Sonorização, Fisionomia e Gesto na Construção Vocal do Ator

Clínica da Voz - Consultoria Especializada
publicado na Revista Saúde, Sexo e Educação, Ano IV, Nº 4, Julho/Agosto/Setembro-1995, p.51-53. - Registrado na Biblioteca Nacional sob o nº 012682-1/6

Autor : Domingos Sávio Ferreira de Oliveira

O Fonoaudiólogo que atua na preparação vocal do ator deverá ser criterioso com relação à utilização de imagens no decorrer do treinamento vocal. A correta fisiologia da voz não pode ser confundida com fantasias que, em geral, são trabalhadas quando ainda não há um amadurecimento vocal-corporal que justifique o seu emprego.

A associação de imagens à fisiologia vocal comprova a real relação entre corpo e voz, devendo ser criadas no sentido de beneficiar as modificações e os movimentos naturais das estruturas que compõem o mecanismo ressonador. Pensar que a voz “sai” dos joelhos, dos pés, do umbigo....poderá ser muito positivo quando realmente ajuda o ator a modificar, isto é, a aproveitar ao máximo as partes móveis da principal região de ressonância da voz, o pavilhão faringobuconasal. Portanto, a eficácia deste trabalho dependerá do desenvolvimento e do amadurecimento de uma imagem vocal corporal auditiva e ao nível de sensações corporais por parte do ator. Enquanto isso não acontece, todo o trabalho deverá ser desenvolvido explorando a expressividade do gesto e da fisionomia na expressão da voz-linguagem vocal- sem dar ênfase às fantasias e às imagens enganosas.

Ressaltamos que a correta utilização da fisionomia e da voz é imprescindível à “formação teatral”: é fase relativa à preparação básica da voz que todo ator deve ter e dominar. Servirá de base não só à preparação vocal no teatro, como também para ser utilizada na assistência vocal – reposição, restauração do mecanismo emissor – quando o ator perde a sua voz em cena.

Apresentamos a seguir uma seleção de “exercícios de sonorização e expressão vocal” desenvolvidos na disciplina “Técnica e Expressão Vocal” da Faculdade de Teatro da Universidade do Rio de Janeiro (UNI-RIO). Objetivam o aproveitamento máximo do mecanismo ressonador–articulador necessário à voz de longo alcance – laringe, faringe, rinofaringe, base do crâneo, caixa craniana e boca – com a associação de movimentos corporais (fisionomia e gesto). Os exercícios pesquisados têm como fundamentação conteúdos de acústica : tom fundamental, harmônicos e espaço sonoro. São eles :

1. SONORIZAÇÃO DE BOCA FECHADA: SEM PROJEÇÃO LABIAL, maxilar inferior descontraído, arcadas levemente afastadas e a língua relaxada no assoalho da boca com a ponta tocando suavemente os incisivos inferiores. Emitir sentindo a vibração penetrar através do osso palatal.

2. SONORIZAÇÃO DE BOCA FECHADA: MESMO PROCEDIMENTO ANTERIOR, alternando com projeção labial.

3. SONORIZAÇÃO DE BOCA FECHADA COM MOVIMENTO DE MASTIGAÇÃO: tem como finalidade espalhar o som nas cavidades supraglóticas, intensificando as sensações proprioceptivas decorrentes da vibração.

4. SONORIZAÇÃO INTERCALANDO OS MOVIMENTO DE BOCA FECHADA E ABERTA: o som emitido deverá ser praticamente o mesmo no decorrer dos dois movimentos. Haverá um aumento da intensidade de emissão em decorrência da abertura articulatória.

5. SONORIZAÇÃO INTERCALANDO OS MOVIMENTO DE BOCA FECHADA E ABERTA: explorando ao máximo a capacidade de movimentação da musculatura facial (alargar, alongar, estreitar...). A língua deverá permanecer repousada no assoalho da boca com a ponta tocando suavemente os incisivos inferiores; maxilar inferior descontraído.

6. SONORIZAÇÃO DE BOCA ABERTA COM MOVIMENTOS DIVERSIFICADOS DE LÍNGUA: este exercício possibilita uma variação na qualidade do som emitido a partir dos movimentos criados com a língua. Tem, também, por finalidade a liberação do músculo lingual em indivíduos que tensionam a base da língua sentindo um desconforto, uma “dor” na região do osso hióide. Pode ser enriquecido com a incorporação dos seguintes movimentos:

6.1. Dobrar a ponta da língua para cima e atrás dos dentes incisivos superiores e, em seguida, vibrá-la velozmente para fora e para dentro intercalando os dois movimentos.

6.2. Língua esticada com a ponta tocando a região alveolar superior. Movimentá-la velozmente de um lado ao outro (entre os caninos e os primeiros pré-molares) com concomitante projeção labial.

7. SONORIZAÇÃO DE BOCA ABERTA CO-ARTICULADA COM A FORMA – EMBOCADURA – DAS VOGAIS: é imprescindível que a língua permaneça no chão da cavidade oral com a ponta exercendo uma leve pressão na região alveolar inferior. Os movimentos de alargar, alongar, elevar e abaixar as regiões da língua acontecerão de acordo com a vogal que está sendo emitida. Sentir um direcionamento do som para as regiões do véu palatino e rinofaringe. Este exercício possibilita uma conjugação de harmônicos nasais, favorecendo o enriquecimento sonoro e uma melhor projeção da voz no espaço. Deverá seguir as etapas indicadas abaixo:

7.1. Sonorização de boca aberta explorando a capacidade de movimentação do mecanismo oro-facial.

7.2. Sonorização de boca aberta co-articulada com a forma das vogais (embocadura).

7.3. Sonorização de boca aberta co-articulada com a forma das vogais, passando gradativamente para a emissão plena da vogal / U /.

7.4. Sonorização de boca aberta co-articulada com a forma das vogais mais emissão plena da vogal /U /, associada aos demais fonemas vocálicos.

8. EXERCÍCIO DA “FOCA”: direcionamento do som para a região da rinofaringe. Seu principal objetivo é o enriquecimento do tom fundamental de harmônicos nasais que normalmente não são utilizados em toda sua plenitude. Estes têm o poder de deixar a voz mais cristalina e encorpada, contribuindo para o crescimento de sua intensidade sem um mínimo de esforço, isto é, sem necessidade de aumentar o volume aéreo e nem tão pouco o fechamento glótico.

É um tipo de exercício que auxilia na eliminação de ruídos vocais, funcionando como um filtro sonoro, um “purificador” da voz. Os atores costumam relatar um maior conforto vocal em decorrência de uma sensação sonora mais agradável e eficiente no que diz respeito à projeção espacial.

CONCLUSÃO:

As sonorizações quando bem realizadas canalizam a energia sonora para as cavidades oral e nasal, espalhando-a pelo trato vocal. Conseqüentemente, a ressonância ascende à região superior, diminuindo em muito a tensão laríngea. A correta sonorização também promove um alargamento do fundo da garganta, protegendo-a de mecanismos geradores de tensão.

Sua produção de lábios cerrados faz com que ocorra uma maior concentração de energia sonora na cavidade nasal, além de promover um retorno de parte do som para a região glótica, provocando um mecanismo de “impedância refletida” que suavizará a tensão laríngea. A manutenção do som com os lábios cerrados acoplada à técnica mastigatória, torna ainda mais vigorosas as sensações vibratórias na máscara facial.

Por isto que as vogais, quando precedidas das sonorizações, têm uma projeção mais eficiente, ou seja, são lançadas no espaço após a distribuição da energia sonora por toda a face. São exercícios valiosos para a colocação das mesmas, pois evitam que sejam produzidas guturalmente.

Sugerimos que as práticas discorridas anteriormente sejam realizadas de olhos abertos e com consciência espacial. É preciso dirigir a produção sonora para um determinado foco do espaço evitando assim invasões espaciais desnecessárias que sempre acabam em abusos vocais.

Imaginar um objeto, uma pessoa disposta em um determinado ponto, facilita a concentração e a direção da emissão. Uma vez imbuídos da boa técnica, nada impede a utilização de imagens em favor da relação CORPO-VOZ-ENCENAÇÃO.

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