DESENVOLVIMENTO DE LINGUAGEM

Autora: Claudia Vinha

O sistema comunicativo envolve inúmeros aspectos : biológico, social, motor, cognitivo, emocional e lingüístico.

As características que propiciam uma interação eficaz (fixação do olhar, atenção, complementaridade, especularidade, reciprocidade, aspectos verbais, motores, gestuais e mímicos e aspectos social e biológico íntegros), variam em freqüência de aparecimento, em função do nível de desenvolvimento lingüístico e em função de um ou outro aspecto.

De Lemos (1992) propôs um ponto de vista sócio-construtivista para a aquisição da linguagem, afirmando que "o processo de constituição da criança enquanto sujeito, é mediado pelo outro, ou seja, por um membro experiente de sua espécie, representante da ordem simbólica, que mediará, por sua vez, a relação da criança com estados de coisas no mundo."

Fry (1968), estudando o desenvolvimento do sistema fonêmico, sugeriu que há três aspectos que devem ser considerados no processo de aquisição de linguagem : aprendizado das habilidades motoras, domínio das pistas para identificação, levantamento do conjunto de conhecimentos lingüísticos que forma a base para a produção e recepção da fala.

Baseado nos estudos de Fry (1968),pode-se dizer que os bebês desde os primeiros dias de vida, emitem sons como reação à um estado de desconforto (choro), e sons que acompanham as sensações de bem estar (sorriso). Com estes comportamentos, eles estão usando os mecanismos fisiológicos da respiração, fonação e articulação, e também são usados na aquisição da linguagem.

Já no primeiro mês de vida, a criança associa a voz humana à situações agradáveis como, alimentação vestuário e banho, possibilitando que ela desenvolva a capacidade de estar atenta aos sons.

Durante o primeiro ano de vida, a criança tem emissões caracterizadas pela repetição freqüente da mesma sílaba ou som (balbucio).

Aos poucos vai descobrindo as possibilidades motoras, articulatórias e desenvolvendo assim o feedback auditivo, aproximando-se do padrão adulto.

O ritmo do desenvolvimento da fala varia muito de criança para criança, mas nas crianças de audição normal, é esperado que o sistema fonêmico-fonológico esteja completo e bem estabelecido por volta dos 4 anos.

Segundo Saboya, toda aprendizagem obedece uma hierarquia, assim sua atuação é elaborada a partir da ontogênese da linguagem, específica de um indivíduo, a partir do estágio em que ele se encontra, a partir da verificação, a mais analítica possível das suas estruturas e funções.

O passo básico para a evolução da linguagem é a experiência vivida e o contato corporal que o bebê tem consigo, com as pessoas e objetos. É através desta experiência vivida que a criança vai formando sua linguagem interna.

A linguagem interna permite que a criança associe os objetos de seu uso, e as pessoas às suas necessidades individuais. Esta fase pode ser verificada, quando a criança associa a colher ou a mamadeira ao ato de alimentação levando-os a boca. Este é o momento em que ela dá aos objetos e às pessoas um significado, estabelece relações e à partir daí é capaz de acoplar do ponto de vista de sua própria compreensão um significante, um nome para "isto" ou "aquilo", que ela utiliza.

Esta é a fase em que sua linguagem receptiva, seu vocabulário receptivo começa e pode evoluir. Ela compreende agora não apenas a entonação, a melodia de agrado ou desagrado que lhe é passada pelo outro, mas também passa a compreender os vocábulos que lhe são ditos.

Compreendendo e associando os vocábulos aos objetos, ações e pessoas, ela passa gradativamente aos ensaios e à aguardar as respostas de seus desejos expressos oralmente. A criança está agora na etapa da linguagem expressiva.

Como já foi dito, toda aprendizagem obedece uma hierarquia, logo o adulto, que é em geral o modelo de aprendizagem para a língua, deve possibilitar e favorecer a ascensão da criança neste edifício que é a linguagem, colocando-se ora no mesmo degrau que ela, ora no degrau acima.

Estar atento ao desenvolvimento da linguagem não é tudo, é preciso também averiguar como está a evolução das reações oro-neuro-motoras, diretamente associadas à expressão oral da linguagem.

Segundo Fry (1968), a ordem em que as unidades fonêmicas são adquiridas varia em casos individuais, mas há dois fatores que devem ser levados em consideração: sons importantes do contexto da criança e dificuldades de produção de alguns sons que necessitam de outros músculos, etc.

De acordo com o paciente em questão, foi possível observar que o mesmo não possui uma relação social adequada dificultando assim o desenvolvimento pleno da linguagem e da fala, embora haja uma integridade biológica e/ou orgânica.

Portanto, há uma dificuldade na expressão verbal, o que poderá acarretar distúrbios na articulação e produção dos sons da fala.

Segundo Zorzi, em certa altura do desenvolvimento da criança, pode-se observar determinados comportamentos identificados como brincadeiras. Esta é uma brincadeira diferente, pois envolve um "fazer-de conta", um brincar ou jogar simbolicamente.

Neste mesmo período, geralmente no segundo ano de vida, observa-se também as primeiras palavras ou enunciados verbais ligados ao desenvolvimento da linguagem.

O aparecimento da brincadeira simbólica e da linguagem, evidencia a formação de algo novo na evolução infantil que se refere à capacidade de representar, de evocar fatos e objetos ausentes. Através de palavras, gestos ou objetos, a criança é capaz de representar ou significar algo ausente. Enfim, aquela exploração do mundo por meio de ações sensório-motoras ou práticas começa a dar lugar a uma forma mais complexa de explorações que corresponde à manipulação e organização simbólicas deste mesmo mundo.

O simbolismo rapidamente começa à povoar a vida da criança, transformando seu comportamento.

Lowe (1975), constata que tal forma de simbolismo, de natureza lúdica, revela interesses individuais da criança, necessidades emocionais e até mesmo o nível que ela pode ter alcançado em termos de desenvolvimento cognitivo.

Inhelder e outros (1972), recorrem `a evolução da brincadeira simbólica para compreender a constituição progressiva da capacidade de representar.

Nicolich(1981) estabelece um paralelo entre as condutas representativas, apontando que certos progressos observados na evolução da linguagem, correspondem à avanços similares no âmbito da brincadeira simbólica.

Lovell e outros (1968) indicam diferenças significativas quanto a organização da brincadeira simbólica em crianças portadoras de distúrbios na área da linguagem; estas crianças organizam a atividade lúdica de forma elementar, dependendo da presença de objetos e brinquedos para que o simbolismo possa surgir.

A gênese do simbolismo foi estudada por Piaget (1975), do ponto de vista deste autor, o aparecimento da linguagem e da brincadeira simbólica está ligado à formação da capacidade de representar. Tal função envolve linguagem, brincadeira simbólica, imagens mentais, imitação diferida e resolução de problemas por combinação mental de ações. O simbolismo se estende a todas as condutas que revelam a capacidade de evocar situações ausentes, além do que pode ser percebido.

A formação do simbolismo ocorre de forma hierárquica:

A) Condutas pré-simbólicas

1 - Uso convencional dos objetos

2 - Esquemas simbólicos

3 - Aplicações em outros

B) Condutas simbólicas

1 - Sistematização da aplicação em outros

2 - Coordenação de ações simbólicas

3 - Uso de símbolos

Resumidamente, este é o trajeto que podemos observar em termos de manifestação do símbolo na ação do brincar.

Quando analisamos uma criança e ela atua sistematicamente por meio das condutas pré-simbólicas, supomos que ela atingiu, em termos de nível de desenvolvimento cognitivo, até a sexta fase sensório-motora, que é também um momento de transição entre inteligência prática e inteligência representativa.

Quando a criança faz uso de símbolos, pode-se observar que ela já adquiriu a capacidade de representar, o que é visível não só no brinquedo, mas também na própria evolução da linguagem.

A linguagem está carregada de significados que correspondem a um conhecimento social, geral, mas que não é compreendido pela criança somente por meio das informações lingüísticas. Apesar de dominar a gramática precocemente e usar os mesmos termos da linguagem dos adultos, isto não significa que a criança atribua aos termos os mesmos significados que aqueles. Os significados da linguagem da criança se restringem à compreensão ainda limitada de um mundo que ela tem. Portanto, é fundamental a interação adulto-criança, pois a linguagem depende desta interação para constituir-se.

De acordo com Zorzi, "a linguagem deve ser concebida no contexto da interação social, não simplesmente como meio de transmissão de informação, mas sim como projeção das próprias pessoas, veículo de trocas, de relações , como meio de representação e comunicação. Neste sentido, a linguagem possui uma dinâmica, que implica a participação do outro, contribuindo para o desenvolvimento cognitivo infantil. A linguagem é por um lado, um meio de interação, de relação e de construção do conhecimento; e, por outro lado, algo que a criança precisa conhecer e dominar : linguagem como meio e objetivo do conhecimento ao mesmo tempo".

Segundo o mesmo autor, "o retardo de linguagem diz respeito ao atraso no aparecimento da linguagem, ou mesmo na sua evolução mais lenta, podendo atingir o aspecto de compreensão e expressão verbal".

Com relação aos possíveis fatores emocionais na origem do retardo de linguagem, Spinelli (1986), "enfatiza que freqüentemente o que se vê são distúrbios de comunicação em sentido amplo, verbal e não verbal, e que diversos são os fatores relacionados ao desenvolvimento da linguagem. Portanto esta é uma patologia complexa, de origem nem sempre identificadas, de múltiplas manifestações".

Se pensarmos em linguagem como meio de relação, podemos encontrar alterações que dizem respeito à relação ou interação adulto-criança e que impeçam ou dificultem principalmente a aquisição da linguagem.

Friedman (1986), mostra que o comportamento verbal disfluente, que é normal no desenvolvimento da linguagem, pode gerar situações de não aceitação quando não é compreendido pelos pais. O meio propõe ou cria desequilíbrios tão grandes que a criança não consegue superar.

Bee (1986) refere que "um dos fatores do desenvolvimento de linguagem da criança parte da imitação direta de seus pais, mas esta imitação, portanto não pode ser o processo central."

Boone (1984), afirma que "uma definição funcional de um distúrbio de linguagem, seria a incapacidade de entender ou falar o código lingüistico tão bem quanto seus companheiros de idade na mesma comunidade."

Para o mesmo autor, "o desenvolvimento normal é crucial para o desenvolvimento das habilidades normais da linguagem. Quando o desenvolvimento normal é retardado devido à alterações congênitas ou doenças de infância, podem ocorrer distúrbios de linguagem. Limitações cognitivas, sensoriais, sócio-emocionais e físicas colocam uma criança sob risco de ter prejudicadas suas habilidades de linguagem. Tais crianças, são referidas como com distúrbio específico de linguagem, e muitas delas também apresentam um distúrbio fonológico acompanhante que interfere adicionalmente na capacidade dos outros de entender o que elas estão tentando dizer. A linguagem pode ser lenta para desenvolver-se nestas crianças pela falta de estimulo ambiental."

Segundo Bee (1986), "a ligação afetiva básica com os pais e amigos é um aspecto importante no desenvolvimento da criança, porém nem tudo é doçura e suavidade, as crianças também mostram agressividade. É importante analisar este aspecto do relacionamento interpessoal."

De acordo com Zorzi (1993), "a ida da criança pequena para a escola pode trazer benefícios, pois as situações escolares podem ser ricas em experiências sociais e de aprendizagem. A possibilidade de vivenciar situações diversificadas e sistemáticas de comunicação tende a acelerar a aquisição da linguagem."