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Atividades psicomotoras no contexto escolar Autoras: Joselma Lima, Queila Dourado, Severiana Rocha Da civilização oriental à civilização ocidental, passando pela Idade Média, até aos nossos dias, a significação do corpo sofreu inúmeras transformações. Porém, apenas no século XIX o corpo começou a ser estudado. No Brasil, nos anos 60, com o advento da psicomotricidade, era utilizada em forma de recursos coadjuvantes à outras especialidades. Em nível de graduação “latu sensu”, a psicomotricidade surgiu em 1990 no IBMR (currículo adaptado da formação na França). E o que é psicomotricidade? Assim conceitua a S. B. P.[1]: “Ciência que tem como objeto de estudo o homem através do seu corpo em movimento e em relação ao seu mundo interno e externo, bem como suas possibilidades de perceber, atuar, agir com o outro, com os objetos e consigo mesmo. Portanto, é um termo empregado para uma concepção de movimento organizado e integrado, em função das experiências vividas pelo sujeito cuja ação é resultante de sua individualidade, sua linguagem e sua socialização.” Segundo BERRUEZO[2] (1995): “Psicomotricidade é um foco da intervenção educacional ou terapia cujo objetivo é o desenvolvimento da capacidade motriz, expressiva e criativa a partir do corpo, o que o leva centrar sua atividade e se interessar pelo movimento e o ato, que é derivado de disfunções, patologias, excitação (estímulos), aprendizagem, etc.” O progresso das ciências biológicas e da saúde têm prometido e permitido ao homem uma vida melhor. Essa importância dada ao corpo, através das atividades psicomotoras, observando estreita relação entre corpo, mente, movimento e pensamento, promovem bem-estar físico e mental ao indivíduo. Essa idéia de movimento surgiu decorrente da concepção fundamental de que a atividade motora e a mental estão em constante inter-relação podendo uma influenciar beneficamente no desenvolvimento global da outra, numa tentativa de compreender o ser humano em sua unidade e globalidade. Henri Wallon[3] é, provavelmente, o grande pioneiro da psicomotricidade, vista como campo científico. Ele iniciou (1925) uma das obras mais relevantes no campo do desenvolvimento psicológico da criança. Como médico, psicólogo e pedagogo, impulsionou as primeiras tentativas de estudo da reeducação psicomotora. Wallon e Piaget[4] colocam em evidência o papel da atividade corporal no desenvolvimento das funções cognitivas. WALLON (1942) afirma que o pensamento nasce da ação para retornar a ele. PIAGET (1936) sustenta que, mediante a atividade corporal a criança pensa, aprende, cria e enfrenta problemas de sua vida cotidiana. No âmbito escolar, podemos verificar que há alunos correndo, brincando e participando de todos os jogos propostos, apresentando às vezes dificuldades, que podem ser sanadas mediante interação da criança com atividades que favoreçam ampliar seu potencial psicomotor, cognitivo e afetivo. “Os motivos dessas dificuldades são diversos, e vão desde problemas mais sérios de incapacidade intelectual, até pequenas desadaptações que, quando não cuidadas, se transformam em verdadeiros obstáculos para uma aprendizagem significativa.” (OLIVEIRA, 1997) Existem alunos que apresentam déficit no desenvolvimento das funções neuropsicológicas devido a vários fatores, como má alimentação, doenças patológicas, perturbações emocionais, entre outros, e isto pode influenciar no seu aprendizado. “Muitos professores, preocupados com o ensino das primeiras letras, e não sabendo como resolver as dificuldades apresentadas por seus alunos, várias vezes os encaminham para as diversas clínicas especializadas que os rotulam como “doentes”, incapazes ou preguiçosos. Na realidade, muitas dessas dificuldades poderiam ser resolvidas dentro da própria escola.” (OLIVEIRA, 1997) Deve-se notar, no entanto, que não se pretende que o professor faça sessões de psicoterapia com o aluno. Uma ação pedagógica faz-se necessária enfocando uma educação global, respeitando as potencialidades e limitações do grupo. Desde o início da vida, a criança passa pela fase de vivência corporal. Ela trabalha seu corpo em busca de respostas. Nesse período, a criança – através dessa movimentação – vai enriquecendo a experiência subjetiva de seu corpo, ampliando assim as potencialidades motoras espontâneas e coordenadas. Considerando a criança como ser integral desse processo, cabe à escola criar o máximo de situações onde ela interaja de maneira atrativa e prazerosa, com atividades que favoreçam o seu amadurecimento psicomotor. Segundo LAPIERRE (1986), a educação psicomotora tem por objetivo não só a descoberta do seu próprio corpo e capacidade de execução do movimento, mas ainda a descoberta do outro e do meio ambiente, utilizando melhor suas capacidades psíquicas, facilitando a aquisição de aprendizagens posteriores. É através da atividade psicomotora, principalmente nos jogos e atividades lúdicas que a criança irá explorar o mundo que a cerca, diferenciando aspectos espaciais, reelaborando o seu espaço psíquico, ligações afetivas e domínio do seu corpo. Se o professor desenvolve sua prática tendo por referência teórica a idéia de que o conhecimento é construído pelo aluno em situações de interação, precisará dispor de estratégias que ajudem a compreender o que cada um já traz consigo, elevando suas potencialidades. Daí, também, a importância da escolha das atividades curriculares. Elas devem contemplar a psicomotricidade a partir de uma relação entre o conhecimento prévio do professor frente às etapas do desenvolvimento motor infantil. Piaget trata das fases motoras da criança desde seu nascimento. Um bebê sente o meio ambiente como fazendo parte dele mesmo. À medida que cresce, com um maior amadurecimento de seu sistema nervoso, vai ampliando suas experiências e passa, pouco a pouco, a se diferenciar de seu meio ambiente. Chega, pois, à representação dos elementos do espaço, descobrindo formas e dimensões e com isto passa a aperfeiçoar e refinar seus movimentos adquirindo uma maior coordenação dentro de um espaço e tempo determinado. A psicomotricidade surgiu, enfim, como um meio de combater a inadaptação psicomotora pois apresenta uma finalidade reorganizadora nos processos de aprendizagem de gestos motores. É um alicerce sensório-perceptivo-motor indispensável na contribuição do processo de educação e reeducação psicomotoras, pois atua diretamente na organização das sensações, das percepções e nas cognições, visando a sua utilização em respostas adaptativas previamente planificadas e programadas. Acreditamos que o educador não deve se preocupar só com a aprendizagem específica de determinada tarefa. Existem dificuldades que resistem a uma pedagogia normal. É por isto que acreditamos que é melhor “prevenir que remediar”, isto é, ele deve – antes de mais nada – promover condições para esta aprendizagem se torne satisfatória. O professor deve ser sempre aberto às indagações e dúvidas, tratar os alunos com respeito e consideração, respeitar o ritmo de cada um. Acompanhar a criança num processo psicomotor, possibilita-lhe a uma melhor estruturação tanto mental quanto corporal. De posse a uma pedagogia que dê lugar a criatividade, a espontaneidade, conseqüentemente, a criança fortalecerá sua auto-estima, realizará novas descobertas, construirá relações de confiança consigo mesma e com os outros, e avançará nos demais aspectos, tanto cognitivos quanto motores. Concluímos com OLIVEIRA (1997): “Não adianta somente discutirmos os porquês das dificuldades de aprendizagem. É preciso propor caminhos que possam, se não solucionar, pelo menos diminuir alguns destes problemas que são tão dolorosos para a criança – como ver suas chances diminuídas por problemas que são alheios a ela.” REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BERRUEZO, Pedro Pablo. Retirado em 20 de novembro de 2004, de: http://www. navinet.com.br/~gualberto/ FONSECA, Vítor da. Manual de observação psicomotora: significação psiconeurológica dos fatores psicomotores. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. GADOTTI, Moacir. História das Idéias Pedagógicas. São Paulo: Ática, 2002. 8ª edição. GALVÃO, Izabel. Henri Wallon: uma concepção dialética do desenvolvimento infantil. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995. (Educação e conhecimento). LA TAILLE, Yves de. Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. / Yves de La Taille, Marta Kohl de Oliveira, Heloysa Dantas. São Paulo: Summus, 1992. LAPIERRE, A. e AUCOUTURIER, B. A simbologia do movimento: psicomotricidade e educação. Trad. de Márcia Lewis. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986. LAPIERRE, André. A educação psicomotora na escola maternal – uma experiência com os “pequeninos”. Trad. de Ligia Elizabeth Henk. São Paulo: Manole Ltda., 1986. OLIVEIRA, Gislene de Campos. Psicomotricidade: educação e reeducação num enfoque psicopedagógico. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. OLIVEIRA, Sonia Onofri. Retirado em 20 de novembro de 2004, de: http://www.gota.com.br /frame/news_read.pl?id=4 REGO BARROS, Darcymires. A reeducação Psicomotora na Terceira Idade. Tese de Concurso Público em Livre Docência. Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro, 1992. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICOMOTRICIDADE. Retirado em 20 de novembro de 2004, de: http://www.psicomotricidade.com.br/ -------------------------------------------------------------------------------- [1] Sociedade Brasileira de Psicomotricidade, criada em 1980. [2] Pedro Pablo BERRUEZO. Madrid, 1995. [3] Parisiense, viveu de 1879 a 1962. Presidiu a reforma do ensino francês, de teor tão avançado que permanece até os dias de hoje parcialmente irrealizada. [4] Jean Piaget(1896-1980) psicólogo suíço. Ele e seus colaboradores publicaram mais de trinta volumes sobre os processos de construção do pensamento nas crianças. Artigo
publicado em 18 de abril de 2011 |
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