Educação, Psicanálise e Cultura
Autora
:Profª. Marilene Lima
Psicanálise
e Cultura
"Um
bebê sem outros humanos é algo tão impensável
como peixes sem água, como uma planta sem terra nem sol."
Luca Rischbieter
A
psicanálise, disciplina fundada por Freud (1856-1939) - que
abrange um conjunto de técnicas de investigação,
método psicoterapêutico e teorias psicológicas
e psicopatológicas - dá ênfase ao sujeito. Para
a psicanálise o que nos diferencia dos animais é o fato
de sermos sujeito, não por conta da racionalidade pura e simplesmente,
mas pelo exercício da razão e é a linguagem o
principal produto da razão.
O que a psicanálise analisa é o sujeito psíquico:
aquele que atribui significado a seu corpo e a seus órgãos,
a depender de suas representações a respeito de si.
Toda função depende do sujeito. Freud diferencia o nascimento
orgânico do nascimento psíquico, o qual se inicia desde
a fase intra-uterina. É na capacidade de antecipação
- capacidade altamente abstrata - do papel daquele que nascerá,
que a família - mais especificamente a mãe - inicia
o processo de constituição do sujeito.
Um bebê humano não se torna humano longe de seus pares
e longe da linguagem (principal produto do exercício da razão).
Longe desse universo ele será potencialmente humano, mas, só
será realmente humano quando estiver em contato com os seus
e com a linguagem. Nomear, uma das primeiras habilidades do ser humano,
é manter sobre aquilo que se nomeia um controle psíquico
(1).
O homem, diferentemente do animal, tem não somente memória
de reconhecimento, mas também de evocação. Evoca
lembranças o tempo todo, o que explica, por exemplo, suas oscilações
de humor, as quais estão muito mais relacionadas com a vida
psíquica do que com as situações "reais"
da experiência humana. As lembranças podem ser de vários
tipos: de suas tradições, de seu povo, de sua gente,
de suas "teorias-avós", enfim, de sua vida social,
visto que somos a soma de muitos dos que passaram por nós.
Somos seres culturalmente determinados e determinantes, posto que
somos constituintes de uma civilização.
Freud (1997, p.10, 25-26) definiu definiu civilização
como sendo conceito correlato à cultura: é a expressão
pela qual se quer significar tudo aquilo em que a vida humana se elevou
e difere de sua condição animal.
É verdade que a natureza não exigiria de nós
quaisquer restrições dos instintos, deixar-nos-ia proceder
como bem quiséssemos; contudo ela possui seu próprio
método, particularmente eficiente de nos coibir. (...) Foi
precisamente por causa dos perigos com que a natureza nos ameaça
que nos reunimos e criamos a civilização, a qual também,
entre outras coisas, se destina a tornar possível nossa vida
comunal, pois a principal missão da civilização,
sua raiosn d' être real, é nos defender contra a natureza.
A
civilização tem de ser dirigida contra o indivíduo
e seus regulamentos. Instituições e ordens dirigem-se
a essa tarefa, visando, assim, a distribuir a riqueza e a manter essa
distribuição, tarefa esta que protege a civilização
contra os impulsos hostis dos homens. As emoções são
refreadas e a idéia reinante é a de que à medida
que a civilidade do homem aumente, seu domínio das emoções
também aumente.
Num alto grau de entendimento do processo civilizatório, o
homem percebe-se capaz de dissimular suas emoções e
acopla-se a seu meio civilizado, modificando a si mesmo. Cria um mundo
interior, ao mesmo tempo em que é criatura e criador de um
mundo exterior: a cultura.
Os processos ligados a essa criação - a linguagem, o
pensamento e a consciência de si e do mundo - criam, por sua
vez, a arte, a religião e a ciência, ou seja, suas consciências
subjetiva e intersubjetiva, que atribuem significado e intencionalidade
às suas práticas. É a rede de significações,
de representações e apropriações construída
pelo homem que constrói a cultura.
Construindo
Cultura
"a
lógica das crianças não poderia se desenvolver
sem a interação social
porque é nas situações interpessoais que a
criança se sente obrigada a ser coerente."
Constance Kamii
Sabe-se
que o conceito de cultura pode vir a representar tanto desenvolvimento
intelectual ou hábitos, atividades, interesses, costumes e
valores de uma determinada povoação, etnia ou nação
quanto o compósito de manifestações sociais,
políticas, econômicas e culturais - aqui no sentido já
citado - que é a força motriz de toda uma sociedade.
Vê-se, portanto, que este último contém o primeiro.
Desde a divulgação da teoria de Darwin, o mundo conhece
a possibilidade evolucionista a que estamos ligados. O Australupithecus
transforma-se em Homo habilis, que transforma-se em Homo erectus que
transformam-se em Homo sapiens que se desenvolve e passa a ocupar
plenamente a África e a Ásia, surge o Homo Neandertalensis,
que se extingue e o Homo sapiens (Cro-Magnon) que começa a
evoluir e permanece a única espécie humana sobrevivente
(2).
A mente do chamado Homo sapiens opera manipulando símbolos
que representam certas características do mundo: sua representação
mental. Sua atividade é composta por redes neurais que lhe
atribui uma de suas maiores características, a plasticidade
cerebral, visto que pode sofrer lesões sem que isso comprometa
todo seu funcionamento.
O ser humano, em contínua atividade mental, vai construindo
a cultura e sendo construído por ela. Cria uma rede de representações
que se eternizará, fazendo aparecer as tradições,
os modos de viver, as regras, a moral, a ética, enfim, a civilização.
De uma maneira muito especial, o homem vai compondo a rede de sua
história cultural, que é o compósito de suas
histórias: social, biológica e psíquica que,
por sua vez, podem se desdobrar em grupal, familial, neural, motora,
psicológica, individual e coletiva. O ser cultural é
multiplamente determinado e determinante, com intra e interconexões
infinitesimais. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, cada homem cria e
vai construindo seu caminho individual, único, uno.
A prática simbolizadora do homem é a exteriorização
de sua subjetividade e consciência de si, do outro e do mundo.
Na representação de todos os aspectos da realidade,
criando cadeias de signos e símbolos, é que o homem
constitui a cultura, materializando essas práticas subjetivas
e coletivas em resultados, bens ou produtos culturais. Essa subjetivação
teve origem num longo processo pelo qual a espécie teve de
passar, intencionalizando sua prática, ou seja, projetando
sua ação, traduzindo-a em: linguagem, arte, religião
e ciência.
A linguagem permite ir além da realidade vivida, surgiu da
necessidade de agilizar a comunicação e aperfeiçoar
outros sistemas comunicativos, anteriormente pautados em objetos concretos.
A arte permite que os homens expressem suas experiências, oriundas
de seus sentimentos e imaginação. A religião
representa a infantilização da humanidade na crença
de um ente superior que a libertará, é o apelo ao sobrenatural,
o que não raras vezes é importante para algumas pessoas.
Já a ciência é a capacidade da humanidade para
explicar a gênese e o funcionamento dos produtos culturais sem
apelar para o sobrenatural, assim, a ciência liberta o homem
para a reflexão e para a imaginação.
O
papel da ciência educativa
"...
com exemplo, ternura, paciência e, sobretudo, persistência,
podemos fazer de qualquer criança um ser completo.
Basta querer."
Celso Antunes
Deve-se
instituir na criança o espírito científico, construindo
em si a capacidade de ser auto-coercitivo, antes que a cultura o seja,
pois a prática da reflexão, da imaginação,
da simbolização e da consciência, assim como o
gozo dos produtos e bens simbólicos que delas derivam, são
precedentes fundamentais para a prática de uma existência
genuinamente humana. Obliterar os caminhos que levam a essas condições
é um mecanismo perverso de impedimento da constituição
plena do sujeito. Significa privar o homem de vivenciar seu desenvolvimento
e alcançar sua plena concretude.
Assim, a educação, direito inalienável de todo
cidadão, ganha importância tendo como papel, ser o mecanismo
pelo qual todos os esforços devem ser concatenados para o acesso
ao acúmulo de conhecimento culturalmente acumulado, bem como
para a produção de conhecimento, que com certeza, só
derivará em bens culturais de melhor e maior qualidade.
Porém, ao mesmo tempo em que pode ser tudo isso, a educação
pode também levar o homem à alienação,
caso subtraia-lhe a consciência de si e do outro. Pode tornar-se
esse "monstro" caso intervenha na formação
da subjetividade do sujeito, caso altere a formação
e significado de suas representações, suas apropriações,
suas significações, enfim, sua humanização;
ou seja, caso a educação manipule a produção
e a distribuição do saber, visando somente a democratização
do consumo dos bens culturais depositários da ciência
e não o fomento do espírito científico, a compreensão
das coisas do mundo - natural e material.
Todas as formas de tradução da subjetivação
e humanização do homem - a arte, a linguagem, a religião,
e ciência - podem converter-se em ópio de um povo, podem
significar ao mesmo tempo nascimento e ocaso de sua subjetivação
e cultura. Concatenar esforços para que isso não ocorra
é papel da ciência educativa.
BIBLIOGRAFIA
CONSULTADA:
FREUD, Sigmund. 1997 (1927). O futuro de uma ilusão. Tradução
de José Octávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago.
GINZBURG, Carlo. 1998 (1987). O queijo e os vermes: o quotidiano e
as idéias de um moleiro perseguido pela inquisição.10ª
reimpressão. Tradução de Betania Amoroso. São
Paulo: Companhia das Letras.
_____________ . 1999 (1989). Mitos, emblemas, sinais: morfologia e
história. 3ª reimpressão. São Paulo: Companhia
das Letras.
(1) Não há na linguagem nome
para a perda de um filho. A angústia sentida é inominável.
Talvez porque a perda sentida é muito mais aguda que a perda
de um cônjuge, por exemplo, ao que se nomeia "viuvez",
ou a perda da mãe ou do pai, ao que se nomeia "orfandade".
Nomeia-se o sentimento para que sua experiência seja "controlável",
do ponto de vista psíquico. voltar
(2) A esse respeito, confira a obra de Fritjof
Capra. 1996. A teia da vida - Uma nova compreensão científica
dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, p. 204 ss. voltar
Profª. Marilene Lima
Psicóloga - CRP n.º 06/68588
Mestre em Educação: História, Política,
Sociedade (PUC-SP)
Assessora e Consultora Pedagógica em
instituições de ensino e do terceiro setor. São
Paulo/SP.
E-mail: mali@estadao.com.br
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