Contributos
do Jogo no Desenvolvimento da Criança
Autora:
Beloni Maria Nardi
Introdução
O desenvolvimento da criança e a relação com o
brincar e o jogo é de fundamental importância para o profissional
de psicopedagogia possibilitando a compreensão das relações
e entendimento através do jogo e do que a criança quer
nos dizer quando brinca, quando joga. Essa atividade pode nos dar respostas
quando a criança não consegue expressar-se verbalmente
ou por ser muito pequena ou quando por algum motivo ou algo muito marcante
negativamente a impede de expressar-se verbalmente e o faz através
do jogo. Por esse motivo ressalta-se da importância do estudo
de teorias como: Piaget, Vygotsky e Winnicott entre outros. Nos interessam
suas idéias e experiências sobre o assunto o que nos permite
ter uma visão mais ampla e clara sobre o tema e que poderá
contribuir em nossas atividades.
Desenvolvimento
Tratando-se dos estágios gerais da atividade representativa para
Piaget há três formas de pensamento representativo que
são: a imitação, jogo simbólico e a representação
cognitiva, solidária entre si e que evoluem em função
do equilíbrio progressivo da assimilação e acomodação,
(dois pólos da adaptação) e que determina o desenvolvimento
sensório-motor.
A formação da linguagem, dos signos é algo social
e coletivo. Através da evolução de seu pensamento
a criança vai melhorando sua comunicação verbal
com isso adapta-se às operações lógicas,
porém inadequada à descrição individual
de objeto ou a representação espacial infralógico.
Não conseguindo ainda descrever detalhadamente experiências
pessoais vividas.
Piaget caracteriza os jogos em três grandes tipos de estruturas:
jogos de exercício, simbólico e de regras, constituindo
os jogos de “construção” a transição
entre os três e as condutas adaptadas.
O jogo de exercício que vai entre (0-2 anos), é, portanto
o primeiro a aparecer e o que caracteriza o desenvolvimento pré-verbal
ao qual tem início o jogo simbólico.
Na criança, a atividade lúdica supera os esquemas reflexos
e prolonga quase todas as ações, com isso a noção
do jogo de “exercício” pode ser, assim pós-exercício
marginal, tanto quanto pré-exercício. Nesta fase a criança
é egocêntrica sendo que ela brinca sozinha ou com a mãe.
O jogo simbólico tem início entre (2-6 anos), onde o símbolo
implica a representação de um objeto ausente, (o jogo
de faz de conta) visto ser comparação entre um elemento
dado e um elemento imaginado, (representação fictícia),
porquanto essa comparação consiste numa assimilação
deformante. Ex: a criança que desloca uma caixa imaginando ser
um automóvel representa simbolicamente, este último pela
primeira e satisfaz-se com uma ficção, pois o vínculo
entre o significante e o significado permanece subjetivo.
A diferença entre o símbolo e o jogo de exercício
existe um intermediário, que é o símbolo em atos
ou em movimentos sem representação.
A terceira grande categoria é o jogo de regras. Ao invés
do símbolo o jogo de regras supõe, necessariamente, relações
sociais ou interindividuais e tem início a partir dos sete anos.
A regra é imposta pelo grupo, de tal sorte que, sua violação
representa uma falta. Os jogos são transmitidos de geração
em geração.
Exercício, símbolo e regra, parecem ser as três
fases sucessivas que caracteriza as grandes classes de jogos, do ponto
de vista de suas estruturas mentais. Essas fases assimilam uma transformação
interna na noção de símbolo, no sentido da representação
adaptada.
O sistema dos signos permite a formação do pensamento
racional, enquanto que o símbolo é um significante “motivador”
que testemunha uma semelhança qualquer com o seu significado.
Para Piaget a assimilação incorpora o objeto a esquemas
já existentes que lhe dão um significado por isso a representação
implica um duplo jogo de assimilações e acomodações
atuais e passadas ao qual o equilíbrio entre elas envolve toda
a primeira infância.
Com o aumento do equilíbrio consegue alcançar um certo
grau de permanência, imitação e jogo que se integram
as inteligências, alcançando o nível operatório,
devido à reversibilidade que caracteriza o equilíbrio
(a imitação torna-se refletida e o jogo torna-se construtivo).
Na segunda fase, entre (4-7 anos) de idade ocorrem transformações
simultâneas, no jogo, na imitação e a representação
das noções.
O pensamento egocêntrico caracteriza-se por suas contrações,
ao invés de adaptar-se a realidade, assimila á ação
deformando as relações segundo o seu ponto de vista (é
o mundo do faz de conta) havendo por isso desequilíbrio entre
assimilação e acomodação.
Aos sete, oito, anos o equilíbrio permanece mais estável
havendo a reintegração e imitação da inteligência
real do jogo e aos onze, doze anos é que as ultimas formas de
jogo simbólico é finalizado com o início da inteligência.
Vygotsky em oposição à teoria de Piaget o critica
pela falta de estudos sérios quanto à questão de
aprendizado e desenvolvimento, e também de clareza teórica
das teorias do desenvolvimento aplicados na educação.
Acredita que os processos de desenvolvimento da criança são
independentes do aprendizado. Considera o aprendizado um processo externo
e independente e que não se envolve ativamente no desenvolvimento
da criança.
Ex: dedução, compreensão, abstração,
interpretação de causalidade, entre outros, ocorrem por
isso mesma sem influência de aprendizado. Para Vygotsky o desenvolvimento
do “Ser” foi ocorrendo com a história e a transição
cultural da psicologia humana. Procura demonstrar as implicações
psicológicas, por ser o homem um ser participante ativo de sua
própria existência. Pensa que a criança em cada
estágio de seu desenvolvimento adquire os meios para intervir
de maneira competente em seu mundo e em si mesma. Para isso sendo importante
criar situações estímulos auxiliares ou “artificiais”
e que podem ser alteradas pela ação humana. Estímulos
artificiais, que podem ser considerados da cultura da criança
como a linguagem e também os estímulos produzidos pela
própria criança como: o uso do próprio corpo, um
sabugo que vira boneco, o carrinho com uma caixa... Tornando o brinquedo
em um meio de desenvolvimento cultural.
Piaget e Vygotsky são observadores do comportamento infantil
e compartilham a importância do organismo ativo. Vygotsky vai
além pela sua visão dialética a qual o ser tem
a capacidade de raciocinar usa a lógica, argumenta e discute
situações e tem também a capacidade de se adaptar
as diversas situações conforme o meio e o contexto cultural
e suas transformações. Diz que, os sistemas funcionais
do adulto são formados pelas experiências da criança
em sua interação social achando essa mais importante que
a teoria Piagetiana.
Piaget coloca em destaque os estágios universais e com um suporte
biológico enquanto que Vygotsky preocupa-se com as interações
sociais em transformação e o biológico do comportamento
humano. Diz que: “O meio ambiente não se resume só
a situação objetiva a qual o organismo encontra-se. O
meio efetivo é produto de uma interação entre características
do organismo para experimentar a situação objeto”,
não podendo existir um esquema universal de desenvolvimento interno
e externo para todas as crianças.
A criança projeta-se nas atividades adultas de sua cultura através
do brinquedo e ensaia papeis e valores (pai, mãe, irmãos,
professores...), com o brinquedo a criança antecipa o desenvolvimento
adquirindo motivação e habilidades necessárias
a sua convivência social.
Winnicott também acredita na interação do adulto
como exemplo para o bom desenvolvimento da criança inclusive
ressaltando a importância da boa mãe (aquela que percebe
modificações em seu filho e que lhe serve de exemplo).
Vygotsky acha pobre e incorreto definir o brinquedo como objeto de prazer
para a criança. Considera que há jogos que não
são prazerosos e inclusive podem causar desprazer. Diz também
que o brincar da criança é o brinquedo sem ação,
(pura imaginação).
Para Winnicott, os bebes num primeiro momento como é sabido assim
que nascem tendem a usar o punho, e os dedos, em estimulação
da zona erógena oral, para satisfação dos instintos.
A primeira possessão: a natureza do objeto; a capacidade do bebe
de reconhecer o objeto como “não eu”; a localização
do objeto fora, dentro, na fronteira; a capacidade de criar, imaginar,
inventar, originar, produzir um objeto de um tipo afetuoso de relação
de objeto.
Considera o objeto e fenômeno transacional a área intermediária
entre a experiência e erotismo oral, entre a atividade criativa
primária e a projeção do que já foi introjetado,
o desconhecido primário de divida e reconhecimento desta.
O objeto transacional para Winnicott é muito importante para
o desenvolvimento saudável da criança e para o equilíbrio
do ser. A criança geralmente usa como objeto transacional um
paninho, bico, franjas do travesseiro... Segundo as pesquisas do autor
se por algum motivo a criança não tiver o objeto transacional
à criança mais tarde apresentará algum tipo de
distúrbio, desequilíbrio, por ser segundo “ele”
o primeiro objeto fora do eu e que contribui como um apoio, um afeto,
uma segurança para a criança. Diz também que a
maternagem é muito importante na formação saudável
do bebe, isto é que a “mãe” precisa ter a
sensibilidade de perceber se seu filho está bem.
Vygotsky opõem-se a biogenética da recapitulação
não identificando o desenvolvimento histórico da humanidade,
com os estágios individuais de desenvolvimento. Acha que as habilidades
humanas não estão presentes no recém nascido e
que só começam a partir dos três anos de idade.
Este é uma ponte de divergência entre Vygotsky e Piaget
que acredita nos estágios de desenvolvimento e Winnicott que
acredita no objeto transacional como primeiro objeto não “eu”.
Vygotsky acha que quando a criança imita no seu brincar o comportamento
dos mais velhos está gerando oportunidade de desenvolvimento
intelectual. No começo as brincadeiras são lembranças
e reproduções de situações reais, após
entra em jogo a dinâmica da imaginação e do reconhecimento
de regras implícitas que dirigem as atividades reproduzidas em
seu jogo, adquirindo um controle elementar do pensamento abstrato.
Para Winnicott o desenvolvimento intelectual, cognitivo, e social dependem
essencialmente da relação da criança com o objeto
transacional, que é o ponto culminante do bom desenvolvimento
do indivíduo e a partir deste: a brincadeira de imitar a (mãe,
irmãos, o pai, professor...), sendo estas também lembranças
de como os adultos o tratavam e tratam. O brincar contribui para o crescimento
e a saúde, conduzindo aos relacionamentos grupais e pode ser
uma forma de comunicação na psicoterapia.
Winnicott estudou com afinco o brincar na infância, e interpretou
este ato como uma liquidação de conflitos, e também
como forma de comunicação.
O natural é brincar, se a criança não brinca, algo
de patológico está ocorrendo e precisa investigar.
Vygotsky e Winnicott referem-se a pontos de referência para o
desenvolvimento equilibrado do ser humano como: zona proximal e zona
transacional que segundo suas pesquisas seriam o que permite o desenvolvimento
em equilíbrio. Falam também da imitação
e da referência do adulto, para a criança ao brincar, gerando
oportunidade de desenvolvimento intelectual ao acessar lembranças,
ao usar a imaginação e ao usar regras, o que irá
contribuir na instrução escolar.
Considerações
Finais
Pode-se dizer que o estudo das três teorias é muito importante
para entendermos o brincar e o jogo no desenvolvimento da criança.
Cada um dos teóricos apresenta pontos importantes do desenvolvimento
da criança e que se unirmos os três saberes teremos uma
teoria mais completa sobre o desenvolvimento da criança.
“Koffka, diz que o desenvolvimento baseia-se em dois processos
diferentes, as relacionadas, e influentes, maturação que
envolve o amadurecimento do sistema nervoso, e aprendizado. Tenta-se
assim superar os extremos das outras visões, combinando-as. O
novo desta terceira posição é que combina os dois
pontos de vista, e isso indica que eles não são opostos
nem excludentes”. (Kaffka, citado por Vygotsky na p. 106 do livro:
a Formação Social da Mente“).
Referências Bibliográficas
PIAGET, J. (1946). “A Formação da Simbologia na
Criança”, Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
VYGOTSKY, L. “A Formação Social da Mente”.
São Paulo: Martins Fontes, 1984.
WINNICOTT, D. “O Brincar e a Realidade”. Rio de Janeiro:
Imago, 1975.
Beloni
Maria Nardi - Acadêmica de Psicopedagogia Clínica e
Institucional do Centro Universitário Lasalle de Canoas –
UNILASALLE, orientada pela Professora Dra. Cecília Marió
Michels na disciplina de Fundamentos Psicopedagógicos do Jogo.