A Fonoaudiologia e o Deficiente Auditivo - Parceria na Aquisição da Linguagem.
Patrícia de Almeida Escobar
CRFa. 7806 - RJ
Fonoaudióloga com formação na
Metodologia Verbotonal - ARPEF

Objetivo:

Este artigo tem como objetivo principal esclarecer e orientar familiares, professores e todos que lidam com crianças portadoras de deficiência auditiva.

O termo deficiente auditivo é bastante abrangente, sendo aplicado para pessoas que perderam a audição tardiamente, como a presbiacusia ( perda auditiva causada pela idade), crianças que por quadro de otites crônicas tiveram sua audição prejudicada a nível de orelha externa e/ou média, pessoas que sofreram acidentes como traumas locais ou acústicos, pessoas que vão perdendo a audição ao longo da vida por trabalharem em locais ruidosos, sem a devida proteção auricular (PAIR) e etc.

Alvo:

Este artigo é direcionado à crianças que nasceram com uma perda auditiva importante, que irá impedir ou prejudicar a aquisição da linguagem pelo meio natural da imitação, ou que perderam a audição muito cedo, a chamada perda auditiva pré-lingual ou seja, a criança que perdeu audição antes de adquirir linguagem.

A audição e seu significado social:

A audição é o sentido preferencial para a aquisição da linguagem. Muito antes do nascimento, o bebê já pode perceber os batimentos cardíacos e a voz da mãe, o que é muito prazeroso para ele. Após o nascimento, o poder ouvir dá uma sensação de segurança à criança. Outra fase importantíssima para o desenvolvimento da linguagem é o balbucio, quando a criança emite sons puramente por ser gostoso emití-los e ouví-los, e a mãe intuitivamente associa aquele som a algum significado, como: "ma ma", passa a ser "mamãe ou mamadeira", a mãe devolve os sons para o bebê com um significado e ele com o tempo e a repetição acaba por interiorizar aquele significado, passando mais tarde a usá-lo para satisfazer seus desejos. O bebê com perda auditiva também passa pela fase do balbucio, porém, como não tem o prazer de ouvir seus próprios sons, ou os que são devolvidos pela mãe, acaba se calando e interrompendo o desenvolvimento da linguagem.

A importância do diagnóstico precoce:

Pensando na importância da audição para o desenvolvimento não só da linguagem, mas de outros aspectos como cognitivo, afetivo e social, pensou-se também que o quanto antes a perda de audição fosse detectada , a criança fosse devidamente protetizada ( receber os AASI - aparelho de amplificação sonora individual ou prótese auditiva ) e encaminhada ao Fonoaudiólogo, ela teria uma defasagem muito menor no seu desenvolvimento.

Assim o pensamento atual é que o bebê deve ser avaliado auditivamente no momento do nascimento e caso algum problema seja detectado ele deve ser encaminhado a outros exames. Com a confirmação do problema, a família é orientada a procurar um acompanhamento específico do médico Otorrinolaringologista e do Fonoaudiólogo, para que seja iniciado o processo de protetização e terapia . É esperado que a criança com seis meses de idade já esteja protetizada e recebendo orientação fonoaudiológica.

Tipos de avaliação para diagnóstico precoce:

- Otoemissões Acústicas -> investiga a cóclea ( orelha interna - onde estão situadas as células auditivas ). Deve ser feito com todos os bebês, de risco ou não, antes da alta da maternidade.

Caso o bebê falhe neste teste será encaminhado a outros como:

- Imitânciometria -> investiga as condições da orelha média ( onde estão situados os ossículos e a tuba auditiva).

- BERA -> investiga a condição retro-coclear, nervo auditivo e tronco cerebral.

- Avaliação Comportamental -> investiga a reação da criança ao estímulo sonoro.

A importância do tratamento precoce:

O Fonoaudiólogo tem dois papéis muito importantes, o primeiro é orientar a família e o segundo é trabalhar com a criança.

A família precisará ...

De apoio e esclarecimentos de como estimular o resíduo auditivo e o desenvolvimento global da sua criança, que deverá ser da maneira mais natural possível, porém, seguindo algumas "estratégias facilitadoras", as quais serão mais à frente apontadas.

A criança precisará ...

De uma família bem preparada para ajudá-la, da estimulação do resíduo auditivo visando a retomada do balbucio, do prazer de ouvir e de emitir seus sons, mais tarde de tirar destes sons significados e assim dar continuidade ao seu desenvolvimento.

A visão Bilingüe:

Muitos pais perguntam:

O que é ? Meu filho só vai fazer isso ? Eu não quero aprender, eu não consigo, é muito difícil, toda a família vai ter que aprender ?

Muitos pais acham:

Se meu filho fizer Sinais não vai mais querer falar .
Só nós iremos entendê-lo, e na escola ? Como ele vai fazer amigos ?
Quero que meu filho seja igual as outras crianças !

São muitas as dúvidas quanto a visão Bilingüe, que não se trata de um método e sim uma filosofia muito democrática e que respeita muito a criança deficiente auditiva. Vamos a uma rápida explicação:

A Filosofia Bilingüe permite que a criança deficiente auditiva desenvolva a linguagem oral ( fala ) e a LIBRAS ( Língua Brasileira de Sinais ) em momentos distintos, a fala é trabalhada com o Fonoaudiólogo, a LIBRAS é trabalhada com um instrutor surdo, assim a criança será exposta a duas fontes de estimulação de linguagem. Uma permitirá a ela viver em nossa comunidade ( de ouvintes ) que é a maioria, onde ela irá estudar, trabalhar, ter um bom relacionamento com seus familiares e amigos; a outra permitirá a ela se relacionar com a comunidade surda, dividir seus problemas, ter amigos e conhecer a cultura própria desta comunidade. O mais importante é que as duas juntas permitirão a criança desenvolver sua capacidade lingüística, estruturar seu lado emocional, social e cognitivo... As duas fontes de estimulação darão à criança uma dimensão de conhecimento e de capacidade de desenvolvimento muito ampla, sem preconceitos ou restrições.

Aos pais:

A forma mais rica de estimular a criança deficiente auditiva , é com base no "Diálogo Contextualizado" ( partir de um contexto para chegar as partes menores), ou seja, em terapia partimos de uma estória, para chegar as frases e por fim ao vocabulário. Desta forma a compreensão fica mais fácil e a estimulação do vocabulário da criança muito mais rica do que se trabalhássemos com palavras soltas, sem estar inserida em um contexto.

Como atuar desta forma em casa ? Partindo de uma situação concreta para a estimulação do seu vocabulário correspondente, exemplo:

- Visamos trabalhar o Esquema Corporal da criança, no lugar de ficarmos repetindo as partes do corpo e seus nomes, devemos aproveitar momentos do dia a dia da criança, quando falar sobre isso se torna mais significativo, como na hora do banho, na hora de se vestir, num momento de carinho e etc.

- Visamos trabalhar os alimentos, devemos aproveitar a hora das refeições, de fazer compras, de arrumar a mesa etc.

A repetição e verbalização são muito importantes, é preciso conversar bastante, manter a criança dentro dos assuntos que estão sendo abordados pela família.

A forma de dizer também é importante, deve-se usa frases simples, porém completas e respeitar sempre a organização frasal da nossa Língua.

Como a Prótese Auditiva Funciona?

O AASI é um importante aliado na estimulação da criança deficiente auditiva, porém, ele sozinho não fará milagres, ou transformará a criança surda em ouvinte. É importante "aprender a ouvir", mesmo com o aparelho a criança vai continuar ouvindo diferente de nós, assim ela precisará aprender a relacionar aquele som que está chegando a um significado, mesmo que ela receba o estímulo auditivo "aua" para "água", com a repetição e a ajuda da leitura orofacial ela assimilará o significado daquele estímulo, e usará posteriormente a fala para informar que está com sede.

O AASI é um importante aliado na estimulação da criança deficiente auditiva, porém, ele sozinho não fará milagres, ou transformará a criança surda em ouvinte. É importante "aprender a ouvir", mesmo com o aparelho a criança vai continuar ouvindo diferente de nós, assim ela precisará aprender a relacionar aquele som que está chegando a um significado, mesmo que ela receba o estímulo auditivo "aua" para "água", com a repetição e a ajuda da leitura orofacial ela assimilará o significado daquele estímulo, e usará posteriormente a fala para informar que está com sede.

A adaptação do AASI é um trabalho demorado, mas que nos dá excelentes resultados. É importante também termos certeza de que o som está chegando de forma confortável para criança, ou seja, que o AASI está bem adaptado, caso contrário, a criança poderá associar o ato de ouvir a uma coisa estranha, inconveniente e por vezes dolorosa, se negando a usar seu aparelho.

Algumas dicas:

A família é o terapeuta mais poderoso da criança, primeiro por ela ter total confiança e empatia pelas pessoas que a compõe e segundo por estas pessoas estarem em contado com a criança durante um tempo muito maior que o terapeuta. Então, o sucesso do desenvolvimento da criança depende muito da ajuda dos familiares. Aí vão algumas dicas:

- Estimular o balbucio, devolvendo-os ao bebê, se ele ainda estiver sem o AASI manter a cabeça do bebê encostada no seu peito para que ele sinta a vibração;

- por a criança em contato com estímulos sonoros de vários tipos em situações cotidianas;

- respeitar a diferença entre idade cronológica e idade auditiva ( quando a criança recebeu o aparelho);

- a criança precisa ouvir antes de emitir, por isso o trabalho do resíduo auditivo é tão importante;

- fazer com que a criança "vivencie a linguagem", colocando-a em contato com o objeto concreto sempre que falar sobre ele;

- verbalizar sempre, em todas as situações, antes de falar chamar a atenção da criança para que ela olhe para você e receba a frase completa, isso facilita a compreensão;

- deixar que a criança emita seus sons livremente, não ter ansiedade para que ela fale corretamente, o importante de início é estimular o prazer em emitir;

- permitir que a criança brinque e tenha contato com crianças ouvintes;

- cantar para o bebê dormir;

- entender que o trabalho lingüístico com a criança deficiente auditiva se faz seguindo a hierarquia da aquisição da linguagem da criança ouvinte, apenas com a primeira será necessário maior dedicação e empenho;

- atenção à audição do seu bebê, caso desconfie de que ele não ouve, procure um médico Otorrinolaringologista ou o Fonoaudiólogo, para encaminhá-lo à avaliação auditiva.

Patrícia de Almeida Escobar
CRFa. 7806 - RJ
Fonoaudióloga com formação na Metodologia Verbotonal - ARPEF
Cursando Especialização em Audiologia Clínica - UNESA
Local de atuação: Centro Municipal de Saúde Clementino Fraga - RJ Atendimento ao Deficiente Auditivo
Tel.: (21) 2281-9080 ( res.)

Bibliografia:

VYGOSTSKY. Pensamento e Linguagem. Editora Martins Fontes, SP - 1987.

GODINHO, Heloysia Sousa. Surdez e Significado Social. Editora Cortez, SP-1982.

FERNANDEZ, Eulália. Problemas Lingüísticos e Cognitivo do Surdo. Editora Agir, RJ- 1990.