Análise das Alterações Lingüísticas em
Afásico sem Tratamento Fonoaudiológico

Autora: Roberta Medeiros

O presente estudo objetiva investigar as alterações lingüísticas presentes no discurso de três sujeitos afásicos, de sexos masculino, sem tratamento fonoaudiológico na Universidade Católica de Pernambuco. Há uma variedade de patologias de linguagem, uma delas é denominada afasia, considerada um distúrbio adquirido em conseqüência de um transtorno nas áreas cerebrais responsáveis pelo comando e/ou compreensão da fala.

Na presente pesquisa, as atividades foram desenvolvidas baseadas na linguagem espontânea, na contextualização dos fatos e no deslocamento da linguagem nos eixos metafóricos e metonímicos, de acordo com a Análise de Discurso de Linha Francesa desenvolvida por Eni Orlandi. Desta forma, foram selecionados recortes discursivos de sujeitos com afasia, no intuito de identificar e analisar as alterações lingüísticas presentes. A importância desta proposta baseia-se no direcionamento da terapia para o âmbito da linguagem, pois resgata a espontaneidade do funcionamento discursivo destes sujeitos. Diante dos recortes pode-se constatar anomia, agramatismo, parafrasia semântica, parafrasia fonêmica e neologismos nos discursos dos sujeitos afásicos sem tratamento fonoaudiológico, porém tais alterações variam quanto a severidade apresentando-se em menor intensidade naqueles submetidos ao tratamento fonoaudiológico. Neste sentido, a terapia fonoaudiológica baseada na Análise de Discurso possibilita o direcionamento da terapia para o âmbito da linguagem, resgatando a espontaneidade do funcionamento discursivo, o que possibilita um melhor prognóstico, interação, inter-relação, auto-estima e qualidade de vida.

Este estudo investiga as alterações lingüísticas presentes no discurso de sujeitos afásicos, os quais não se submeteram a tratamento fonoaudiológico, no sentido de esclarecer a importância da intervenção fonoaudiológica nesta patologia de linguagem.

Segundo Casanova (1995) a patologia de linguagem, denominada afasia, ocorre por conseqüência de danos cerebrais que podem ter causas endógenas ou exógenas. Entre os danos que possuem causa endógena podemos citar: o a.v.c. (acidente vascular cerebral), embolias, enfartes, tromboses, aneurismas e tumores; os ferimentos por quedas ou armas de fogo, são as principais causas exógenas.
É importante mencionar que os distúrbios neurológicos da fala e linguagem estão comumente relacionados aos acidentes cerebrais. O acidente cerebral ou acometimento cérebro vascular é resultado de uma alteração espontânea do sangue que supre o cérebro.

De acordo com Murdoch (1997) as características deste acidentes cerebrais são conhecidas como: ataque abrupto de disfunção focal do cérebro, incapacidade produzida (incluindo perturbações da fala e linguagem), e recuperação espontânea de alguns casos da incapacidade originada por ele.

Segundo Murdoch (1997), são descritos dois tipos principais de acidentes cerebrais; os de lesão hemorrágica e lesão isquêmica.

A lesão hemorrágica ocorre devido ao rompimento de um ou mais vasos sanguíneos fazendo com que o sangue entre em contato com o tecido cerebral, lesionando-o (hemorragia intracerebral); ou quando o sangue vai para fora do cérebro e corre para os espaços entre as meninges (falar sobre as meninges) originando uma compressão cerebral dentro do crânio. Entanto a lesão isquêmica decorre de uma repentina inadequação do fornecimento de sangue para as áreas específicas do cérebro.

Essa lesão pode ser originada através da oclusão dos vasos pela formação de trombos ou êmbolos. Quando formados por tombos, o que é denominado de trombose cerebral associa-se, geralmente, à arteriosclerose, à alteração na parede dos vasos sanguíneos e à desordens inflamatórias nos mesmos (MURDOCH, 1997; ORTIZ apud FILHO, 1997).

Já as lesões ocasionadas pela oclusão dos vasos, através de êmbolos, denominam-se em embolia cerebral, a qual pode secundária a problemas cardíacos, resultados de acúmulos de pequenos fragmentos nas paredes do coração; como também pelo acúmulo de placas calcificadas nos vasos carótidos (associado à arteriosclerose).

A embolia, segundo Murdoch, (1997) e Ortiz apud Filho (1997) é a causa mais freqüente de lesão cerebral. A mesma geralmente se desenvolve de forma repentina e o acometido raramente apresenta sintomas transitórios.

As lesões trombóticas, no entanto, surgem no período noturno ou de forma repentina numa subida. Existem casos em que as tromboses fornecem sintomas passageiros, podendo ocorrer dias ou horas antes do Acidente Vascular Cerebral (A.V.C).

Murdoch (1997) infere que ambas as lesões isquêmicas impedem que o tecido cerebral receba a oxigenação necessária para o desempenho de suas funções. Tanto a trombose como a embolia origina a isquemia aguda dos tecidos, a qual é caracterizada pelo contato do sangue com o cérebro, através da oclusão dos vasos sanguíneos, como já fora mencionado anteriormente, originando a morte celular.
Em algumas situações, numa área que foi menos acometida pela isquemia, é possível que as funções desta área que tenham sido prejudicadas voltem ao seu funcionamento normal, após um determinado período de tempo. Nestes acontecimentos, não ocorreu morte cerebral, a qual é visto nos casos de recuperação espontânea das afasias. Segundo Ortiz apud Filho (1997), esta fase de recuperação espontânea equivale a tempo mínimo de três a seis meses após diagnóstico de A.V.C.

Desta forma, segundo Murdoch (1997), percebe-se que o grau de severidade dos ataques isquêmicos dependerá do tempo em que o tecido cerebral estará privado de oxigênio.

As lesões hemorrágicas cerebrais podem produzir ataques súbitos, e são resultados de doenças vasculares (traumas), associá-se, geralmente, hipertensão e o seu surgimento advém de várias patologias que prejudicam os vasos cerebrais, como, por exemplo, os aneurismas, malformação arteriovenosa, discrasia e arterite.

A hemorragia cerebral é repentina e está associado à dores de cabeça, vômitos e perda da percepção interna. Geralmente, a região da cápsula interna cerebral é a localização mais afetada pelas hemorragias, verificando nesta área a maiorias das queixas de dores de cabeça, seguindo então por uma disartria e/ou afasia, e posterior paralisia abaixo do tronco cerebral ocorrendo rápida perda de consciência levando, posteriormente, o indivíduo à morte em alguns casos. Assim, temos que as hemorragias cerebrais são associadas à vertigem, náuseas e ataxia, procedidos de coma e morte cerebral (MURDOCH, 1997; ORTIZ apud FILHO, 1997; DELISA, GANS apud MILLER, GROHER, YORKSTON et al, 2002).

O prognóstico das lesões hemorrágicas é mais favorável que as lesões isquêmicas, pois envolvem estruturas mais profundas do cérebro produzindo uma lesão cerebral ou destruição ou compressão do tecido.

A hemorragia pode ocorrer através da ruptura de aneurismas intracraniana, a qual se refere ao alargamento da parede dos vasos sanguíneos, muitas vezes, encontrado no Polígono de Willian ou Ramo maior. Acredita-se que os aneurismas são deficiências congênitas de desenvolvimento da parede dos vasos.

Outra causa mais comum das hemorragias cerebrais, é o rompimento de um vaso sanguíneo que lesa, diretamente, o tecido cerebral originando um coagulo chamado de hematoma, que pode aumentar de volume e afastar os tecidos que estão em volta, conseqüentemente, ocorre uma pressão intracranial ventricular ou do espaço subaracnóideo e sangramento poderá ocorrer fazendo que o tecido cerebral pare de receber oxigênio e altere as suas funções. Tendo como conseqüências hemiplegias, hemianestesias e afasias (MURDOCH, 1997).

Enfim, no campo da linguagem, onde no início do século XIX, Bouillaud requeriu que a função da mesma estaria localizada no lobo frontal, com isto, este autor postulou que o processamento da linguagem no cérebro ocorria em estruturas específicas e localizadas. de acordo com esta teoria, uma lesão no córtex cerebral comprometeria funções específicas da linguagem (VIEIRA, 1998).

A linguagem é fundamental nos estudos pertinentes a reabilitação das afasias, uma vez que esta compromete a comunicação humana. Sua forma de expressão se dá através da fala, da escrita e dos gestos. O cérebro possui um dicionário que é formado durante toda a vida e que por meio de complexos mecanismos traduz as palavras em todas as formas de expressão e a compreensão faz parte, evidentemente, deste processo.

Após estudos sobre a linguagem e sua aquisição, faz-se necessário realisar um levantamento bibliográfico sobre a história, conceito, epidemiologia, classificação, sintomatologia e etiologia da patologia em questão, no intuito de facilitar a análise do estudo, assim como compreender as alterações lingüísticas presentes nos sujeitos submetidos ou não a reabilitação fonoaudiológica sobre uma perspectiva da Análise de Discurso de Linha Francesa.

Muito dos relatos mencionado na literatura médica e fonoaudiológica sobre a história da afasia deve-se a pesquisas realizadas na área dos distúrbios da linguagem humana. No início do século XIX, no campo da linguagem, surgiram duas escolas de pensamento sobre as funções cerebrais: os Holistas e localisacionistas.

Os adeptos a visão Holística acreditavam que o trabalho do cérebro como um todo estaria envolvido com o seu funcionamento mental e a capacidade mental das pessoas era proporcional ao tamanho de cada um deles; opondo-se a esta teoria os locasicionistas afirmam que as funções mentais específicas eram construídas por áreas determinadas e específicas no cérebro (MURDOCH, 1997).

Esta teoria de localização fundamentou o mapeamento do cérebro em centros; como exemplo, a “área motora” de Broca e a “área da compreensão” de Wernick, que mais tarde, decorrente destes achados, estabeleceu-se a tipologia das afasias (VIEIRA, 1992).

De acordo com Jakubovicz, (1981); Murdoch, (1997), geralmente, os estudos referentes a afasiologia, adotavam uma destas visões para formulação dos seus conceitos. Gall, em 1825, foi o pioneiro nas pesquisas localizacionistas. Este relacionou a fala a áreas cerebrais específicas, e foi mais longe ainda, ao postular a existência de um órgão responsável pela fala e linguagem, localizado na porção anterior do cérebro (lobo frontal).

Procedido por Gall, Boillaud, requeriu que além do lobo frontal do cérebro ser a localização exata das funções da linguagem, existiam duas causas que levariam a ausência da fala: déficit na área nervosa responsável pelos movimentos da fala, e a outra seria a destruição do órgão da memória das palavras. Até os dias atuais estes achados são utilizados na descriminação dos dois tipos de afasia, o fluente e o não fluente (Murdoch, 1997; Jakubovicz, 1981; VIEIRA, 1992).

Opondo-se a teoria localizacionista de Gall & Boillaud, Flouens em 1924, postula que não existiram áreas especificas para cada função cerebral. Segundo o mesmo, caso uma parte do cérebro fosse lesionada, outra área cerebral assumiria a função da mesma. Porém, a literatura atual deixa claro que um sujeito com afasia poderá não atingir um grau de recuperação total, invalidando a teoria de Flouens que acredita na retomada de todas as alterações (MURDOCH, 1997).

A possibilidade de uma função cerebral ocorrer em estruturas específicas e localizadas, também tem afirmação e destaque na teoria de dois estudiosos – Paul Broca e Cal Wernick, sendo seus trabalhos direcionados a afasia.

Broca, defensor da teoria localizacionista, descreveu em 1961, o estudo post morten, de sujeitos que perderam a capacidade de articular as palavras e demonstrou, mediante estudos e pesquisas anatomopatológicas, que a sede da faculdade da linguagem articulada estaria na terceira circunvolução frontal esquerda, região esta que é conhecida até os dias atuais como área motora ou de Broca (VIEIRA, 1992; COUDRY, 1996; FONSECA, 1997).

O cirurgião e anatomista Paul Broca, também enfatiza que seus achados implicariam somente as afasias motoras e as denominavam de afemias - sujeitos que tinham preservado sua idéias, mas as exprimiam através de gestões ou com uso de um restrito vocabulário, reduzindo a monossílabos ou a utilização de palavras não pertinentes a língua, tais como jargão e neologismos (VIEIRA, 1992).

Na década seguinte, em 1974, com o avanço dos estudos da afasia, Cal Wernick demonstrou a existência de outro tipo maior de distúrbio afásico. Desta vez em decorrência de uma lesão situada na parte posterior do giro temporal superior do hemisfério esquerdo, que mais tarde, foi denominada de área de Wernick. Com isso, este afirma que a área posterior cerebral se destina as funções sensoriais (JAKUBOVICZ, 1981).

A partir dos achados de Broca e Wernick desencadearam o surgimento de inúmeros sistemas de classificação para as afasias propostas por vários autores, baseados principalmente nas teorias localizacionistas.

Após uma revisão histórica sobre a afasia, faz-se necessário conceitua-la. A afasia é considerada um distúrbio da linguagem adquirida, em conseqüência de transtornos nas áreas cerebrais corticais responsáveis pelo comando da fala ou pela compreensão desta (JAKUBOVICZ, 1995; PALMIES apud CASANOVA). Ela é “a maior seqüela ou limitação, a maior invalidez, do ponto de vista pessoal, social ou econômico, causada por um dano cerebral” (PALMIES apud CASANOVA, 1997.

Miller (2002, p. 262), complementa ao relatar que a lesão pode se encontrar nas áreas cortical ou subcortical, geralmente no hemisfério esquerdo. Esta patologia foi descrita em 1861, através de uma publicação realizada pelo cirurgião e anatomista Paul Broca que descreveu um estudo postemortem, de sujeitos que perderam a capacidade de articular as palavras e demonstrou, através de um estudo anatomopatológico, a existência de uma lesão na porção inferior do giro frontal, que em homenagem a este estudioso este estudo foi denominado de afasia de Broca (FONSECA apud LIER, 1997).

Segundo Coudry (1996, p. 93) a mesma se caracteriza por alteração dos processos lingüísticos de significação de origem articulatória e discursiva (nesta incluídos aspectos gramaticais), produzidos por lesão cerebral focal adquirida no Sistema Nervoso Central.

Murdoch (1997); Adams, Victor, Ropper (1997) complementam ao relatarem que a afasia se define como uma perda ou déficit da função de linguagem, manifestada por dificuldade em escrever, ler e falar, envolvendo uma redução da capacidade de interpretar e formular elementos lingüísticos com significado.

A afasia pode ser definida como um distúrbio na percepção e expressão da linguagem. O indivíduo apresenta dificuldades na compreensão e na emissão da fala e da linguagem, adquirida em conseqüência de uma lesão nas áreas cerebrais responsáveis pela fala ou pela compreensão das palavras faladas(...).

De acordo com Murdoch (1997); Adams, Victor, Ropper (1997) o sujeito portador de afasia poderá apresentar distúrbios de compreensão, formulação e de expressão da linguagem.

Segundo Pamies apud Casanova (1997) esse é um distúrbio muito freqüente calculando-se cerca da 1 a 1,5% da população já tiveram algum tipo de acidente cerebral, e destes 40% permaneceram com afasia.

Após a interiorização da etiologia das afasias, histórico, conceito e epidemiologia, será necessário abordar as principais alterações lingüísticas comumente vistas nos sujeitos portadores de tal patologia. É relevante mencionar que, a extensão da lesão não está diretamente proporcional à quantidade de alterações que emergirão, mas dependerá da localização, ou seja da área acometida (Broca e / ou Wernick).

Cada sujeito deve ser visto aqui como um ser singular com diferentes conceitos, condições sócio-econômicas-psicológicas e culturais. Neste sentido, acredita-se que o contexto, a sociedade que o indivíduo está inserido influencie na eclosão das alterações lingüísticas que serão mencionadas a seguir.

Segundo Casanova (1995) e Murdoch (1997), os sujeitos com lesão na área de Broca, também denominada de afasia não fluente, apresentam: agramatismo que é caracterizada por uma alteração na estrutura sintática, onde observa-se a omissão de elementos gramaticais (BEAR, CONNRS & PARADISO, 2002).

Jakubovicz (1981) complementa ao relatar que agramatismo refere-se a uma desordem da linguagem, encontrada geralmente nas afasia de Broca. Um sujeito portador de agramatismo pode apresentar omissão e trocas de artigos, preposições e pronomes pessoais; emprego de verbos no infinitivo; problemas na construção da frase, perda da entonação melódica da frase e da distinção as várias formas de flexão gramatical e empregos de frases incompletas.

Tais alterações podem variar quanto à severidade, sendo mais comum a omissão de elementos de classe fechada, que não têm representação extralingüística, como artigos, preposições, conectivos, ou seja, as palavras gramaticais tendem a ser eliminadas da fala, permanecendo as lexicais. GLEASON e cols. (1975) afirmaram que a prosódia também deve ser considerada nas manifestações. (ORTIZ apud FILHO, 2000)

Segundo Murdoch (1997); Ortiz apud Filho (2000) também são observadas as parafasias semânticas. A mesma também é conhecida como paragrafismo e é caracterizada por troca de um vocábulo ou palavra por outra, estando as duas palavras relacionadas semanticamente.

por exemplo, o paciente ao tencionar dizer caneta, diz lápis. Quando os termos têm relação semântica tão estreita como no exemplo dado, pode-se falar também em desvio vocabular; quando o sujeito, ao tentar dizer uma palavra, a substitui por uma frase, temos a paráfrase e para o mesmo exemplo dado ele poderia dizer “aquilo com que se escreve”; e, finalmente, quando o indivíduo não consegue acessar o léxico, permanecendo um vazio / lacuna em seu enunciado, temos a anomia. Estes comportamentos também podem ser observados em provas específicas como a de nomeação. (ORTIZ apud FILHO, 2000)

O que diferencia das parafasias fonêmicas ou parafasia fonética de outros tipos é que há alterações na articulação da fala, caracterizadas por uma distorção na produção dos fonemas (ORTIZ, apud FILHO, 2000). Jakubovicz (1981) complementa relatando que há problemas de iniciar o fonema e executá-lo com perfeição.

É uma alteração caracterizada por uma inadequação na seleção do fonema ou na combinação dos fonemas na cadeia da fala. Tal alteração pode se manifestar como trocas, omissões, acréscimos de fonemas ou de sílabas. É também chamado de parafasia fonêmica (...) ou parafasia verbal (ORTIZ apud FILHO, 2000).

De acordo com o mesmo autor, a parafasia verbal é caracterizada por uma, substituição, troca, omissão ou acréscimo origina outra palavra da língua, não evidenciando uma troca semântica. “É o que ocorreria na ocorrência de “calo” na tentativa de emissão de cavalo, de “mato” ou “gato” na tentativa de pato” (ORTIZ apud FILHO, 2000). Quando essas ocorrem na forma escrita, são denominadas, de paragrafia literal e paragrafia verbal formal ou grafêmica (IDEM, 2000).

Compondo este quadro de sintomatologia das afasias, também é verificada a estereotipia, que segundo Murdoch (1997) se caracteriza por repetições de sílaba sem sentido nas tentativas de fala. Ortiz apud Filho (2000); Jakubovicz (1981) vão mais além, ao proferirem que as repetições são involuntárias, sendo repetida de modo inconsciente pelo sujeito. Estas podem ocorrer na comunicação oral e / ou escrita e, em alguns casos, a estereotipia é uma palavra ou expressão conhecida ou também pode ser uma seqüência fonêmica ou grafêmica sem significado. Observa-se quando um sujeito que ao falar só emite: “opa” ou “untá”; ou ainda evidencia-se a estereotipia na escrita de um sujeito quando, independente do estímulo solicitado, só emite “iea”.

Neologismos também são comumente observados. Há emissão de palavras sem relação fonêmicas ou semântica. De acordo com Ortiz apud Filho (2000, p. 941), são seqüências fonêmicas ou grafêmicas que seguem às regras da língua portuguesa, assemelhando-se às palavras, mas que não existem na língua, não sendo compreendidas pelos interlocutores, sendo estas palavras inexistentes no dicionário.
Por exemplo:“eu fui pegar um necape”; uma fala / escrita repleta de neologismos se torna um jargão, incompreensível aos ouvintes e esta manifestação também recebe o nome de jargonafasia – quando ocorre na fala, ou jargonografia – quando ocorre na escrita. (ORTIZ apud FILHO, 2000)

Segundo Jakubovicz (1981) a anomia é conceituada como inabilidade para denominar objetos, envolvendo também palavras abstratas, adjetivos, advérbios e etc. Sendo freqüente em quase todos os tipos de pacientes afásicos.

É interessante ressaltar que a linguagem espontânea do sujeito estará prejudicada com presença de farafasias, hesitações e “frases vazias” (Murdoch, 1997).

Jargões também podem surgir no discurso do afásico, onde a fala bem é articulada mas totalmente incompreensível; estereotipias que é caracterizada por repetição de sílabas sem sentido em todas as tentativas de fala e ecolalia, onde são verificadas repetições de sentenças que o sujeito acabou de escutar (IDEM, 1997).

Em decorrência da complexidade e viabilidade das Afasias, surgiram inúmeros sistemas para a classificação das mesmas. Atualmente os sistemas de classificação mais utilizados são o de Boston (1979) e o de Luria (1970), os quais são considerados os de maior aceitabilidade clínica (MURDOCH, 1997).

Inicialmente serão mencionadas as afasias de acordo com a Classificação de Boston. De acordo com Murdoch (1997) através dessa classificação são observados clinicamente oito tipos de Afasias. Todas elas são caracterizadas por um conjunto de sintomas e sinais de linguagens apresentadas pelo sujeito. É importante mencionar que o autor, acima referido, relata que não é preciso que se encontrem todas as características clínicas esperadas para que se estabeleça o diagnóstico de um determinado tipo de afasia.

A afasia de Broca, De acordo com Ortiz apud Filho (2000); Bear, Connrs & Paradiso (2002) é a afasia de expressão mais comumente encontrada. Caracteriza se por ser do tipo não-fluente, pelo predomínio dos distúrbios de expressão em relação às áreas da compreensão. Ortiz apud Filho (2000) relata ainda que a expressão oral pode estar comprometida em diversos graus.

Na fase aguda, o sujeito pode apresentar supressão de fala e de escrita ou estereotipia. De acordo com Casanova (1995); Murdoch (1997); Bear, Connrs & Paradiso (2002) as estereotipias (repetição de sílabas sem sentido em todas as tentativas de fala) são freqüentes e podem se manter; podemos ainda encontrar parafasias fonéticas e/ou fonêmicas (substituição de sílabas por outras parecidas foneticamente), redução e agramatismo (é um estilo telegráfico de fala em que são empregadas palavras de conteúdo com exclusão de artigos, pronomes, preposição e verbos auxiliares).

A anomia pode estar presente, mas aparece geralmente no discurso. A compreensão está preservada ou levemente comprometida, podendo o paciente apresentar dificuldades em compreender frases complexas, textos e elementos gramaticais. A escrita também pode evoluir da fase aguda com redução, agramatismo e paragrafias. A compreensão da escrita pode estar mais alterada do que a compreensão oral (ORTIZ apud FILHO, 2000).

De acordo com a classificação de Boston, existe também a afasia de Wernick. Neste tipo de afasia a fala é fluente, porém, com escassez de compreensão. Os sujeitos portadores deste tipo de afasia não entendem as instruções que são realizadas através de comandos.

Segundo Casanova (1997), se caracteriza por uma compreensão insatisfatória, em conseqüência há dificuldade para compreender o que lêem e o que houvem (surdez verbal e cegueira verbal), na qual os sujeitos confundem palavras semelhantes seja em significado, seja em sonoridade principalmente frases longas que pressupõe síntese e vocabulário mais complexo.

De acordo com Ortiz apud Filho (2000) é a afasia de compreensão mais grave, definida por um conjunto de características bastante específicas. A compreensão oral encontra-se gravemente comprometida. A expressão é marcada por discurso fluente e abundante, fala logorréica e jargonafásica e pela grande presença de neologismos.

Murdoch (1997); Ortiz apud Filho (2000) proferem que a fala apresenta curva melódica/entonação normais e o sujeito fala sem considerar o interlocutor. É interessante mencionar que, segundo Murdoch (1997), há a presença de parafasias verbais (substituição de palavras) e parafasias literais (substituição por parte das palavras).

A associação com anasognosia é bastante freqüente. A compreensão gráfica pode estar tão comprometida quanto a compreensão oral ou pode estar um pouco melhor. Há possibilidade de redução na expressão gráfica, sendo que o ditado está sempre muito alterado e pior que a cópia (ORTIZ apud FILHO, 2000).

De acordo Ortiz apud Filho (2000) e Pamies apud Casanova (1997), pode-se ainda inferir a afasia de condução é uma afasia fluente, caracterizada por parafasias fonêmicas, podendo ainda aparecer anomias ou parafasias semânticas durante a fala. O discurso pode aparecer truncado, com hesitações e autocorreções.

A característica marcante deste tipo de afasia são os erros encontrados na prova de repetição, em que a emissão mostra-se muito mais prejudicada do que a fala espontânea. A repetição é melhor pronunciada com substantivos, expressões curtas e comuns, mas no entanto, o sujeito fracassará, caso as palavras faladas forem de função polissílabas ou sons sem sentido (BEAR, CONNRS & PARADISO, 2002); ORTIZ apud FILHO, 2000).

Murdoch (1997) complementa descrevendo que pode ocorrer uma deficiência discreta de articulação durante a fala, com freqüências nas pausas e hesitação associada a dificuldades de encontros de palavras.

Na escrita espontânea e no ditado podem aparecer paragrafias literais e grafêmicas, no entanto, o paciente pode apresentar bom desempenho na cópia. Na leitura em voz alta, o paciente apresenta melhor desempenho do que nas provas de repetição.

A alteração de compreensão, similar à que se encontra nas afasias de Broca típicas normal ou com alterações leves fazem supor que a afasia de condução pode ser a evolução de uma afasia de Wernick (ORTIZ apud FILHO, 2000; PAMIES apud CASANOVA, 1997).

Afasia Transcortical Motora, também inclusa na classificação de Broca, é um tipo de afasia não-fluente, cuja principal característica é a redução de fala. O sujeito apresenta uma linguagem espontânea extremamente reduzida, sendo a expressão marcadamente lenta e breve. Como toda afasia transcortical, a repetição é boa e, especificamente neste caso, é muito melhor do que a emissão oral observada durante a fala espontânea. A compreensão geralmente está preservada. Na escrita pode-se observar a mesma falta de iniciativa/inércia observadas na fala e a leitura está normal ou pouco comprometida (ORTIZ, apud FILHO, 2000; PAMIES apud CASANOVA, 1997).

Já a Afasia Transcortical Sensorial é uma afasia fluente, em que aparecem déficits moderados ou severos de compreensão. O sujeito é capaz de realizar provas de repetição, sem necessariamente compreender o que repete (ORTIZ apud FILHO, 2000).

Pamies apud Casanova (1997); Murdoch (1997) relatam também que a repetição encontra-se preservada e que a compreensão permanece alterada com incorporação de palavras e frases ditas à produção da fala, sintoma conhecido por ecolalia, podendo também conter neologismos e substituições.

Segundo Ortiz, apud Filho (2000), na fala surgem parafasias semânticas, anomias e circunlóquios. A compreensão da escrita também se encontra alterada, e, pode ocorrer do sujeito apresentar uma leitura em voz alta praticamente normal (ou com algumas parafasias) sem, no entanto, compreender o que leu. A escrita espontânea poderá apresentar paragrafias de todos os tipos e o sujeito provavelmente apresentará melhor desempenho no ditado do que nas demais provas.

A afasia amnéstica / anômica, segundo Murdoch (1997) é o traço mais forte deste tipo de afasia. Ortiz apud Filho (2000), complementa ao mencionar que é um tipo de afasia fluente, caracterizada, basicamente, por alterações semânticas como as parafasias semânticas e perífrases, com o léxico prejudicado.

Esta afasia muitas vezes é a evolução de outro tipo, mais comumente, das afasias de Wernick ou transcortical sensorial, sendo esta a justificativa de pertencer a este conjunto de afasias, uma vez que a compreensão oral está preservada ou apenas levemente comprometida (para conteúdos mais complexos). Na escrita podem aparecer as mesmas falhas encontradas no discurso oral, e a leitura geralmente está preservada (ORTIZ apud FILHO, 2000).

De acordo com Murdoch (1997), a afasia transcortical mista é conhecida como afasia de isolamento caracterizada pela redução acentuada da fala espontânea e deficiência da compreensão da linguagem, sendo a sua principal característica a perda dos aspectos voluntários da linguagem.

É uma afasia que se caracteriza pela repetição preservada, estando tanto a emissão quanto a compreensão severamente comprometidas. A fala é caracterizada por estereotipias e há supressão da escrita. Cabe ressaltar que embora a repetição esteja preservada, ela ocorre com falhas, ou seja, ela não é tão boa quanto nos quadros de afasia transcortical motora ou sensorial (ORTIZ apud FILHO, 2000).

Outro tipo de afasia classificada por Boston, é a afasia global, que para Ortiz apud Filho, (2000) e Pamies apud Casanova (1997) é a afasia mais grave, caracterizada por comprometimento severo da emissão e da compreensão oral e gráfica. Geralmente, sujeito apresenta mutismo na emissão oral ou ela está restrita a estereotipias e automatismos.

Murdoch (1997) vai mais além afirmando que a produção verbal é menos significativa, pois os sujeitos desenvolvem uma linguagem adaptativas através de gestos, expressões faciais, etc. Muitas vezes a afasia global está associada a sinais neurológicos graves podendo existir hemiplegia, perda sensorial, deficiência no campo visual e distúrbio de atenção.

Ortiz apud Filho, (2000), profere a existência de uma variedade de formas clínicas; quando a compreensão melhora muito, mas não chega a ficar tão boa quanto a esperada para uma afasia de Broca, tem-se a afasia motora mista. No entanto, muitos dos casos evoluem para uma afasia de Broca.

A partir do relato de Boston quanto aos sintomas e tipos de afasia, houve uma contribuição no sentido de teorizar a localização da linguagem no cérebro, denominada de hipóteses “localizacionistas”, no qual vincula o grau de comprometimento observado na linguagem dos afásicos à extensão da lesão (FONSECA apud LIER, 1997). Essa hipótese localizacionista pouco contribui para um entendimento da linguagem, pois prioriza a lesão em detrimento do sujeito afásico.

Uma outra forma de abordar a afasia é través da visão interacionista. De acordo com essa abordagem Freire apud Passos (1996), preconiza que a afasia se caracteriza por uma alteração no funcionamento da linguagem, em que a mesma se reduz a significantes aparentemente não interpretados, a qual desloca o sujeito da sua posição de falante eficaz para uma posição contrária, devido à desorganização do seu discurso.

Na presente pesquisa será abandonada a visão organicista, pois esta, ao priorizar a lesão deixa de lado a linguagem e conseqüentemente, o sujeito. Nesta perspectiva, observa-se as limitações da clínica médica no que se refere a este distúrbio de linguagem. Por isso, pensa-se que a atuação fonoaudiológica em sujeitos portadores de afasia seja de primordial importância na recuperação parcial dos mesmos. Neste sentido, o fonoaudiólogo mesmo diante das limitações lesionais está habilitado a promover uma adequação da linguagem alterada, través de sessões terapêuticas, abrindo novas possibilidades para o prognóstico do afásico.

Nesta pesquisa, as atividades são desenvolvidas baseadas na linguagem espontânea, no diálogo informal, na contextualização dos fatos e no deslocamento da linguagem nos eixos metafóricos e metonímicos. A partir destas atividades são selecionados e analisados recortes discursivos de seis sujeitos afásicos, de ambos os sexos, nos quais três deles não foram submetidos a tratamento seguindo os pressupostos da Análise de Discurso, e os outros três sim. Apenas os recortes discursivos dos três sujeitos que não estão sendo submetidos ao tratamento fonoaudiológico, serão estudados aqui. Porém, as atividades para posterior análise das alterações lingüísticas presentes nestes sujeitos será realizada metodologicamente sobre a teoria da Análise de Discurso de Eni Orlandi, no intuito de confrontar os resultados obtidos com os do grupo de afásicos que se submetem à terapia fonoaudiológica embasada na mesma metodologia.

No intuito de realizar um entendimento coerente e fidedigno sobre a Análise de Discurso, faz-se necessário discutir sobre o mesmo, assim como conceituar e explanar a origem da mesma assim como seu próprio objeto de estudo, o discurso.

Segundo Orlandi, (2002), a Análise de Discurso eclodiu na década de 60 do século XX a partir da Lingüística , do Maxismo e da Psicanálise.

A Lingüística afirma que a linguagem não é transparente e tem como objeto a própria língua. O materialismo histórico defende que o homem faz história, porém esta não é transparente. Já a Psicanálise pré supõe a constituição do sujeito na relação com o simbólico na história (ORLANDI, 2002).

No entanto, para a Analise de Discurso à língua não é compreendida apenas como estrutura, mas, sobretudo como acontecimento não segmentando a forma e o conteúdo da mesma. Desta forma “reunindo estrutura e acontecimento a forma material é vista como acontecimento do significante (língua) em um sujeito afetado pela história” (IDEM, 2002).

A partir do exposto sob os pilares da Análise de Discurso à mesma indaga a Lingüística por deixar a historicidade marginalizada, interroga o materialismo por não relatar o simbólico e demarca a Psicanálise pelo modo como ver a historicidade e trabalha a ideologia como materialmente relacionada ao inconsciente (IDEM, 2002).

Desta forma, a Análise de Discurso irrompe, reflete e critica estes campos de conhecimento considerando o discurso como novo objeto teórico de conhecimento (COUDRY, 1996; ORLANDI, 2002).
De acordo com Coudry (1996), Orlandi (2002) a Análise de Discurso não se refere a um conceito de linguagem ou método de análise; a mesma lida propriamente com o discurso, o qual é conceituado como o processo de sentidos produzidos por interlocutores durante a comunicação, ou não. O discurso não seria apenas a transmissão de mensagem elaborado pelo esquema tradicional e conhecido (emissor – mensagem – código – receptor – referente), o mesmo é um efeito de sentidos, isto é, o discurso somente existirá a medida em que os interlocutores se aproximarem pelo significado ocorrendo assim uma relação de troca.

Desta forma, pode-se notar que a Análise de Discurso não se preocupa apenas com a língua ou a gramática, mas com o discurso, com a palavra em movimento, com a relação de sujeito e sentidos afetados pela língua e sua história, é a prática de linguagem, onde se observa o sujeito falando (ORLANDI, 2002).

A Análise de Discurso visa fazer compreender como os objetos simbólicos produzem sentidos, analisando assim os próprios gestos de interpretações que ela considera como atos no domínio simbólico, pois eles intervêm no real do sentido (...) Também não procura um sentido verdadeiro através de uma “chave” de interpretação. Não há uma chave, há método, há construção de um dispositivo teórico. Não há uma verdade oculta atrás do texto. Há gestos de interpretação que o constituem e que o analista, com o seu dispositivo, deve ser capaz de compreender (ORLANDI, 2002)
Por isso, neste tipo de estudo, se conhece melhor o sujeito, as suas peculariedades e singularidades, assim como a sua capacidade de significar e significar-se, a qual a linguagem é concebida como mediação necessária entre o sujeito e a realidade social (IDEM, 2001).

Essa mediação, que é o discurso torna possível tanto a permanência e a continuidade quanto o deslocamento e a transformação do homem e da realidade em que ele vive. O trabalho simbólico do discurso está na base da produção da existência humana (ORLANDI, 2002).

A importância desta proposta baseia-se no direcionamento da terapia de sujeitos afásicos para o âmbito da linguagem, pois este método resgata a espontaneidade do funcionamento discursivo desses sujeitos. Ao assumir um ponto de vista discursivo deve-se abrir mão de concepções de língua enquanto código, deixando de lado a idéia de que toda informação estaria contida no código lingüístico e os interlocutores somente teriam sucesso na sua comunicação se soubessem decifrar esse código.

Segundo Coudry (1996) no processo intersubjetivo de interlocuções, a construção do enunciado lingüístico estaria pautada em muitos outros fatores além do conhecimento do código, tais como o conhecimento partilhado entre os interlocutores, a intenção do falante, dentre outros. A linguagem é, então, concebida como uma ação do homem sobre si próprio, sobre o outro, sobre a própria linguagem e sobre a realidade.

Não podemos esquecer que a linguagem é o processo: é trabalho e atividade constitutiva, (...), em que constituímos coletiva e historicamente (na história da interlocução, atravessada pela história) esses domínios de representação, não como atividade especular mas como atividade construtora e transformadora da realidade. É ação, como fala De Lemos (1984), ação sobre o outro (atividade comunicativa) e ação sobre o mundo (atividade cognoscitiva) e ainda ação descentrativa e analítica no momento em que o sujeito rompe essa duplicidade e opera sobre a linguagem enquanto objeto construído (IDEM, 1996).

Neste sentido, percebe-se que toda atividade clínica que envolva ou se relacione com a linguagem terá que se envolver no contexto social, interacional e no intersubjetivo em que a linguagem aparece. Nesta perspectiva o “paciente afásico” dá lugar para o “sujeito afásico”, e, com isso, aparece o papel ativo deste sujeito como interlocutor.

Na avaliação de sujeitos afásicos, essa abordagem critica as baterias de exames tradicionais, que segundo Coudry (1996) e Orlandi (2002) deixam de fora aspectos significativos da linguagem como as relações de sentido, pressupostos interpretativos, violação de leis discursivas, entre outras que são significante para o processo.

De acordo com Coudry (1996) e Ferreira (1997), para que se faça uma avaliação detalhada da linguagem de um sujeito afásico é necessário que haja interlocução, atividade verbal contextualizada e situação também contextualizada. Pois, as situações em que são empregadas respostas evocadas a partir de estímulos, mesmo que verbais não fornecem respostas conclusivas para uma compreensão dos processos envolvidos, conseqüentemente, a terapia não será eficaz nessas situações.

A interação possibilita participação dos interlocutores na instância discursiva de que fazem parte; os episódios discursivos, por sua vez, vão ampliando as condições de interação que tornam mais intensa a intersubjetividade (até mesmo porque o afásico se reconstrói como sujeito), ampliando o espaço de interação inicial e orientando possivelmente a evolução do processo. É a tudo isso que chamo contextualização (COUDRY, 1996).

Desde o primeiro momento, seleção dos recortes discursivos até a análise das produções lingüísticas colhidas, sãoo trabalhados a partir do suporte teórico discursivo, sempre promovendo a interação por parte dos interlocutores do discurso.

No primeiro contato com os sujeitos da pesquisa é proposta a construção de um conhecimento mútuo, de ambas as partes (sujeitos x pesquisador), através do conhecimento de – dados pessoais, trabalho, família, escolaridade, lazer, atividades diárias, amigos, preferências – no intuito de que haja a elaboração de uma base de conhecimentos comuns fornecendo subsídio para uma melhor interação verbal.

Após a seleção dos recortes discursivos, são investigadas as alterações lingüísticas apresentadas no discurso, dos dois grupos de afásicos (os submetidos e os não submetidos a tratamento fonoaudiológico), no intuito de realizar um estudo comparativo dos resultados. Com isso, espera-se esclarecer a importância do tratamento fonoaudiológico aos sujeitos portadores de afasia, com o objetivo de obtermos um melhor prognóstico, com a possibilidade de uma interação social mais efetiva, o que influenciará na inter-relação, na sua auto-estima e conseqüentemente na qualidade de vida.