Uma Reflexão Sobre o Papel do Psicólogo e sua Atuação na Escola

Autora: Daniela Mendes Piloni

Como definir atividades a serem desenvolvidas dentro de um contexto tão amplo e singularmente complexo como a escola?

Sabemos que teoricamente a atuação da Psicologia que está voltada para a área da Educação se destina à realização de pesquisas diagnósticas e intervenções psicopedagógicas em grupo ou individuais, levando em consideração programas de aprendizagem e diferenças individuais. Temos como preceito que o psicólogo na escola atua no sentido de colaborar no planejamento de currículos escolares e na definição de técnicas de educação mais eficazes para melhor receptividade e aproveitamento do aluno e sua auto-realização. Em aspectos mais específicos atualmente o psicólogo atua:

Na orientação de pais em situações em que houver necessidade de acompanhamento e encaminhamento do aluno para outros profissionais, como o Psicólogo Clínico, etc.; Orientação, capacitação e treinamento de professores sobre como trabalhar em sala de aula levando em consideração aspectos educacionais implementando a metodologia de ensino que favoreça a aprendizagem e o desenvolvimento intelectual, social e emocional do aluno; Desenvolver orientação vocacional e profissional aplicando sondagem de aptidões a fim de contribuir com a melhor adaptação do aluno no mercado de trabalho e sua conseqüente auto-realização; Coordenar grupo operativo com família e equipe de profissionais da Escola; Executar oficinas pedagógicas em sala de aula, elaboradas e realizadas em conjunto com professores de acordo com a demanda de cada sala de aula; Trabalhar questões da adaptação dos alunos; Auxiliar na construção e execução de projetos de ordem multidisciplinar realizados na Escola; Realizar tarefas de ordem institucional como recrutamento e seleção de pessoal, elaboração de planos de cargos e salários, avaliação de desempenho, entre outros; Atuar como facilitador das relações interpessoais da equipe escolar.

Dentro deste imenso universo de atuações gostaria de refletir sobre alguns pontos importantes no contexto escolar. Quando o Psicólogo é requisitado para fazer parte de uma equipe escolar raramente se tem claro quais são as atividades que o mesmo poderá delimitar como parte da sua atuação. O lugar que o psicólogo ocupa na escola é uma questão muito delicada e que vemos como um campo muito amplo de discussão.

Com base nos artigos de Raul Mário Ageno "O psicólogo na (s) instituição (ções) educativa(s)" e Luciana Castrillon Andreazzi "Uma história do olhar e do fazer do psicólogo na escola", podemos observar que este lugar do psicólogo na escola ainda está sendo conquistado.

De acordo com Ageno, o psicólogo tem diversos campos de atuação, como a saúde, trabalho e justiça, que embora tenham metodologias direcionadas que variam, não podem alterar o lugar que o psicólogo ocupa. Trata-se desta maneira, de esclarecer qual é o lugar que o psicólogo ocupa em relação a um objeto de estudo que lhe seja especifico, e a partir de então, definir a sua prática, ou seja, o que cabe dentro da demanda institucional.

Numa retrospectiva histórica da atuação escolar do psicólogo, teremos o seu ingresso através dos denominados gabinetes psicopedagógicos onde havia um pedido de auxílio, em relação aos alunos com déficit de aprendizagem e àqueles com dificuldade de adaptação as normas (alunos "problemas"). Assim, a psicologia era solicitada como um instrumento cientifico a serviço da educação para fins orientativos. Como resposta a tal demanda a psicologia atuava com testes psicométricos projetivos, entrevistas, que terminavam por rotular os alunos. Esse processo também englobava o aconselhamento dos pais e professores com fins de encaminhamento para o tratamento terapêutico.

Neste momento evidencia-se uma dificuldade na escola em refletir e questionar sobre seu próprio andamento institucional, depositando parte da responsabilidade sobre o fracasso de aprendizagem do aluno. Sendo o aluno o real depositário da problemática evidenciada pela escola ao psicólogo, nesta etapa não era possível interpretar a demanda da escola. Considerando que o trabalho está envolvido por um local, pessoas, e normas, o psicólogo deparou-se com limitações institucionais educativas implícitas que o impossibilitaram de ir além do exposto.

Tomando como principio norteador a teoria Psicanalítica teremos que as ferramentas de estudo do psicólogo constituem-se em formações do inconsciente, o sujeito dividido e desejante, suas relações com o Outro e Significante, com a diferença sexual e o mito do objeto perdido. Considerando estes fatores dentro da instituição educacional "o psicólogo deve se dispor a executar sempre uma outra coisa, diferente daquela que se diz e que por sinal, os sujeitos dizem sem querer nas figuras e nas fraturas do discurso"(...) Ageno 1994, p.552.

Para que esta escuta torne-se válida é importante observar o contexto que circunda a instituição escolar, ou melhor, dizendo, o contexto bio-psico-social. Neste espaço incluem-se os aparelhos ideológicos do Estado (escola, igreja, política, meios de comunicação, etc.) que junto com a escola reproduzem o poder e alienação. Contudo interessa-nos aqui discutir a função da escola e de seus educandos: a transmissão de conhecimentos, valores, normas e atitudes valorizadas pela sociedade. O psicólogo deve atuar nesta realidade, não como um interlocutor ativo, mas como um agente que propicie a reflexão e subsídios para uma melhoria no processo ensino-aprendizagem.

O professor como representante do papel que lhe é socialmente atribuído: ensinar; depara-se com variados dilemas seus que misturam-se na cadeira que ocupa. O que se deve considerar é que o professor não deixa de "ser humano" para ensinar, ou seja, possui valores, dilemas e conhecimentos que lhe são característicos. Porém existe um parâmetro institucional a ser seguido, que evidencia a cultura escolar.

Freud quando faz uma analogia entre o professor e o terapeuta coloca: "(...) o educador, contudo, trabalha com um material que é plástico, aberto a toda impressão e tem de observar perante si mesmo a obrigação de não moldar a jovem mente de acordo com suas próprias idéias pessoais, mas antes segundo as disposições e possibilidades do educando" (Obras completas, vol XII, p. 416 e 417).

Esta reflexão nos traz algumas considerações de Freud, embora em seu estudo autobiográfico, ele diz: "Não contribuí com coisa alguma para aplicação da Psicanálise à educação, mas é compreensível que as investigações da vida sexual das crianças e de seu desenvolvimento psicológico tenham atraído a atenção de educadores e lhes mostrado seu trabalho sob uma nova luz".

Goulart (2000) complementa que devido ao fato da Psicanálise fazer um estudo do desenvolvimento dos seres humanos, de suas forças interiores e de suas inter-relações, pôde clarificar a compreensão dos processos de ensino e aprendizagem.

Neste sentido, Ageno coloca que "o objeto de operação psicológica no campo da educação tem a ver com o mal-estar do sujeitos que nele operam". (p.555)

Ao psicólogo cabe procurar os sentidos ocultos do discurso explícito dos educadores e da escola que demarca a prática; ampliar seu olhar observador com uma sensibilidade clínica, procurando dar sentido a subjetividade, e um a mais, que Ageno denomina como "plus"; deslocando-se do lugar que ele é instituído pela demanda docente, não ficando preso à problemática aparente.

Faz-se necessário que o psicólogo observe sempre antes de intervir sobre qualquer assunto, agindo baseado em técnicas específicas e muita sutileza (e porque não: bom-senso). Diferente das pesquisas de Ageno que são muito mais direcionadas ao estudo, a uma teorização da atuação com conceitos técnicos, está a busca objetiva na intervenção escolar colocada por Andreazzi.

Através de uma abordagem sócio-cultural e crítica, Andreazzi coloca que a descoberta do profissional psicólogo na instituição educacional é muito mais difícil do que aparenta, porque embute um caminhar junto com os outros membros, sendo que sem a construção do vinculo objetivo não é possível à intervenção. O trabalho a ser desenvolvido contém fatores idealizados não condizentes com a prática, dessa forma, se o psicólogo não se enquadra no sistema institucional, pode ser "boicotado" em suas produções. Como num primeiro momento não há por parte do psicólogo uma inclusão de sua pessoa nos temas abordados pela sua dinâmica de mediador de relações, agente de mudanças, de intervenção no contexto, a equipe escolar não se sente segura e a vontade para explicitar a verdadeira demanda.

A autora coloca a tentativa de organização dos educadores por melhores condições de trabalho, onde se considera um enfoque sócio-político, abordagem preventiva de doenças, concepção crítica de um saber acadêmico e um objetivo emancipador do sujeito com intervenção técnica. Porém esses princípios não alcançaram realização e o discurso do oprimido – professor – continuou se mantendo, desencadeado como uma causa os problemas dos alunos. Porque os problemas tornam-se insatisfatórios e reproduzem o ensino deixando de lado a reflexão crítica, construção de pensamento do saber.

A questão da intervenção do psicólogo na escola é mais profunda do que a problemática institucional, ou seja, lidar com aspectos do psicólogo e do educador implica contextualizá-los como sujeito bio-psico-social, onde mudar está relacionado a uma dinâmica de vida trazida por ambos.

A função primordial do psicólogo é facilitar as relações interpessoais, observar as necessidades dos alunos e saber como os professores definem o seu trabalho e quais os recursos que usa para desempenhá-los, se estão ENVOLVIDOS neste trabalho. Prestando atenção nas patologias e nos sofrimento psicológico que podemos compreender os mecanismos que permeiam o fracasso escolar. Muitas são as atuações do psicólogo na escola, cabe-lhe então definir da melhor maneira possível um modo que se adeque a constituição dos sujeitos ali inseridos. Sabe-se que ampliar o campo de visão quando se está dentro do contexto não é tarefa fácil, evidenciando por isso o papel que o psicólogo deve ocupar na escola.

Outro aspecto importante do atuar do psicólogo se refere à diferença que deve estar clara com a atuação clínica. A escola não deve e não pode funcionar como um local de atendimento individual, mas a fundamentação do sujeito é semelhante e não tem como ser diferente, visto que o "objeto-alvo" é o mesmo – o homem. O psicólogo como um agente facilitador deve estar sempre atento a real condição do educador e do educando, entendendo seu olhar à vida como um todo consciente de que intervir implica sensibilidade e objetividade, até mesmo para que haja a construção do vínculo.

Embora a questão do vinculo não tenha sido explicitada neste texto, ele constitui-se da primeira conquista do psicólogo e é somente através dele que algo pode ser construído em qualquer relação, buscando aflorar nos membros e na base escolar, podendo significar ganhos valiosos para todos.

A realidade escolar atual pode representar grande diversidade de realidades práticas e funcionais, porém o seu foco de atuação continua a ser e creio que sempre será contribuir com a formação produtiva dos seus educandos. Para contribuir com essa busca temos como um papel de "auxiliar", o profissional psicólogo, que não deve pretender ser o "salvador da pátria", mas sim alguém que venha agregar valores e atuar como um agente de construção do saber, de fomentador de dúvidas e reflexões sobre o fazer pedagógico.

Conquistar um consenso juntos para o desenvolvimento e crescimento de todos como seres humanos primeiramente, como veículos de ensino e como parte integrante da instituição escolar e de uma instituição maior – a sociedade; é grande desafio que permeia nossa profissão.


BIBLIOGRAFIA:

AGENO, Raul Mário. "O psicólogo na(s) Instituição (coes) Educativa (s)". IN: Revista de Ciência e Educação. Educação e Sociedade. Cedes. Ano XV. Dezembro. N°49. Campinas. Ed. Papirus. 1994. Pág. 550-557.

ANDREAZZI, Luciana Castrillon. "Uma história do olhar e do fazer do psicólogo na escola". IN: Psicologia e Saúde: Repensando Práticas. HUCITEC. 1992. Pág. 65-84.

FREUD, Sigmund. "Obras completas de Sigmund Freud". Tradução do alemão e do inglês sob a direção geral de Jayme Salomão. Edição Standart brasileira. Rio de Janeiro. Ed. Imago. 1980.

GOULART, Íris Barbosa. "Psicologia da Educação: Fundamentos Teóricos aplicações à prática pedagógica". Petrópolis. Ed. Vozes. 2000.

SÁ, C. P. A construção do objeto de pesquisa. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998.

Daniela Mendes Piloni
Psicóloga e Psicopedagoga.
d_piloni@terra.com.br