práticas masturbatórias; vergonha, inquietação e receio relativamente às alterações corporais que têm vindo a surgir (Loureiro,1997).

Hoje, os programas já progrediram quer na sua concepção, quer na intervenção que utilizam, uma vez que já não abordam a sexualidade "desligada" do seu contexto emocional, relacional e social, e a intervenção já se adequa mais às características e necessidades dos destinatários, com métodos próprios para determinada deficiência. Assim, a Educação Sexual não é encarada apenas como um processo através do qual se transmitem conhecimentos de índole científica relativos ao corpo e ao seu desenvolvimento, mas sim como uma forma de compreender, aceitar e vivenciar positivamente a sexualidade, promovendo também comportamentos responsáveis para consigo e com os outros no que respeita a essa mesma sexualidade (Marques, 1995). Um dos programas construídos com base nesta concepção é o de Maria Amélia Serra Loureiro, de nome "Agora, que já não sou criança...". Segundo a própria autora, o programa "contempla todos os componentes biológicos, psicológicos, afectivos e sociais da sexualidade humana, esforçando-se para que não ocorra qualquer espécie de reducionismo em relação a qualquer um deles, uma vez que estão permanentemente interligados" (1997, p.16). O que é defendido, tal como na Educação sexual para os jovens "normais", é que esta só será eficaz, se for equacionada numa perspectiva de promoção do desenvolvimento psicossexual, que remete não apenas para o funcionamento fisiológico da actividade sexual, mas sim para outro tipo de questões, como a tarefa de existir com os outros, a construção da identidade sexual e a responsabilidade social (Soares & Campos, 1986).

A tarefa de existir com os outros, assume uma importância crucial na adolescência, dado o alargamento e envolvimento em relações extra-familiares, com o qual interage o processo de individualização e separação. É o relacionamento com amigos e colegas, mas também o relacionamento sensual, íntimo, emocional e amoroso. A interacção com os outros assume graus diferentes de atracção e intimidade, o(a) adolescente manifesta o interesse específico por alguém do mesmo sexo, que será o(a) melhor amigo(a) ou por alguém do sexo oposto. Esta mudança no processo de intimidade interpessoal é influenciada pelo aparecimento dos impulsos sexuais e também pelo progressivo avanço no desenvolvimento da autonomia e identidade (Trovão, 1996/97).

A construção da identidade sexual passa pela identificação do(a) jovem com rapaz ou rapariga, homem ou mulher, com a qual se pretende a definição dos papéis sociais. A identidade sexual é um processo de integração e síntese de um conjunto de experiências vividas num certo contexto histórico e cultural; é nesse contexto que os(as) jovens vão procurar esta identidade, a partir das relações entre os sexos (Soares & Campos, 1986).

A responsabilidade social prende-se com o respeito pelo outro, com reconhecimento, por parte do(a) jovem, de que é o autor dos seus actos e das consequências que deles advém e com a capacidade de antever situações (Trovão, 1996/97).

No que concerne aos objectivos propriamente ditos, da Educação Sexual para deficientes, levando em conta para tal tudo o que foi mencionado anteriormente, podemos identificar 8 objectivos:

• Identificação sistemática dos conhecimentos, dos interesses, das atitudes e das necessidades da criança ou do grupo;

• Aumentar os conhecimentos sobre anatomia e fisiologia humanas;

• Reforçar a auto-estima e valorizar a imagem corporal;

• Reforçar a atitude de que nas relações amorosas, como nas outras relações interpessoais, os sentimentos e necessidades do outro podem ser tão importantes como os nossos;

• Ensinar-lhes os riscos que correm (gravidez);

• Criar habilidades de comunicação de sentimentos e necessidades sexuais;

• Promover atitudes positivas e não culpabilizantes face aos seus sentimentos e comportamentos sexuais;

• Reforçar a confiança nos seus próprios juízos (Trovão, 1996/97) (Marques, 1995).

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Programas:

É fundamental a implementação e elaboração de projectos de intervenção de carácter formativo junto dos Pais e Educadores de jovens com deficiência, visto ser necessário que estes possuam uma preparação apropriada para o envolvimento num programa de Educação Sexual. Dado que é tão importante intervir sobre a qualidade das interacções e relações dos jovens deficientes com aqueles que os rodeiam, a participação dos pais e professores é essencial. Em primeiro lugar, é preciso identificar quais as ansiedades e receios dos pais face à temática da sexualidade, para de seguida, mudar algumas das expectativas, representações sociais e valores que eles têm vindo a desenvolver relativamente à deficiência e sexualidade, ou até mesmo facultar alguns conhecimentos de base sobre o desenvolvimento psicossexual e sobre algum tipo de competências a adquirir, de forma a melhorar a tarefa educativa dos seus filhos. Assim, para este efeito, será útil colocar algumas questões aos pais, nomeadamente: "Que tipo de conhecimentos pensa que o seu filho possui em relação à sexualidade?; Quais os comportamentos sexuais mais frequentes do seu filho?; Como reage habitualmente a esses comportamentos?; Quais as principais preocupações em relação à sexualidade do seu filho?" (cit. por Loureiro, 1997). Estes dados contribuirão para a elaboração do Programa, cujos conteúdos deverão ser dados a conhecer aos Pais., tal como a forma como o Programa vai decorrendo.

No que concerne aos Professores ou Outros Técnicos, também poderá ser realizado um processo de intervenção idêntico, que visará a tomada de consciência por parte destes, dos seus valores, atitudes, crenças, tabus, que influenciam os seus comportamentos face à sexualidade da pessoa com deficiência e quais as lacunas de conhecimento que sentem sobre o desenvolvimento psicossexual dos alunos. Da mesma forma que é útil apresentar um questionário aos pais, também será útil apresentar um questionário similar aos Professores ou Outros Técnicos, o que também contribuirá para a elaboração do programa (Loureiro, 1997).

Mais importante ainda, é realizar uma avaliação individual de cada caso, de forma a identificar o grau de realismo e maturidade com que cada um vivencia a sua sexualidade, assim como as expectativas e percepções que cada um tem e alimenta quanto ao exercício de papéis psicossexuais, para posteriormente ser delineado um plano de acção executado em dois níveis: individual e em grupo (onde surgirão questões que levarão à abordagem dos mais variados temas) (Marques, 1995).

Aquando da implementação do programa é fundamental possuir um conjunto de habilidades criativas, tentando diminuir a utilização da exposição teórica como única técnica, dadas as suas limitações e tendo em conta as dificuldades inerentes á deficiência com que se estiver a lidar. É fulcral optar por técnicas mais dinâmicas: por métodos que privilegiam a interacção entre os participantes; pela discussão em grupos dirigidos por pares (visto os pares serem uma das fontes de informação sexual mais influentes); por trabalhos em subgrupos que promovam a autonomia, atitudes de escuta, a afirmação das suas ideias mas também a aceitação das ideias dos outros, o saber; o brainstorm, com vista a possibilitar a expressão livre de ideias e a construção conjunta de actividades; a recriação de situações (role-play), de forma a experienciar maneiras diferentes de ser e pensar e também para treinar certas aptidões; utilização de audiogramas (Marques, 1995). A forma como serão aplicadas estas técnicas, terá por base os pressupostos teóricos subjacentes à Educação Sexual, que sustém a necessidade de recorrer às experiências pessoais de modo a que as aprendizagens sejam significativas; à criação de um ambiente de confiança, solidariedade, cooperação e diálogo, através da utilização de técnicas participativas e do estabelecimento de relações igualitárias; à utilização de vocabulário do grupo como ponto de partida, introduzindo simultaneamente os termos correctos e a criação de situações de aprendizagem que impliquem a autoconstrução do conhecimento, desenvolvam a capacidade de trabalho individual e de trabalho em grupo, propiciem o desenvolvimento de atitudes autónomas e a resolução de problemas (Trovão, 1996/97) (Marques, 1995).

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Actividades:

Alguns exemplos de actividades possíveis de realizar, com vista a atingir alguns dos objectivos da Educação Sexual acima referidos, são:


1. O QUE ME FAZ SENTIR

Objectivo:

Incentivar o aluno a analisar as situações e coisas que o fazem sentir-se feliz ou infeliz, proporcionando-se-lhe posteriormente a oportunidade de constatar que diferentes pessoas sentem as situações e as coisas de maneira diferente.

Actividade:

Distribuir a cada aluno a ficha "O que me faz sentir..." e sugerir-lhe que seleccione, da sua caixa de imagens, coisas e situações que o fazem sentir feliz.

Repetir o mesmo procedimento para as coisas e situações que o fazem sentir triste/infeliz.

Propor ao aluno que cole as imagens seleccionadas nas respectivas colunas.

Expor todas as fichas no placard e encorajar os alunos a descobrirem que cada um sente as coisas e as situações de maneira diferente.

Material:

Ficha "O que me faz sentir...", pictogramas e cola.


2. O CORPO FEMININO E O CORPO MASCULINO POR DENTRO

Objectivo:

Perceber elementarmente os componentes essenciais do aparelho reprodutor feminino e masculino, suas diferenças e respectivas funções.

Actividade:

Projectar, para o grande grupo, uma transparência com os componentes essenciais do aparelho reprodutor feminino e outra com os do masculino, referindo em simultâneo, e numa linguagem simples, o nome e a função de cada uma deles.

Acrescentar as informações essenciais para a compreensão da Menstruação, Erecção e Ejaculação.

Distribuir a cada aluno a ficha "O corpo feminino e o corpo masculino por dentro" e a ficha com os componentes essenciais do aparelho reprodutor feminino e masculino, propondo-lhe que recorte desta última o aparelho reprodutor feminino e o masculino e o cole no respectivo local do corpo a que pertence, na primeira ficha.

Expor as fichas "O corpo feminino e o corpo masculino por dentro" preenchidas no placard, levar os alunos a observarem as diferenças entre o aparelho reprodutor feminino e o masculino, relembrando a importância que as mesmas têm na Menstruação, Erecção e Ejaculação.

Material:

Retroprojector, ficha "O corpo feminino e o corpo masculino por dentro", ficha com componentes essenciais do aparelho reprodutor feminino e masculino, tesouras e cola.


3. QUE TEM O AMOR A VER COM O SEXO?

Objectivo:
Favorecer o enquadramento da relação sexual num relacionamento amoroso.

Actividade:

Projectar para o grande grupo, sobre a forma de transparências, duas imagens exemplificativas de dois sketches da sessão "Que sentem eles, um pelo outro", interpretados pela totalidade dos alunos como expressando Amor e Paixão.

Prosseguir a projecção com uma outra transparência, com uma imagem sugestiva da prática de uma relação sexual entre um casal.

Convidar, durante a projecção de cada uma das transparências, os alunos a interpretarem o que estão a visualizar, partindo-se daí, para a abordagem da relação sexual no contexto de um relacionamento amoroso.

Material:

Retroprojector e transparências.


4. EU E O PERIGO

Objectivo:
Desenvolver no aluno a capacidade de identificar situações de perigo (risco) e de definir estratégias para lidar com elas.


Actividade:
Dar a cada aluno uma ficha com imagens de diferentes objectos ou situações que variam no seu grau de perigosidade (de "nada perigosas" a "muito perigosas") e dizer-lhe que rodeie com um círculo:


Verde - as imagens de coisas e situações que não representem qualquer perigo.
Amarelo - as imagens de coisas e situações que representem algum perigo.
Vermelho - as imagens de coisas e situações que representem muito perigo.

Expor todas as fichas no placard, e confrontar os alunos com os diferentes graus de perigosidade assinalados em cada uma delas e o modo como devemos lidar com as coisas e situações que ofereçam risco de perigo ou sejam perigosas.

Material:

Ficha "Eu e o perigo" e marcadores.

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Conclusão

A sexualidade da pessoa com deficiência tem sido ignorada, negada ou mesmo encarada como algo monstruoso, ou seja, tem sido um assunto tabu.

A mudança que se tem vindo a operar, nos últimos anos, nas atitudes das pessoas que trabalham com os deficientes, pais e sociedade deve-se a diversos factores. Por um lado, a sociedade em geral vê e aceita de forma mais "normal" a sexualidade das pessoas ditas "normais", o que levou a uma abertura para aceitar a sexualidade da pessoa deficiente. Por outro lado, as políticas de integração têm permitido um melhor conhecimento destas pessoas e das suas necessidades. Acresce, também, e é preciso não esquecer, que estas pessoas - devido à intervenção precoce, à melhoria dos cuidados de saúde, da alimentação, etc. - têm uma melhor qualidade de vida e uma maior longevidade.

Com o aumento do conhecimento caiem os tabus e começa a olhar-se para a pessoa deficiente como "diferente", mas também como ser humano, com expectativas, anseios e sobretudo, com o desejo de amar e ser amada. É evidente que muitos deles precisam de ajuda para adquirirem competências relacionais - porque a sexualidade é sobretudo o dar-se ao outro. Outros nunca conseguirão chegar a esse ponto, por exemplo, o deficiente mental profundo, mas nem por isso deixa de ter necessidade de ser amado e de "explorar" o próprio corpo - deve é ser ensinado a fazê-lo de acordo com as normas sociais.

Deste modo, reduzem-se os estereótipos relacionados com a sexualidade do deficiente, mas também da população em geral. Para isso deve começar-se por educar toda a população numa sexualidade consciente e responsável, na qual não devem caber estereótipos como o de que os idosos também são "assexuados", por exemplo. Este "mito" leva-nos a constatar que para a sociedade em geral valoriza demais a "capa corporal", a qual "só por si não basta para definir uma pessoa", esquecendo que "cada ser humano existe num ambiente com determinadas características físicas, afectivo-emocionais, psicológicas e sócio-culturais, ou seja, existe situado num contexto relacional com o qual interage e em que ambos mutuamente se influenciam" (Félix, 1995).

Por isso, não é justo que a certas pessoas, que não podem ou não "devem" reproduzir-se, ou porque não têm capacidade de se relacionar afectiva ou sexualmente, sejam impostas limitações na sua expressão sexual. É injusto porque "a sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, acções e interacções e, por isso, influencia também a nossa saúde física e mental" (OMS - Organização mundial de Saúde). Assim a sexualidade deve ser um direito de todos, não privilégio de alguns. Afinal, ela está presente desde que somos concebidos, desenvolve-se desde que nascemos e acompanha-nos até à morte.

Os jovens deficientes têm, portanto, direito essa "vertente tão importante da vida que é a dimensão afectivo-sexual" (Félix, 1995) e a vivenciá-la segundo permitir a especificidade do seu "handicap".

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Bibliografia

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