O TERAPEUTA OCUPACIONAL NA RELAÇÃO MATERNO-INFANTIL

Patrícia Ferreira Bezerra.
Universidade do Estado do Pará - UEPA.

INTRODUÇÃO


Para que se possa compreender o papel do Terapeuta Ocupacional como facilitador da relação materno-infantil, primeiramente faz-se necessário apresentar conteúdos teóricos para um melhor entendimento acerca dos processos que constituem essa relação, bem como das diversas formas nas quais esta pode apresentar-se. Logo após esses conceitos, serão propostos os objetivos da Terapia Ocupacional no contexto materno-infantil, bem como algumas das diversas formas de intervenção prática junto a mães no período de hospitalização pós-parto, de acordo com a realidade observada no setor de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de Clínicas Gaspar Viana.

Vale ressaltar que este trabalho visa demonstrar alternativas para melhorar a qualidade de vida e favorecer o desenvolvimento psíquico saudável da criança, com enfoque voltado a ela, apesar da atuação terapêutica destinar-se à mãe, a partir da qual têm origem os principais componentes que podem desencadear distúrbios no desenvolvimento infantil.



1. O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E AS RELAÇÕES OBJETAIS.

O bebê não nasce com percepções perfeitas; estas desenvolvem-se (...) com a experiência e a crescente maturidade (Gesell, 1999, p. 8).

Ao nascer, a criança é um organismo que reúne aspectos congênitos e tendências, não possuindo consciência ou percepção consciente, somente recebendo estímulos biológicos e psíquicos. Cada criança apresenta um equipamento congênito diferente, formado a partir de componentes hereditários, influências da vida intra-uterina e experiências a partir do parto. Dentro dessa totalidade, primeiramente indiferenciada, é que irão se desenvolver as funções e estruturas psíquicas, e as pulsões instintivas, diferenciadas progressivamente. 1, 4

Ao primeiro ano de vida, a sobrevivência da criança dependerá da elaboração de elementos para sua adaptação ao meio, sendo que, sozinha, ela é incapaz de sobreviver. Assim, a satisfação de suas necessidades deve ser realizada pela mãe ou substituto adequado, através de uma relação de complementação mútua, até que a criança se torne menos dependente do meio, somática e psicologicamente. 4

Sob o ponto de vista psíquico, que será abordado neste trabalho, a criança recém-nascida (RN) ainda não diferencia seu contingente anatômico do meio físico, fazendo com que seu desenvolvimento psicológico seja essencialmente dependente das relações sociais (objetais) que irá estabelecer, a partir das quais esta diferenciação terá início, assegurando a sobrevivência da criança e contribuindo para seu desenvolvimento psíquico, somático, e para a formação de sua personalidade. 1, 4

Este processo ocorre através dos mecanismos de maturação (desdobramento das funções inatas da espécie humana, tendo início desde o período embrionário) e desenvolvimento (construção de funções e comportamentos resultantes da interrelação da criança consigo mesma e com o meio externo). Assim, no RN ainda não há ego, simbolismo ou mecanismos psíquicos de defesa, podendo-se encontrar somente traços fisiológicos que mais tarde permitirão à psique desenvolver-se. 4

Sabe-se também que, ao nascer, a criança passa por várias etapas de desenvolvimento motor, psíquico e social, sendo que inicialmente a presença da mãe é o agente externo estimulante para as suas respostas, determinadas conforme os afetos e comportamentos maternos. É justamente essa relação entre mãe e filho que se constituirá na primeira relação objetal da criança, onde um vínculo inicialmente fisiológico transforma-se gradualmente na primeira relação social humana, passando de uma interação parasítica intra-uterina a uma simbiose psicológica, durante o primeiro ano de vida, culminando posteriormente nas interações sociais. 4

O objeto libidinal da criança, ou seja, aquele que torna possível a satisfação de suas pulsões instintuais, muda constantemente, de acordo com a maturação e diferenciação dessas pulsões. Assim, no RN, as relações objetais constituem-se a partir de um sujeito (o próprio RN) e um objeto (inexistente), pois inicialmente a criança apresenta-se em um estágio pré-objetal, passando posteriormente a um estágio precursor do objeto, e ao estágio do próprio objeto libidinal. 4

Durante o estágio pré-objetal, a criança apresenta uma barreira que a protege contra estímulos externos, sendo suas sensações basicamente interoceptivas e proprioceptivas. Qualquer estímulo que rompa essa barreira de proteção irá desencadear reações de desprazer na criança (como o choro por exemplo). Após o nascimento, esse comportamento é observado somente quando a criança é submetida a estímulos que ultrapassam seu limiar perceptivo, provocando-lhe desconforto. 4

Freud citado por Spitz (1996) afirma que, como não há consciência ao nascimento, o que se chama "trauma do nascimento" não deixa lembrança na criança. O que se observa é um breve estado de excitação, com características de desprazer, o que caracteriza o princípio do nirvana (qualquer tensão que ultrapasse o limiar de excitabilidade precisa ser descarregada), a partir do qual as funções psíquicas irão se desenvolver e se consolidar, governadas inicialmente pelo princípio do prazer-desprazer, e posteriormente pelo princípio da realidade. 4

Já as manifestações de prazer no RN traduzem-se na sua quietude, e não em atitudes que geralmente sugerem prazer (como sorrisos reflexos ou agitação motora), assim como a sua maneira de demonstrar afeto não é tão explícita ou óbvia quanto a de um adulto. 4

Todos os estímulos que incidem sobre o bebê logo após o nascimento lhe são estranhos ou possuem pouco significado, sendo que as primeiras reações cognitivas vão gradualmente sendo acrescentadas, para formar uma imagem do mundo para a criança. Os traços de memória, porém, são estabelecidos enquanto o processo de percepção ainda está se desenvolvendo.1, 4

Alguns fatores que contribuem para a proteção da criança contra os estímulos externos prejudiciais são a barreira de excitabilidade (já citada), a seletividade dos estímulos (capacidade da criança selecionar os estímulos que podem lhe satisfazer) e o meio ambiente, do qual a mãe faz parte, e desempenha o papel de proteger o bebê da sobrecarga de estímulos desagradáveis (temperatura, fome, ruídos, luminosidade, etc.). Assim, a mãe dá assistência ao bebê quanto há descarga de tensão relacionada aos estímulos externos, alimentando-o, trocando-o, cobrindo-o, e modificando suas condições e aliviando tensões desagradáveis. 4

O RN possui reações inatas, determinadas fisiologicamente, como a realização de seqüências de movimentos reflexos (por exemplo, o segurar, sugar o bico do seio, engolir, e soltá-lo ao final da mamada). Esse tipo de comportamento é desencadeado pelo conjunto de sensações do RN, onde a sensação é centrada no sistema nervoso autônomo, e manifesta-se sob a forma de emoções, onde a recepção do estímulo desencadeia o comportamento, constituindo uma organização cinestésica do comportamento. Outro tipo de organização, que deriva desta, é a organização diacrítica, na qual a recepção ocorre através dos órgãos dos sentidos, e centraliza-se no córtex, desencadeando reações cognitivas e pensamentos conscientes, estando ainda ausente no RN. 4

É por volta do fim da primeira semana de vida que o bebê começa a responder aos estímulos. Aparecem os primeiros traços de comportamento dirigido para um alvo, isto é, a atividade, presumivelmente associada ao processo psíquico, que parece se estabelecer segundo reflexos condicionados
(Spitz, 1996, p. 35).


Por volta da 2a semana de vida, verifica-se um aprendizado relacionado à sensibilidade proprioceptiva, desencadeando reações de equilíbrio e comportamentos cotidianos condicionados, como virar a cabeça para mamar ao ser colocado na posição habitual para amamentação. Ao 2o mês, porém, apesar da evolução desta percepção, os estímulos só são percebidos quando a criança sente necessidade deles, ou seja, o bebê reage somente a estímulos que estejam de acordo com suas percepções interoceptivas, baseando sua interação com o mundo na tensão gerada pelas suas pulsões. Assim, para que o bebê volte sua atenção a um estímulo, é necessário primeiramente que haja uma reação proprioceptiva ou interoceptiva, fazendo com que o bebê sinta necessidade deste, e, em segundo lugar, que o estímulo externo apresentado seja associado com a satisfação de sua necessidade. No 3o mês, o bebê já reage a rostos humanos, talvez por estes estarem associados a satisfação de suas pulsões (prazer ou suspensão do desprazer). 4

Uma vez não saciado, o bebê é envolvido pela sensação de desprazer (manifestada, por exemplo, pelo choro), e não consegue perceber a presença do objeto de satisfação de sua necessidade, pois há uma tensão que não permite com que o estímulo seja percebido, que ocorre quando o bebê procura descarregar o desprazer (princípio do nirvana). Assim, para que a criança consiga perceber o estímulo, a descarga de desprazer deve cessar, através da intervenção externa. Só então a percepção volta a atuar, e a criança pode tomar conhecimento do objeto de satisfação. 4

Assim, a relação materno-infantil produz um diálogo que constitui um mundo exclusivo ao bebê, com uma dinâmica e um clima emocional específico, o qual é o "... fator mais importante para tornar a criança capaz de construir gradualmente uma imagem coerente de seu mundo" (Spitz, 1996, p. 32), sendo justamente "este ciclo de ação-reação-ação que torna o bebê capaz de transformar os estímulos sem significado em signos significativos" (Spitz, 1996, p. 33).

Analisando-se, todavia, essa relação, observa-se que a estrutura psíquica da mãe é muito diferente da estrutura da criança, fazendo com que a relação ocorra de forma assimétrica, com contribuições desiguais para o relacionamento. 4 Exemplos dessas diferenças são mostrados no Quadro 1.



Quadro 1. Diferenças Psíquicas na Relação Materno-Infantil. 4

Função

Mãe

Criança

Estrutura da Personalidade

Organizada - Iniciativas específicas para interação no relacionamento.

Não há iniciativa ou intercâmbio psíquico (somente fisiológico).

Meio Externo

Percepção constituída de fatores diversos e numerosos, formando campos de força mutáveis, que influenciam sobre seus comportamentos.

Meio constituído exclusivamente pela mãe ou substituta que satisfaz suas necessidades, mesmo quando o RN a percebe como parte de sua totalidade.


Diante das características apresentadas, acredita-se que o Terapeuta Ocupacional deve objetivar um trabalho dirigido à mãe e ao meio que a rodeia, o qual influencia em seus comportamentos, em prol do bem estar e do desenvolvimento saudável da criança e de suas relações sociais.

Para isso, portanto, é necessário que se conheça os diversos tipos de comportamento materno que podem influenciar negativamente no desenvolvimento das relações infantis e interação da criança com o meio externo, permitindo ao Terapeuta Ocupacional investigar o padrão da dinâmica e do mecanismo de relacionamento entre mãe e filho, e intervir adequadamente, caso necessário.


2. TIPOS DE COMPORTAMENTO MATERNO E SUAS CONSEQÜÊNCIAS.

Na relação mãe-filho, a mãe é o parceiro ativo e dominante. A criança, pelo menos no início, é a receptora passiva (Spitz, 1996, p. 153).

Para que o bebê possa desenvolver-se psiquicamente de forma saudável, ele precisa ter uma relação suficientemente boa com a mãe, que deve voltar sua atenção e preocupação à criança, sem entretanto apresentar ressentimentos ou sentimentos negativos em relação a ela. A mãe precisa adaptar ativamente a criança ao ambiente, de forma gradual, conforme suas necessidades, modificando seu comportamento de acordo com o crescimento e a maturação da criança, naturalmente. 5

É a personalidade e o comportamento da mãe que vai levar a criança a se desenvolver normalmente ou não. Assim, alterações na personalidade materna poderão ter repercussões psíquicas significativas na criança, levando-a a uma série de distúrbios, os quais são fundamentalmente derivados de relações insatisfatórias entre mãe e filho, sejam estas inadequadas (alterações qualitativas nas relações) ou insuficientes (alterações quantitativas). 4

No caso das relações inadequadas, o quadro clínico apresentado pela criança é conseqüente do tipo de comportamento da mãe aliado a fatores congênitos, e irá depender da fase de desenvolvimento do ego e da libido da criança no momento do estabelecimento da relação prejudicial. 4

Os principais padrões patológicos de comportamento materno são: 4

  • Rejeição Primária Manifesta.
  • Pode ocorrer diante da rejeição da gravidez, e consequentemente da criança, caracterizando uma rejeição da maternidade de um modo geral, cuja origem está na história individual da mãe, como nas relações com seu próprio pai, com o pai da criança, repercussões psíquicas da ansiedade da castração e da maneira pela qual resolveu ou não seus conflitos edipianos. 4

    Pode ser detectada a partir da observação de alguns sintomas maternos, como queixas de "falta de leite", tensão na presença da criança, falta de intimidade com ela, ou queixas dolorosas. 4

    A criança pode apresentar quadros como dispnéia, palidez extrema, diminuição da sensibilidade, ou até mesmo coma, sendo que, muitas vezes, tanto a mãe como a criança precisam receber intervenção externa, como aplicação de condutas médicas e orientações quanto a amamentação e cuidados com o bebê, por exemplo. Quanto tratada a tempo, a rejeição pode provocar seqüelas psicossomáticas muito pequenas. 4

  • Superpermissividade Ansiosa Primária.
  • Pode ser detectada a partir de uma solicitude exagerada da mãe quanto a alimentação da criança, onde, diante de qualquer manifestação de desprazer, a mãe tende a alimentá-la. É frequente em crianças cuidadas por suas próprias mães e familiares, senso rara em crianças que crescem em creches ou longe da família, e pode resultar da tentativa da mãe compensar uma hostilidade inconsciente. 4

    Como conseqüência, a superpermissividade materna apresenta a chamada "cólica dos três meses", onde a partir da 3a semana de vida a criança pode apresentar sintomas de cólica e choro, que cessam temporariamente após a alimentação, e retornam posteriormente, geralmente toda tarde, durando até o 3o mês de vida, quando passam. A cólica dos três meses é um fenômeno fisiológico originado de aspectos psicológicos expressos em comportamentos que a desencadeiam. 4

    O mecanismo pelo qual essa sintomatologia ocorre, consiste na superposição de fatores genéticos, que tendem a provocar um aumento no número de comportamentos de desprazer da criança, e ambientais, onde a amamentação excessiva faz com que o aparelho digestivo aumente sua atividade, e os movimentos peristálticos fiquem mais rápidos. Esta sobrecarga aumenta a tensão da criança, levando-a a um comportamento de desprazer, e constituindo um círculo composto pela descarga da tensão e pelo excesso de alimentação. 4

    A amamentação satisfaz a criança por possuir duas funções essenciais: a alimentação e a descarga de tensão através da atividade oral (fundamental principalmente nas primeiras semanas), levando a diminuição da ansiedade tanto da mãe como da criança. 4

    Ao 3o mês, entretanto, as mães já tendem a reconhecer e interpretar melhor as solicitações da criança, ou já não sentem mais tanta necessidade de oferecer alimentos em todo comportamento sugestivo de desprazer, assim como a criança já desenvolveu mecanismos alternativos para descarregar a tensão, como movimentos ou interações sociais, canalizando suas energias a outras atividades. 4

    Intervenções simples consistem em oferecer a chupeta à criança, através da qual ela deve descarregar a tensão, sem entretanto ingerir o excesso de alimento que provoca as cólicas. Outra alternativa é segurar e embalar a criança, o que proporciona estimulação proprioceptiva através do movimento, do contato corporal e da sensibilidade térmica, levando também ao alívio da tensão. 4

    Assim, deve-se ter cuidado com a amamentação sob livre demanda, que precisa ser orientada com cautela, e por profissionais que compreendam tanto os mecanismos físicos como psíquicos que envolvem a mãe e a criança, a fim de que a primeira não a deturpe em prol do alívio de seus conflitos psicológicos. 4



  • Hostilidade Disfarçada em Ansiedade.
  • Em alguns casos, pode ocorrer uma ansiedade materna em relação ao filho, devido a uma hostilidade reprimida. Como principais sinais maternos, pode-se citar a pouca concentração da mãe em relação aos cuidados com a criança, a qual voltando sua atenção a outras coisas simultaneamente (como conversas paralelas por exemplo), manifestando uma rejeição inconsciente ao toque à criança, preocupação excessiva em não machucar o bebê (fragilidade e vulnerabilidade), personalidade infantil, preocupação exagerada e exposição da criança a riscos desnecessários (por exemplo, vestindo a criança demasiadamente para que ela não fique com frio, a mãe pode acabar sufocando-a). 4

    A dermatite atópica é a principal conseqüência da hostilidade materna disfarçada em ansiedade, constituindo-se numa doença de pele que tem início na segunda metade do primeiro ano de vida, manifestada principalmente em áreas de flexão (dobras da pele), podendo apresentar exudação e descamação, e tendendo a desaparecer na primeira metade do segundo ano de vida. 4

    Os fatores que a determinam são a predisposição genética (vulnerabilidade cutânea, com aumento da sensibilidade ao toque) e influências do ambiente (retardo no desenvolvimento afetivo por um distúrbio nas relações objetais). Observa-se também que estas crianças geralmente não passam pela ansiedade dos 8 meses (ansiedade indicativa do desenvolvimento das relações objetais, onde a criança aprende a diferenciar o conhecido do desconhecido). A criança frequentemente desenvolve atraso na aprendizagem (imitação e memória) e nas relações sociais. 4



  • Oscilação entre Mimo e Hostilidade.
  • Geralmente ocorre em mulheres extrovertidas e positivas, porém de personalidade infantil, e com facilidade para "explodir" conforme suas emoções. Assim, o comportamento da mãe leva a criança a estabelecer uma relação contraditória dos objetos através de representações conflitantes, resultando na libidinização do corpo e de suas partes, e em um distúrbio na formação do objeto, onde a criança pode acabar tornando-se uma válvula de escape da mãe, sendo vítima de explosões intensas de carinho ou de hostilidade e raiva. 4

    A conseqüência é que, na primeira infância, o balanceio torna-se a principal atividade da criança, substituindo a maioria das atividades comuns a essa idade por essa atividade de caráter auto-erótica, que constitui-se numa relação pré-objetal narcisista. Pode-se também observar posteriormente um retardo no desenvolvimento da criança, de sua adaptação social e da capacidade manipulatória (de objetos e brinquedos por exemplo), resultando em prejuízos nas relações com o meio e falta de iniciativa. 4



  • Oscilação Cíclica de Humor.
  • Ocorre em mães que apresentam sintomas clínicos de depressão, e oscilações de humor que variam desde hostilidade e rejeição a superproteção da criança. Um comportamento hostil inconsciente está sempre presente, com ambivalência de sentimentos. 4

    O amor materno excessivo dura geralmente os dois primeiros meses, sendo substituído por uma hostilidade também temporária, de duração média similar, constituindo um círculo oscilatório entre amor e hostilidade. 4

    Esses períodos, entretanto, são suficientes para que a criança estabeleça uma relação com aquele objeto, que repentinamente se transforma em seu contrário, onde a criança forma novas relações objetais, porém não consegue compensar a perda do primeiro. 4

    Como conseqüência, pode-se observar a manipulação e ingestão fecal, que são atividades que envolvem relações objetais concretas, e que indica perpetuação da relação objetal já conseguida, onde a criança tenta incorporar oralmente o objeto perdido. A maioria das crianças apresenta simultaneamente sinais depressivos. 4



  • Hostilidade Consciente Compensada.
  • Consiste numa atitude extremamente bem disfarçada, onde a criança constitui-se num meio de satisfação narcisista e exibicionista, e não num objeto de amor. A atitude porém é consciente, e a mãe busca compensar sua culpa com uma "doçura melosa". É principalmente encontrada em indivíduos de nível intelectual mais elevado. 4

    A criança é geralmente rodeada por muitos brinquedos, para compensar a culpa dos pais, e apresentará uma predisposição à hiperatividade por volta do segundo ano de vida, com comportamento não muito sociável e destrutivo em relação aos brinquedos, desinteressada pelo contato humano, hostil e agressiva. 4



    Quanto às relações insuficientes, estas dividem-se em privação total ou privação parcial do contato da criança com a mãe, onde a criança se vê privada das relações objetais (quando não há um substituto adequado aceito pela criança), levando à carência de provisões libidinais. 4

    Para este trabalho, são válidas algumas considerações sobre a privação parcial, apesar desta dificilmente ser encontrada em um ambiente hospitalar humanizado, como o Hospital de Clínicas Gaspar Viana, acreditando-se serem as privações totais ainda menos frequentes.

    Nos casos de privação parcial, a personalidade materna tem ainda menor influência sobre os comportamentos infantis, devido ao pouco convívio entre ambos. Nesses casos, geralmente a criança desenvolve-se normalmente até o sexto mês de vida, podendo demonstrar atitudes que sugerem felicidade e boa sociabilidade. A partir desse período, pode-se observar choro frequente, seguido por retraimento, perda de peso, insônia, inexpressividade facial, dificuldades para alimentar-se, com vômitos, agitação ou estupor, podendo-se caracterizar um quadro de depressão anaclítica. 4

    Todos esses sintomas ocorrem devido a privação materna por um período superior a 5 meses, sem aceitação de um substituto adequado pela criança, ou seja, pela separação da criança de seu objeto libidinal. Entretanto, isto só ocorre caso a criança tenha tido uma boa relação com a mãe antes da separação. Caso contrário, será menos traumática a substituição do objeto relacional da criança. 4



    3. PROPOSTAS DE INTERVENÇÃO TERAPÊUTICA OCUPACIONAL.

    Diante do exposto, torna-se evidente a importância de uma intervenção terapêutica ocupacional na relação materno-infantil, a fim de favorecer o estabelecimento de relações adequadas entre mãe e filho, e consequentemente o desenvolvimento psíquico saudável da criança.

    Para que isso ocorra, considera-se primeiramente necessária uma investigação acurada acerca dos mecanismos que envolvem essa relação, a partir da coleta de dados sobre os aspectos referentes a mãe, como desenvolvimento psíquico, relações sociais, e especificidades da personalidade, seguida pela análise das condições que determinaram a gestação, bem como seu curso e suas características. Todos esses dados podem ser obtidos através de anamnese formal, investigação informal, observação, e coleta de informações através do prontuário da cliente.

    Devido ao curto período de hospitalização pós-parto, o Terapeuta Ocupacional precisa ter habilidade para avaliar e intervir junto à relação materno-infantil em um, dois ou na melhor das hipóteses três atendimentos, em um ambiente que nem sempre favorece uma relação terapêutica satisfatória, devido a falta de privacidade e ocasionais intervenções da equipe hospitalar para realização dos procedimentos necessários.

    O Terapeuta Ocupacional pode confrontar-se também com uma variável importante: a presença ou não da criança junto a mãe na enfermaria, visto que em alguns casos, a criança necessita de um acompanhamento médico intensivo, sendo afastada da mãe, a qual, porém, segundo a dinâmica do Hospital de Clínicas Gaspar Viana, pode visitá-la a qualquer momento.

    Diante disso, o Terapeuta Ocupacional precisa analisar diversos aspectos no momento da avaliação e intervenção terapêutica, que, na maioria das vezes, precisam ocorrer simultaneamente. A partir do momento em que o Terapeuta Ocupacional identifica o tipo de relação estabelecida entre a mãe e a criança, ele pode traçar estratégias que busquem favorecê-la ou torná-la mais adequada, utilizando atividades como recursos que facilitem este processo.

    Moulard (1998) cita como principais conceitos e objetivos gerais de qualquer profissional que trabalhe com a saúde psíquica do ser humano, os seguintes itens:



    • Concepção deste como pessoa que precisa ter consciência de seu corpo, sentimentos e do meio ambiente.
    • Reconhecimento de que essa pessoa tem condições de assumir suas próprias experiências, sem projetá-las sobre as demais.


    • Ajudá-lo a tomar consciência de suas necessidades, e buscá-las sem prejudicar aos outros.


    • Orientá-lo para que estabeleça um contato pleno e menos defensivo com as pessoas, de modo que possa valorizar seus aspectos individuais.


    • Buscar conscientizá-lo de que pode usufruir dos prazeres que a vida lhe oferece.


    • Incentivar o desenvolvimento da sensibilidade em relação aos que o cercam, e lutar contra situações potencialmente destrutivas.


    • "Desenvolver a responsabilidade de assumir suas ações e as suas conseqüências" (p. 25).


    • Faze-lo sentir-se confortável diante das situações que lhe são apresentadas.



    Todos esses aspectos podem aplicar-se na intervenção terapêutica junto a relação materno-infantil, bem como ao tratamento de outras alterações, sejam elas físicas, psíquicas ou sociais.

    De um modo geral, acredita-se que os objetivos terapêuticos ocupacionais junto ao favorecimento das relações materno-infantis, apesar de variáveis conforme as observações realizadas durante a avaliação de cada caso, constituam-se principalmente em:



    • Buscar a satisfação das necessidades psíquicas da mãe e da criança de forma saudável.


    • Facilitar a compreensão dos comportamentos da criança por parte da mãe.


    • Estimular a afetividade e intimidade entre a mãe e a criança.


    • Favorecer a iniciativa materna em busca da adaptação da criança às suas necessidades.


    • Buscar, juntamente com a mãe, estratégias para adaptação da criança ao seu ambiente familiar e social.


    • Orientar quanto ao manejo da criança durante as atividades diárias.


    • Reduzir as influências externas sobre o comportamento materno, orientando-a a não permitir que fatores externos influenciem no seu relacionamento com o bebê.


    • Orientar quanto a mudanças na dinâmica familiar.


    • Favorecer a análise crítico-reflexiva da mãe em relação aos seus comportamentos diante da criança e suas influências no desenvolvimento desta.

    Especificamente diante de evidências sugestivas de alterações comportamentais maternas, sugere-se os seguintes objetivos, ressaltando-se, porém, que estes podem misturar-se, assim como os sintomas apresentados pela mãe, devendo o Terapeuta Ocupacional adequá-los a cada caso particular.



    • Rejeição Primária Manifesta.
    • Buscar a aceitação da maternidade e da criança.


    • Favorecer as relações familiares e a resolução de conflitos.


    • Facilitar a relação corporal entre mãe e filho, proporcionando momentos agradáveis.


    • Orientar quanto a técnicas para amamentação e cuidados com o bebê.


    • Superpermissividade Ansiosa Primária.
    • Incentivar a observação dos comportamentos da criança e a compreensão de suas necessidades.


    • Orientar quanto a técnicas de massagem para favorecer a descarga de tensão da criança através da estimulação proprioceptiva.


    • Orientar cuidadosamente quanto a amamentação sob livre demanda.


    • Reduzir a ansiedade materna.


    • Hostilidade Disfarçada em Ansiedade.
    • Incentivar a concentração diante dos cuidados com a criança.


    • Estimular o contato corporal entre a mãe e o bebê.


    • Demonstrar técnicas para manipulação da criança de modo a não machucá-la.


    • Estimular o sentimento de maternidade e a compreensão das necessidades da criança.


    • Oscilação entre Mimo e Hostilidade.
    • Proporcionar uma reflexão da mãe sobre seus comportamentos diante do meio e da criança.


    • Incentivar a adoção de técnicas de auto-controle (meditação e auto-análise de comportamentos).


    • Oscilação Cíclica de Humor.
    • Buscar solidificar o vínculo entre mãe e filho.


    • Desestimular comportamentos de superproteção.


    • Orientar a mãe a manter uma relação estável com a criança.


    • Hostilidade Consciente Compensada.
    • Estimular uma relação particular entre a mãe e a criança, sem interferências externas.


    • Incentivar a atenção e preocupação com as necessidades físicas e psíquicas da criança.


    • Favorecer a afetividade e a interação entre todos os membros da família.


    • Demonstrar a importância das relações sociais para o desenvolvimento da criança.


    • Privação Parcial.
    • Estimular a participação ativa da mãe durante a hospitalização da criança.


    • Buscar, juntamente com a mãe, alternativas que visem favorecer a dinâmica das relações materno-infantil e familiar após a alta hospitalar da mãe.

    Para que os objetivos propostos sejam alcançados, o Terapeuta Ocupacional conta com uma poderosa ferramenta: a ocupação (atividade) humana. É a partir da atividade que o Terapeuta Ocupacional deve introduzir os conceitos e reflexões que irão favorecer o relacionamento materno-infantil.

    A escolha dessa atividade, portanto, estará diretamente ligada às características da mãe e do relacionamento que esta tem com a criança, devendo fazer parte de seu contexto sócio-cultural e estar de acordo com os objetivos terapêuticos determinados.

    O Terapeuta Ocupacional conta com uma extensa variedade de recursos em prol do alcance de seus objetivos, dentre os quais pode-se citar, a título de ilustração:

    • Treino de AVD com a mãe e a criança (higiene, amamentação, proteção, etc.).


    • Orientação quanto a aplicação de técnicas de massagem pela mãe na criança (como a técnica de Shantalla por exemplo).


    • Técnicas de relaxamento que busquem reduzir a ansiedade materna, e/ou estimular sentimentos positivos referentes a maternidade.


    • Atividades artesanais destinadas à criança (como a confecção de pulseiras, porta retratos, álbuns, diários do bebê, etc.).


    • Atividades auto-expressivas (pintura, desenho, colagem), visando tornar conscientes processos psíquicos prejudiciais à relação materno-infantil que possam ser trabalhados através de atividades reais.


    CONCLUSÃO.

    Acredita-se que o Terapeuta Ocupacional é um profissional extremamente indicado ao tratamento de alterações nas relações materno-infantis, sejam estas evidentes ou não, devendo fazer parte da equipe hospitalar como profissional ativo na busca da melhoria da qualidade de vida e desenvolvimento saudável da mãe e da criança, durante e após a hospitalização.

    Apesar de considerar-se a fundamentação teórica apresentada rica em termos de conteúdo, vale ressaltar que faz-se necessário a todo profissional que deseje atuar nessa área, um aprofundamento maior acerca das intercorrências que podem ser observadas no relacionamento materno-infanti, sobretudo no que se refere aos processos de privação, e principalmente sobre as estratégias de intervenção terapêutica ocupacional junto a este.



    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

    1. BOCK, A. M. B. et al. Psicologias: Uma Introdução ao Estudo da Psicologia. 11 ed. São Paulo: Saraiva, 1998. 319p.


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    3. MOULARD, G. V. Psicologia e Terapia Ocupacional. Mato Grosso do Sul: Solivros, 1998. 110p.


    4. SPITZ, R. A. O Primeiro Ano de Vida. 7 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996. 279p.


    5. WINNICOTT, D. W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975. 203p.