Stress Infantil e Dificuldades de Aprendizagem: Um Estudo com Crianças em Idade Escolar

Autora: Sílvia Verônica Pacanaro

RESUMO

Este trabalho objetivou identificar a relação entre Stress Infantil e Dificuldades de Aprendizagem nas crianças em idade escolar da cidade de Jundiaí – SP. A amostra foi composta por 10 crianças que estão em atendimento psicopedagógico em uma clínica escola, sendo 60% (F=6) do sexo masculino e 40% (F=4) do sexo feminino. Os dados foram coletados através da utilização do Inventário de Sintomas de Stress Infantil (ISS – I), onde estão relacionados a verificação de reações de stress: físicas, psicológicas, psicológicas com componentes depressivos e psicofisiológico. Os dados obtidos foram descritos e discutidos segundo a prova estatística t (student). Os resultados revelaram que 40% da amostra obtiveram níveis elevados de stress. Ressalta-se uma prevalência de reações de respostas nas reações psicológicas e reações psicofisiológica, com predominância nos seguintes sintomas: “fico preocupado com coisas ruins que podem acontecer”, “eu me sinto triste”, “estou o tempo todo me mexendo e fazendo coisas diferentes”. Pode-se concluir que apesar de 40% da amostra obter níveis elevados de stress, a dificuldade de aprendizagem apresentada pela criança também pode estar contribuindo para que aumente estes níveis de stress, mas não houve sinais significativos de stress na maior parte da amostra. Há a necessidade de novas pesquisas na área de stress infantil e em sua relação com as dificuldades de aprendizagem, a fim de propiciar a redução de stress, evitando o desenvolvimento de doenças e dificuldades transmitidas através do stress excessivo.

Palavras – chaves: stress infantil, relação stress e dificuldades de aprendizagem.

INTRODUÇÃO

Um dos problemas mais comuns que o ser humano enfrenta é o stress. Todos já o experimentaram, mas poucos o compreendem ou reconhecem o impacto que ele pode ter no corpo (Lipp, 1990).

Segundo Lipp (1991: 20), o stress é “um conjunto de reações que temos quando algo acontece que nos amedronta, nos irrita, excita ou nos faça extremamente felizes”.

Doublet (1998) considera que o stress passou a ser responsável por quase todos os conflitos que afligem a vida moderna. Além do interesse científico e suas contribuições, o mercado econômico, como as indústrias farmacêuticas, vem fabricando inúmeros produtos para combatê-lo.

Em 1926, Selye usou o termo stress e o definiu como conjunto de reações de “Síndrome Geral da Adaptação” ou “Síndrome do Stress Biológico”, e em 1936, sugeriu o uso do termo para definir a síndrome produzida por vários agentes aversivos. (Lipp e Malagris 2001, apud Range, 2001).

Selye (Lipp, 1990), propôs que o stress se caracteriza por três fases: a) alerta, considerada a fase positiva, na qual o organismo sai do equilíbrio interno e isto pode acontecer com todo mundo; b) de resistência, em que a pessoa tenta adaptar-se e gasta muita energia e c) exaustão, na qual o indivíduo fica fortemente desgastado, podendo surgir diversas doenças, como úlcera estomacal ou duodenal, ataque cardíaco, depressão, etc.

O stress em adultos produz muitas conseqüências na vida do indivíduo, e o stress infantil também pode trazer sérias conseqüências no cotidiano da criança.

1. STRESS INFANTIL

O stress infantil está se tornando matéria de grande interesse. Provavelmente isto está ocorrendo como conseqüência da independência precoce, exigida das crianças.

Na infância e na adolescência as transformações ocorrem em grande quantidade e numa velocidade bem maior que na fase adulta, sendo esses períodos propícios ao surgimento de um nível de stress elevado. (FRANCA E LEAL, 2003).

Segundo Lipp e Col (1991), os sintomas do stress em crianças podem ocorrer em níveis físico, psicológico ou em ambos. Os sintomas físicos mais freqüentes são dor de barriga, dores de cabeça, náuseas, hiperatividade, enurese noturna, gagueira, tensão muscular, ranger dos dentes, dificuldade para respirar, distúrbio do sono etc.. Já os sintomas psicológicos são a ansiedade, terror noturno, pesadelos, dificuldades nas relações interpessoais, desânimo, insegurança, agressividade, choro em demasia, tristeza, birra, medo excessivo.

O stress infantil pode ter causas externas e internas, da mesma forma que ocorre com o adulto, mas essas causas são diferenciadas. Segundo Lipp (2003,) os fatores externos que mais causam stress na infância são: mudanças significativas ou constantes, responsabilidades em excesso, excesso de atividades, brigas ou separações dos pais, morte na família, exigência ou rejeição por parte dos colegas, disciplina confusa por parte dos pais, nascimento do irmão, troca de professores ou de escola, mudança de vizinhança, pais e professores estressados, etc.. Os fatores internos são os do próprio indivíduo, que o levam a reagir e a sentir-se de determinado modo. Esses fatores que geram stress na criança são: ansiedade, depressão, timidez, desejo de agradar, medo de fracasso, medo de que os pais morrem e ela ficar só, medo de ser ridicularizada por amigos etc..

Uma situação pode ou não ser estressante para uma criança, dependendo do estágio de desenvolvimento emocional em que ela esteja. Há crianças que parecem ser praticamente invulneráveis às tensões da vida, e outras são sensíveis ao stress. A maneira como a criança lida com seu stress vai determinar sua resistência às tensões da vida adulta.

Independentemente da causa, o stress infantil pode levar a problemas sérios, tais como: asma, úlceras, alergias, distúrbios dermatológicos, diarréia, tiques nervosos, dores abdominais etc.. Quando o sistema imunológico é afetado, a resistência da criança é reduzida e ela se torna vulnerável a qualquer vírus a que esteja exposta, como a gripe, e podem aparecer úlceras, hipertensão arterial, obesidade e bronquite, Isto pode ter como elemento desencadeador uma crise de stress excessivo e prolongado. (Lipp, 1991).

Uma pesquisa realizada por Lipp, Arantes, Buriti e Witzig (2002) sobre a presença de sintomas de stress em 255 escolares de 7 a 14 anos de escolas públicas e particulares. Constatou-se que o tipo de escola tinha forte associação com o nível de stress nos alunos e que o número de meninas com stress era significantemente maior do que nos meninos. Verificou-se que o stress estava presente na primeira série e ia diminuindo gradativamente nas séries posteriores. Os dados indicam uma necessidade grande de se buscar meios para que as crianças sejam incluídas no sistema educacional de um modo mais adequado, evitando assim um aumento do nível de stress da vida escolar.

Diante das várias causas que geram o stress, outro fator importante que pode vir a desencadear um stress mais intenso é a escola, pois é uma instituição que influencia diretamente as crianças. Juntamente com o stress elevado a criança pode apresentar sérias dificuldades de aprendizagem, dificultando ainda mais seu rendimento escolar.

Para que a criança desenvolva comportamentos e habilidades, é preciso que esteja adaptado ao método educacional, e que o ambiente escolar não seja uma fonte geradora de stress na vida do aluno. Um fator importante no sistema educacional é o professor, principalmente nos primeiros anos de ensino.

O comportamento e as atitudes do professor na relação com o aluno é fundamental, pois, segundo Patto (2000), o professor pode projetar nos alunos seus próprios complexos, dificuldades emocionais, conjugais, sociais, repetindo com a criança suas próprias experiências de uma educação equivocada ou sofrida. Isto pode causar confusão no aluno no processo de aprendizagem e a escola pode passar a ser uma fonte geradora de stress.

De acordo com a pesquisa, mostra-se que os alunos que apresentam um baixo rendimento escolar acabam tendo elevado nível de stress, o qual impede uma aprendizagem efetiva.

Experiências estressantes podem vir associadas com a escola e especificamente com algumas disciplinas acadêmicas como Matemática, Português, causando uma generalização tanto da matéria quanto do professor elevando ainda mais as reações de stress.

O stress provocado por diversos fatores do cotidiano esta cada vez mais alto em crianças, tanto no contexto escolar, com relação professor – aluno, conteúdos pedagógicos, relacionamento com colegas como no contexto familiar, com diversos acontecimentos que podem estressar a criança impedindo um bom desenvolvimento.

É importante considerar que o stress infantil não se manifesta isoladamente com a presença de alguns sintomas presentes na criança. É fundamental descobrir a causa do problema para desenvolver estratégias de lidar com um nível de stress mais excessivo, visando promover a saúde da criança para que ela consiga enfrentar as mudanças que ocorrem em sua vida, ajudando a ter um desenvolvimento mais saudável.

É fundamental conhecer fatores de stress e sua relação com as dificuldades de aprendizagem, para poder oferecer melhores condições de aprendizagem nas escolas, respeitando as diferenças de cada criança.

2. APRENDIZAGEM: CONCEITUAÇÃO E BASES GERAIS

Antes de falar em dificuldade de aprendizagem, é necessário falar sobre o que é aprendizagem e como ela ocorre.

O tema aprendizagem começou a ser desenvolvida e pesquisada como ciência no último século, mas somente nas décadas entre 1950 e 1970 o tema ganhou importância no cenário científico (CIASCA, 2003).

O processo de aprendizagem implica em certas integridades básicas, que devem estar presentes, quando as oportunidades são oferecidas para a realização da aprendizagem. Essas integridades segundo Azcoaga (1972 apud Ciasca, 2003) são caracterizadas por três níveis: 1) funções psicodinâmicas: à medida que o organismo internaliza o que foi observado ou experienciado, começa a assimilar o que já sabe com o que esta aprendendo; 2) funções do Sistema Nervoso Periférico: responsáveis pelos receptores sensoriais, que são canais para a aprendizagem; 3) funções do Sistema Nervoso Central: responsável pelo armazenamento, elaboração e processamento da informação.

Assim, dizemos que a criança está pronta para aprender, quando ela apresenta um conjunto de condições, capacidades, habilidades e aptidões consideradas como pré-requisitos para o início de qualquer aprendizagem.

A aprendizagem é, portanto, uma atividade individual que se desenvolve dentro de um sistema único e contínuo.

Sempre que aprendemos algo, ou seja, situações que ocorrem novas aprendizagens, o indivíduo reorganiza suas idéias, estabelecendo relações entre as aprendizagens anteriores e as novas (DROUET, 2003). As primeiras aprendizagens servem de pré-requisitos para as próximas aprendizagens, e isto é essencial para o processo do desenvolvimento do indivíduo.

2.1 DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM

Dificuldades de aprendizagem é um termo que desperta a atenção para a existência de crianças que freqüentam escolas e apresentam vários tipos de dificuldades na escola, embora não apresentam aparentemente defeitos físicos, sensorial, intelectual ou emocional. Essas crianças por muito tempo foram ignoradas e mal diagnosticas

Nos últimos 20 anos, o número de aluno que manifestam dificuldades de aprendizagem tem crescido consideravelmente, e esses alunos muitas vezes perdem o interesse pela escola, ocorrendo além da dificuldade outros problemas relacionados.

Os pioneiros Alfred Strauss, psiquiatra e professor e Heins Werner, psicólogo e professor iniciaram um trabalho de investigação no âmbito das lesões cerebrais e da deficiência mental. Os trabalhos de Goldstein (1939 apud Fonseca, 1995) em adultos cerebralmente traumáticos em conseqüência de acidentes em guerra, influenciaram os estudos de Strauss e Werner em crianças com lesões cerebrais.

Segundo Correia e Martins (1997), caracteriza as dificuldades de aprendizagem em duas perspectivas: orgânica e educacional. Na perspectiva orgânica, as DA são desordens neurológicas que interferem com a recepção, integração ou expressão de informação, caracterizando-se em geral, por uma discrepância acentuada entre o potencial estimulado do aluno e a sua realização escolar. Na perspectiva educacional, as DA refletem uma incapacidade para a aprendizagem da leitura, escrita ou do cálculo ou para a aquisição de aptidões sociais.

Seguindo essa idéia Lozano e Rioboo (1998 apud Osti, 2004) dividem as dificuldades de aprendizagem em duas categorias: permanentes e transitórias ou temporais. A categoria das dificuldades permanentes faz parte do campo da área da educação especial e englobam deficiências neuropsicológicas como deficiência mental (leve, média, severa ou profunda), cegueiras, surdez, mudez, transtornos congênitos da linguagem oral, escrita e cálculo, paralisia cerebral, transtornos psicomotores, autismo, etc. E na categoria das dificuldades transitórias compõem deficiências no desenvolvimento psicomotor como orientação espacial, coordenação motora fina, esquema corporal, linguagem oral (dislalia, disfasia, disfonia), transtornos de compreensão e expressão da linguagem falada e escrita (dislexia e disgrafia), deficiência na habilidade de raciocínio lógico – matemático e solução de problemas. Nesta categoria pode englobar dificuldades devido a baixa qualidade sócio ambiental e cultural, inadaptação familiar, baixa estimulação cognitiva, afetiva, emocional e de linguagem, transtornos de conduta e afetivo emocionais como hiperatividade, depressão, ansiedade, agressividade e baixa tolerância a frustração.

Fonseca (1995) caracteriza os problemas mais comuns das crianças que apresentam D.A., sendo eles:

a) Dificuldade de atenção: apresentando dificuldade em focar ou fixar a atenção;

b) Problemas perceptivos: sendo os mais freqüentes visual e auditivo;

c) Problemas emocionais;

d) Problemas de memória: apresentando freqüentemente problemas de memorização, conservação, consolidação e retenção das informações recebidas.

e) Problemas cognitivos;

f) Problemas psicolingüísticos; apresentando um déficit nos processos receptivos, integrativos e expressivos em conjunto com as desordens da linguagem falada e da linguagem escrita;

g) Problemas psicomotores etc..

Com relação sobre a incidência de crianças que apresentam DA em diversos países foi sistematicamente pesquisada e obtiveram-se dados como: Inglaterra, 14%; França, 12 – 14%; Canadá, 10 – 16%; Estados Unidos, 15% de crianças com dificuldades escolares nas séries iniciais de educação (HARRIS, 2000).

No Brasil, o problema estende-se á dificuldade principal de separar-se o distúrbio de aprendizagem de outros rótulos, além de termos pouca adequação entre a idade cronológica e a série escolar. Nossas crianças apresentam o problema mais tardiamente do que outras populações, porque o distúrbio ou a dificuldade escolar manifesta-se após a entrada da criança na escola.

A identificação das dificuldades de aprendizagem no ambiente escolar não se constitui em tarefa fácil, e muitas vezes, a alternativa dada envolve a colocação das crianças em programas especiais de ensino como o proposto para as salas de reforço ou de recuperação paralela, destinadas a alunos com dificuldades não superadas no cotidiano escolar. (Garcia, 1998). E isso pode gerar além da dificuldade de aprendizagem o fracasso escolar, prejudicando não só a vida escolar do aluno como também outros aspectos sociais, emocionais, familiares, etc.

A dificuldade de aprendizagem quase sempre se apresenta associada a outros comprometimentos. Estudos têm revelado que comumente as crianças com dificuldades escolares manifestam paralelamente prejuízos de ordem emocional e comportamental (GRAMINHA, 1994). Com essa afirmação, pode-se destacar também que a criança além de apresentar uma dificuldade na área de aprendizagem também pode ocasionar níveis elevados de stress, prejudicando ainda mais o seu desempenho escolar.

Este estudo sobre o stress infantil e sua relação com as dificuldades de aprendizagem é de grande importância para as diversas áreas de conhecimento, principalmente no que se refere à prevenção.

Se atualmente, tem-se um número de adolescentes e adultos com níveis elevados de stress e apresentando grandes dificuldades na aprendizagem, causando sérias conseqüências, é imprescindível que seja feita um diagnóstico precoce e a prevenção que pode se dar na infância, identificando suas causas.

Faz – se necessário estudo aprofundado no que se refere ao stress infantil e sua relação com as dificuldades de aprendizagem, ajudando na identificação das causas para que possam ser trabalhadas, tanto no contexto escolar, familiar, social, etc.

Pensando sobre o stress infantil e sua relação com as dificuldades de aprendizagem, o presente estudo teve como objetivo identificar a relação entre stress infantil e dificuldades de aprendizagem em crianças de idade escolar.

METODOLOGIA

Sujeitos

Participaram como sujeitos da pesquisa, 10 crianças que caracterizava uma amostra de conveniência, e freqüentavam do pré a 7º série.

Com relação ao gênero, 60% (F = 6) dos sujeitos eram gênero masculino e 40 % (F=4) eram do gênero feminino.

Com relação à idade, esta variou entre 6 e 14 anos com média de idade de 9 anos (dp = 0,42).

Instrumento

O instrumento utilizado foi o Inventário de Sintomas de Stress Infantil, produzido por Lipp e Lucarelli (1999). Este inventário tem por objetivo verificar a existência ou de não de stress em crianças de 6 a 14 anos, possibilitando que determine o tipo de reação mais freqüente na criança, o que facilitará o controle adequado do stress. Esse instrumento é composto por 35 itens relacionados às seguintes reações do stress: físicas, psicológicas, psicológicas com componentes depressivos e psicofisiológicas. Cada item contém uma frase, na qual se descreve um sintoma. Cada um deles possui um círculo dividido em quatro partes, que serão pintadas pela criança conforme a intensidade do sintoma sentido pela criança. A apuração dos resultados foi feita através da contagem de pontos atribuídos à escala Likert, sendo que cada quarto de círculo equivale a um ponto.

Procedimento

O instrumento foi aplicado individualmente no horário de sua sessão com o acompanhamento do pesquisador ou psicopedagogo que atende a criança. Este deverá ler as instruções, esclarecer as dúvidas das crianças ou adolescente e esperar que estes terminem de responder. Em princípio, foram entregues os lápis de cor para cada aluno e, em seguida, foram lidas as instruções para a realização do instrumento, explicando como preencher os círculos correspondentes aos sintomas e a intensidade do mesmo. Após a coleta de dados, as respostas foram analisadas através da prova estatística t (student).

RESULTADOS

O Gráfico 1, mostra a relação entre Stress Infantil e Dificuldades de Aprendizagem (Disgrafia). Na amostra, dois sujeitos apresentaram a Dificuldade de Aprendizagem (Disgrafia). O sujeito 1 teve maior pontuação nas reações psicológicas (17 pontos) e nas reações psicológicas com componentes depressivos (17 pontos), mas não obteve níveis elevados de stress. O sujeito 2 teve maior pontuação nas reações psicológicas (9 pontos), mas não obteve níveis elevados de stress.

Pode-se observar neste gráfico que apesar das crianças apresentarem uma dificuldade de aprendizagem, este não está influenciando para que essas crianças obtenham níveis elevados de stress.

O Gráfico 2, mostra a relação entre Stress Infantil e Dificuldades de Aprendizagem (Dificuldade em Leitura e escrita). Na amostra quatro sujeitos apresentaram a Dificuldade em Leitura e Escrita. O sujeito 1 obteve maior pontuação nas reações psicológicas (23 pontos), preenchendo 7 círculos cheios da escala total, sendo que a pontuação mínima é de 7 círculos cheios, apresentando níveis elevados de stress. As respostas que mais prevaleceram foram: “Fico Preocupado com coisas ruins que podem acontecer”, “sinto que tenho pouca energia para fazer as coisas”, “não tenho vontade de fazer as coisas”. O sujeito 2 obteve maior pontuação nas reações psicológicas (25 pontos), preenchendo 13 círculos cheios da escala total, sendo que a pontuação mínima é de 7 círculos cheios, apresentando níveis elevados de stress. As respostas que mais prevaleceram foram: “Fico Preocupado com coisas ruins que podem acontecer”, “tenho dificuldade em prestar atenção”, “sinto aflição por dentro”. O sujeito 3 obteve uma maior pontuação nas reações psicofisiológica (6 pontos), mas não obteve níveis elevados de stress. O sujeito 4 obteve uma pontuação maior nas reações psicológicas e reações psicofisiológica (14 pontos), mas não obteve níveis elevados de stress.

Pode-se observar no gráfico que as crianças que apresentaram dificuldades de leitura e escrita e apresentam níveis elevados de stress, está tendo um prejuízo nos aspectos sociais e emocionais da sua vida, com predominância nas reações psicológicas.

O Gráfico 3, mostra a relação entre Stress Infantil e Dificuldades de Aprendizagem (Déficit de Atenção). Na amostra um sujeito apresentou Déficit de Atenção. O sujeito 1 obteve uma maior pontuação nas reações psicofisiológica (17 pontos), mas não obteve níveis elevados de stress.

Pode-se observar neste gráfico que a dificuldade de aprendizagem não está influenciando a criança a obter níveis elevados de stress, porém os pais e os profissionais que convivem com a criança precisa ficar atenta para que estes sintomas não aumentem.

O Gráfico 4, mostra a relação entre Stress Infantil e Dificuldades de Aprendizagem (Dificuldade de Concentração). Na amostra dois sujeitos apresentaram a Dificuldade de Concentração. O sujeito 1 obteve maior pontuação nas reações psicológicas (23 pontos), preenchendo 7 círculos cheios da escala total, apresentando níveis elevados de stress. As respostas que mais prevaleceram foram: “Fico Preocupado com coisas ruins que podem acontecer”, “estou o tempo todo me mexendo e fazendo coisas diferentes”. O sujeito 2 obteve níveis elevados de stress nas reações psicológicas (26 pontos), preenchendo 10 círculos cheios da escala total, sendo que a pontuação mínima é de 7 círculos cheios. As respostas que mais prevaleceram foram: “Fico Preocupado com coisas ruins que podem acontecer”, “tenho dificuldade em prestar atenção”, “fico nervoso com tudo”.

Pode-se observar no gráfico que as crianças que apresentaram dificuldade de concentração apresentam níveis elevados de stress com predominância nas reações psicológicas, causando um prejuízo significativo nos aspectos sociais e emocionais de sua vida.

O Gráfico 5 mostra a relação entre Stress Infantil e Dificuldades de Aprendizagem (Dificuldade em Raciocínio Lógico - Matemático). Na amostra um sujeito apresentou Dificuldade em Raciocínio Lógico - Matemático. O sujeito 1 obteve maior pontuação nas reações psicofisiológica (14 pontos), mas não obteve níveis elevados de stress.

Pode-se observar no gráfico que o sujeito que apresentou dificuldade em raciocínio lógico – matemático não está influenciando a criança a obter níveis elevados de stress, porém os pais e os profissionais que convivem com a criança precisa ficar atenta para que estes sintomas não aumentem.

DISCUSSÃO E CONCLUSÃO

Havendo em 40% da amostra níveis elevados de stress, não foi considerado significativo por ser uma amostra pequena. Mas pode-se destacar aspectos relevantes nesta pesquisa. Houve uma prevalência de reações de respostas nas reações psicológicas. Todos da amostra estudada obtiveram pontuação nestas categorias mais elevadas, comparando entre outras reações: física, psicológica com componente depressivo.

Nas reações psicológicas, as respostas mais freqüentes foram: “Fico Preocupado com coisas ruins que podem acontecer”, “fico nervoso com tudo”.

Pesquisas realizadas por psicólogos, pedagogos e psicopedagogos, também foram comprovadas a prevalência das reações psicológicas nas crianças. Estudo feito por Vilela (1995) que realizou uma pesquisa com 40 crianças da 1ª à 4ª série de escolas particulares e públicas de Campo Grande (MS), verificou-se que 62% da amostra total apresentava sintomas de stress. Dentre os sintomas apresentados, as reações psicológicas foram os mais comuns, com 60% do total da amostra.

Não foram encontradas na literatura pesquisas para identificar a relação do Stress Infantil e Dificuldades de Aprendizagem, mas autores citam que a escola é uma instituição que influencia diretamente a vida da criança. E quando ela não vai bem na escola, conseqüentemente pode acarretar em níveis elevados de stress.

Por mais esforçada e inteligente que seja uma criança, dificilmente irá bem na escola durante uma crise de stress, pois os sintomas são incompatíveis com o bom desempenho escolar (TRICOLI, 2003). Isto pode ser comprovado nesta amostra, pois as crianças que apresentam dificuldades de aprendizagem, algumas delas (40%) apresentaram níveis elevados de stress. Isto quer dizer que além da dificuldade de aprendizagem apresentada pela criança, fatores emocionais negativos também estão envolvidos no dia a dia da criança.

Quando a criança está apresentando alguma dificuldade de aprendizagem e ela não consegue lidar com isso, poderá desencadear níveis elevados de stress. Lucarelli (2003), diz que se a criança não consegue lidar e se adaptar as diversas situações do dia-a-dia, acaba desenvolvendo elevadas reações de stress como físico, psicológico, psicológico com componentes depressivo e psicofisiológicos. E isso pode acontecer com as crianças desta pesquisa se não forem observadas pelos pais e professores quando está passando por situações difíceis.

A maneira como a criança lida com seu stress, vai determinar sua resistência às tensões da vida adulta. Segundo Compas & Phanes (1991; apud Lemes et al, 2003), experiências estressantes no início do desenvolvimento pode contribuir para ocorrência de problemas emocionais e comportamentais na vida adulta.

E as crianças estudadas nesta pesquisa podem vir a apresentar problemas emocionais como: ansiedade, depressão, medo excessivo, interferir no processo de ensino - aprendizagem se não for tratado quando estiver apresentado sinais de stress significativo.

Para compreender os fatores estressantes e sua relação com as dificuldades de aprendizagem entre as crianças, são necessárias novas pesquisas na área de stress infantil e educação, mostrando a necessidade da avaliação do stress na infância como forma de contribuição para especificar as intervenções (orientação de pais, professores, diretores, área clinica, etc), a fim de propiciar a redução de stress, identificando quais os estressores mais relevantes no cotidiano da criança, e se esta causando prejuízo significativo em sua vida.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AZCOAGA, T. Sistema nervioso y aprendizaje. In Ciasca (org). Distúrbios de aprendizagem: proposta de avaliação interdisciplinar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.

CIASCA, S.M. (org) Distúrbios de aprendizagem: proposta de avaliação interdisciplinar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.

CORREIA; L.M, MARTINS; A.P. Dificuldade de aprendizagem. Coleção Educação. Porto Editora, 1997.

DOUBLET, S. The problem with stress. Artigo publicado na internet: http/www.freeyelow.com/members5/doublet/problem. Htm; texto disponível, 1998.

DROUET, R.C.R. Distúrbios de Aprendizagem. São Paulo: Editora Àtica, 2003.

FRANCA,C.A; LEAL, E.Q. A influência do stress excessivo no desenvolvimento da criança. In Lipp. M.E. (org). Mecanismos neuropsicológicos do Stress: teoria e aplicações clínicas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.

FONSECA, V da. Introdução às Dificuldades de Aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

GARCIA, J. W. Manual de dificuldade de aprendizagem: linguagem, leitura, escrita e Matemática. Porto Alegre: Artmed, 1998.

GRAMINHA, S. S. V. Problemas emocionais/comportamentais em uma amostra de escolares: Incidência em função do sexo e idade. Psico, 25,49-74, 1994.

HARRIS, J.C. Developmental Neuropsychiatry: Assement, diagnosis and Treatment of Develoment Disorders. Vol. II, New York, Oxford University Press, 2000.

LEMES, S.O. Stress infantil e desempenho escolar – avaliação de crianças de 1º a 4º série de uma escola pública do Município de São Paulo. Estudos de Psicologia, vol. 20, nº 1, p. 5-14, 2003.

LIPP, Marilda E. Novaes. Crianças estressadas: causas, sintomas e soluções. 2º edição. Campinas: Editora Papirus, 2003.

LIPP, Marilda E. Novaes (1990). Como enfrentar o stress. 4º edição, São Paulo: Editor Ícone, 1990.

LIPP, M.E.N., SOUZA, E.A.P.S., ROMANO, A.S.F. E COVOLAN, M.A. (1991). Como enfrentar o stress infantil. São Paulo: Editor Ícone, 1991.

LIPP, M.E.N. MALAGRIS, L.E.N. O Stress emocional e seu tratamento. In Rangé, B (org). Psicoterapias Cognitivo-comportamentais: um diálogo com a psiquiatria. Porto Alegre: Artmed, 2001.

LOZANO; A, RIOBBO, C. O que é dificuldade de aprendizagem. In Osti A. As dificuldades de aprendizagem na concepção do professor. Dissertação Mestrado – UNICAMP – Faculdade de Educação, 2004.

LUCARELLI, M.D.M. O diagnóstico do Stress Infantil. In Lipp M.E (org). Crianças estressadas: causas, sintomas e soluções – 2º edição. Campinas: Papirus, 2003.

RANGÉ, B. Psicoterapias Cognitivo-comportamentais: um diálogo com a psiquiatria. Porto Alegre: Artmed, 2001.

Sílvia Verônica Pacanaro - Psicóloga recém-formada pelo Centro Universitário Padre Anchieta - Jundiaí. Este Artigo é fruto do trabalho de conclusão de curso (tcc), desenvolvido em 2004, sob a Orientação da Dra. Eliane Porto Di Nucci: Doutora em Educação – UNICAMP. Docente da universidade São Francisco e docente do Centro Universitário Padre Anchieta.