Respirar pela Boca Pode Prejudicar Criança

Autora: Andréa Perdigão Gayotto

A respiração só pela boca não é doença, mas precisa ser tratada. Crianças que não respiram pelo nariz podem apresentar dificuldades de desenvolvimento. Pesquisa da otorrino Ana Paula Dualib, mestre pela Escola Paulista de Medicina, com crianças de 2 a 9 anos, concluiu que aquelas que tinham problema de obstrução de ar pela via nasal e realizaram cirurgias corretoras tiveram um ganho de peso e estatura (leia texto nesta página).

O ar respirado pela boca não passa pelo processo de filtração, umidificação e aquecimento e chega ao organismo no estado em que se encontra no ambiente, com impurezas, seco e mais frio. Esse ar, chamado de agressivo pelos especialistas, deixa o aparelho respiratório mais vulnerável a doenças respiratórias e a alergias.

Segundo a fonoaudióloga Lilian Krakauer, autora de tese sobre alterações posturais no respirador bucal, quem respira pela boca também apresenta perda na qualidade de vida. "Ele dorme mal, está sempre cansado e sente dificuldade nas atividades físicas."O fato de não respirar pelo nariz acaba interferindo também na alimentação, pois há uma diminuição no olfato e consequentemente no apetite. É como quando estamos gripados e não sentimos o gosto do que comemos. Além disso, é comum que o respirador bucal tenha dificuldade em comer, pois precisa escolher entre mastigar o alimento e respirar, tornando a alimentação uma atividade cansativa.

Há muitas causas para que uma criança não consiga respirar pelo nariz. A principal delas é a presença das adenóides _carne esponjosa que fica atrás do nariz_ muito aumentadas, ocupando um espaço que deveria estar livre para a passagem do ar. Outro empecilho é a presença de amígdalas muito grandes.

APNÉIA

O principal risco de quem tem a passagem do ar obstruída é a apnéia noturna, a interrupção da respiração por cerca de 5 a 10 segundos durante o sono. "Essas crianças frequentemente roncam e não é raro acontecer de pararem de respirar por alguns segundos e só retomarem a respiração porque o sono fica superficial", diz Luc Wecky, professor e presidente da Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia.

Em casos de apnéia noturna, a solução para o problema normalmente é a realização de cirurgia de extração das adenóides ou das amígdalas. Os critérios para se escolher por uma intervenção cirúrgica, no entanto, são rigorosos. A fonoaudióloga Patrícia Junqueira, uma das responsáveis pelo Grupo do Respirador Bucal do Hospital São Paulo, esclarece que a cirurgia é indicada quando a adenóide obstrui 70% do espaço para a passagem do ar e as amígdalas obstruem 50% ou mais.

Além dos casos cirúrgicos, há os alérgicos, que são tratados com medicamentos, em que os pais são orientados a fazerem mudanças ambientais necessárias, dependendo do tipo de alergia que seus filhos apresentam.

HÁBITO

E há ainda os tipos funcionais, quando não há nenhum impedimento para que a criança respire pelo nariz, mas ela tem o hábito de respirar pela boca. Nesse caso um tratamento fonoaudiológico é o suficiente para que a criança aprenda a respirar pelo nariz. Os problemas decorrentes da respiração bucal são geralmente ignorados pelos pais.

SAIBA IDENTIFICAR QUEM NÃO RESPIRA DIREITO PELO NARIZ

Características da Face
- Olhar apagado
- Boca aberta
- Gengiva vermelha e inchada
- Língua encostada no lábio inferior e nos dentes de baixo
- Céu da boca alto
- Arcada dentária superior estreita
- Face alongada
- Boca ressecada
- musculatura da face mais flácida
- Aparência de ter um pescoço curto

DICAS PARA OS PAIS

- Observe se seu filho consegue fazer as atividades do dia-a-dia com a boca fechada. O ar deve entrar e sair pelo nariz

- Observe durante o sono se ele ronca muito alto ou se baba no travesseiro e se sua respiração é tranquila

- Caso você perceba que ele fica o tempo inteiro de boca aberta, se acumula saliva excessiva na boca ou se apresenta alterações da respiração durante o sono,procure um profissional

- O tratamento mais adequado é realizado pela cooperação de vários profissionais, como o otorrino, o fonoaudiólogo e o ortodontista.

Folha de São Paulo - Seção: SAÚDE(24/10/1999)